MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/06/2014

A SUPERVALORIZAÇÃO DE TRECHINHOS E O DESCASO PELAS GRANDES OBRAS: EM LOUVOR DO CENTENÁRIO DE “DUBLINENSES” NO BLOOMSAY 2014


James-Joycedublinensesdublinenses

Não é que eu esteja desprezando o lançamento de  Finn´s Hotel, mas essa fissura de tradutores, especialistas e aficionados por fragmentinhos joyceanos é muito cansativa. Volta e meia, uau!, acham um (e nem vou falar das táticas escusas dos familiares de Joyce para esticar o prazo dos direitos autorais, como publicar um “novo” texto de Ulysses ), e vamos lá com os giacomos joyces da vida, com os trocadilhos, os trocadalhos, o “erotismo” (nossa, o erotismo!), que fazem as delícias nérdicas de “iniciados”.

Aí, a recepção da obra de Joyce, já que ficam endeusando esses fragmentinhos, acaba lembrando as inaugurações de “trechos” (geralmente, pouquíssimos quilômetros) de metrô, de VLT (inauguraram um em frente à minha casa, só que todo o restante está longe, longe, longe de ficar pronto—nem por isso deixou de ter fanfarra e reportagem) ou quejandos.

Por que não dar destaque, já que estamos na altura do Bloomsday (16 de junho), às obras que realmente contam do genial irlandês? Por exemplo, Finn´s Hotel ganha em 2014 espaço na imprensa, mas não o centenário de uma obra do quilate de Dublinenses.

E Dublinenses não é um fragmentinho, e menos ainda uma obra menor, um mero passo para as obras “maiores”, ou de maior fôlego como Ulysses. Não, senhor, essa coletânea de 15 contos é um dos pontos mais altos do gênero em toda a literatura, e garantia uma altíssima reputação de Joyce se ele tivesse ficado nos contos.

Com um ou outro momento mais fraco (não tenho particular interesse nem por Após a corrida[1] nem Dia de hera na lapela[2], ainda que entenda o apelo romântico da figura de Parnell no segundo), é inacreditavelmente coeso em seu crescendo de todos os temas, tanto que o mais famoso (merecidamente), Os Mortos, é uma verdadeiro síntese: a ciranda de gerações, os mais jovens esbarrando nos mais velhos, com muita frustração de permeio, os vivos nos mortos, a necessidade de liberdade e o medo da estreiteza com o medo da liberdade e a necessidade da estreiteza, afora os vinténs coados e contados, a violência esgueirando-se pelas paredes ou bem explícita—veja-se o final terrível de Cópias (na tradução de José Roberto O´Shea) ou Contrapartida (na de Hamilton Trevisan), com o espancamento do menino pelo pai.

Já comentei extensamente “Os mortos” (cf. https://armonte.wordpress.com/2013/06/16/os-mortos-the-dead-um-texto-chave-na-obra-de-james-joyce/).

Finn’s Hotel, de James Joycedubliners

E os outros destaques de Dublinenses?

Por ordem de preferência pessoal:

Uma pequena nuvem, o encontro após 8 anos daquele que ficou com aquele que partiu (e os ressentimentos, inveja, as pequenas alfinetadas) e depois a vida doméstica, descrita de forma indelével;

Arábia[3], um milagre de elementos concentrados na paixonite do menino pela irmã do amigo e sua promessa de trazer uma lembrança da feira que dá título ao conto;

Mãe, uma pequena joia de comédia humana focalizando um meio que Joyce conheceu muito bem e que será o mundo de Molly Bloom (o das salas de concertos);

Cópias ou Contrapartida– funcionário maduro e frustrado, com um pé no alcoolismo, no trabalho e no lar.

A pensão– delicioso conto em que uma teia de aranha matrimonial é tecida em torno de um pensionista. O sexo como armadilha, tema tão caro ao realismo-naturalismo, e ainda rendendo muito no universo joyceano.

Além desses, Eveline (tentativa de fuga da prisão doméstica e da pobreza), Um encontro (aproximação furtiva de homossexual em escapada de adolescentes), Um caso doloroso[4] (relação frustrada pelo egoísmo do homem, tal como nos textos de H. James), Graça (uma visão dos rumos fracassados de uma geração), As irmãs (o primeiro, que já aborda os temas centrais- a presença da morte, a opressão, a frustração), Dois galantes[5](sobre os jovens vagabundos e estroinas de Dublin, já se despedindo da juventude) Argila (os pequenos detalhes desse conto, o galanteador cavalheiresco que na verdade é um pilantra, que furta o bolo), todos equilibradamente do mesmo (e alto) nível, mostrando que Joyce aprendeu muito com Flaubert/Maupassant e também com Ibsen. São pequenas joias narrativas e ao mesmo tempo pequenas joias dramáticas.

Por favor, nesse Bloomsday vamos esquecer os trechos inacabados e inoperantes de metrô ou VLT, e vamos admirar as grandes e verdadeiras construções joyceanas.

(junho 2014)

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NOTAS

[1] Em O´Shea, Depois da corrida.

A tradução de Hamilton Trevisan vem sendo publicada há décadas pela Civilização Brasileira (seria interessante fazer um levantamento das capas), e agora editada pelo selo Bestbolso; a de José Roberto O´Shea teve uma edição em 1993 pela Siciliano, e em 2012 foi revista e reeditada pela Hedra. Há também uma tradução de Guilherme da Silva Braga para a L&PM (2012).

[2] Em O´Shea, Dia de hera na sede do comitê

[3] Em O´Shea, Araby.

[4] Em O´Shea, Um caso trágico (já pensei numa resenha comparativa com O altar dos mortos)

[5] Em O´Shea, Dois galãs

Joyce Vectorcapa 1

capa 2

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