MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/04/2014

O MUNDO… DUAS PONTES : um bosquejo da obra de Autran Dourado


autran - gaiola-abertadourado

(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente na revista  METÁFORA 14, em novembro de 2012, com o título  Autran Dourado: uma obra em segredo)

“Veja tudo de vários ângulos e sinta, não sossegue nunca o olho, siga o exemplo do rio que está sempre indo, mesmo parado vai mudando. O senhor veja o efeito, apenas sensação, imagine, veja a ilusão do barroco, mesmo em movimento é como um rio parado, veja o jogo de luz e sombra, de cheios e vazios, de retas e curvas, de retas e curvas, de retas que se partem para continuar mais adiante, de giros e volutas, o senhor vai achando sempre uma novidade. Cada vez que vê, de cada lado, cada hora que vê, é uma figuração, uma vista diferente.”

Desse modo, o narrador-representante da cidadezinha de Duas Pontes fornece ao visitante um modo de olhar esse ambiente provinciano e pacato. O mítico lugarejo no Sul do Minas, ao reaparecer em pelo menos 15 dos livros de Autran Dourado, sempre primará pelas retas e curvas, giros e volutas, sempre representando uma vista diferente.

Ao morrer em 30 de setembro, aos 86 anos, Autran pagava há muitos anos o preço de criar uma obra que parece recôndita, arcaica, “parada”, em suma, vivendo—como escritor—o destino de uma de suas mais inesquecíveis criações, a prima Biela: “uma vida em segredo”.  Pois ele nunca foi de modismos ou de autopromoção. E olhe que sua biografia até permitiria certa margem de sensacionalismo: afinal, acompanhou a ascensão de Juscelino Kubitschek (foi seu assessor), e não falta anedotário na Camelot tropical fundada no planalto central pelo presidente bossa-nova.

No entanto, apesar de contar (parcimoniosamente, como que de má vontade) essa experiência num livro tardio, e de certa forma muito insatisfatório, Gaiola Aberta (2000, ano em que ganhou o prêmio Camões), o confessional evidente nunca foi o forte de Autran—a prova é de que seu mais fraco romance da maturidade é autobiográfico: Um artista aprendiz (1989). Na sua ficção, preferiu transformar o período jusceliano numa paródia mítica e bizarra, meio Teogonia/ meio anatomia do modo mineiro de fazer política, em A serviço del-Rei, publicado nos fatídicos anos 1980, que trouxeram a obscuridade, a plena vida em segredo, para um escritor que nas duas décadas anteriores gozara de enorme prestígio crítico, e uma repercussão segura de suas realizações: de A barca dos homens (1961)  até As imaginações pecaminosas (1981, prêmio Goethe), Duas Pontes foi surgindo em giros e volutas cada vez mais ousados e criativos, com duas exceções importantes: justamente, o primeiro título citado, o salto de qualidade do escritor mineiro para um realismo amplo e simbólico, uma história toda passada em um dia, numa ilha; e Os sinos da agonia (1974), romance que transporta a tragédia de Fedra e Hipólito para a Vila Rica setecentista, numa trama alusiva ao período da ditadura e com uma linguagem extraordinária.

Lembrando o gosto de um dos habitantes de Duas Pontes, o dr. Viriato, pelo alexandrino de Cesário Verde, “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!”, o mundo era… Duas Pontes; e nela está o melhor dessa obra: a história da prima Biela (Uma vida em segredo), a formação de João da Fonseca Nogueira, uma educação sentimental tipicamente mineira em O risco do bordado (1970), cuja feitura em blocos narrativos deu azo a um ensaio fascinante, cuja forma final intitula-se Uma poética de romance: matéria de carpintaria, publicado em 1976, mesmo ano de Novelário de Donga Novais, suma poética do modo de contar uma história que nos é apresentado na passagem que abre este meu texto e que pertence ao romance mais famoso e emblemático de Autran Dourado; Ópera dos Mortos. Como ali encontramos uma Antígona perdida na “vida besta” imortalizada pelo verso drummondiano, podemos dizer que Autran Dourado concordaria com Milton Nascimento quando este canta: “Sou o mundo, sou Minas Gerais.

