MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/04/2015

VOO DE GRANDE ALTURA: A FICÇÃO DE SÉRGIO TAVARES


4d8c9898b5bb88437f053c8b957f47f3_XL32fa-2_0

«…e nada seria absurdo, pois não há absurdo na ilusão…» (trecho de Sono)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 2015)

Em Quebranto, conto final de Queda da Própria Altura, o protagonista em estado de narcose num quarto de hospital, à espera de um transplante, mal consegue lembrar de sua própria identidade, até que um novo paciente o reconheça como o mágico Quebranto e resgate sua existência: «durante uma semana, ele foi o narrador de mim. reconstruindo minha memória, meu passado, minha vida… »

Esse esgarçamento do ser, espécie de esbatimento progressivo diante da fragilidade das decisões e escolhas, percorre todo o livro de Sérgio Tavares—não à toa, ele se divide em três partes, ou movimentos: Impulso, Voo, Queda. E pensar que quase desisti da leitura, apesar do título açulador[1] e da capa esplêndida, pois ao folheá-lo me deparei com aquele vezo—para o qual não consegui ainda reconheci a funcionalidade— recente, e já tão velho, de abolir as maiúsculas!

Sofreria uma perda enorme: é uma das melhores obras de ficção publicadas neste século até agora, arquitetada de forma brilhante e muitíssimo bem escrita, sem titubeios ou firulas gráfico-formais (por isso, cai tão mal o recurso do uso exclusivo de minúsculas, a não ser nos nomes próprios): «minha mãe plantou a muda de hera um dia depois de o meu pai desaparecer, um dia depois do aniversário dela. meu pai falou que iria sair para comprar as velas do bolo e nunca mais voltou. lembro de minha mãe me arrastar horas e horas pelas ruas procurando-o, para enfim perceber o que tinha acontecido. na volta, passamos por uma casa cujo muro da frente era todo tomado por uma maranha de hera. pediu que eu esperasse, arrancou uma muda e, logo na manhã seguinte, plantou ao pé do muro da nossa casa. minha mãe disse que a nossa vida, a partir daquele momento iria ser como a hera: um cruzamento de dias presentes e futuros, sem distinção de começo e fim, um eterno renascimento. desde então, passou a se dedicar ao crescimento da planta como um perfeccionista que mantém uma pintura viva[…] minha mãe só deixou de cuidar da hera quando foi diagnosticada com câncer. passei, desse modo, a zelar pelo viço , sob o comando e o patrulhamento dela. a hera era a segunda coisa de que minha mãe mais gostava.
a primeira coisa era o cigarro. minha mãe sempre estava fumando. a princípio, cheguei a acreditar que o vício se agravou depois de o meu pai fugir de casa. agora estou certo de ter sido o contrário: foi o cigarro que fez com que ele nos abandonasse. meu pai sempre se preocupou com a morte. eu diria que de uma maneira um tanto anormal[..]
oito meses após o exame, minha mãe não parou de fumar um minuto sequer. o câncer brotou na parede do pulmão direito, tomando, em dias, todo o sistema respiratório; como a hera, sem distinção de começo e fim..»

O trecho acima, de Hera, comprova a segurança, o ritmo da escrita, e também que estamos num universo em que o realismo pode às vezes nem valer (o narrador do conto assumirá um estado fantasmagórico, atraído pela beleza da vizinha, ser vampírico que se alimenta da juventude daqueles que seduz, reduzindo-os a trapos, literalmente), mas há sempre regras, e severas. E sempre um preço a pagar, ora por cumpri-las, ora por se rebelar contra elas, como vemos no narrador de Ofélia e sua irmã, que dá o título ao relato. O que acaba gerando esses  heróis (só há uma narradora feminina, em Cerimônia, e mesmo assim as regras e contratos, por mais frágeis e patéticos que se mostrem, entre as pessoas, também dão o tom a esse pungente conto) tão autodepreciativos: «me parecia um gigante diante do ser curvado e desprezível que me tornei»;  «o que sou: um sujeito patético, covarde, que tenta racionalizar o desastre»[2].

O que vale para a exploração do fantástico em Hera; para o abismo devorador de identidade em Quebranto; para o fascinante clima alegórico em que transcorrem as tensões afetivas de uma família, em Ofélia[3]; e também para o registro mais realista e nem por isso menos inventivo[4], do ponto-de-vista literário, de Sono, história de um casal que na luta pelo equilíbrio econômico (a tão sonhada e famigerada prosperidade) a “realidade morna”, sina de todos nós, é destruído pela morte do filho no momento do parto.

Apreciei praticamente todos os textos de Queda da Própria Altura (embora o conto de abertura, Evolam-se os Barcos seja o mais fosco entre eles), mas o meu predileto é justamente esse Sono porque Tavares consegue algo muito difícil, e que eu só tinha testemunhado na notável ficção de João Anzanello Carrascoza: ousar investir no lirismo dos laços afetivos elementares em nossa vida (pais, filhos, cônjuges), atravessando a corda bamba sob a qual aguardam, ansiosos, o sentimentalismo e a fraude. Ao fazê-lo, ele nos deu uma obra-prima.

capa-de-cavala-ed-record-do-jornalista-e-escritor-sergio-tavares-1288966084902_200x285

TRECHO SELECIONADO

«pego algumas bermudas e empilho sobre a cama, acima do par de meias e do tênis já arrumados, a que foi ao cinema é uma das suas preferidas, se bem que eu acho que ele optaria pela branca com os bolsos vermelhos, ele gosta de combinar cores […] contudo, o instinto materno me diz que ele preferiria usar calças, neste caso, não tenho dúvida […]

   a calça da revista foi a primeira roupa que ele pediu que eu comprasse, até então suas vontades eram restritas a brinquedos, livros e cartuchos de vídeo game, ele também gosta de desenhos animados, fica horas em frente à televisão, rindo das estripulias do gato que quer pegar o rato e do coiote que inventa geringonças, coleciona álbuns de figurinhas e histórias em quadrinhos. foi numa dessas revistas que ele viu a calça que trazia decalques em velcro dos personagens da Vila Sésamo. eu estava na cozinha preparando o almoço, quando ele chegou excitado,  pedindo que eu comprasse para ele… » (trecho de Cerimônia)

11137129_456453914518929_957985892879400599_n

E este recado comercial poderia ser uma legenda da cena final de Hera:

10996043_10200486656685439_3291155228264406932_n

_______________

NOTAS

[1] Curiosamente, trata-se de um conceito da medicina: «deslocamento não intencional do corpo a um nível inferior à posição inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil, determinado por circunstâncias multifatoriais, comprometendo a estabilidade» (pesquisei no Google).

[2] «… se por uma possibilidade mágica conseguíssemos, seria menos difícil aceitar que cada conquista está atrelada a uma perda e a entrega não é condição de recompensa…»

[3] Texto em que ele consegue o que Andréa Del Fuego almejou e não conseguiu em Os Malaquias. VER https://armonte.wordpress.com/2013/09/08/procurando-o-angulo-do-encontro-com-os-malaquias/

[4] «… não podemos nos meter em zonas fronteiriças e cavar um buraco na história para encontrar uma verdade diferente da realidade que quase nos partiu». Vindo após de uma história onde os homens de cada família têm de cavar buracos , esse trecho ganha uma camada a mais de ironia. Aliás, nada Ícaro (pois não vemos nenhuma queda), mais para Dédalo, Tavares deixa que alguns elementos “reapareçam” de forma inquietante, como um aparador (peça-chave tanto em Ofélia quanto em Hera).

sBPX5W3

11149528_879020418827174_7326120598113422760_n

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: