MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/03/2014

A trajetória romanesca de Antônio Callado (1917-1997)


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de fevereiro de 1997- todas as notas de rodapé, todavia, são de 2014)

Não deixa de ser uma ironia do destino o fato de Antônio Callado, uma das grandes consciências do país e um dos nossos escritores com maior senso de responsabilidade social, ter morrido no mesmo dia (28 de janeiro) em que o Governo conseguia a vitória no episódio da reeleição, após uma abjeta e imoral campanha de pressões e conchavos, uma verdadeira desmoralização.

Callado não chegou a ser um grande romancista, mas sempre me impressionou o fato de ter um projeto ficcional muito ambicioso, almejando fazer a representação do Brasil através das mais variadas experimentações formais. Foi um dos raros escritores brasileiros contemporâneos com tal envergadura e se não vivesse num país com uma literatura tão ruim em geral como a nossa, poderia pertencer a um quadro que nos EUA é bastante comum: o da literatura média, nunca medíocre, de bom nível, sólida[1]. Como inexiste aqui essa literatura média, a tendência é valorizar demais um escritor como Callado, ou subestimá-lo em reação ao exagero. As duas atitudes são um erro.

Seus dois primeiros romances talvez sejam a melhor coisa que ele escreveu na área da ficção: Assunção de Salviano (1954) e A madona de cedro (1957), ambos atualmente no catálogo da Nova Fronteira. Eles mostram como as grandes ideologias (religião, atividade revolucionária) penetram no mundo popular, nas camadas baixas da população. Homens simples, simplórios mesmo, enfrentam questões como pecado, expiação, ativismo político. Neste sentido, Assunção de Salviano é plenamente bem sucedido na sua irônica fábula: na cidade de Juazeiro, um ateu convicto, Salviano, recebe instruções do Partido Comunista para se passar por beato. Ao assumir o papel, descobre a fé e acaba mártir do “ópio do povo”. Não é tão bem caracterizado o protagonista de A madona de cedro, o final do livro é um tanto forçado, mas no todo ele é um bom romance, aplicando técnicas ousadas de narrativa muito pouco usadas no mainstream ficcional brasileiro.

A junção religião-política rendeu a Callado sua mais ambiciosa (e mais falha) tentativa de reflexão sobre o país, já acuada pela ditadura militar: Quarup (1967, também atualmente editado pela Nova Fronteira). O grande senão desse livro importante é que falta ao autor estilo e complexidade de visão do mundo para sustentar essa ambição[2]. Entretanto, meu caro leitor, é bom avisar: essa é apenas a opinião de quem aqui escreve, porque muita gente admira Quarup e até o considera uma obra-prima, o livro mais expressivo dos tempos sombrios pós-1964 (não é, esse lugar provavelmente merece ser ocupado por Maíra, de Darcy Ribeiro)[3].

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O problema da repressão policial, do engajamento do intelectual (e do religioso) na política, a procura de novas formas narrativas, tudo isso foi explorado por Callado em outros três romances que cobrem a década de 1970 e o começo dos anos 1980, como tentativas de retrato alegórico do período: Bar Don Juan (1971), Reflexos do baile (1976) e Sempreviva (1981). Não li Bar Don Juan. Dos outros dois, o melhor é Reflexos do baile (ed. Paz e Terra), por causa da sua estrutura narrativa, feita através de trechos de diários e cartas, e do seu tom de caricatura cruel do mundo diplomático entretido com a ditadura. Mesmo assim, uma releitura do livro mostra que a intenção e o esforço parecem esbarrar num rendimento aquém do esperado. Falta complexidade ao romance, o favorito do autor.

