MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/02/2015

ENTRE A OPRESSÃO E A UTOPIA: “Os pecados da tribo”, de José J. Veiga


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“__Tenha paciência, seu Oldívio. Está ruim para todos. Isso é fase.

__ É. Fase permanente..”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de fevereiro de 2015)

Com o benefício da passagem do tempo constatamos que Os Pecados da Tribo (1976), quinto livro de José J. Veiga, marcou o auge de uma carreira até então composta por clássicos, desde a estreia com Os Cavalinhos de Platiplanto (59): A Hora dos Ruminantes (66), A Estranha Máquina Extraviada (68) e Sombras de Reis Barbudos (72), numa fluida oscilação entre conto e romance.

Em seguida, o grande autor goiano, cujo centenário estamos celebrando (nasceu em 2 de fevereiro de 1915), continuou a publicar com regularidade, nunca mais, todavia, com a mesma ressonância, ainda que sempre fiel ao seu universo, no qual o atraso e as estruturas arcaicas da nossa sociedade transpareciam através de parábolas e alegorias etiquetadas como “realismo fantástico”: tivemos, por exemplo Aquele Mundo de Vasabarros (82), A Casca da Serpente (89), até o derradeiro Objetos Turbulentos (97), antes de sua morte em 1999, aos 84 anos.

Como o prestígio de Veiga esteve estreitamente ligado ao que a sua “grande fase” tinha de alusivo ao período da ditadura, seria o caso de uma obra datada, envelhecida de forma irremediável?

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Não é o caso. Ainda que possamos ler, nas entrelinhas de Os Pecados da Tribo, alusões ao sombrio regime pós-64, o romance vai fundo num diagnóstico mais amplo e complexo de certa mentalidade que preside o exercício (quando não a tomada à força) do governo no Brasil e como essa recorrência autoritária se entranha no imaginário popular, fazendo com que a consciência histórica vá se esgarçando e o que é fruto do arbítrio se “naturalize”[1]. Um episódio memorável é o da lei que obriga toda a população a soltar fogos de artifício: “O estrangeiro que chega aqui de noite fica penando que somos o povo mais alegre e festivo do mundo… Mas de dia o quadro é bem outro: um povo de cara fechada, testa franzida, cabeça baixa, pensando na quantidade de foguetes que vai ter de soltar de noite…”[2]. Alegria e comemoração por decreto, e com severas penalidades.

Com o colapso de uma civilização antiga (como a História é obliterada, ela só é conhecida através do diz-que-diz e dos seus vestígios, muitos dos quais apagados pelos líderes que chegam ao poder, os Umahla), o “território” tornou-se um agrupamento de clãs, evocando os costumes africanos ou indígenas[3]. Tudo parece improvisado e provisório, porém tal desorganização apenas mascara a cerrada teia que envolve a todos. O narrador é um homem que só quer viver tranquilo, no seu canto (sua atividade predileta é a pescaria), mas que tem de manter uma atitude de suspeita e reserva num ambiente onde não se sabe o que é proibido e perigoso[4] (inimigos e delituosos são “evaporados”—não pode haver termo mais incisivo quanto à supressão de indesejáveis[5]); Rudêncio, seu irmão, ao contrário, participa ativamente das mudanças de governo, ascendendo nas instáveis hierarquias, e torna-se cada vez menos confiável e fraterno:

“__ Você ainda vai ouvir falar dele. Todo o território vai ouvir falar dele.

    Perguntei de que natureza seria essa função, Rudêncio se trancou. Não podia adiantar mais nada.

