MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/01/2015

O atulhamento e o vácuo do universo familiar: “Fôlego”, de Rafael Mendes


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“Em que parte da memória estão armazenadas as palavras exatas que ele falava depois de umas cervejas no sangue, quando decidia reunir a família na cama de casal e, através de promessas sem sentido, nos fazia chorar?” (trecho de Fôlego)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de janeiro de 2015)

“Você há de concordar comigo quando afirmo que as nossas lembranças mais significativas, as minhas, as suas e as de Mateus, estão sempre atreladas ao pai, ele estivesse presente ou não…”

Assim Manuela se dirige a Pedro, filho do pai com outra mulher (ele manteve duas famílias paralelas), incitando-o a colaborar na reconstrução do passado, que até então parecia ser a tarefa de Mateus, narrador da maior parte de Fôlego, estreia num texto mais longo do paulista Rafael Mendes, 31 anos, após um livro de contos, “A Melhor Maneira de Comprar Sapato”.

O relato de Mateus (entremeado com curtas intervenções da irmã, a partir do enterro do pai — que cometera suicídio) pontua a “derrota” desse estranho pater familias, incapaz de sair do círculo sufocante da dependência dos sogros, vivendo num puxadinho ligado à casa deles, encanador mais por bico do que por competência — segundo o filho, “E além de tudo era um mau encanador”[1]; na visão da rebelde Manuela, “Pai, o senhor tá fedendo a merda; se fosse pela sogra, como ela confidencia, já viúva, à filha, casada com ele (e evangélica fervorosa), tudo seria diferente, contudo a decisão do marido de “ajudar o genro” amarrou o destino de todos: “Se o Paulo não fizesse isso, contra a minha vontade, talvez você estivesse em Curitiba uma hora dessas, e a história seria outra…”, instaurando uma onipresente sensação de falta de espaço, de corpos e fados se entrechocando, tendo como cristalização a asfixiante asma do narrador.

A história não pode ser outra, o vivido é um só. Fôlego mostra que a história, todavia, é sempre outra, mesmo com esse sufoco todo, daí a outra família, a existência paralela levada em outra cidade, e sobretudo o suicídio desconcertante, que coloca a todos em xeque. E enquanto Manuela escolhe o caminho do confronto, a partir da orientação sexual, Mateus tentará dilatar esse mundo de confinamento e aperto com uma trajetória “proativa”, como se costuma dizer, ascendente. Malgrado esse projeto, otimista e frágil, a história sempre é outra, e sua narrativa terá de ser completada pelos irmãos, tarefa em aberto, ligada ao futuro enraizado a esse passado, a esse pai fugidio e esquivo, presença-ausência, eterno retorno…

O ponto fraco da novela de Rafael Mendes reside numa certa falta de confiança no leitor: Mateus e Manuela às vezes atropelam a nossa leitura e já querem nos impor, com um discurso quase didático, a “moral da fábula”, as conclusões que nós mesmos poderíamos tirar desse universo de afetos no ambiente da periferia da Grande São Paulo. Um exemplo: “Alguém precisava contrabalançar a minha postura egoísta, a minha intempestividade, e esse alguém só podia ser ele. Talvez seja por isso que nesses dias nos mantivemos distantes um do outro. Só mesmo Mateus para aguentar tudo calado, pacientemente, ainda que lhe sufocasse. Agora, no entanto, eu entendo que aquela postura era um embuste, um disfarce, e que na verdade quem mais sofreu com a situação que vivenciamos foi o Mano.”!!??

O vigor do texto está justamente em que, assim como os personagens se recusam a ser apenas os partícipes de uma “só história”, unívoca e coesa, as palavras ajudam a compor um quadro no qual o que é deixado à sombra se impõe — as vidas dos avós, da mãe (diga-se, de passagem, que um dos méritos de Fôlego é se furtar totalmente ao vezo redutor, para não dizer caricatural, com que o fervor evangélico é comumente retratado), da outra mulher do pai e, claro, deste, que por si só valeria a leitura. E um dos momentos mais bonitos da nossa ficção mais recente é justamente a apreensão, num pequeno haicai narrativo sobre a aparência desse pai, no último encontro com o filho, que conjuga seu “fracasso” e o seu “mistério”: “Na lanchonete, meu pai tomava cerveja no balcão. Pediu um x-salada para mim e mais uma garrafa para ele. O lugar estava cheio de gente (…) Um cheiro de fritura, uma faladeira, um abafamento que sobrevinha da chapa quente. Eu não queria dizer nada e também não queria ouvir. Meu pai tomou um gole. Disse que se sentia cansado, que trabalhou o sábado inteiro, que no dia seguinte começaria um novo serviço. Vi suas têmporas inchadas, sua barba por fazer, as olheiras, os fios de cabelo branco. Não estava feio, mas nas já não era bonito.”

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TRECHO SELECIONADO

“Ela nunca me disse nada a respeito disso, mas para mim não é absurdo que minha mãe tenha se apaixonado pelo meu pai à primeira vista (…) Frequentando os botecos, meu pai já conhecia as mulheres solteiras do bairro. Mesmo sem querer, ele as cativava, atraía para si os olhares. Até mesmo as mocinhas de família e algumas donas de casa reparavam nele. Meu pai falava pouco, apenas o necessário. Embora modesto, de gestos contidos, ele conservava um charme natural; era diferente, misterioso, convidativo. Esse jeito dele chamou a atenção também de minha mãe. Não foi com dificuldade que ela ouviu os elogios dele, nos dias seguintes ao serviço feito na casa de meu avô. Meu pai a acompanhou ao colégio algumas vezes; fazia o favor de carregar as sacolas de frutas se topasse com minha mãe na feira. E em cada oportunidade ele articulou um  gracejo, um comentário breve, aludindo à beleza dela: a pele branca, os traços finos, os olhos claros. Minha mãe não demorou a gostar daqueles elogios, a esperar por eles, a andar devagar pelas ruas do bairro, na expectativa de encontrar meu pai…”

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______________

NOTA

[1] Ser um “mau encanador” de certa forma contraria o atavismo sufocante das frases imediatamente anteriores à passagem: “Para mim, meu pai já nasceu encanador. Já nasceu com as mãos sujas, com o macacão fedorento, carregando aquela caixa de ferramentas pesada.”

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