MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/06/2015

Cem páginas que valem por três imagens


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de junho de 2015)

   Três vezes ao amanhecer, como o título indica, divide-se em três episódios distintos (que poderiam ser momentos da vida de um mesmo indivíduo), todos eles iniciando-se num hotel.

No primeiro, um quarentão está sentado no hall. Chega uma mulher a qual, embora se dizendo hóspede, pede que ele a leve para o seu quarto. A todo instante, o homem reitera que precisa partir, pois tem um compromisso, no entanto fica, como se sua vontade “amolecesse” junto àquela estranha. Amanhece. Saberemos que seu o nome é Malcolm Webster quando a polícia bater à porta para levá-lo; no segundo, um velho porteiro noturno observa a chegada de um casal: deplora que a moça, adolescente de encanto irresistível, embruteça-se e se desperdice com um parceiro violento e barraqueiro. Consegue convencê-la a sair do hotel em sua companhia, após revelar que passou anos na prisão. O amanhecer os surpreende em fuga: «Seria uma trabalheira compreender a história deles, ao vê-los…Talvez um pai e uma filha, mas nem isso».  Acabam separando-se, e quem alcança o porteiro é o parceiro dela; no terceiro, uma policial cinquentona decide ser um pardieiro inaceitável o hotel para onde foi levado um garoto (chamado Malcolm) que perdeu os pais num incêndio criminoso; contrariando ordens superiores, coloca-o num carro e dirige noite afora para deixá-lo, ao amanhecer, junto a um homem que constrói barcos e com quem tem uma longa história de idas e vindas…

Três vezes ao amanhecer já seria notável pela intensidade dramática que todos os episódios alcançam. Que filme ou peça poderiam ser extraídos das situações, no deslocar da impessoalidade que o próprio espaço—os hotéis—sugerem para uma intimidade perturbadora e lancinante! Todavia, para mim o supremo encanto da leitura foi a “janelinha”, por assim dizer, que ela abre com relação ao romance anterior desse talentoso escritor da atualidade que é Alessandro Baricco: Mr. Gwyn (também lançado pela Alfaguara[1]), contra o qual a única queixa era de que ele nos deixa na mão num ponto crucial, o experimento dos “retratos em palavras” de seu protagonista. Eles permanecem mais um conceito do que uma experiência narrativa, apesar de tudo o que o relato tem a nos oferecer em matéria de fabulação e reflexão (e é pródigo em ambos).

Pois Jasper Gwyn, um cultuado escritor, anuncia o encerramento da sua carreira. Dedica-se, então, a um inusitado experimento: observando uma pessoa, como um “quadro vivo”, num cenário totalmente controlado, compromete-se a entregar a ela (e tão somente a ela, sem publicidade) o resultado verbal dessa longa contemplação Era como fazer-lhes uma mesa, ou lavar-lhes o carro. Um ofício. Escreveria o que eram, só isso»). Até que a discrição com que exerce essa arte de “copista” (como a denomina) é comprometida e transformada em escândalo. Ele desaparece. Sua colaboradora e modelo inicial, Rebecca, lê um livro chamado “Três vezes ao amanhecer”, de Akash Narayan, dando-se conta de que ali está reproduzido um dos quadros de Gwyn. Como eles nunca foram divulgados, suspeita que Narayan é o escritor trânsfuga, ainda assombrado pelas palavras.

A princípio, o leitor pode achar que, à moda de um Paul Auster, Baricco se compraz em jogos de espelhos ao escrever o romance que Rebecca leu. No prefácio, o italiano afirma que o fez «um pouco para dar uma leve e distante sequência a Mr. Gwyn e um pouco pelo simples prazer de perseguir certa ideia que eu tinha na cabeça».

Não sei qual ideia ele tinha na cabeça e perseguia. O que ele realizou, de maneira alguma leve e distante, foi justamente criar “quadros escritos”, concretizar, enfim, o projeto de seu peculiar herói. Afirmei que Três vezes ao amanhecer funcionaria no palco ou nas telas. Mas sua leitura é muito mais a experiência de ter quadros (como os de Edward Hopper, por exemplo, que se prestam muito a um olhar narrativo) metamorfoseados em palavras. Cem páginas que valem por três imagens.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2015/05/07/os-quadros-escritos-de-alessandro-baricco-mr-gwyn-e-tres-vezes-ao-amanhecer/

Daniel Pereira

NOTAS

[1] Ambos traduzidos por Joana Angélica D´Ávila Melo (o título original de Três vezes ao amanhecer é “Tre volte all´alba, 2012—Mr. Gwyn foi publicado no ano anterior).

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2 Comentários »

  1. Alfredo, obrigado pela resenha sobre livros de um autor fabuloso, que particularmente para mim foi mais uma descoberta incrível baseada nos seus comentários. Para quem gosta realmente de literatura, ler regularmente o blog do Alfredo é sempre um prazer e um local de surpresas e de descobertas! Baricco é fantástico. Uma possibilidade seria de que em Tres Vezes ao Amanhecer a história começa do fim: Malcolm Webster é o menimo que vai morar com o homem que constrói barcos na terceira história, depois torna-se um rapaz violento na segunda história e encontra seu fim quando a policia o prende num hotel na primeira história. Tudo sob os dominios da deusa Eos (Aurora) e sob a observação de Mr Gwyn presente nas histórias como sendo ele mesmo o lobby dos hotéis. Retratos escritos de Mr Gwyn!
    Alfredo, desejo que você esteja se recuperando bem rápido! Abraços.

    Comentário por Miguel — 25/06/2015 @ 15:38 | Responder

    • Já eu, caro Miguel, penso que ele é o porteiro do hotel da segunda história. Mas o Baricco também foi uma descoberta recente e fico feliz de tê-la multiplicado para outros leitores apaixonados. Obrigado, abração.

      Comentário por alfredomonte — 28/06/2015 @ 9:50 | Responder


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