MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/07/2014

NOSTALGIA DA GRANDEZA: “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, de Ariano Suassuna


suassunapedra do reino

Em Geografia do romance, comentando o pensamento de Mikhail Bakhtin, Carlos Fuentes escreve: Numa era de linguagens conflituosas (informação instantânea, sim, integração econômica global, idem, muita estatística e pouco conhecimento), o romance é, será e deverá ser uma dessas linguagens. Mas sobretudo deverá ser a arena onde todas elas podem marcar encontro. O romance não só como encontro de personagens, mas como encontro de linguagens, de tempos históricos distantes e de civilizações que, de outra maneira, não teriam oportunidade de relacionar-se .

Tais palavras aplicam-se bem a uma obra publicada em 1971 (embora venha ocupando boa parte da vida do autor, ao que tudo indica, pois ele pretende reformulá-la), bastante comentada e pouco lida efetivamente: Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna.

Escrita sob o signo do excesso, apresenta um narrador, Pedro Dinis Quaderna, o qual, aberta a sua tramela, não se consegue que a feche mais. É um tagarela que se repete, que promete sempre fatos e mais fatos e vai nos engambelando direitinho (às vezes, cansando um pouco a paciência), um Tristram Shandy de Taperoá, no sertão do Cariri, na Paraíba (ele começa a contar sua história, na prisão, em 1935). Rebento de uma estirpe de “fidalgos sertanejos” que tentaram impor uma monarquia paralela (ou em sublevação à nossa recém estabelecida, e autoritaríssima, República), num misto de exaltação política, sexual e mística, Quaderna é um intelectual, o qual, entre querelas com seus dois mestres (Samuel, reacionário e simpático ao Integralismo; Clemente, esquerdista e ligado às causas do povo; ambos, ao fim e ao cabo, comicamente parecidos, pois a idéia fixa se embebeda do oposto, já alertava Octavio Paz), almeja restaurar o Reino da família, através da criação de uma epopéia sertanejo-sebastianista, em forma de romance, transfigurando a pobre realidade do Nordeste.

Ao seu modo picaresco, Ariano Suassuna nos dá uma linguagem (através da qual se abebera de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira) que é evidentemente uma máscara: Quaderna, no exercício do seu estilo “régio” (delicioso e virtuosístico), acaba revelando o desencanto com seu mundo e sua posição social, como agregado de um rico clã, cujo ramo a que pertence empobreceu devido ao furor sexual do pai, a herança dilapidando-se pelos muitos filhos afora.

romance-da-pedra

Dois aspectos são particularmente notáveis em A Pedra do Reino: um, é o desejo de fazer um “romance”, que une narrador e autor. Curiosamente, num livro tão colorido e exuberante, vemos pouca ação; na verdade, é mais o anúncio eterno de uma ação que virá a ser narrada, tanto quanto o desejo de um Escolhido (o rei Sebastião ou o príncipe Sinésio) reaparecer e convulsionar o Sertão. Até agora não chegou à conclusão se isso é força ou fraqueza, no sentido literário (embora me incline mais para a primeira hipótese).

O outro aspecto é a vontade de que tudo seja significativo e simbólico, das pedras às roupas, dos animais de montaria aos animais selvagens. É a nostalgia do épico puro, das odisséias homéricas,  no qual “toda a ação é somente um traje bem talhado da alma”(Georg Lukács), embora tudo seja filtrado pelo des(encanto) cervantino.

Num mundo sem sentido e sem rumo, tal vontade não deixa de ser comovente. Não deixa de ser também uma forma de sublevação à autoritaríssima (e então recente), República Brasileira (Quaderna começa sua narrativa, preso, em 1938), engrandecendo até os embates, mais para cômicos e caricaturescos, dos dois “mestres” de Quaderna, Samuel e Clemente.

A linguagem de Suassuna, como seu anti-herói, que percorre todas as classes sociais, indo do legítimo e oficial, até o ilegítimo (seus irmãos, frutos do furor sexual de Quaderna-pai, cuja herança dilapidou-se entre os muitos bastardos) e o suspeito, é picaresca e paródica, abeberando-se e apropriando-se de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira, todos os criadores da “realidade do possível”. Nesse ponto, podemos aproximar o mundão sertanejo de Ariano Suassuna do labirinto urbano urdido por James Joyce, no “bloomsday” de Ulisses: o banal se transfigura, o mito é a “aura” de situações comezinhas.

Já que comecei este meu breve comentário com palavras alheias (Fuentes), também assim termino, adaptando ao sertão do Cariri as palavras de Anthony Burgess a respeito do périplo ulissiano: o épico antigo era expansivo, o teatro, contrativo. Homero abrange céu, terra e mar e uma grande fatia de tempo; Sófocles se atém a um pequeno espaço e restringe a ação a um único dia. Joyce se atém a Dublin no dia 16 de junho de 1904, mas também usa o delírio e a imaginação para conter grande parte da história humana e mesmo o fim do mundo. A épica e o teatro cifram-se na estrutura de um romance burguês moderno… Com painel tão amplo, nenhum detalhe humano fica de fora”.

Ariano Suassuna, escritor e Secretario da Cultura de Pernambuco31jan2014---detalhe-do-carro-alegorico-a-pedra-do-reino-inspirado-na-obra-de-ariano-suassuna-homenageado-do-bloco-recifense-galo-da-madrugada-no-carnava

3 Comentários »

  1. Grande Alfredo,seu blog é fantástico,altamente instrutivo e inspirador,sei que Faulkner é um de seus autores prediletos,o que tem a dizer de Sartoris? agradeço.

    Comentário por Rodrigo Richardson — 25/07/2014 @ 16:15 | Responder

    • Obrigado, Rodrigo, por suas palavras. Gosto de “Sartoris”, apesar de ele ser um pouco arrastado. Curiosamente, ele já não é mais editado com esse título, mas sim com o original pretendido por Faulkner, “Flags in the dust”, você sabia?

      Comentário por alfredomonte — 25/07/2014 @ 18:12 | Responder

  2. Oi,desculpe a demora em responder,já tinha ouvido falar em um processo de mudança de titulo,mas nada aprofundado,de posse de sua valiosa informação,fui ”atras” da informação completa,e a história é bem interessante,envolve editoração,supressão de palavras e tudo mais,deveras interessante!!! Abraço

    Comentário por Rodrigo Richardson — 31/07/2014 @ 3:59 | Responder


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