MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/03/2015

UM CINTILANTE MOSAICO DE DÚVIDA: Thomas Pynchon e seu “Vício Inerente”


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«__ Falando sozinho de novo—disse Clancy.—Você precisa encontrar o verdadeiro amor, Doc.

   A bem da verdade, ele pensou, eu me contento em só achar o meu caminho nessa história. Os seus dedos, dotados de opinião própria, começaram a rastejar na direção da sebe plástica. Talvez se ele a revistasse por tempo suficiente, noite suficientemente avançada, encontrasse alguma coisa que pudesse ajudar—algum minúsculo fiapo perdido da sua vida que ele nem sabia que tinha desaparecido, algo que faria toda a diferença» 

«…de repente as leis do acaso, decidindo-se por um clássico foda-se, instruíram  a máquina de centavos de Puck a acertar também... »

«…quando diversos tipos de caos estouraram…»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de março de 2015)

      Na semana passada, comentei Uma Breve História do Tempo e a proposição do autor, Stephen Hawking, de uma Teoria de Tudo, título do filme que deu o Oscar a Eddie Redmayne. Já Paul Thomas Anderson teve sua quarta indicação[1] ao prêmio como roteirista pela adaptação (dirigida por ele, e que estreia este mês no Brasil) de Vício Inerente [“Inherent Vice”, 2009], romance em que Thomas Pynchon, um dos mais cultuados autores contemporâneos (candidato recorrente ao Nobel), useiro e vezeiro da Teoria do Caos — que trata das instabilidades no cerne de sistemas complexos e deterministas —, faz uma sombria paródia do romance noir à Raymond Chandler & Dashiell Hammet[2].

Numa conjunção aziaga, a Califórnia dos anos 1970, onde a ação ocorre (há um intermezzo em Las Vegas[3]), é governada por Ronald Reagan, e o presidente é Richard Nixon. A guerra do Vietnã, que desmoralizou o país, está em seus estertores, enquanto a cultura hippie ainda floresce. O detetive particular Doc Sportello, maconheiro em tempo integral (não dispensa um ácido, se pintar), investiga o sumiço de Shasta Fay Hepworth (os personagens têm nomes rebarbativos, como costuma acontecer no gênero[4]), antigo e conturbado caso, agora amante do poderoso empresário Michael Wolfmann, igualmente desaparecido (talvez sequestrado ou assassinado). Esses eventos estão ligados ao sinistro navio Canino Dourado, uma das fachadas de um insidioso cartel de drogas, atuante em todas as esferas da sociedade, inclusive clínicas de reabilitação: «se o Canino Dourado conseguia deixar os seus fregueses chapados, por que não ir para o outro lado e vender também a eles um programa que os ajudasse a largar? Deixá-los indo e vindo, o dobro do lucro e sem precisar se preocupar com fregueses novos—enquanto a Vida Americana fosse algo de que as pessoas tivessem de fugir…»[5].

Coy Harlingen, sax tenor de uma banda de surf music, supostamente morrera de overdose, entretanto aparece o tempo todo nos caminhos da investigação (e ligado a uma milícia direitista violenta, os Vigilantes da Califórnia, ou mais singelamente, viggies), e Doc começa a suspeitar (a paranoia é a seara do autor de O Arco-íris da Gravidade, uma das obras-primas do século passado[6]) de que tudo e todos estão interligados numa indescortinável, porque caótica, teia de crime e poder: «O mundo acabava de ser desmontado, qualquer um aqui podia estar metido em qualquer golpe que você pudesse imaginar, e já estava mais do que na hora, como dizia  o Salsicha, de dar o fora daqui, Scooby, meu filho».

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As referências às identidades assumidas por Coy e à dupla Salsicha-Scooby Doo ajudam a delinear, ainda que ligeiramente, aspectos tipicamente pynchonianos de Vício Inerente: as inúmeras analogias de ambientes e situações com contatos extraterrestres, ou descidas em planetas desconhecidos e inóspitos[7]; pessoas que surgem e somem como truques de mágica[8]; a realidade postiça de Hollywood e Las Vegas; a associação do uso de drogas com estados alterados, alucinações, trips diversas (ou hippiefanias); tudo isso proporciona um clima de insubstancialidade, a sensação de que somos seres fractais, jamais euclidianos[9] («Agora, duas ou três linhas ocorriam a Doc ao mesmo tempo, exibindo-se em uma espécie de padrão hiperdimensional no pedaço de parede vazia do escritório que ele frequentemente usava para esses exercícios»), numa . realidade (?) “borrada” («e do lado de fora das janelas o neon da cidade começou a se alongar em compridos borrões espectrais»).Ou seja, regidos pelo caos e acaso, e se houver uma ordem subjacente, ela é nossa antagonista[10]. Em termos literários, como se o universo de corrupção e desmoralização da sociedade de um James Ellroy fosse invadido pela fantasia distópica de um Philip K. Dick ou um William Gibson. O romance, aliás, aponta para a futura hegemonia do mundo virtual  e da “informação”, com Doc roçando os primórdios da computação e seus usuários e programadores, descritos em termos que lembram os “chapados” por outros meios: «e eu juro que parece ácido, um outro mundo estranho—tempo, espaço, essa porcariada toda»

