MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/04/2015

FISIOLOGIA DO TALENTO: “Concentração e Outros Contos”, de Ricardo Lísias


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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de abril de 2015)

«…senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia».

O trecho acima, de Fisiologia da Dor, um dos 15 textos de Concentração e Outros Contos, no qual Ricardo Lísias, prestes a completar 40 anos, reuniu parte da sua produção no gênero desde 2001, espelha o dilema do resenhista que tenta, em sumários traços, delinear para o seu leitor o universo denso e único daquele que é o mais brilhante escritor da sua geração.

Curiosamente ele publicara até agora apenas outra coletânea, Anna O. e Outras Novelas (2007)[1]. Dela, temos quatro textos: o conto-título (onde um psiquiatra é encarregado do laudo sobre as condições mentais do General Pinochet), Capuz, Dos Nervos e Diário de Viagem, todos narrando situações em que mantras reiterativos da linguagem dos protagonistas, a fixação de “metas” e projetos, a criação de padrões, procuram represar a crescente desagregação, quando não o colapso total (inclusive da própria linguagem)[2].

Mais recentemente, Lísias enveredou pelo caminho da “autoficção”, modismo crítico pós-moderno (que ele parodia num conto com esse título—a meu ver, o texto mais discutível de Concentração) para experiências ficcionais que deformam e confundem os dados biográficos, mesmo que o personagem ostente o nome do autor. Nessa linha, Ricardo Lísias/personagem vivencia diferentes formas de dilaceração e tentativas de serenar o tumulto interno,  tanto no divertidíssimo Evo Morales quanto na mais radical de suas aventuras autoficcionais, Tólia (em que se une a uma seita para salvar o planeta), além da extraordinária seção das Fisiologias (da Memória, do Medo, da Dor, da Solidão, da Amizade, da Infância e da Família), registrando o Brasil pós-Abertura através dos laços familiares e afetivos, com um virtuosismo que só encontra paralelo no argentino Alan Pauls (História do Pranto) ou no chileno Alejandro Zambra (Formas de voltar para casa).

«É um fracasso que se manifesta no corpo». As linhas de força que percorrem Concentração podem ser verificadas no conto-título: Damião sente um excruciante mal-estar físico, só aliviado quando faz a barba (causando graves danos ao seu rosto) a todo instante. Como típico herói de seu autor, apega-se a padrões e rotinas que permitam suportar seu estado agônico; assim, viaja a Buenos Aires atrás de um clube de xadrez e de um casal de dançarino de tangos, a partir de três vagas fotografias, vã odisseia («no país inteiro ninguém sabe mais como dançar tango e jogar xadrez»—desse modo, ele constatará a penúria econômica da população portenha) que envolverá os miasmas dos regimes autoritários latino-americanos, a morbidez argentina em torno dos seus ícones políticos (Perón e Evita), numa corda bamba de racionalizações extremas em meio ao caos e à falta de sentido, que, no fundo, dizem respeito a todos nós, aprisionados pelos muros quase sem brechas da ideologia do mercado global.

Um dos pontos altos da coletânea, esse conto de 2008 tem um dos finais mais perfeitos já escritos, contrariando flagrantemente a afirmação seguinte: «Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal». Pena que escrevendo a seu respeito, eu me sinta mais próximo desse sentimento de frustração do que dos seus resultados.

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VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/04/14/o-livro-dos-mandarins-satira-deliciosa-a-linguagem-da-globalizacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/11/destaque-do-blog-duas-vezes-o-ceu-dos-suicidas/

https://armonte.wordpress.com/2013/08/13/a-pele-que-habito-o-problematico-divorcio-de-ricardo-lisias/

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TRECHOS SELECIONADOS

«O avô mora naquela casona perto do museu e quando a gente tropeça, ele logo vai correndo dizer que não foi nada. Não foi nada, nada, apenas que o avô é aquele homem mais velho, careca e engraçado. Ele sabe o que é um astrolábio, consegue fazer um relógio com a sombra e gosta de ir com os netos à praia… E ele corre com a gente: corre em casa, no museu, corre na praia, na rua, corre hoje, corre no ano que vem, na festa da escola, mas cada vez ele corre mais devagar, e depois já não aguenta tanto e quando você vê é o avô que deixou para a sua mãe essa casa.

