MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/08/2014

O tempo que, apesar dos espelhos, caminha em uma única direção: o inquietante “F”, de Antônio Xerxenesky


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“Inúmeras coisas aconteceram, e não entendo a relação entre elas. Não consigo avaliar o princípio nem o rumo que os acontecimentos estão tomando. No final das contas, praticamente fui envolvida nisso sem saber…”  (“1Q84- Livro 3”)

“Por alguns dias, escutei Bruce Springsteen, este americano tão americano, um músico mais afeito às guitarras do que aos sintetizadores, um roqueiro à moda antiga, e pensei nas possibilidades de vida que se espraiavam diante de meus olhos, ainda mais com tanto dinheiro para gastar (…) para não precisar me preocupar com o assunto por meses, um tempo para apreciar o ócio e as tardes inúteis, um tempo para assistir a mais filmes (…) e por dias posso me dedicar apenas a percorrer Los Angeles de carro ou a pé, fingindo que sou uma turista sem rumo ou mapa, enxergar a luz das cinco da tarde sem óculos escuros, com os olhos curiosos de quem nunca viu o sol.” (“F”)

“Não tinha para onde voltar, e não tinha para onde ir, pois todo lugar é qualquer lugar.” (“F”)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de agosto de 2014)

Na Granta-Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros (2012), seleção de textos de 20 ficcionistas nascidos a partir de 1972, um dos destaques incontestáveis era F para Welles, excelente amostra de um romance em preparação, criando enorme expectativa[1]. No ano em que seu autor, Antônio Xerxenesky, completa 30 anos, enfim aparece F.

Assim como o badalado (e recém-traduzido) 1Q84, de Haruki Murakami, o relato tem como protagonista uma peculiar assassina de aluguel agindo em meados da década de 1980: aos 25 anos, Ana já tem reputação assegurada na área das execuções. A sua próxima vítima é o septuagenário Orson Welles, lenda viva do cinema que nem assim consegue financiamento para levar a cabo seus projetos: o último foi o incompreendido e inovador F for Fake (aqui no Brasil, Verdades e Mentiras), de 1973.

Como faz todas as vezes, ela procura conhecer minuciosamente o alvo, por isso mergulha na obra do diretor de Cidadão Kane, a princípio não se impressionando nem um pouco. Até que um dia recebe o impacto tardio de uma das imagens daquele incensado filme, realizado aos 25 anos (para a desgraça futura do seu realizador): abandonado pela esposa, isolado e obsessivo, Kane atravessa “um corredor que tem espelhos nas duas paredes. Ao passar pelos espelhos, o reflexo de um reflete o do outro, gerando uma continuidade de imagens que prossegue até o infinito.” É o signo do sombrio e tortuoso processo que fará Ana se dar conta do que é viver no pós-tudo, principalmente ao conviver com Welles em Los Angeles, como suposta assistente de uma nova produção dele (baseada em Os sonhadores, de Isak Dinesen/Karen Blixen, onde uma mulher se multiplica em várias imagens para homens diferentes[2]): mais do que qualquer outra coisa, começa a desejar que ele consiga concluir o projeto, e desiste de eliminá-lo, embora no final acabe levando o crédito por sua morte…

Como esse avatar de assassina era até aí a sua “identidade”[3], que a defendia de memórias terríveis (o pai não só colaborou com a ditadura brasileira, aperfeiçoando máquinas para a tortura de presos políticos, como também abusava da outra filha, Lúcia), pouco movida por qualquer ideologia—embora seu treinamento inicial tivesse ocorrido em Cuba—, Ana tateia um mundo à volta cada vez mais fantasmático e perigosamente dissolvente, uma (ir) realidade onde começam a intervir irreversivelmente a batida eletrônica, as drogas sintéticas, a computação (todo o território da virtualidade) — os resultados de certas rupturas revolucionárias na estética e na percepção, como o modo de editar imagens realizado por Welles em F for Fake (antecipador do videoclipe), ou o som do Joy Division:

