MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/02/2015

NAVEGANDO POR MARES DE TRAMPA: “Combateremos a Sombra”, de Lídia Jorge


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de maio de 2010)

Na passagem dos anos 1970 para a década seguinte, dois poderosos nomes surgiram na ficção portuguesa: António Lobo Antunes e Lídia Jorge. O primeiro tem se dedicado nos últimos anos a um fluxo ininterrupto de romances “totais”. Já a segunda, que estreou há trinta anos, com o talentoso O dia dos prodígios, tem sido menos prolífica. Sua obra mais recente é Combateremos a Sombra[1].

Na noite da virada do milênio, o psicanalista Osvaldo Campos atrasa-se no seu consultório para a festa do réveillon, o que acarreta o fim do seu casamento. Após um curto período de desagregação psicológica (chega a agredir a ex-mulher), ele volta à pacata rotina de atendimento dos pacientes, vivendo no local de trabalho, e adotando como divisa, numa atitude de tabula rasa com relação à existência pregressa, a afirmação de um dos muitos clientes não-pagantes que aceita, para desespero da sua secretária, Ana Fausta (uma personagem secundária memorável): “Professor, navego por dia mares de trampa, para conseguir caçar um, dois peixes”. A vida, então: uma travessia minimalista por mares de excremento ou de armadilhas e logros, conforme se queira entender a metáfora.

O dr. Campos tem uma “paciente magnífica”, a sua “visita da noite”, Maria London, filha de um magnata. Um dia, descobre que as elaboradas fantasias dela a respeito de navios de cruzeiro que aportam em Lisboa e nos quais o pai a embarca regularmente, são bem reais e correspondem a um submundo pesado de tráfico, bem nas barbas (ou com a conivência) das autoridades. Por outro lado, na noite do réveillon que virou sua vida do avesso conhecera casualmente uma angolana no prédio onde fica seu consultório. Ao longo dos meses nos quais a narrativa se desenvolve, o incauto psicanalista (que a acreditava manteúda de um sujeito poderoso) descobre que ela é testemunha de vários crimes (trabalhava numa clínica onde iam se aliviar os cagões, aqueles que conhecemos como mulas de drogas, e um deles morreu por excesso de carga; além disso, ela fotografou trabalho escravo de imigrantes ilegais), e fora poupada pelos seus executores (um deles, colega de juventude), que a mantiveram escondida num apartamento.

Os dois iniciam uma ligação amorosa e, após enviá-la para um refúgio seguro em Roma, o dr. Campos resolve enfrentar o submundo que descortinou através das revelações de Maria London e de Rossiana, a sua amada, elaborando dossiês e entrando em contato com organizações internacionais, com a Interpol, a polícia, órgãos da imprensa e até a Presidência.

Como sempre, essa atitude quixotesca tem resultados desastrosos e o dr. Campos nunca reencontrará Rossiana em Roma. Em contrapartida, permite a uma das maiores autoras da atualidade encarar de frente o novo milênio e seu desafio à imaginação literária. Combateremos a Sombra é um senhor romance.

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TRECHO SELECIONADO

Abaixo temos um relato de Rossiana e de sua visão-de-mundo como fotógrafa:

“Emprestaram-me uma Yashica, e num papel exposto numa parede, inscreveram-se dez rapazes e cinco raparigas. Como dizer? O que eu sabia pouco mais era do que aquilo que eles sabiam, mas entendemo-nos. Não há nada como crianças a ensinarem crianças…Eu disse-lhes mais ou menos isto: Pois podemos chamar àquilo que vamos fazer, a forma como vamos trabalhar e aos objetos e ângulos que vamos escolher, tudo o que voa… Malta, disse eu, o pessoal vai andando pelo nosso bairro adiante, e lá onde encontra um objeto com interesse, uma situação entre gente que diga alguma coisa com jeito, um sapato bonito na lama, uma gaiola sem pássaro lá dentro, uma coisa assim esquisita por ser bela e dê vontade de levar para casa, e dê vontade de a gente se agarrar a ela, a malta fotografa para ver como é. Mas para que se perceba que voa, tem de ter à mostra o local de onde parte… Daqui de onde estamos, todos vemos como a vizinha tem um vaso com uma azalea à janela. Se só fotografarem a azalea, é uma merda de usar em todos os lugares, até numa estufa de flores, não vale a pena. Mas se a azalea tiver junto dela o cortinado puído da janela da vizinha, a azalea voa, a azalea diz: Porra, eu sou a harmonia no meio das coisas rotas e puídas, eu voo. Compreenderam o que diz a azalea? TUDO O QUE VOA será assim…. Uma rapariga fotografou a língua dum homem velho de olhos fechados a tomar a hóstia dominical e eu achei que isso era digno de TUDO O QUE VOA, mas alguém tomou o efeito pela causa e foi acusar-nos de provocação e a fotografia teve de ser retirada… Mas ficaram os gatos com guizo a olharem para pássaros sobre telhados de zinco. Ficaram duas pernas de miúdo sujas de lama, puxando um carrinho. Ficaram dois ovos a cavalo num bife pousados sobre metade dum prato. Ficaram duas raparigas a comporem a gravata do pai tetraplégico. Ficaram duas rosas vermelhas, uma delas ainda em botão, plantadas num velho penico de esmalte onde alguém num tempo remoto tinha pintado um nome: Senhora…”

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NOTA

[1] Nota de 2015- Quando escrevi a resenha acima, comentei o romance a partir de sua edição portuguesa, pela Dom Quixote (2007); recentemente saiu uma edição brasileira pela Leya.

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