metáfora

ANEXO (que não consta da versão da revista)

“MADRID, PARIS, BERLIM. S.PETERSBURGO, O MUNDO”: DUAS PONTES

  1. A TRILOGIA DOS HONÓRIO COTA

Publicado em 1967, Ópera dos Mortos representa um tour-de-force dentro daquele foco narrativo chamado “discurso indireto livre” pelos manuais, no qual há um narrador em 3ª. pessoa que se “cola” à consciência de um personagem que nos faz ver tudo pelos seus olhos. É assim que conhecemos Rosalina, a derradeira representante do clã mais ilustre de Duas Pontes, os Honório Cota,. Brigada com a cidade, ela se tranca no sobrado familiar e vive apenas com os “mortos”.

Numa prova de que suas histórias nunca ficam “paradas”, que tudo pode ganhar nova figuração, importantíssimas revelações (“o senhor vai achando sempre uma novidade”) enriquecem a trama de Ópera dos Mortos em dois romances posteriores, Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992).

2. EDUCAÇÃO SENTIMENTAL E FORMAÇÃO DO ESCRITOR

Em blocos narrativos de cronologia misturada, O risco do bordado (1973) é o melhor romance de Autran. É a educação sentimental de um personagem através de ritos de passagem e de traumas familiares (quase que ao nível bíblico), mas sem a segurança de um fio linear. É como uma nebulosa de onde vão surgindo os mitos da infância e da adolescência de João da Fonseca Nogueira (alter ego contumaz do autor).

E de encontros com leitores e estudantes, surgiu o relato de como esse romance foi feito, Uma poética de romance. E depois, o relato da formação de Autran Dourado como escritor, como foi tateando até encontrar suas soluções estéticas, o seu universo, a sua linguagem. E o quadro completou-se: Uma poética de romance: matéria de carpintaria. A oficina aberta para todos, Devia fazer parte do currículo dos cursos de Letras.

3. OS SINOS DA AGONIA

Apesar de não ser ambientado em Duas Pontes, é como se aqui tivéssemos a matriz arcaica, o visgo que prendeu toda aquela gente nesse universo imobilista e avesso ao estranho.

Quanto ao exercício narrativo, é puro Autran Dourado, sua quintessência. Cada parte é uma volta do parafuso da tragédia de rivalidade entre pai e filho em torno de Malvina, a Fedra que é um pouco Madame Bovary sufocando na vida besta mineira, sem possibilidade de engrandecer seu destino.

Curiosidade: o título era para ser A morte em efígie, prática jurídica em que o fugitivo era dado como morto, mesmo sem a apresentação do corpo. Era como se ele tivesse deixado de existir.

4. NOVELÁRIO DE DONGA NOVAIS & A EXTRAORDINÁRIA SENHORITA DO PAÍS DOS SONHOS

Esses dois pequenos textos, um de 1976, e outro publicado em Armas e Corações  (1978),, nos dão Duas Pontes no seu nível mais poético e original. No primeiro, um ancião que não dorme nunca e pode ser o sonhador que dá vida àquele universo. Como sempre se expressou em ditados, provérbios e rifões, é como se sua fala estivesse viva, mesmo ele tendo morrido há muito tempo. No segundo, um truculento e gigantesco fazendeiro (pois os coronéis do sutil universo de Autran nada ficam a dever aos de Jorge Amado em violência e desfaçatez) se amasia com uma anã de circo, isolando-se em sua propriedade, e ativando o “moinho de fantasia”, as imaginações pecaminosas, do povoado—por   causa da disparidade anatômica.

Em ambos, uma voz coletiva, “a gente”, fala por Duas Pontes, mostra o avesso da respeitabilidade, a libido aflorando, os germes do desassossego numa estrutura social que parecia destinada a durar eternamente…

novelas de aprendizado

 

1 Comentário »

  1. Republicou isso em reblogador.

    Comentário por AntimidiaBlog — 11/04/2014 @ 10:23 | Responder


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