   Ele é o avô que morre e ensina o que é a morte: é quando o avô morre. »

(Fisiologia da Família)

« Os noventa minutos do jogo entre Brasil e Itália, no estádio espanhol do Sarriá em 1982, foram os únicos em que de fato tive um pai. Precisamos só de um empate, meu filho, mas acho que vai ser 4 a 1. Tentei encostar a mão esquerda naquele braço enorme, mas ele se afastou. Hoje ele não está querendo se deitar: vamos ver o jogo sentados um do lado do outro. Perguntei se Chulapa é o sobrenome do Serginho, que meu pai adorava. Ele não respondeu… Lembro-me da televisão enorme. Como tinha o nome sujo, meu pai não podia comprar nada à prestação. Quem  trouxe foi minha avó. Tem garantia até a próxima Copa, ele me disse quando elogiei a imagem. Meu pai gostava de assistir a todo tipo de programa, menos os telejornais. O comício pelas Diretas Já na Praça da Sé não passou direito, não perdi nada… Minha tia, irmã da minha mãe, quis nos levar para o comício, mas meu avô não achou a ideia boa. Você não viu como seu primo saiu da cadeia? Tudo pode mudar de uma hora para outra. »

(Fisiologia da Infância)

«Naquela época, a gente bebia muito na escola. Então Maria era a líder. Maria bebia muito, então ria muito também. Então. Eu só acompanhava, acho, não posso ter certeza, ela sim tinha muita certeza: então bebe mais um pouco, disse. Então, se sexo oral conta, perdi a virgindade com ela nesse dia então, com ela rindo e tudo rodando.

   Ontem, vi uma foto de Lindbergh Farias no Facebook. Então foi na internet. Ele sorria muito enquanto apertava a mão de Fernando Collor. Nada disso aconteceu. Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica. E na História, então? Fiquei com muito ódio desse ensaboadinho chamado Lindbergh Farias. »

(Fisiologia da Amizade)

«Sinto-me sozinho (descobri isso quando escrevi meu primeiro livro, sozinho durante um inverno desagradável em Campinas) porque nunca consigo expressar exatamente o que eu quero, e nem da forma que tenho certeza ser a mais adequada.

   Não se trata de humildade. Sou arrogante: algumas vezes, cheguei perto. Mas o cerne do que quero dizer e a forma mais adequada (digo, a ideal para o que eu queria dizer—não estou conseguindo me expressar direito), apenas sei que existem, tenho toda a certeza de que estão ao meu alcance, mas não consigo tocá-los inteiramente. É como se em um determinado momento a comunicação falhasse… Esse isolamento é um sentimento íntimo. Apenas tateio a melhor forma de expressá-lo. Sei que se trata de uma variante muito aguda e intensa de solidão. Só tenho uma possibilidade de me aproximar desse mistério: através da técnica literária. Por causa dela, meu sofrimento é suportável. »

(Fisiologia da Solidão)

« Para mim, as lágrimas e a raiva se complementam. Como sempre tive muita dificuldade para chorar, uso os acessos de ódio para me libertar. Mas não tive a menor chance dessa vez. Levantei agora e, enquanto tomava café, senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia. Por isso, achei que as artes plásticas resolveriam o meu problema.

   Ao contrário, agora tenho medo de que arte nenhuma aplaque o sentimento de que não vou conseguir dizer exatamente o que quero na forma que julgo a mais adequada. »

(Fisiologia da Dor)

« Exatamente nesse momento, trêmulo por causa do medo e do frio, caguei nas calças. Não tive tempo nem iniciativa de procurar um banheiro… Dá para ir a pé da avenida Pompeia ao meu apartamento. No caminho, senti um misto de vergonha e pavor. Eu olhava para trás e não conseguia entender se aquelas pessoas estavam me seguindo, rindo porque eu tinha cagado nas calças ou sequer haviam me notado… Eu estava inteiramente sonzinho e, agora escrevendo, lembro que pensei no André enforcado.

