MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/03/2014

O romance lunar do mais ensolarado dos seres: “Maíra”, de Darcy Ribeiro


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de fevereiro de 1997, em função da morte de Darcy Ribeiro, em 17 de fevereiro)

Mairahú, o deus que se refugiou nas sombras, entre os mortos, por fim venceu e exigiu de Maíra, o deus-sol, a vida de Darcy Ribeiro. E o mundo perdeu um ser ensolarado, ficando menos arejado.

Além do intelectual brilhante e original, além do molecão maravilhoso, mesmo aos setenta e poucos anos[1], perde-se um grande escritor.

Em 1976, ele publicou seu primeiro trabalho de ficção, MAÍRA. Neste romance esplêndido, inesperadamente trágico para um temperamento tão solar quanto o de seu autor, conta-se o declínio da tribo mairum, à qual pertence Isaías (na verdade, Avá), destinado a ser o chefe guerreiro, mas que é levado por um missionário, tornando-se seminarista. Sem conseguir se adaptar ao mundo dos “caraíbas”, Isaías retorna a seu povo, como um indivíduo “diminuído”, pela metade (inclusive fisicamente).

No caminho, encontra Alma, carioca que, após uma existência desregrada, procura redimir-se como missionária. O que acontece com Isaías-Avá e Alma é uma representação do desnorteamento tanto da civilização indígena quanto da nossa. Só que o alcance do impacto de MAÍRA é bem maior.

Em primeiro lugar, porque como estrutura romanesca ele é brilhante: ao mesmo tempo que delineia o esmorecimento do mundo mairum, ao mesmo tempo que mostra como a tribo é ameaçada de várias formas, protegida apenas por uma precária lei que infantiliza os índios como cidadãos, também conta-se o mito da criação do mundo na visão mairum, e por conseguinte, seus rituais de vida e de morte.

Poucas vezes se viu na literatura brasileira momentos mais bonitos e um estilo tão deslumbrante. Até o que seria considerado grosseiro e escatológico, deixa de ser, dentro da lógica narrativa que se prende toda ao universo de valores dos índios. Nunca há visão “de cima” ou uma voz “civilizatória” comentando o universo mairum.

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Em segundo lugar, é o mito da criação do mundo contrastado com os problemas contemporâneos dos mairuns que fornece a dimensão trágica (ao mesmo tempo sua poética) ao romance. Os mairuns têm um universo tão fechado, tão geometricamente disposto, que qualquer alteração indica dissolução, destruição. Ironicamente, seu deus supremo, Maíra (o sol) é o deus da expansão, da criação de novas formas, é o deus que não sossega, dentro da estrutura narrativa do mito (tanto que ele acaba por enfrentar o próprio pai, Mairahú, mandando-o para o mundo dos mortos).

Essa ironia torna-se terrível quando o mundo dos brancos vai se expandindo, no seu desassossego fundamental, até tocar de forma fatal o universo dos mairuns, que então vão sendo empurrados para o mundo dos mortos. Várias vezes afirma-se em MAÍRA: o mundo dos mortos vai aumentando (povoando-se), prevalecendo sobre o dos vivos. Isso porque a civilização dos mairuns está acabando, extinguindo-se.

É o ser-mairum como uma essência que Isaías-Avá procura recuperar na sua volta, contudo ele já apresenta o toque fatal do universo branco (não é à toa que em seu discurso apareçam tantos trechos de mortificação, no mais consumado estilo católico), o qual contaminou definitivamente também seu parente Juca, que tenta de todas as formas explorar os índios no comércio de peles.

E Alma, no meio dos mairuns, acaba por representar o princípio da dissolução inexorável, do mergulho na morte inevitável, tal como decidido pelo chefe Anaçã, que anuncia a sua própria extinção pessoal, e cujos ritos fúnebres acompanhamos ao longo da primeira parte da obra-prima de Darcy Ribeiro.

O leitor vai sabendo tudo aos poucos, com vagar. O ritmo de MAÍRA não é o da pressa. Inicia-se com a misteriosa morte de Alma. A partir daí, monta-se um quebra-cabeças que faz passado, presente e futuro convergirem para um mesmo ponto. Várias vozes reúnem-se como se fossem uma só. O mundo dos vivos e o dos mortos, como já foi dito, se tocam. E nunca mais o leitor poderá ter a mesma visão dos dois mundos, depois disso, ainda mais sabendo que o autor, ser solar, repita-se, foi fundo no mundo lunar, no mundo das sombras, para legar o mais importante romance dos anos 1970.

Hoje em dia, quando algumas tribos do Maranhão estão surpreendentemente tomando atitudes políticas mais radicais (como queimar torres de transmissão da Eletronorte), para garantir seus direitos de demarcação de terras, tentando conter o espoliamento incessante de que são vítimas há séculos, MAÍRA continua atual e contundente. Por outro lado, paradoxalmente, isso é o de menos em se tratando de um livro dessa estatura: ao mostrar a fragilidade da civilização mairum, Darcy Ribeiro fez um retrato definitivo da fragilidade de todas as civilizações e de todas as formas de entender a vida e o universo.

 

[1] Nota de 2014- Ele nasceu em 1922.

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2 Comentários »

  1. Obra maravilhosa!

    Comentário por Liu Nogueira — 25/03/2015 @ 2:02 | Responder

    • Concordo!

      Comentário por alfredomonte — 25/03/2015 @ 15:36 | Responder


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