MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/03/2015

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI: Lisa Genova e o Alzheimer


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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de março de 2015)

Embora a nova capa de Para Sempre Alice[1] se valha do medonho costume de copiar o cartaz da versão cinematográfica, pelo menos nos livramos do constrangedor subtítulo que poluía a edição anterior do romance de Lisa Genova pela Nova Fronteira, «Quando não há certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade» !!!???

Como se sabe, por sua interpretação a admirável Julianne Moore, uma das grandes atrizes do nosso tempo, ganhou um esperado (e tardio) Oscar. Sua personagem, Alice Howland, tem a mente deteriorada precocemente—aos 50 anos—pelo Alzheimer. Intelectual e professora (em Harvard) reputadíssima, na área da psicologia que pesquisa a linguagem e suas ligações com os mecanismos do cérebro—o que permitiu que ela escrevesse um livro em parceria com o marido, John, da área da biologia—, os 24 capítulos do romance percorrem um arco, de setembro de 2003 a setembro de 2005 ( com o acréscimo de um epílogo ‘fora do tempo’, por assim dizer, pois é assim que estará Alice no País do Alzheimer[2]), através do qual acompanhamos a rapidez com que a doença vai causando seus estragos cognitivos e físicos: «Ainda conseguia ler e compreender textos curtos, mas o teclado do computador se tornara uma mixórdia indecifrável de letras. Na verdade, ela havia perdido a capacidade de compor palavras com as letras do alfabeto no teclado. Sua capacidade de usar a linguagem, aquela coisa que mais distinguia os seres humanos dos animais, a estava abandonando, e Alice sentia-se cada vez menos humana à medida que ela partia». Ou então: «o cheiro desagradável de seu corpo lhe informou que fazia dias que ela não tomava banho, mas não conseguia reunir a coragem nem o conhecimento necessário para entrar na banheira».

Contudo, nem uma doença trágica consegue fazer de Para Sempre Alice um grande livro, basicamente porque Lisa Genova usa um filtro cor-de-rosa em demasia para relatar esse caso individual que poderia dizer respeito a todos, como acontece em A Morte de Ivan Ilitch, por exemplo (sei, claro, que é injusto comparar qualquer escritor com Tolstói). Para começar, a existência de Alice é ajustadíssima ao status quo[3]. Para ela, ter uma carreira como a sua, do marido e dos filhos, é o ideal (e a autora parece concordar com sua heroína). Por isso, o único ponto discordante, até os sintomas começarem a se manifestar, é a rebeldia da caçula, Lydia, que desistiu da formação universitária e deseja ser atriz (os detalhes da sua vida em Los Angeles são estereotipadíssimos). Mesmo com a evolução da sua doença, os conflitos do romance não saem do clichê: tendo a esposa encerrado abruptamente a carreira, John se debate (e entra em confronto com os filhos) entre a lealdade ao casamento e novas perspectivas profissionais. E assim, Lydia, que era a filha que não se entendia com a mãe, de repente começa a ser a mais dedicada a ela.

É por isso que o desfecho me chocou tanto, apesar de ‘tocante’, com sua apologia da afetividade (em detrimento do intelecto). Em termos de reflexão sobre a condição humana, me parece totalmente falso, até apelativo. No fim das contas, o único mal solto no mundo parece ser o Alzheimer, e mesmo ele pode ser confinado dentro das paredes da harmonia familiar. E assim, a romancista estreante, que escreve bem, e nos proporciona alguns momentos de voo menos curto (como o das instruções de suicídio que uma ainda lúcida Alice escreveu para seu futuro ‘eu’ já comprometido cognitivamente—este até chega a tentar colocá-las em prática, entretanto as esquece no tempo de subir uns lances de escada), desperdiça bagagem profissional (era neurocientista) e munição ficcional numa historinha que renderia no máximo um telefilme, um daqueles nos quais, para variar, só o amor saberia o que é verdade quando não há mais certezas possíveis.

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NOTAS

[1] A ótima tradução brasileira para STILL ALICE, publicado em 2007 de forma independente nos EUA, e em 2009, em edição tradicional.

[2] Era o título que eu tinha planejado para a resenha, mas José Geraldo Couto antecipou-se em sua incisiva crítica à mediania do filme (mesmo com uma atriz muito acima da média), VER http://www.blogdoims.com.br/ims/alice-no-pais-do-alzheimer; então apelei para outra forte referência, desta vez o filme de Martin Scorsese.

[3] O personagem-título da novela de Tolstói também é ajustadíssimo, em sua obsessão a fazer tudo comme il faut, mas essa alienação e conformismo nunca são seguidos pela visão autoral. Devo dizer que evidentemente Alice é mais simpática ao leitor que Ivan Ilitch, mas se ele analisar um pouco mais fundo, vai achar seu modo de viver complacente e no fundo, no fundo mesmo, desagradável e egoísta.

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