   Então, em uma sexta-feira à noite, subindo rapidamente a movimentada avenida Pompeia, morrendo de medo e cheio de merda nas calças, percebi o quanto o André estava se sentindo sozinho quando destruiu o meu apartamento e, uns dias depois, se enforcou… Depois, já perto de casa, senti de novo muita raiva do André: ele me tinha feito descobrir quem eu sou e acho que eu sou exatamente o que o dono (ou o administrador) do cassino clandestino falou, olha aí, você é só um cagão. »

(Fisiologia do Medo)

«… e chorava daquele jeito porque logo o meu amigo André iria se matar, e chorava sem nenhum controle, do jeito que mais me incomoda, sem nenhum controle, porque o André morreu sem conhecer os livros do Roberto Bolaño, não é justo, e eu também sabia que nunca mais iria esquecer: quando a polícia encontrou o corpo do meu amigo André, enforcado lá naquele lugar, havia uma sacola de uma livraria em cima da mesa, com o Noturno do Chile dentro, ele tinha acabado de comprar o Noturno do Chile, então voltou para onde estava morando e se enforcou sem abrir o livro… e eu chorava daquele jeito porque o André nunca mais iria aos meus lançamentos, eu chorava muito, na frente do avião da Japan Airlines, porque as pessoas dizem que eu sou cerebral e eu chorava daquele jeito, como nunca… »

(Fisiologia da Memória)

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NOTAS

[1] Em contrapartida, lançou vários romances, a partir de Cobertor de estrelas(1999): Duas Praças, O Livro dos Mandarins, O Céu do Suicidas; o mais recente dos quais, o polêmico Divórcio.

Convém, notar, entretanto, que vários dos textos de Concentração têm considerável extensão, e dois deles foram publicados separadamente, Capuz e Dos nervos.

[2] «Agora, consigo entender um pouco melhor: meu profundo gosto pela conversa civilizada e inteligente impediu-me de gritar quando vi aquele rapaz sentado no meu sofá. Não sei se já disse, mas posso repetir, que cheguei em casa, vindo da universidade, e encontrei a porta aberta e a luz da sala acesa. Como estava me tratando, o que para dizer a verdade sempre foi um dos sonhos da minha mãe, vivia muito calma naqueles dias e não gritei. Minha intenção era evitar, também, que as pessoas dissessem que eu estava tendo uma crise histérica. Sempre detestei falatórios e costumo ter apenas conversas civilizadas e inteligentes. O hábito de fofocar que minha mãe cultiva com as vizinhas sempre me deixou irritada. Às vezes eu batia a porta e fechava todas as janelas só para não ouvir aqueles murmúrios. Prefiro a conversa civilizada e inteligente. No tempo em que redigia a tese, inclusive, procurava sempre ir a algum café ou bar tranquilo para falar de livros, filmes e música. Claro, e sobre o Padre Vieira. Eu me interessava sobretudo pela questão do gênero: nos mecanismos que diferenciam a fofoca da conversa civilizada e inteligente. Por isso tentava ficar bem quieta para ouvir o que os outros estavam dizendo. Agora compreendo por que ele ficou mudo, deve ter me visto em algum lugar, em algum café civilizado e inteligente, e concluiu que adoro o silêncio», lemos em Dos nervos.

Mais adiante: «Minha mãe sempre me disse, e olha que, que eu precisava. Mas acho que vou ser bem clara com o médico, e dizer que posso perfeitamente criar sozinha o nosso filho. Tenho um bom emprego e, mais, com uma conversa civilizada e inteligente, minha mãe… Por outro lado minha mãe sempre repetia, e olha que ele, que meu pai. Quanto aos meus alunos, o médico… ».

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RICARDO

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2 Comentários »

  1. […] Source: armonte.wordpress.com […]

    Pingback por FISIOLOGIA DO TALENTO: “Concentração e Outros Contos”, de Ricardo Lísias | psiu... — 07/04/2015 @ 13:51 | Responder

  2. […] crítico Alfredo Monte, em texto sobre “Concentração e Outros Contos” (Alfaguara), recém-lançado, escreveu que Lísias talvez se acomode mais com os livros do chileno […]

    Pingback por Ricardo Lísias dita o próximo passo da literatura brasileira | capítulo dois — 07/05/2015 @ 17:34 | Responder


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