MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/05/2014

OS GUERREIROS DE MONTE-MOR, romance adulto camuflado em edição infanto-juvenil


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“Então era um mentiroso? João explicou-se. Ninguém ali mentia. No máximo, desconhecia a sombra dos acontecidos.” (de Os GUERREIROS DE MONTE-MOR)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de maio de 2014)

Mesmo não levando em conta o restante da sua prolífica obra, o recém-falecido Nilto Maciel (nascido em 1945) teria lugar garantido na melhor literatura brasileira com Os Guerreiros de Monte-Mor.

Difícil de entender é por que, não obstante ser bem bonita a edição da Armazém de Cultura[1], tentam vender o romance como infanto-juvenil, equívoco que pode afastar o leitor adequado para o livro, o qual, sem que se pretenda desdenhar aqui a garotada (e os virtuais leitores precoces), é muito complexo, com sua linguagem incomum e uma visão cáustica da nossa história.

Transcorrendo na virada do século XVIII para o XIX, até os tumultuosos anos da Independência e as décadas do Império, é incrível como o autor cearense não parece fazer qualquer esforço para apresentar uma narrativa “histórica”. E ainda assim, com seus tipos humanos bizarros, exagerados, Os Guerreiros de Monte-Mor nos transporta convincentemente para uma época arcaica, ainda marcada pela “longa duração”: as quatro gerações do clã Cardoso, através dos seus “varões assinalados”: Antônio, João, Pedro (este, na verdade, destoará nessa continuidade) e José.

O que os une é a utopia separatista: parcialmente descendentes de um povo indígena (Jenipapo), o sonho é expulsar os portugueses e recriar uma grande nação nativa.  Encantando-se com todos os movimentos revoltosos (desde a Inconfidência até a Confederação do Equador), desconfiados do proclamado Império, cada geração se propõe a efetivar a justa rebelião. Antônio estagnará numa existência pacata (com seu hobby de idear armas estrambóticas) e Pedro também optará pela rotina de colono conformado (mais tarde, será malvisto como um “espião” dentro da família). Já João (cujas perambulações e ziguezagues ideológicos da juventude acompanhamos com mais detalhe) e o neto José, mais exaltados, se conluiam a certa altura, com o acréscimo de um escudeiro, Chicó, índio velho da etnia Xocó e Sancho Pança desses quixotes sertanejos, para mirabolar a estratégia da invasão da Vila de Monte-Mor (na serra de Baturité) e proclamar a nova nação.

Lastimavelmente, nas suas reuniões conspiratórias, não chegam a um acordo sobre o nome a adotar do nascedouro país, nem sequer a hierarquia entre eles, e mesmo de que forma comunicarão ao mundo essa sacudida geopolítica:

“A quem devia ser enviada a mensagem anunciando a criação do novo estado? O primeiro nome a sair da boca de José foi o de Jerusalém. De jeito nenhum, tal país não existia mais, havia sido destruído pelo dilúvio, se opôs João. Então não sabia mais a História Sagrada? Pôs-se a cutucar o chão, a forçar a memória. Desconfiado da momentânea ignorância de seu antigo cavaleiro, Xocó lembrou os nomes de Icó, Jardim, Crato.

    Sempre sabedor de tudo, João explicou ao seu ex-escudeiro serem aqueles nomes de vilas do Ceará e não de países estrangeiros. Não metesse a tramela naquele assunto, para não falar besteiras. Deixasse para dar palpites mais adiante, quando fossem tratar de táticas de guerra.

__ Agora estamos no capítulo da diplomacia.

   Enumerou os nomes dos países mais importantes do mundo, a Rússia, reino dos bárbaros; a secular França de Carlos Magno e seus doze pares; a China, onde todos eram chineses; a Macedônia de povo guerreiro; a Pérsia dos magos; a Galícia dos galegos; Flandres dos metais, terra de sua admiração. Não, Portugal não. Esse ficava de fora, não recebia nenhum recado. Precisava de explicação? Não era ele, Chicó, uma vítima, assim como todo o seu povo, das barbaridades praticadas pelos portugueses? Ora, a revolução ia ser feita justamente contra esse país, destruidor de tantas nações, a dele próprio e muitas outras.”

A principal arma na invasão da vila: morcegos adestrados por Chicó, e este aproveita essa circunstância para, num inesperado golpe de estado, reivindicar a chefia da empreitada, justamente quando ela é levada a cabo.

Portanto, o cômico (chegando ao ridículo) e o patético se unem na caracterização do trio visionário, conforme seu projeto utópico vai se tornando mais obsessivo.

Mas o que faz de Os guerreiros de Monte-Morum grande e inesperado romance, além da maneira sinuosa, mas firme, com que incorpora os acontecimentos políticos daquelas décadas em que o país passou de colônia a Império (usando a técnica do “ouviu dizer”, do que foi contado e aumentado), é o fato de que os personagens não se limitam a caricaturas. Das relações familiares tensas até o compartilhamento belicoso da loucura revolucionária, o trio sempre parece muito verossímil para o leitor. Inclusive pelas suas contradições: João quer instaurar uma grande nação indígena, mas seu vocabulário e imaginário estão repletos do cancioneiro e dos mitos importados (não há a mais leve alusão a nenhum elemento da cultura pré-homem europeu): “ De conversa  em conversa, compreendeu João a necessidade de criação de um exército, antes de iniciar a guerra nativista, a maior guerra desde o começo do mundo. Coisa para ficar nos livros, nunca ser esquecida. Como as guerras dos faraós, cheias de pragas mil. Como as guerras do leviatãs, coatitas e gersonistas, nas terras de Canaã. Como as guerras em Jericó, no rio Jordão e entre tribos israelitas…”; ou então: “Quem mais podia fazer parte desse grupo? Apontaram-se nomes, todos rejeitados por ele. Um por se chamar também João. Ora, não podia haver duas pessoas com o mesmo nome, se um mandava e outro obedecia. O segundo por falar mal de Tristão. O terceiro por desconhecer Carlos Magno…”(como sói acontecer, é uma luta em nome do povo, mas sem o povo).

