MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/01/2015

Destaque do Blog: ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO- O SENHOR DO LABIRINTO, de Luciana Hidalgo


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“É que alinhavar toda uma existência dava muito trabalho. E exigia toda a linha disponível no mundo dos homens.” (Luciana Hidalgo)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de janeiro de 2015)

   A aguardada exibição de sua versão cinematográfica em circuito comercial renova o interesse por Arthur Bispo do Rosário- O Senhor do Labirinto, publicado em 1996.

Não que o livro de Luciana Hidalgo (que co-escreveu também o roteiro do filme de Geraldo Motta e Gisella de Mello) precisasse disso. Premiado, referência absoluta no tocante à vida do artista que passou a maior parte da sua longa existência institucionalizado em manicômios (da véspera do natal de 1938, data de uma transfiguradora experiência “mística”— ou de um radical surto esquizofrênico — até sua morte, em 1989), realiza uma admirável mescla, bem ao modo de seu protagonista, cuja  característica é o aproveitamento de materiais diversos (tornando-se assim um pioneiro da pós-modernidade), de biografia e ensaio, numa narrativa que lembra o rendendê, o bordado de incomum refinamento praticado na terra natal de Bispo do Rosário, nascido em 1909 em Japaratuba (“rio de muitas voltas”),  em Sergipe.

Mas foi noutro Rio (a Cidade Maravilhosa), com outras voltas, que o nordestino negro e pobre teve seu encontro com a nêmesis da doença mental diagnosticada, malgrado sua personalidade ímpar ter sempre permitido que ele estabelecesse suas próprias regras, e principalmente suas obsessões estéticas, de forma que, ao ser “descoberto” pela imprensa e pelo establishment das artes plásticas (paralelamente à abertura política do começo dos anos 1980 e à mudança na orientação do tratamento psiquiátrico, até então beirando o mundo totalitário das mais sombrias distopias), era “o senhor de seu latifúndio, um grande salão rodeado por dez quartos-fortes, dignos de seu mundo. A sala de espera do juízo final.”

Como demonstraria depois num excelente romance sobre Lima Barreto (O Passeador, Rocco, 2011), a talentosa escritora carioca desenha universos interiores de urgência crônica, contrapostos à marginalidade e exclusão forçadas, caminhando no fio da navalha entre normalidade e insanidade (tal como etiquetadas pela medicina em voga em determinada época), fracassos e pequenas vitórias obtidas a alto preço (em termos pessoais).

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No caso de Arthur Bispo do Rosário, sua vocação demiúrgica, de salvação do mundo, através da criação de mantos (como o célebre Manto da Apresentação), estandartes, “assemblages”, isto é, colagens com objetos, ou, como caracteriza a biógrafa, numa das suas formulações exemplares, “pequenos bazares do universo. Um dos elementos mais importantes dessa recriação minaturizada do mundo era a nomeação (de pessoas, em especial): “Quando eu subir, os céus se abrirão e vai recomeçar a contagem do mundo. Vou nessa nave, com esse manto e essas miniaturas que representam a existência. Vou me apresentar.”

Luciana Hidalgo, com toda a fidalguia já inscrita no seu sobrenome, nos apresenta a vida e a obra de Arthur Bispo do Rosário sem condescendência ou melodrama, e também sem aparatos conceituais, tentando explicá-la, torná-la palatável e unívoca. Rio de muitas voltas, o senhor do labirinto é um exemplo do descaso, da injustiça, das mazelas sociais[1], e um indivíduo complexo e inesgotável (além de um poderoso criador). Até um momento biográfico especialmente delicado, seu conturbado relacionamento (platônico) com a estagiária Rosangela Maria Grillo, é narrado com uma sobriedade que o torna mais triste e contundente. Não que o veterano paciente da Colônia Juliano Moreira não lance suas frases dignas do teatro elizabetano: “Tudo bem, eu já entendi. Pode ir que eu vou ficar por aqui reconstruindo o mundo.”

Aliás, o estilo de O Senhor do Labirinto (afora seu personagem, claro), é a sua maior força. Tratando de uma vida com escassas fontes, toda ressignificada pela loucura e pela cifrada combinação de signos e materiais artísticos, sem maiores alardes, quase como quem não quisesse nada, essa ariadne dos labirintos de vidas descarrilhadas vai inoculando no leitor sua prosa ao mesmo tempo faca só lâmina e rendendê de grande beleza: “O tempo, fosse qual fosse, urgia, era precioso”. Ela e Arthur Bispo do Rosário nos fazem sentir isso no coração e na mente a cada palavra.

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 NOTA

[1] Somos apresentados às “sórdidas estatísticas” ligadas ao tipo de instituição que era um manicômio ao longo do século passado, e que coincide justamente com a biografia de Bispo do Rosário, a não ser em seus últimos anos.

Diga-se de passagem, tem sempre alguém que evoca o que foi feito no regime soviético, especialmente no período stalinista, com dissidentes de toda ordem (e, de fato, foi um horror inominável), como uma espécie de epítome do totalitarismo.

Mas o que pensar do discurso abaixo, feito pelo diretor empossado da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, ao lançar a pedra fundamental do manicômio?
Também não se propõe uma erradicação, por segregação, de indesejáveis e dissidentes? Pior: é um discurso ainda presente, sob novas roupagens:

“Foi, pois, jubiloso e esperançado que compareci a esta festividade,  a fim de saudar o Sr. Ministro da Justiça, que vem remodelando a Assistência a Alienados, pela fundação destas Colônias… e pela provável promulgação de uma nova legislação na qual serão resolvidos delicados problemas atuais de higiene e defesa social pertinentes aos deveres do Estado para com os tarados e desvalidos da fortuna, do espírito ou do caráter,  para com os ébrios, loucos e menores retardados, ou delinquentes e abandonados, assim como para com os indesejáveis inimigos da ordem e do bem público, alucinados pelo delírio vermelho e fanáticos das perigosíssimas e sanguinárias doutrinas anarquistas ou comunistas, do maximalismo ou bolchevismo.”

   Com referência ao período pós-1964, lemos: “Um conflito que impediria a liberdade no país, sem mudar muito aquele asilo de alienados, cárcere público, quartel-general de vidas há muito cassadas.”

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