__ Vamos ouvir falar bem ou mal?

__Depende do lado em que a pessoa estiver. De que lado você está?

    Era o outro Rudêncio falando, o genro do Umahla, o pai dos netos do Umahla, o Rudêncio que às vezes me amedrontava…”

Mesmo pacato, até mesmo passivo, o obscuro irmão de Rudêncio fará parte de uma vaga conspiração: a construção de um navio na floresta, “completo em todas as suas partes e instrumentos, como se destinasse mesmo a enfrentar o mar e seus perigos, apesar de vivermos longe do mar?”. Com esse projeto absurdo e temerário, temos uma das mais tocantes imagens da utopia já apresentadas pela ficção. Quanto à provável represália dos agentes do regime: “E não tem muita importância que descubram o nosso plano. Se por acaso descobrirem, o que é que encontrarão? Um sonho dentro de cada um de nós”[6]. Passagens como essa e o agudo e incessante fervor fabulatório provam que Os Pecados da Tribo e o melhor da obra de José J. Veiga são uma leitura ainda necessária. Pelo menos enquanto a interrogação “Que país é este?” se fizer presente.

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TRECHO SELECIONADO

“Dizemos que aqui não acontece nada, mas às vezes acontecem coisas incompreensíveis. Como ontem, por exemplo. Ainda não tínhamos acabado de comer a papa da manhã, chegaram uns homens no descampado aí em frente, tocaram o berrante e todo mundo atendeu correndo. Os homens nos puseram em forma na beira da estrada e explicaram o motivo da convocação. Era para abrirmos um buraco circular na dimensão já arcada com umas estacas (…) Comparada com o que dizem do tempo antigo, a vida aqui não é ruim, mas tem os seus momentos bem duros, principalmente depois que evaporaram o velho Umahla. Antes a gente ainda tinha certas pequenas regalias, quando havia abusos dos de cima uma queixa na Casa do Couro, às vezes, dava resultado; agora não há a quem se queixar (…) Vendo que o meu setor não estava progredindo, um dos homens se agachou na beira do buraco para fiscalizar o meu trabalho. Fiz de conta que não estava sendo observado e continuei a luta com o terreno duro. Depois de algum tempo ele me tocou com o chicote dobrado e perguntou por que eu estava atrasado. Expliquei que o terreno ali era muito duro e ainda grudava na picareta, como ele podia ver.

__ Duro, é? Pois vai ficar mole num instante. Vou fumar um cigarro na sombra daquela árvore. Se quando eu voltar você não tiver igualado com os outros, vai levar umas lambadas disto aqui—disse ele, e esfregou o chicote dobrado no meu nariz.

   Não encontro explicação para o que aconteceu. Eu não estava fazendo corpo mole, o terreno era duro mesmo; mas quando o homem voltou para verificar o resultado da ameaça, a minha parte já estava rente com a dos outros, se é que não estava um pouquinho mais funda. Mesmo assim o homem boleou o chicote e mandou uma lambada que só não me pegou em cheio no ombro porque recuei em tempo, já adivinhando a maldade. Mas a ponta do chicote me acertou o braço esquerdo de raspão, e o lugar ainda está inchado e dolorido. Marquei bem a cara do homem; se eu resolver entrar para a brigada de Rudêncio, vou ajustar essa conta (…)

    Depois eles nos mandaram recolher as ferramentas nas carroças, acomodaram-se em cima como puderam e foram embora cantando uma música marcial. Nós ficamos ali com as mãos inchadas e cheias de bolhas, o corpo doendo, e aquele buraco enorme quase na nossa porta.

    Hoje muitos aqui acham que tudo não passou de um divertimento de segundos escalões desocupados, e que se tivéssemos resistido eles teriam ido embora desapontados. Mas quem ia resistir? Mandaram, cavamos…”

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NOTAS 

[1] Nesse sentido, Veiga me lembra a obra de Manuel Scorza (1928-1983) como  Redoble por Rancas (no Brasil, Bom dia para os defuntos) no uso do “fantástico” e do “insólito” em estreita união com a notação realista. Embora, a meu ver, os recursos estilísticos do autor peruano  sejam mais apurados, ambos se beneficiam da oscilação ambígua, ou seja, os personagens às vezes tomam as coisas como elas são (a Cerca da  multinacional que corta o ir-e-vir dos habitantes de Rancas e arredores é um exemplo cabal) e às vezes confundem com fenômenos da natureza, como a chuva, ou com intempéries, como a seca (além de um forte componente “lendário”). Mas, por questão de brevidade, faço um paralelo “grosso modo”, bem esquemático.

