MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/07/2014

“Verão de 1914” (“Os Thibault”): o estupendo retrato ficcional do mergulho da Europa na Primeira Guerra Mundial


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Recuso-me por instinto às ilusões metafísicas. Jamais o nada teve para mim tanta evidência. Dele me aproximo com horror, com uma revolta do instinto, mas nenhuma tentação de negá-lo, de procurar refúgio em absurdas esperanças.”    

                                   (Antoine Thibault)

Os Thibault (Les Thibault), iniciado em 1922 e dividido em oito partes, foi um dos mais influentes do século passado, embora hoje esteja um tanto esquecido[1].

Em 1936 (um ano depois, ganharia o Nobel), Roger Martin du Gard deu maior fôlego e amplitude à sua obra-prima, com Verão de 1914 [ “L´ÉTÉ 1914], a sétima parte (há ainda um longo Epílogo, publicado em 1940), onde narra  a transição entre o mundo tradicional e sufocante da  “Velha França”, que parecia tão sólido e duradouro[2], e a convulsão efetivada pela Primeira Guerra Mundial.

Jacques Thibault vive em Genebra, após abrir mão da herança paterna. Atua como jornalista e principalmente como agitador socialista, no meio de um grupo de expatriados, cujas discussões e prognósticos conspiratórios a respeito do que as grandes potências farão a partir do atentado em Sarajevo (enquanto estão na expectativa do congresso da Internacional Socialista, marcado para agosto de 1914, em Bruxelas) preenchem um vasto espectro ideológico,  que vai dos anarquistas aos socialistas e militantes comunistas mais radicais.

Uma coisa fica clara: o imperialismo capitalista precisa da guerra e fomenta a sua aparente necessidade e inevitabilidade.

Para alguns leitores, os imensos diálogos podem parecer áridos e as idéias velhas. Com seu poder narrativo, porém, du Gard consegue fazer com que mergulhemos de cabeça na “mentalidade” que precede a guerra, de um modo mais palpável e palpitante do que qualquer livro de história, mesmo um do nível de A era dos extremos, de Hobsbawn.

Numa das suas “missões”, Jacques volta a Paris, onde reencontra o irmão, Antoine, o qual  ao contrário de Jacques, tomou posse de sua parte na herança, utilizando-a numa guinada ambiciosa de sua carreira. Na verdade,  transformou-se num grande burguês, em muitos aspectos parecido com o pai (há um momento em que dá uma risada e se assusta ao constatar que ela é igualzinha á do pai, a quem tanto ridicularizara). Jacques fica chocado com sua alienação com relação à ameaça de guerra. Essa opção por uma existência “monadista”, indiferente aos destinos gerais, como se estivesse isento do que acontece no resto do mundo, já distanciava Antoine da libertária Rachel, seu primeiro grande envolvimento amoroso (agora tem uma ligação com a mulher de um amigo, Anne).

Antoine já percebia as “cadeias” que o ligavam ao mundo burguês, da “honesta França”: “mas não desejava nem por um momento rompê-las; e experimentava, contra tudo o que Rachel amava e lhe era tão estranho, a aversão de um animal doméstico contra tudo o que ronda e ameaça a segurança da casa”.

Apesar de Os Thibault ser a história dos dois irmãos, Jacques é quem domina a cena de Verão de 1914. Ele vê pouco a pouco a opinião pública sendo compelida a resignar-se (e até a rejubilar-se) com a perspectiva da guerra iminente e percebe que nem os círculos socialistas são capazes de resistir á sedução dos apelos patrioteiros e chauvinistas. Mesmo o seu irmão, Antoine, e o seu amigo de infância, Daniel de Fontanin, engajam-se na mobilização geral. Poucos romances mostraram tão bem o que é um país preparar-se para entrar em guerra.

Jacques está decidido a tentar de tudo para evitá-la e a não lutar nela. Nessa roda-viva, ainda encontra tempo de efetivar sua ligação com Jenny, irmã de Daniel (dessa ligação nascerá um menino que mais tarde simbolizará para Antoine, o tio, a “humanidade futura”). Quando finalmente o conflito começa, Jacques resolve abandonar Jenny e realiza um ato de sacrifício, tentando sobrevoar as trincheiras num aeroplano para espalhar panfletos pacifistas. O avião cai e ele fica gravemente ferido. É tido como espião pelos soldados franceses, que o arrastam numa padiola durante uma retirada, até que ele se torna um tal estorvo, que se é obrigado a abatê-lo. Esse terrível final de Verão de 1914 é um momento antológico da ficção.

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Por algum tempo, pensou-se que era também o desfecho de Os Thibault. Jacques aparecia como o grande personagem da obra, uma vez que a figura do  outro irmão não sofrera maior evolução . Para o grande crítico húngaro Georg Lukács, por exemplo, o centro de irradiação do ciclo é “o encontro decisivo de Jacques Thibault com o socialismo”. Será mesmo?

Lançado já em plena Segunda Grande Guerra, Epílogo muda tudo. Em 1918, Antoine está condenado à morte devido aos gases utilizados na guerra que está por terminar. Ele enfrenta a realidade de sua extinção pessoal próxima num sanatório (após uma rápida visita a Paris, quando ficamos sabendo mais ou menos do destino das outras personagens importantes de Os Thibault).

Muita gente considera esse epílogo um mero prolongamento de uma obra que já dissera o que tinha a dizer. Não concordo: tanto a figura de Antoine quanto essa seção final são marcantes demais para serem consideradas “mero prolongamento”[3]. Pelo contrário, levam o livro a dimensões insuspeitadas. Um traço da alta ficção do século XX é o enciclopedismo, o passeio por discussões e áreas que ampliam sobremaneira o enredo e a linguagem. No diário que Antoine escreve antes de sua morte, o leitor vai sendo alçado a esse clima enciclopédico (que domina também A montanha mágica, de Thomas Mann, ou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, certamente os monumentos do romance europeu do século XX). É o destino de um personagem, mas também é o destino da civilização que está em pauta, além de toda uma gama de conhecimentos (filosofia, política, história, medicina, biologia, etc).

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[1] No Brasil, ele foi publicado em 5 volumes. A edição mais recente é de 2002 (ainda usando uma já antiquada tradução de Casemiro Fernandes, ed. Globo). Há alguns anos assisti a uma  competentíssima adaptação em forma de minissérie (de 2003, escrita, entre outros, por Jean-Claude Carrière), com direção de Jean-Daniel Verhaegue. Jean Yanne fazia maravilhosamente Pére Thibault, Malik Zidi interpretava Jacques, e gostei muito do Antoine de Jean-Pierre Lorit.

[2] Retratado de forma indelével nas seis partes anteriores.

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2010/10/24/da-velha-franca-a-guerra-mundial-numa-obra-prima-do-romance/

[3] Talvez esse meu ponto de vista tenha a ver com a minha identificação maior com a figura de Antoine mais do que com a de Jacques.

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