MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/01/2015

MERLIN REVIVE: a Trilogia de Mary Stewart


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(o texto abaixo tem como base a resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de julho de 1994, com o título “Fôlego épico marca Trilogia de Merlin”)

Por terra e água voltará ao lar e ficará escondida numa pedra flutuante até ser erguida novamente pelo fogo. Assim tinham dito os antigos e teriam reconhecido aquele lugar como eu; ou como o pescador que voltara do Sobrenatural, admirado com os salões do rei das sombras. Ali a espada ficaria segura até a chegada do jovem que teria o direito de erguê-la (…) Larguei-a ainda enrolada no pano sobre a mesa de pedra e voltei pela lagoa. Os ecos encheram o ambiente e parei um pouco enquanto diminuíam, tornando-se um murmúrio. Naquele silêncio até minha respiração era ruidosa demais e parecia uma intrusão. Deixei a espada em sua longa espera silenciosa e voltei rapidamente à luz do dia…”

(trecho de As Colinas Ocas)

A inglesa Mary Stewart, nascida em 1916, chegou bem perto dos cem anos, mas foi um dos muitos nomes importantes da literatura a falecer em 2014. Sua obra de maior prestígio, a Trilogia de Merlin, está sendo reeditada pelo selo Hunter Books. Os três volumes fizeram muito sucesso quando lançados pela ed. Best Seller no início dos anos 1990[1], em traduções de Vera Maria Marques Martins, Marcília Britto e Evelyn Kay Massaro. São eles: A caverna de cristal (“The crystal cave”, 1970[2]), As colinas ocas (“The hollow hills”, 1973) e O último encantamento (“The last enchantment”, 1979).

Com relação ao resto de sua produção paira aquela reputação ambígua das autoras (Victoria Holt, por exemplo) que exploraram mistérios góticos anacrônicos, mas ao que parece ainda bem atrativos, unindo suspense e alto grau de romantismo, cuja forma mais popular é a daqueles livros vendidos em banca, “Júlia”, “Sabrina” e similares. É o caso de “Nine coaches waiting” (1958), “The moon-spinners” (1962) ou “Touch not the cat” (1976)[3].

Também não se deve esquecer que o êxito da Trilogia no Brasil veio no bojo de um daqueles periódicos recrudescimentos do interesse pelo ciclo arturiano; nesse caso, o maior responsável foi o ciclo As brumas de Avalon (1983), de Marion Zimmer Bradley— e também o filme Excalibur, de John Boorman, lançando em 1981—, cuja maior consequência, uma vez que se voltava para uma figura comumente secundária na trama geral, a fada Morgana, foi ter criado uma febre pela releitura do papel de outros personagens que orbitavam em torno de Arthur e dos cavaleiros da távola redonda; tanto é assim que, paralelamente ao trio de romances de Mary Stewart em torno do mago Merlin, a Best Seller publicava a Trilogia de Guinevere (1987-93) da norte-americana Persia Wooley[4]. De modo curioso, são as mulheres que capitaneiam as releituras da velha lenda patriarcal (talvez concretizando a farpa verbal lançada por Morgause a Merlin: “Tem mesmo certeza de que estais protegido da magia das mulheres?”)

A singularidade da série de Mary Stewart está em apresentar a juventude de Merlin, visto sempre como homem maduro ou mesmo um ancião. Os três volumes fazem uma impressionante reconstituição de uma época, o século V d.C., quando, na Bretanha (Inglaterra e parte da França) confluíam tradições romanas, celtas e bárbaras, iniciando assim a Idade Média.

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Merlin é o filho bastardo de Ambrosius, o homem que inicia o trabalho de unificação da Bretanha, continuado por seu irmão Uther e consumado pelo filho deste, Artur. Criado longe do pai, desde a infância Merlin tem visões que o diferenciam (e uma aparência “morena”, a qual, como acontece com a Morgana de Brumas de Avalon, o marginaliza de seu povo). A caverna de cristal gira em torno do reconhecimento de Merlin por Ambrosius e de como este utiliza os dons do filho para sua vitória. Após sua morte, Uther tem uma noite adúltera com Igrayne, que gerará Artur, o qual será escondido por Merlin e cuja educação é o centro de interesse (bem absorvente) de As colinas ocas; O último encantamento, por sua vez, fixa a decadência dos poderes de Merlin — após o triunfo de Artur — e seu amor por Nimuë (o ex-pupilo fica espantado: “Pensei que você fosse um sábio”, ao que ele retruca: “Porque sou um sábio, sei bem demais que o amor não pode ser contestado. Aconteça o que acontecer daqui por diante, é tarde demais...”), que ficará como sua sucessora.

São 1.300 páginas de um fôlego épico (malgrado o narrador não ser um guerreiro) que inexiste, por exemplo, nos quatro volumes de Marion Zimmer Bradley, cujo maior defeito é banalizar a grandiosa (e ao que parece inesgotável) lenda através de cenas domésticas que parecem recortadas do cotidiano norte-americano contemporâneo. Na trajetória de seu Merlin, Stewart compõe um mapa ficcional da Bretanha, explorando cada parte dela com uma riqueza de detalhes geográficos e topográficos e um emaranhado de personagens, e isso incrivelmente não atrapalha em nenhum momento a leitura. E assumindo a voz de Merlin (o relato é em primeira pessoa), cria um personagem fantástico, e não só ele. Há uma grande vilã, Morgause, meia-irmã de Artur, que tem um filho com ele e envenena o seu tutor, cumprindo um papel que geralmente é atribuído a Morgana (como no belo filme de John Boorman), e o próprio único e eterno rei aparece mais aprofundado e interessante que em outras versões, nas quais parece mais uma marionete do destino.