  “Sem acreditar em céu ou inferno, só me restava acreditar que, com minha morte, o mundo acabaria. Orson Welles não existiria, nem seu filme novo, nem Antoine, nem a boate, nem a música. A música por sinal era Isolation, do Joy Division, e me perguntei se Ian Curtis, antes de se enforcar no varal, tivera a revelação que estava definindo o som do futuro; que, assim como os Lumière definiram a mídia do século, e assim como Welles tinha inventado uma nova maneira de editar e estrutura um filme com F for Fake, Ian previra a música dos anos 80, o ruído e o silêncio, a distorção da guitarra coexistindo com a artificialidade noturna do sintetizador, e a sua voz—grave, em todos os sentidos—era uma mensageira que transportava um recado muito específico, uma mensagem de autodestruição, uma mensagem de morte. E então, enforcou-se no varal onde pendurava as fraldas de sua filha pequena (…) Porém, para Antoine, eu estava errada, Joy Division não tinha nada a ver com o som do futuro. Ele se identificava com o New Order, a banda formada pelos remanescentes do Joy Division, a banda interessada em deixar para trás o clima soturno e criar hits de pista. Bastava escutar com mais atenção algumas faixas do New Order, no entanto, para captar, preso em um acorde menor o fantasma de Ian Curtis, um espectro que, apostava Antoine, a banda precisava expulsar (…) Ele ignora, portanto, que a chaminé do crematório espalhou por toda Manchester—por todo o Ocidente—uma fumaça nascida dos restos mortais de Ian Curtis, que ninguém se livraria dele, muito menos os companheiros de banda que tanto conviveram com o rapaz saturnino […que…] tinha aberto um furo de alfinete no tecido da existência e olhado através dele, e pelo buraco enxergou o som do futuro, e enxergou o futuro, que é a morte. Someone take these dreams away/that point me to another day, ele pede, mas não será atendido, os sonhos continuarão apontando para um passado que não está mais lá, e não há retorno possível, o tempo caminha apenas em uma direção, rumo ao futuro, o futuro que ele profetizou, e o futuro, repito—mas repetições nunca são o bastante—, o futuro é a morte.”

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O F do título seria então de fake, o falso, a impostura, os pastiches que se tornaram tão lucrativos na indústria cultural como um todo, e cada vez mais reivindicados pelos próprios artistas? Seria F de futuro, afinal o Brasil de 1985 saía da ditadura, ainda como o “país do Futuro” (em contraponto com aquele futuro à Ian Curtis, vocalista do Joy Division, sintonizado com o aniquilamento melancólico; ou ainda uma visão do futuro, como a sugerida por uma carta do inquieto tio de Ana, em que as cidades do mundo se uniformizam de forma a mal se distinguirem umas das outras[4])? É uma questão em aberto, e é quase irresistível seguir esse caminho (como já o fez Paulo Roberto Pires na orelha da edição da Rocco)[5].

De todo modo, ao contrário da frágil fábula (outro F) levada a cabo pelo colega japonês, favoritíssimo ao Nobel , em 1Q84(tido como um dos livros da nossa época; a meu ver, fake em demasia para tanto), o romance de Xerxenesky mostra que uma ficção (mais um F) bem urdida e consistente pode ser construída a partir de elementos aparentemente gratuitos, disparatados e até mesmo inconciliáveis. Aliás, o autor gaúcho vem preencher a lacuna deixada pela morte, em 2002, de Roberto Drummond (penso em livros, justamente dos anos 80, como Sangue de coca-cola; Hitler manda lembranças ou Ontem à noite era sexta-feira). Nem sei se Xerxenesky é leitor ou fã do criador de Hilda Furacão, entretanto a incorporação de elementos pop na essência da narrativa é algo notável nos dois, orgânica e profunda, e sobretudo muito rara[6].

Também não sei se era sua intenção a impressionante apreensão de um fracionamento imaginativo (a partir justamente das coordenadas cada vez mais fortes do universo pop) que tem mais a ver, talvez, com a minha geração, a dos nascidos em 1960[7].  E a criação da “voz” da narradora é um feito à parte, como amiúde insisto nesta coluna. Ter conseguido plasmar a linguagem dessa personagem é uma prova de que Xerxenesky já não merece ser visto como “jovem promessa”: está em plena posse da maturidade como escritor. Como Flaubert, ele poderá dizer , sem complexo de vira-lata: “Ana c´est moi”[8]. E ela é um pouco todos nós também, perdidos neste mundo contemporâneo e (para usar ainda um F) fugidio.

