MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/11/2014

O PROFUNDO DAS COISAS E A CONTORÇÃO DAS VÍRGULAS: a problemática edição de “Nossa Teresa- Vida e morte de uma santa suicida”


1michelinynossa teresa

“Tolerar, ao contrário do que se vende por aí, não significa aceitar, aceitar com plenitude, como requer qualquer verdadeira aceitação. Tolerar significa, antes, uma espécie de licença especial para que o outro, com seus exotismos e discrepâncias, possa existir. Tolerar é aguentar o outro apesar dele mesmo. É tomar xicarazinhas de café e sorrir no cumprimento, e, sob a impunidade das portas fechadas, sejam elas as de casa ou a do próprio coração, reconstruir o outro segundo os moldes que nos interessam e que no outro não se encaixam.” (trecho de Nossa Teresa)

“O profundo das coisas não está na pauta do dia. De nenhum dia.” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 2014)

Devido ao arrojo e à qualidade, inclusive dos projetos gráficos, a Patuá tornou-se o selo editorial independente mais prestigiado do país. É comum ver títulos do seu catálogo entre os finalistas dos prêmios mais badalados. E é bem possível que isso aconteça (não obstante certos reparos que farei a seguir) com um de seus últimos lançamentos, Nossa Teresa – Vida e morte de uma santa suicida, romance de estreia (após alguns livros de poemas) da pernambucana Micheliny Verunschk, aos 42 anos.

Em V., cidade interiorana onde a estatística de suicídios impressiona (“o suicídio em V. é uma doença antiga, mas as pesquisas não avançam, porque para analisar o tema a cidade se fecha em copas”), havendo um Cemitério dos Proscritos (o suicídio sendo anatematizado em todas as religiões — mas, se olharmos de perto, os mártires e santos não foram suicidas?) a fervorosa adolescente Teresa, cujo nome evoca outras figuras femininas da tradição católica, mata-se, abrindo caminho para que o ambicioso padre Simão ascenda na hierarquia da igreja até ser eleito papa. Ele, “que tinha consigo a certeza de que os caminhos para alcançar a mão de Deus são mais que tortuosos, incapaz por si próprio de ser um “santo homem de Deus, no entanto “não deixava escapar a íntima vontade de descobrir, lapidar, orientar a santidade de alguém.

A canonização de Teresa, com seus trâmites burocráticos e ligados ao mundo material e mercantil (“O que não contou para sua canonização , no entanto, foram as histórias de vida daqueles tantos que a sua mão, a força do seu exemplo, conduziu pelos caminhos  do suicídio, coisa realmente espantosa”), é a espinha dorsal do relato, feito por um narrador que, em razão de um “acidente isquêmico transitório” fica cego e a um só tempo guia o leitor e discute continuamente com ele, açulando-o (“foi como pás de terra sobre um vivo que eu quis compor essa narrativa, foi como uma tampa de madeira sobre um cataléptico que eu quis contar a minha história), através do passado de V., seus cidadãos suicidas, e também por delírios e êxtases religiosos (em meio à fome, à guerra, ao desconcerto geral do mundo), tais como o sebastianismo e o terrorismo movido pela jihad, compondo uma cartografia narrativa estilhaçada e múltipla do que a religião tem tanto de processo civilizatório quanto de instrumento da barbárie.

Agregadas, portanto, à curta (em número de anos vividos) e longa (após a morte) existência simbólica de Teresa, outras autoimolações, como a de Severa, grávida do professor do filho, futuro escritor famoso, ou a de Samir, que explode um avião, como ato de fé; biografias que a narrativa sugere, mas não desenvolve, como a de outra Teresa, que daria “um livro igual a esse que você lê agora. Talvez até melhor; e mesmo aqueles que não se suicidaram, nem por isso deixaram de ser afetados pelo ato, como os pais de Teresa, recusando a devoção em torno da filha.

Nossa Teresa apresenta até uma virtual biblioteca de suicidas (também uma Babel, pois há na essência das mensagens para os que ficam “uma importante falha no ato comunicativo”)[1]. Outro momento a destacar é o capítulo de depoimentos de diversos conterrâneos da santa. Aí, temos a medida do talento inegável de Micheliny Verunschk.