Difícil dizer qual o melhor volume. Cada qual apresenta sua voltagem de emoção e ritmo próprio, e portanto todos são memoráveis, embora o leitor saia meio desconcertado da leitura do terceiro (por causa do final)[5], que ainda assim apresenta a passagem mais extraordinária de toda a massa narrativa, quando Merlin é enterrado vivo e acorda na sua tumba (a caverna onde foi instruído na magia), sem poderes:

    “…e eu continuava deitado no estranho limbo criado por um corpo inerte e uma mente ativa (…) Não havia a menor esperança de mover as pedras que selavam minha tumba, mas eu talvez conseguisse atrair a atenção de alguém que passasse por ali. Esse local era um santuário desde tempos imemoriais e pessoas do vale subiam regularmente o monte levando oferendas para o deus que guardava a fonte sagrada ao lado da caverna. Era bem possível que agora esse ponto tivesse se tornado ainda mais santo, porque Merlin, o profeta do Grande Rei, mas que primeiro fora o médico dessa gente humilde, estava enterrado ali…”

Bela e apurada como entretenimento e narrativa, rica como alegoria místico-política de um momento-chave da história ocidental (em “As colinas ocas”, Merlin nos diz: “… fui obrigado a continuar cuidando da capela. Imagino que qualquer outro, como o Velho, manteria o lugar para seu próprio deus, mas esperei apenas que qualquer um o ocupasse…”), a Trilogia de Merlin deixa a sensação (quiçá injusta) de que as brumas exploradas posteriormente não passam de fumaça diante dessa construção romanesca de primeira.

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(uma versão do texto acima foi publicada no Letras in.verso e re.verso, em 28 de janeiro de 2015, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/01/merlin-revive-nova-edicao-da-trilogia.html)

_________________________________________________________________

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[1] A autora acrescentou posteriormente dois livros à série, The Wicked Day (1983) e The prince and the pilgrim (1995)

[2] Traduzido no Brasil também como “A gruta de cristal” (ed. Record)

[3] Mas há vários outros de sua autoria traduzidos no Brasil. Considero “Não toque no gato” (que li numa edição do Círculo do Livro)  muito bom, dentro do seu gênero.

[4] De resto, todos esses ciclos têm sua origem na mais prestigiada de todas as retomadas das lendas arturianas, uma das obras literárias mais amadas do século passado: a tetralogia “O único e eterno rei” (1938-1958 — há ainda um volume póstumo, publicado apenas em 1977), de T.H. White, cujo falecimento em janeiro de 1964, aos 57 anos.

[5] “Agora chegamos à parte de minha crônica que é a mais difícil de contar. Se é ou não verdade que o cometa com cauda de dragão veio anunciar o fim dos poderes mais elevados do mago Merlin, como afirma a crença popular, o fato é que não tenho certeza se o que lembro foi real ou um sonho.”

Lady Mary Stewart

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8 Comentários »

  1. Alfredo, boa tarde; Seu site é muito bom, encontrei por acaso e estou gostando muito. Continue com o belo trabalho.

    Att,

    Luiz

    Comentário por Luiz Eduardo — 30/01/2015 @ 18:08 | Responder

    • Obrigado, Luiz Eduardo. Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 30/01/2015 @ 19:14 | Responder

  2. Descobri a trilogia em 2003 quando tinha 15 anos. Li e me apaixonei pelo primeiro e depois de um tempo encontrei a trilogia num sebo por preço de banana. Capa dura, ótimo estado! Infelizmente emprestei e nunca mais os vi. Comprei online O Último Encantamento na mesma edição que eu tinha e A Caverna de Cristal na versão de 2010 (acredito ser o último exemplar no Brasil por N motivos). Hoje descobri a edição mais recente, de 2014 e estou pirando. Já quero os outros dois volumes pois o primeiro já está em mãos!!! Ótimo texto.

    Comentário por Vinicius Mendes — 09/06/2015 @ 17:26 | Responder

    • Qualquer dia preciso reler a Trilogia, Vinicius, ela me apaixonou nos anos 1990. Obrigado por seu comentário.

      Comentário por alfredomonte — 09/06/2015 @ 19:41 | Responder

  3. Alfredo, bom dia!

    Recebi por email o coment´raio deste livro e me lembrei: quero comprá-lo, mas gosto mais da capa antiga. A tradução dos volumes antigos são boas? e essa trilogia é uma boa complementação para a lenda do rei arthur, lançada recentemente pela zahar? fico no aguardo, obrigado!

    Comentário por luizsidi — 12/06/2015 @ 11:46 | Responder

  4. Esqueci de perguntar: ‘[1] A autora acrescentou posteriormente dois livros à série, The Wicked Day (1983) e The prince and the pilgrim (1995)’ são bons também? pena que não os editaram no Brasil… abs!

    Comentário por luizsidi — 12/06/2015 @ 14:26 | Responder

    • As traduções são bastante razoáveis, e os não-lançados no Brasil eu não conheço. Quanto à complementar o lançamento da Zahar, se você está se referindo à versão do Howard Pyle, ela é apenas uma das inúmeras versões, muito bonita visualmente, decerto (ele era ilustrador também). O ciclo arturiano é infinito e, quanto a fontes originais, anônimo. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 12/06/2015 @ 16:43 | Responder

      • Sim sim, sou fã do pyle como ilustrador, também. E essa edição da zahar tem uma bom prefácio, contando a cronologia da obra e seu começo anônimo, de bases e releituras. Então a tradução dessa edição da Hunter é melhor? Última questão: essa série da Stewart inventa muita coisa ou respeita a mitologia tradicional do círculo Arthuriano (nomes, descendências etc)?

        Abs!

        Comentário por luizsidi — 12/06/2015 @ 17:07


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