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Artigo F

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NOTAS

[1] VER aqui no blog: https://armonte.wordpress.com/2012/11/13/sobre-a-granta-e-os-melhores-jovens-escritores/. Só que, embora tenha adorado o trecho antecipado na Granta, equivoquei-me ao considerá-lo pelo prisma “leve e divertido”, que não faz totalmente jus ao romance.

[2] A capa da edição da Rocco com o formato gráfico do F do título lembrando os letreiros finais da série Bourne (na qual o protagonista não sabe exatamente qual a sua identidade, assumindo várias como assassino governamental, depois trânsfuga) também nos coloca no caminho dessa multiplicação incessante.

[3] Que ela encontra “espelhada” em produções cinematográficas: “Na videolocadora, me deparei com um filme que me chamou a atenção pelo nome. Crente de que era uma obra situada no Japão feudal, tirei da prateleira a fita O samurai, de Jean-Pierre Melville, a história de um sujeito estoico que mora em um minúsculo apartamento em Paris e ganha a vida como assassino por encomenda. A partir daí desenvolvi uma curiosidade por todo e qualquer filme cujo protagonista é um matador de aluguel (…) Mas o mais curioso é que quase todos os filmes retratam o assassino à moda de Melville, ou seja, um tio frio e durão, que esconde sentimentos enterrados em uma profundidade inalcançável. Outsiders, pessoas que não funcionam em sociedade. Assistia a filmes de assassinos de forma compulsiva, mas não me identificava com nenhum.”

[4] “… não faço ideia de onde estarei quando você sentar à mesa para redigir uma resposta. Espero que não em Seul: muitos carros, muito ruído (…) Meu medo é de que todas as cidades, daqui a uns cinquenta anos, transformem-se em réplicas de Los Angeles. E pensar que eu adorava Los Angeles.”

[5] Como [ressalvadas as muitas diferenças] outro título ancorado numa letra (ou inicial) “desdobrável” ou refletida em muitas imagens: V., de Thomas Pynchon, no qual podemos ler: “O que são umas coxas abertas para o libertino, o voo das aves migratórias para o ornitólogo, a parte móvel da ferramenta para o mecânico de produção, assim era a letra V para o jovem Stencil. Sonhava talvez uma vez por semana que fora tudo um sonho, e que agora estava desperto ia descobrir que a busca de V. era apenas uma pesquisa escolar afinal, uma aventura da mente, na tradição do Ramo de Ouro ou da Deusa Branca”.

[6] Sim, porque mais comum é: ou o autor “pós-moderno” enxerta informação “eruditas”, que parecem tiradas diretamente do google, como fizeram tanto Rubem Fonseca nos seus piores momentos como também seus seguidores; ou o autor tenta fazer o mesmo com um referencial mais pop, como fizeram tanto Bret Easton Ellis nos seus piores momentos como milhares de outros.

[7] Que tanto se formou com as realizações “vanguardistas” da época e ao mesmo tempo com “enlatados” televisivos como Além da Imaginação, naquela ruptura de padrões culturais estanques que caracteriza em certa medida o triunfo da chamada pós-modernidade.

[8] Afinal, estamos num universo de obsessivos que não seria estranho ao autor de Madame Bovary. Como diz Welles a Ana, “a obsessão exige muito do corpo do homem, não é fácil manter uma obsessão”. Ana descobrirá na carne o que é percorrer esse caminho.

Sobre Welles, aqui no blog, VER: https://armonte.wordpress.com/2013/03/29/longe-da-fronteira-a-marca-da-maldade-o-romance/

Sobre Murakami e 1Q84, VER:

https://armonte.wordpress.com/2014/01/21/lua-de-papel-1q84-de-murakami/

https://armonte.wordpress.com/2014/01/28/1q84-livro-3-de-murakami-a-poltrona-vagabunda-seduz-mais-que-a-sabedoria-da-coruja/ 

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