MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/08/2014

Destaque do Blog: A PAIXÃO, de Almeida Faria


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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de agosto de 2014)

O Brasil vem conhecendo a vibrante ficção portuguesa atual, talvez a mais expressiva deste início de século. Seria o caso de, agora, sanar as lamentáveis lacunas de gerações anteriores: acaba de sair pela COSACNAIFY o romance A Paixão, publicado em 1965, quando Almeida Faria tinha apenas 22 anos. Sua estreia no gênero, Rumor Branco (1962) fora objeto de acerba polêmica intelectual e ideológica entre a corrente neorrealista, então dominante em terras lusitanas, e uma suposta corrente existencialista (tida como “alienada”), à qual pertenceria o jovem prosador como discípulo do grande Vergílio Ferreira.

“…haverá um lugar para os que ressuscitam, como houve aqui lugar para os que morrem; de fato, este é o livro dos mortos, dos mais mortos que os mortos…”, lemos em um dos capítulos finais de A Paixão. São 50 ao todo, divididos em três partes, correspondentes a uma sexta-feira da Semana Santa (Manhã; Tarde; Noite). No mundo “morto”, estagnado, do regime salazarista, num ambiente rural marcado por um profundo arcaísmo (“mastigando exata e calmamente a sua indubitável vida”), acompanhamos uma narrativa que bruxuleia entre a terceira e a primeira pessoa, através das sensações e percepções de uma decadente família “fidalga”.

O pai, Francisco (que vivia “numa atitude passiva, regressiva dependente, voltada para ontem, para um mundo inexistente”), a mãe (a qual mal tem direito a um nome, a uma individualidade, “nem lhe demos um nome, vamos chamar-lhe Marina[1]), e os cinco filhos; dos três mais velhos, Arminda e João Carlos representam o conflito de gerações, tentando escapar do atavismo familiar e de classe, enquanto  André simboliza o elemento “existencialista” (alienado?[2]): “por  que me tornei demasiado velho depois de ser criança? Por que não serei eu nunca um homem novo? durmo, velo, sonho, lembro; a vida é isto: tempo”; dos dois mais novos, Jó “via a tudo e todos duma zona distante, do seu mundo ainda mítico, de adolescente, enquanto Tiago desperta para esse universo de miasmas e angústias — e de ranço autoritário e patriarcal: há uma cena em que, trocando-se numa barraca de praia, o pai o provoca a mostrar o “berloque”, se é algo já para mostrar; ele replica: “Mostre o pai o seu antes”. E então lemos: “Só se lembra que pesado, ardente formigueiro lhe embateu na cara, a mão do pai…”

   Pela manhã, ao despertar de cada um deles com o seu repertório íntimo individual e grupal, se acrescenta o de três serviçais: Piedade, Estela (obrigada a viver longe do marido e dos filhos) e o velho Moisés. A tarde surpreende Francisco, saído da casa que mantém para uma amante (já desinteressado de todo pela esposa), com a notícia de um incêndio provavelmente criminoso em uma de suas herdades. Mais um indício de que os negócios do clã não estão bem encaminhados, mesmo numa mentalidade de pasmaceira, ultraconservadora, do Alentejo e do “seu grande torpor”. E a noite o surpreende com a oposição filial verbalizada por João Carlos, que ousa discutir à mesa familiar.

Enfim, a representação de uma paisagem ao mesmo tempo doméstica e nacional, “nestas alturas que vêm desordenar a rotinas, todos se buscam, se querem, sentem o mútuo silêncio; então nos descobrimos, mudos e sós, desencontrados, como afinal estivemos sempre; o meu marido anda longe, ocupado na lavoura, ou em qualquer coisa que desconheço e que temo; gostaria nesse instante de ter todos a meu lado; mas os filhos são ilhas isoladas; e as criadas não são como antigamente; nosso mundo frio que nenhum fogo acende”, diz a mãe.

Uma paisagem tornada verbo por uma linguagem portentosa, na maior parte do texto (quem admira António Lobo Antunes e Walter Hugo Mãe encontrará aí um forte “antepassado”[3]). Pena que, se extremamente feliz no que tange à “paixão”, ou seja, o estado moribundo de Portugal mergulhado nas trevas ditatoriais, e talvez devido à incompreensão sofrida pelo seu primeiro livro, o autor alentejano enfraquece por vezes seu notável livro com certo proselitismo “ressurreicionista” e apartes “politizados” que destoam da tessitura[4], embora sejam surpreendentemente explícitos para uma época de repressão (será que os censores salazaristas não tiveram o tino de avançar pela narrativa, ofuscados pela pecha sofrida pelo autor como “existencialista” e “alienado”?). Muito mais acusadora e implacável é a própria representação daquele mundo, trazida à tona pela consciência, e até pela inconsciência, de seus viventes.

Um episódio ilustra à farta esse Alentejo ao mesmo tempo 1960 e imemorial: a criada Piedade, namoradeira, é louca por uma rapaz com o qual tem um encontro marcado. Ela, contudo, está menstruada e lhe vem à mente, sugestionando-a (mesmo que ela tente se convencer de que são bobagens, afinal ela vive na modernidade) crendices e superstições ligadas a esse estado: “o cuidado necessário á tarde, no namoro, em não olhar, mesmo sem querer, para o belo relógio de pulso do rapaz, ou perguntar-lhe as horas, porque ele parará, partir-se-á, esmigalhando-se o vidro e caindo no chão, curvados os ponteiros, o mostrador manchado de cinza, sangue ou pus, o espanto e talvez o susto no olhar do namorado, tudo por estar menstruada…”

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ADENDO- Pedro Salgueiro me informou que já houve edição brasileira de A Paixão, pela Nova Fronteira, em 1988 (tal informação não muda em nada o teor do meu comentário, mas acho curioso sequer o autor–no prefácio que escreveu para a edição da CosacNaify–fazer  qualquer referência a essa publicação mais antiga, e pioneira).

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NOTAS

[1] Mais adiante: “Marina vive tão metida no passado que nenhum nome para ela é bem real…”

[2] André é o personagem de A Paixão que mais obviamente aproximaria o universo de Almeida Faria do universo de seu suposto mestre, Vergílio Ferreira, tão contestado—na polêmica a que aludi—pelo paladino do neorrealismo, Alexandre Pinheiro Torres.

Mas pelo menos quanto a esse romance, é enganosa tal aproximação, já que, apesar de toda a sua densidade e vigor, a obra vergiliana (Aparição; Alegria breve; Rápida, a sombra) é basicamente monovózica, muito voltada para um indivíduo central, ensimesmado, em conflito com o mundo à sua volta; já o de Almeida Faria, apesar de certa dissolvência das fronteiras entre as personalidades, é muito mais polifônico e prismático.

[3] Quanto aos “antepassados” do próprio Almeida Faria (especificamente o de A Paixão, bem entendido), mais do que de Vergílio Ferreira (pelos motivos já apontados), podemos aproximá-lo com mais proveito de certas experiências de Virginia Woolf, como As Ondas e Ao Farol, e do Faulkner de Enquanto Agonizo.

[4] Por exemplo, numa passagem em que se refere aos serviços (Piedade, Estela, Moisés) e mais o amado de Arminda (um proletário): “… que vieram fazer a este dia?… vieram porque são a voz pelas vanguardas pedida emprestada, motor futuro da terra de que falo, estória próxima, tarefa imediata”.

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