Infelizmente, houve açodamento no lançamento do livro. É evidente que, com seu background poético, sua verve narrativa e o escopo temático que sua inventiva explora, seu texto não está suficientemente lapidado: “nenhuma vírgula se contorce se não for para o bem da exatidão, afirma o narrador, em suas contínuas espicaçadas no leitor. No entanto, não é o que constatamos ao longo do leitura. Há imagens e afirmações de gosto duvidoso, passagens de prosa inflada e que pouco acrescentam ao vigor da narrativa, escorregadelas em lugares comuns (o que é bem diferente de trabalhar criativamente com afirmações repisadas do tipo “do pó vieste, ao pó voltarás” ou “nada de novo sob o sol”)[2] e assustadores deslizes gramaticais, inaceitáveis numa autora que trabalha em alta voltagem de linguagem[3].

Todos cometemos erros aqui e ali, parece quase inevitável, e nesse ponto é que entra o crucial trabalho de editoração; por isso, a publicação de Nossa Teresa, tal como está, foi bastante precipitada e inglória: além da ausência, de revisão do texto digna do nome (o que Flávio Rodrigo Penteado, o responsável, fez exatamente?), a impressão acrescentou outros horrores, separando palavras, de uma linha para a outra, de maneira bisonha[4].

Tal como está, Nossa Teresa ficou como o arcabouço apaixonante de uma obra que pode, ainda, transformar-se num exemplo relevante da nossa ficção recente, digna de todos os prêmios. Por mais que respeite tanto o arrojo da autora como da editora (caso não esmoreça no nível de qualidade, sua marca até agora), uma segunda edição, completamente revisada, se faz urgente.

sitenossa-teresa

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NOTAS

[1] “O que significam a carta, o bilhete, a anotação feita às pressas, o diário, o poema, o testamento do suicida? Quantas tristes, curiosas, eloquentes,  saudosas, raivosas mensagens se acumulam nas palavras finais daquele que nos deixa. Quanta culpa deixou de herança o seu suicida? Você a partilhou com quem? Com um? Com muitos? Com nenhum? É uma exclusividade sua, a qual acaricia como a um animalzinho insone nas horas mais terríveis? Acaso conseguiu esquecê-la? Não se despreza um presente, ainda que este seja uma mágoa.

   Teresa não deixou uma linha sequer. O que queria dizer ela com isso? (…) Não será importante esse pedaço de papel, por mais ínfimo que seja (…) pelo menos para tentar comunicar o incomunicável?

    Teresa brinca entre as exceções , mas a regra diz que , caso se quisesse, poderia ser erguida uma Biblioteca de Babel com todas as mensagens desses náufragos (…) Em V., a sucursal dessa biblioteca imaginária não seria tímida, bem sabemos. O prédio para abrigá-la poderia ser apropriadamente a antiga casa colonial da Rua do Mercador, a mesma na qual nascera e morrera Luis Osvaldo de Azevedo. É de praxe esse tipo de homenagem a escritores, embora haja quem prefira saudá-los com um nome de rua ou praça ou até com uma estátua mal-ajambrada numa localidade qualquer em que o dito desavisadamente passou. Soubesse que o colocariam ali em duro metal, estático à merda dos pombos e maus cheiros de toda ordem da cidade, teria mudado de trajeto, talvez de trajetória.

   A biblioteca dos suicidas de  paredes verdes por fora e vermelha por dentro sugeririam um aconchego de fruto ou a queda num poço. Eu poderia ser o bibliotecário. Sou vaidoso e gosto do papel. Me orgulharia de saber a exata localização de cada volume. As mensagens, encadernadas, catalogadas, organizadas por tema (morte por tiro, defenestração, envenenamento, enforcamento, asfixia por gás), sexo, idade, motivos aparentes (desilusão amorosa, dívida, problemas familiares, desajuste social) e, claro, maravilha das maravilhas, tudo estaria ligado em rede compondo uma árvore com infográficos, fotografias, relações de todas as espécies inclusive com suicidas  de outros lugares, famosos e anônimos. E eu, já cego, como cabe a todo genuíno bibliotecário, saberia os lugares e movimentos de todos pelo tato, pelo gosto,  pelos cheiros, pela audição, pelo sentido ultrassuperior que agrega todos os outros sentidos quando se é cego. E eu sentiria os movimentos dessa biblioteca pela respiração.”

[2]  “A vida não é uma novela. Seria, antes,  como tenho dito,  um novelo”!!!????

[3] Cf, por exemplo, págs. 123 e 140.

[4] Cf, por exemplo, págs. 36, 52, 125, 132.

nossa teresa resenha

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