No romance de José J. Veiga lemos:

: “O hábito de fumar charuto de folha de nanica foi herdado dos zuumbas, antigos habitantes do território, e esteve proibido durante muito tempo, por motivos nunca explicados. Alguém que não gostava do cheiro, ou da cor da fumaça, ou do tamanho dos charutos, e podia proibir, proibiu… Muitas vezes na história o pecado de hoje acaba sendo a virtude de amanhã. Ontem prendiam gente por beber água de chuva; hoje se compra água de chuva nos armazéns do Estado em bonitas botijinhas que são depois aproveitada para guardar mel.”

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[2] Vale ressaltar que a estrutura de Os pecados da tribo é basicamente episódica, uma característica da obra de Veiga, mais contista nesse sentido do que romancista propriamente dito.

[3] E há um “estilo de vida”, um sentimento de superioridade com relação a outras organizações sociais:

“Nós até estaríamos relativamente felizes se não fosse essa nuvem. Antes de sermos apanhados pelos últimos acontecimentos nossa vida era bem melhor, por exemplo, do que a dos Aruguas, povo tão perto de nós em distância e tão longe em civilização. Exteriormente eles têm quase tudo o que temos porque imitam o nosso estilo de vida; mas sendo tão atrasados, imitam mal”.

[4] “__ É melhor não dizer nada. Quanto mais falar, mais encalacrado fica—disse o turunxa.

__ Por que vou me encalacrar?

__ Tão inocente! O que foi que eu fiz para me encalacrar!

__ Pegar caira não é proibido.

    O turunxa titubeou, pensei que ia desistir. Eles não conhecem leis, e para se garantir inventam proibições. Geralmente acertam porque quase tudo é proibido hoje. Abaixei-me para apanhar o cesto e os embornais enquanto a vantagem estava do meu lado. O turunxa se refez da hesitação e me atalhou:

__ Peraí. Está resolvido não. Você sabe de cor tudo o que é proibido?

__ Isso não. Ninguém sabe…”

[5] Outro belo episódio do livro é o da promessa à mãe, que não quer ser “evaporada” (pois é o destino dos mortos, também, como se fosse necessário apagar-lhes a existência da lembrança dos vivos);  assim, o narrador e a irmã, Zulta (Rudêncio jamais poderia participar disso), a colocam num balão (uma ação totalmente ilegal):

“Ficamos olhando calados até que ela desapareceu na imensidão do céu e da noite. Calados apagamos a fogueira, eliminamos os sinais e fomos tomar uns goles de canilha para festejar o cumprimento da promessa e também para acalmar os nervos.

     Sabíamos que mamãe estava contente, e isso nos deixou eufóricos pelo resto da noite.”

[6] Por isso, considero o último capítulo, “O recado do lago”, um dos mais bonitos da nossa prosa (uma passagem: “…ninguém falava, só cantávamos, quem não sabia ou não queria cantar ficava olhando como encantado, numa alegria tão rara que me deu tristeza de pensar que quando os pavios se queimassem todos e as luminárias se apagassem, como já ia acontecendo com algumas, toda aquela beleza de acabaria, e dentro de mais algumas horas, com o nascer do sol, aquela noite seria apenas uma lembrança, e dias depois um sonho talvez até inacreditável”).

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2 Comentários »

  1. Caro Alfredo Monte,

    E “De jogos e festas”, não merece um lugarzinho entre os clássicos do Veiga?

    Comentário por Carmelo Ribeiro — 03/02/2015 @ 21:15 | Responder

    • Desculpe, Carmelo, esse eu não li.

      Comentário por alfredomonte — 03/02/2015 @ 21:19 | Responder


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