Por outro lado, os delirantes detalhes das mais diversas subculturas que impregnam a narrativa comprovam que Pynchon jamais permite que seu belo romance da maturidade (um tanto subestimado, ao que me parece) esmoreça num fácil pastiche de um gênero, embora ele até se valha de frases típicas da pulp fiction mais deslavada: «Doc estava com uma ereção e seu nariz escorria». Autor que sofre de horror vacui (horror ao vazio), ao mesmo tempo em que o insinua, ele satura suas obras de tal forma que elas se tornam sistemas próprios e autônomos (muitos, infelizmente, acham difícil adentrá-los; já outros, como eu, tornam-se viciados), porém incisivos como poucos, com relação aos impasses políticos do que chamamos de realidade[11].

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TRECHO SELECIONADO

Que explica o título do romance de Pynchon e o título do meu post:

«Doc pegou a sua lente e examinou cada imagem até que uma a uma elas começaram a sair flutuando em manchinhas coloridas. Era como se o que quer que tivesse acontecido tivesse chegado a algum tipo de limite. Era como achar o portal do passado sem vigilância, desproibido porque não precisava ser. Embutido no ato de retorno havia por fim um cintilante mosaico de dúvida. Algo como o que os colegas de Sauncho que trabalham com seguros marítimos gostam de chamar de vício inerente.

__Isso é igual ao pecado original?—Doc especulou.

__ É o que você não pode evitar—Sauncho disse…»

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NOTAS

[1] As anteriores foram por Boogie Nights, Magnólia & Sangue Negro (por este último ele concorreu ainda como diretor e como co-produtor). Escusado dizer que ele não ganhou por nenhuma. Não sou entusiasta dos filmes de Anderson, mas que ele tem ambição e ousadia, isso não dá para negar (e isso dá margem para seus intérpretes ousarem e brilharem, também).

[2] E também a apropriação do noir por Hollywood. O herói do livro sempre evoca a figura de John Garfield, intérprete de vários filmes no gênero, inclusive da clássica versão do livro mais famoso de James M. Cain, O destino bate à sua porta.

[3] «Olha só tudo isso. Como é que isso pode ser de verdade? como é que alguém pode levar isso a sério? »

  A respeito dos lugares de jogatina menos vistosos, por assim dizer, em Las Vegas:

«Os jogadores aqui tendiam a jogar por dinheiro, cuidando de suas vidas esperançosas ou desesperadas, chapados ou caretas, cientificamente ou calcados em superstições tão exóticas que não podiam ser prontamente explicadas, e em algum lugar nas sombras o senhorio, a financeira, a comunidade dos agiotas, estavam sentados invisíveis e calados, batendo os pés dentro de sapatos caros, ponderando opções de castigo, leniência—e até, raramente, misericórdia»

[4] Outros exemplos:  Sauncho Smilas, Rudy Blatnoyd, Puck Beaverton, Rhus Frothingham, Trillium Fortnight…

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[5] Todas as citações são da maravilhosa tradução de Caetano W. Galindo (há um genial “pau-pites” na pág. 389). Também inspirada é a capa de Elisa V. Randow.

[6] O substantivo “paranoia” e seus adjetivos correlatos são utilizados à farta em Vício Inerente («ou será que tenho que começar a ficar paranoico de verdade?»), mas gostaria de chamar a atenção de que ele muitas vezes brinca com isso (Pynchon= paranoia+ironia+caos):

«__Eu posso dizer uma coisa em voz alta? Será que tem alguém ouvindo?

__ Todo mundo. Ninguém. Faz diferença?»

[7] Dois exemplos tomados ao acaso: «Como viajantes do espaço em uma nave espacial»; «e foi como pousar em outro planeta».

[8] «…e—será que Doc tinha piscado ou alguma coisa assim?—sem mais nem menos desapareceu»

[9] Um dos indicadores é o uso contínuo do ponto de interrogação para frases e declarações supostamente afirmativas.

[10] Frequentando seus lugares usuais, Doc não reconhece ninguém e nem sequer os ambientes e aí lemos: «Ninguém que ele reconhecesse. Ele pensou brevemente em ir para o seu apartamento, mas começou a recear que não fosse reconhecê-lo também, ou pior, que o apartamento não o reconhecesse—não estivesse lá, a chave não coubesse ou alguma coisa assim»

[11] Um ponto que não pude desenvolver na resenha acima e a respeito do qual gostaria, entretanto, de chamar a atenção, é para a renitente e ao mesmo tempo insustentável inocência do herói do livro, Doc Sportello, que toca num ponto nevrálgico do imaginário norte-americano. Se ele tem intuições do caos como meio de administrar totalitariamente o sistema em plena “democracia” («e quando no fim os patriotas e os tiranos são as mesmas pessoas?»), ao longo da narrativa, também tem a atitude criticada na passagem seguinte:

«__ E você—ela diz a Doc—um dia vai ter que se conformar.

__ Como assim?

__ Ser como todo mundo».

 

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