E em meio a todas essas extravagâncias e esturdices, daqueles que foram sendo deixados para trás no processo político nacional, uma linguagem de admirável precisão (além de deliciosa). É um mundo Ariano Suassuna coado no filtro machadiano. Nada falta, nada sobra.

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ANEXO

No seu livro de crônicas memorialísticas, Quintal dos dias (Ed. Bestiário, 2013), Nilto Maciel nos relata os vestígios históricos na tessitura do seu romance, no capítulo  Guerreiros fictícios e aventuras reais. Creio que vale a pena transcrevê-lo em parte:

“Em meados do século XIX, inicia-se mais um movimento nativista no Brasil. Semelhante à Inconfidência Mineira, à Conjuração Baiana, à Confederação do Equador. O palco dessa nova rebelião é a serra de Baturité, no Ceará (…) A epopeia jocosa desses rebeldes. Seus planos, suas lutas, seus fracassos. Contudo, não se trata de romance histórico. Melhor chamá-lo de romance picaresco (…)

   A primeira aventura político-militar, no entanto, se dá em 1817, com a Revolução Nativista de Pernambuco, similar nordestina da Inconfidência Mineira. O movimento se estendeu por outras províncias do Norte. Na vila do Crato, mais tarde deixada de lado, com o aparecimento do Padre Cícero de Juazeiro, José Martiniano de Alencar (pai do romancista), Tristão Gonçalves e outros heróis e farsantes proclamam a república. A patuscada não dura uma semana e resulta no enforcamento dos primeiros republicanos do Brasil.

   Em 1822 dá-se a grande farsa da aclamação de Pedro I. Dois anos depois, o imperador dissolve a Constituinte e faz irromperem novos focos de rebelião. No Ceará instaura-se a segunda república, que adere à Confederação do Equador, ou República do Equador, também de curta duração. Alguns aventureiros e farsantes ditos nativistas e republicanos esquecem as batalhas e voltam ao palco para as farsas da monarquia. Uns são conservadores, apelidos de caranguejos; outros, liberais, alcunhados de chimangos ou ximangos. E brigam pelos papéis principais. Em meio a tantos aspirantes a chefe, surgem aqui e ali truões, como o lendário padre Alexandre Francisco Cerbelos Verdeixa, chamado de Canoa Doida, por andar caído para diante, a cabeça baixa e pender para um lado, passadas curtas e muito rápidas…”

(Esses fatos e personagens como o Verdeixa “Canoa Doida” aparecem no livro, mesclados aos projetos quixotescos e incidentes pessoais dos protagonistas)

“Baturité foi também palco dos acontecimentos do resumo de linhas atrás, quando ainda se chamava Vila de Monte-Mor o novo d´América. Antes de 1764, no entanto, denominava-se Missão da Serra de Baturité, onde foram reunidos índios das tribos canindés, paiacus, jenipapos e quixelôs, todos tarairiús, uma das famílias de tronco independente dos tupis e gês. A dos cariris habitava o território cearense. A formação da missão se deveu, sobretudo, à solicitação feita em 1739 às autoridades de Pernambuco pelo capitão-mor dos jenipapos Miguel da Silva Cardoso. Em 1858 a vila passou a cidade e, no ano seguinte, aportava em Fortaleza a barca francesa Splendide, procedente de Argel, com 14  dromedários a seguir conduzidos a Baturité, onde viveram por algum tempo, Outra farsa imperial…” (este último episódio histórico também é aproveitado no romance)

No mais, o autor nos conta um ambicioso projeto ficcional, raiz de OS GUERREIROS DE MONTE-MOR: “(…) constituiria a saga de várias gerações de caboclos (descendentes de índios) da serra de Baturité, desde a eliminação da aldeia até o século XX. Desmembrado, esse arcabouço deu origem a quase todas as novelas e romances, como A guerra da donzela, A busca da paixão, Os varões de Palma e Os luzeiros do mundo. Criada Palma, outras tramas  foram inventadas, todavia já sem nenhuma ligação ideológica com o desígnio inicial… Quase todas escritas até 1990. É desse período minha paixão por temas indígenas…”

Depois, segundo ele, passa a “euforia indianista” e ele se voltou para “a recriação ou a invenção de Palma e seus habitantes”. Mas a leitura de OS GUERREIROS DE MONTE-MOR mostra cabalmente que a “euforia indianista”, essa paixão por temas indígenas, contam com um componente fortemente desencantado, já que o indianismo é apenas  uma aragem, uma ilusão ao longo da narrativa,  confirmando a famosa asserção de que “os paraísos verdadeiros são aqueles que já perdemos”.

__________________________

NOTAS

[1] A original,  pela Contexto, foi publicada em 1988

artigo

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3 Comentários »

  1. Excelente artigo, que releio agora. Digno do nosso querido e generoso Nilto Maciel.

    Comentário por FRANKLIN JORGE — 07/05/2014 @ 13:46 | Responder

    • Valeu pelo comentário, meu caro. Obrigado, e um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 07/05/2014 @ 16:15 | Responder

      • Alfredo, por favor mande-me um endereço postal para eu enviar-0lhe um livro meu. Muito agradeço. Franklin. O meu: Vila dos Espanhóiis 1153 – Tirol 59020-470 Natal/RN

        Comentário por Franklin Jorge — 07/05/2014 @ 18:24


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