MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/05/2014

“Tempo ganho” para William Styron?: as narrativas de “Uma manhã em Tidewater”


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(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 21 de abril de 1998)

Uma grande geração de escritores apareceu ou consolidou-se nos EUA após a Segunda Guerra: Saul Bellow, Truman Capote, J.D. Salinger, Norman Mailer, Paul Bowles, William Styron… Este último, um dos maiores, publicou relativamente pouco desde que estreou em 1951 com Lie down in Darkness-Deitada na escuridão, e essa avareza com a qual castiga seua fãs aumentou após Sophie´s choice- A escolha de Sofia (1979) e seu gravíssimo problema com a depressão.

Para quem estava com saudade do seu estilo solene, às vezes até meio antiquado, contudo sempre belo e preciso, Uma manhã em Tidewater (A Tidewater morning, 1993, que comento na tradução de Júlio Bandeira para a Rocco) é um presente e uma frustração ao mesmo tempo. Um presente porque apresenta três ótimas novelas (todas com o mesmo personagem-narrador, Paul Whitehurst); uma frustração porque, afinal, são apenas 130 páginas de Styron, após anos de silêncio.

Uma manhã em Tidewater é um exercício evocativo: apresenta Whitehurst aos 10 anos (em Shadrach), aos 13 (no texto que dá título ao conjunto) e aos 20 (em Dia L).

Dia L flagra-o num claustrofóbico navio de guerra, à espera de um desembarque no Pacífico que nunca acontece, e essa espera transporta-o imperceptivelmente à recordação do pai (que trabalhou num estaleiro que produzia navios de guerra), recordação que se associa à época da Grande Depressão norte-americana dos anos 1930. A família Whitehurst só não sucumbiu à pobreza dominante na região da Virginia onde vive por causa da natureza desse trabalho do pai.

Em Shadrach, o menino Paul é amigo das crianças de uma família de “brancos pobres” (tidos como ralé), os Dabney. Quando está jogando bolinha de gude com um dos rebentos Dabney, inesperadamente aparece um negro quase centenário. Ninguém entende nada que ele fala, a não ser Paul, o futuro narrador, a quem cabe “traduzir” para todos a trajetória de Shadrach (o qual saiu do Alabama para morrer na sua terra natal); portanto, ele já executa—muito antes de tornar-se escritor—a função de dar voz às coisas e seres; porém, o que mais interessa no relato (e impede que ele descambe para o sentimentalismo barato e o paternalismo com relação aos negros—acusações, aliás, que foram feitas a Styron na esteira de seu As confissões de Nat Turner, de 1967) é que o próprio Shadrach é, a seu modo, um narrador, mesmo “traduzido” por Paul. Ele contará à família Dabnehy sua própria história, cuja memória ela perdera com o empobrecimento geração após geração (eram senhores de terras e escravos nos séculos XVIII e XIX e, aos poucos, foram perdendo quase tudo, inclusive o sentimento de tradição familiar). A tarefa de cuidar de Shadrach e sua morte iminente congregam esse rebanho extraviado.

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Enquanto isso, em Uma manhã em Tidewater, a família de Paul se desagrega à proporção em que evolui a doença da mãe, cuja dor nem a morfina alivia mais. O garoto ainda tenta se rebelar contra a realidade da morte, roubando para si uma bela manhã, contudo (como sabemos pela obra de Styron) os elos com Eros, com a vida, para ele, serão sempre frágeis, pois seu “amanhecer” já vem comprometido com a dissolução e o sofrimento (bem, segundo Marguerite Yourcenar, referindo-se a Mishima, isso para um escritor é “tempo ganho”): “De súbito, minha mãe gritou—um grito longo e desamparado, trazendo uma nota de angústia diferente de tudo que havia escutado até agora. Um guincho estridente que varrera como uma chama meu corpo nu de cima para baixo. Era um som alienígena, o que significa dizer inesperadamente além de meu senso de lógica e da minha experiência, de tal forma que em seu instante insignificante tivera o efeito de algo histriônico, saído dos cinemas, de um filme de Frankenstein ou Drácula em que uma atriz medíocre emitira um terror implausível. Mas era real e eu enfiei meu rosto no travesseiro, embrulhando minha cabeça com ele como dentro de um úmido âmnio. Eu tentava desligar o grito. Surdo, na escuridão, procurei pensar em qualquer coisa que não fosse aquele grito…”

    Por mais que se tenha lido histórias de infância, recordações de família, evocações do passado, por mais que se tenha falado da Guerra, da Depressão, da decadência sulista, de doenças terminais, da perda de ilusões, Uma manhã em Tidewater tem o poder da grande literatura de criar de novo o mundo, transformar tudo em novidade mais uma vez. Depois desse lançamento mais que especial, a Rocco bem poderia alegrar os admiradores de Styron no Brasil, lançando finalmente a tradução de Set this house on fire (1960), um dos primeiros livros do autor de The long march (1956, já traduzido como Longa caminhada & O preço da paz).

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/18/a-escolha-de-sofia-e-a-farpa-de-gelo-no-coracao-do-escritor/

https://armonte.wordpress.com/2011/06/30/ifigenia-no-deep-south-deitada-na-escuridao-de-william-styron/

https://armonte.wordpress.com/2011/02/24/os-mortos-que-nao-podem-ser-enterrados-duas-resenhas-homenagens/

familystyron

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