MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/12/2014

SUSAN SONTAG (1933-2004), SEU ROMANCE VULCÂNICO E SUA REPUTAÇÃO INCANDESCENTE


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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de janeiro de 2005)

Em minha resenha de 25 de julho de 1993 (VER ABAIXO), sobre O AMANTE DO VULCÃO[1], incorri num grave erro de avaliação. A morte recente de Susan Sontag (28 de dezembro, aos 71 anos) proporciona a chance de corrigi-lo, já que apareceu na imprensa muita bobagem mesquinha e vingativa a seu respeito. Chegou-se até a falar de um suposto “insucesso literário”, que “não a amargurou a ponto de desinteressá-la pelas qualidades alheias (vaticina num tom “simpático” Nelson Ascher, na Folha de São Paulo). Quem, entretanto, leu O amante do vulcão  sabe que se trata de um dos mais belos romances do final do século passado.

O meu erro consistia em afirmar que era preciso esquecer a Sontag pensadora para apreciar a emoção e o impacto do livro, centrado no triângulo amoroso formado pelo casal Hamilton e o Almirante Nelson no final do século XVIII.

Na verdade, o veio ensaístico percorre toda a estrutura narrativa e a alimenta. Amalgamam-se reflexão, biografia e colagem romanesca, ou seja, vemos em ação o gosto enciclopédico que marcou o romance modernista. Mais ainda, Sontag parece ter aglutinado preocupações e inquietações de toda uma vida (e que vida!), dadas a vivacidade e fluência com que instila habilmente ideias  no transcorrer da longa existência de Lord Hamilton, embaixador inglês em Nápoles, desde seu primeiro casamento, quando se destaca como cortesão, como colecionador (as reflexões sobre o ato de colecionar são um capítulo à parte) e como estudioso do Vesúvio.

Viúvo, toma como esposa a antiga amante de seu sobrinho favorito, e passará para a História como um famoso corno, em razão do romance dela com o maior dos heróis britânicos no período napoleônico. Aliás, Sontag, que nos faz gostar muito dos seus personagens, não os poupa no tocante às infâmias que cometem por defender os privilégios do Ancien Régime: instigado por sua paixão por Emma Hamilton, Nelson concordará em participar da terrível perseguição, em Nápoles, àqueles que presumivelmente aderiram ao “espírito revolucionário”, o qual acarretou a deposição da monarquia francesa.

Passado esse momento de erupção passional (da História, do amor entre os dois, do esgarçamento do espírito clássico rumo ao temperamento romântico), o julgamento dos compatriotas do trio (e da posteridade) não é nada generoso. Nelson é ainda poupado (a culpa recai sobre a mulher, a tentadora) por ser um herói popular, uma “lenda viva”: “Ele é um guerreiro, o melhor já produzido por seu belicoso país, prestes a tornar-se a maior potência imperial que o mundo já viu. Todos os admiram. A criação da sua reputação já foi longe demais. Não se pode permitir que seja destruída. Mas quem se importa com uma mulher gorda e vulgar ou esse velho emaciado e exausto? Eles podem ser destruídos. A sociedade não terá nada a perder. Nada de importante foi investido neles.”

   Ascher vaticinava em seu horroroso necrológio uma purificação póstuma de Susan Sontag das “polêmicas circunstanciais” em que se meteu devido às convicções políticas (equivocadas, para ele). Nisso, compartilhará o destino da sua maravilhosa heroína de O amante do vulcão:  ambas nunca vão dar paz a seus detratores incomodados, sempre serão maiores do que o destino que querem impor a elas.

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  25 de julho de 1993)

É preciso esquecer um pouco a Susan Sontag ensaísta para aproveitar a emoção e o impacto do romance O amante do vulcão, no qual o talento literário da autora explode como o Vesúvio, centro das atenções do protagonista, Lord Hamilton.

Uma figura histórica: é o embaixador inglês da Nápoles do século XVIII. Após a morte da esposa, recebe “de presente” do sobrinho a cortesã Emma, com quem acaba casando. Estouram as perturbações revolucionárias e surge o Almirante Nelson, com sua irresistível aura de herói. Uma existência que era a observação impessoal da fúria e do terror da natureza (o vulcão) passa a testemunhar a erupção dessa mesma fúria e terror nas convulsões sociais e também dos debates passionais de um triângulo amoroso.

Já se disse (Kundera) que há três possíveis modos de narrar: ou se conta ou se descreve ou se pensa uma história. O último caso, que é o de O amante do vulcão, implica uma colaboração explícita do narrador, de uma persona de que ele se serve para comentar o que está narrando. Sontag acompanha Hamilton com carinho, muito próxima, quase como que sussurrando no seu ouvido. Pode não mudar em nada o destino dele, porém nos envolve apaixonadamente em suas cogitações, até na relutância e reticência de sua vida interior, esse vulcão inativo.

Hamilton é um colecionador, e Sontag faz inesquecíveis reflexões sobre o ato de colecionar, o que já seria digno de nota dada a qualidade da prosa. Mas ela ainda demonstra um fôlego vulcânico ao nos mergulhar na época em que o romantismo e toda a ideologia burguesa dos valores individuais, dos “abismos” pessoais, começam a se delinear.

Há um ritmo à Vivaldi,  ora num andamento ligeiro, milagrosamente leve, ora com uma melancolia que representava uma portentosa sensação crepuscular, bem apropriada a uma época agonizante, mas sem necessidade de grandiloquência. Passamos da grotesquerie operística da corte de Nápoles (muito antes da unificação italiana), com seu rei que detesta ficar sozinho (até para defecar precisa de companhia) à torrente irracional e alucinante da turba massacrando a família de um duque sem saber exatamente por quê.

Pois a sociedade e o indivíduo, como o vulcão amado por Hamilton, têm seus períodos adormecidos. E de repente tudo pode ficar incandescente. O que seria um bom adjetivo para esse grande e afortunado romance.

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NOTA

[1] The Volcano Lover (1992), que comento na tradução de Isa Mara Lando.

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