Sempreviva (Nova Fronteira) desperdiça uma boa história com um estilo horroroso. Para se ter uma ideia do estrupício quase ilegível , o seguinte trecho: “Quinho se agarrara—para resistir, enquanto fosse possível, ao furacão autofágico, amoroso, talvez, mas excessivo, e por isso mesmo um tanto suspeito—à cabeceira da cama, e ficara, sabia lá por que, itifálico, inteiramente itifálico, quando Lucinda se achegou a ele…”; quer mais, leitor?: “Se sentia, imodesto, como se fosse nada menos do que uma vitória-régia, a cabeçorra verde boiando à superfície e sugando pelo rizoma os fluidos do lodo do rio. Era exatamente isso: sentia, em sua modorra, o que sentiria a irupê, enquanto aos goles, lhe subia à verde bandeja redonda, pelo canudo de refresco, a papa nutriente de florestas derretidas”.

A impressão, na época, era que Callado tinha perdido completamente o rumo[4]. Essa impressão foi reforçada quando do lançamento de Concerto carioca (Nova Fronteira, 1985), a história de um índio objeto de jogos sexuais no Rio de Janeiro. Há críticos que consideram o estilo desses dois livros intrincado, exigindo enorme concentração do leitor. O estilo deles, porém, não é intrincado. É amorfo, forçado, muito próximo dos artificialismos de Nélida Piñon.

O último romance publicado em vida por Callado, Memórias de Aldenham House (Nova Fronteira, 1989), é curioso pois, ao contar as experiências de um grupo de latino-americanos trabalhando na BBC em Londres (durante a Segunda Guerra, parece ter proporcionado ao autor a oportunidade de “limpar” um pouco a sua linguagem (mas só um pouco) e lembrar Graham Greene, que alguns colocam como sua influência inicial, mas que parece ter sido mais decisivo nesse livro tardio.

É um paradoxo: uma pessoa com tanta lucidez e tanta paixão intelectual e um resultado artístico tão pouco instigante, tão sobrecarregado, travado mesmo.

Em todo caso, como se vê, independentemente da qualidade de cada livro (que o leitor pode, e deve, conferir por si mesmo, não custa relembrar que Antônio Callado tem muitos admiradores como romancista), o autor de Quarup tinha uma obra atrás de si e também toda uma postura política e ética, que podia ser admirada nos seus artigos, estes sim sempre instigantes, coerentes.

É pena que tenhamos de testemunhar seu amigo Fernando Henrique Cardoso dar as costas para todo o ideário de justiça social do seu passado de militância intelectual e política, e abraçar com tanta avidez a causa da vaidade e o desejo de se perpetuar, custe o que custar, no poder.

Nesse sentido, a morte de Antônio Callado é até simbólica. Representa a morte de posturas éticas básicas nas quais o nosso presidente represidenciável, com a facilidade de um ditador de Banana Republic, põe a etiqueta de fracassomania.

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[1] Eu já não afirmaria tão categoricamente que a nossa literatura é “ruim em geral” e muito menos que Callado é um escritor “médio”. Creio que, pelo contrário, ele é tão irregular que chegou aos píncaros da ruindade em páginas e páginas de Quarup, por exemplo, e num nível muito acima da média, em outras páginas mais felizes ou menos preocupadas em fazer “bonito”, um bonito pernóstico.

[2] Mesmo porque o detalhamento da carreira erótica do Padre Nando, o protagonista, é um tédio só.

[3] Mas assim como Pessach: a travessia, de Carlos Heitor Cony, publicado no mesmo ano, o romance de Callado está entranhado no imaginário e no novelo ideológico da época, por isso nunca perderá uma certa importância simbólica, bem mais relevante que a literária.

[4] Tal afirmação não é muito exata: desde os primeiros livros, ele tinha essa defasagem do estilo e do tom adotados com relação às ricas possibilidades da fabulação.

concerto cariocaaldenhamcallado, antonio

6 Comentários »

  1. Itifálico??? no Houaiss nem tem, o Aulete diz que é: adj. || que diz respeito ao itífalo. || Na métrica grega, dizia-se dos versos de três troqueus que se cantavam nas procissões do falo. F. gt. Ithyphallikos.

    Read more: http://aulete.uol.com.br/itif%C3%A1lico#ixzz2xHCzOv7E

    Comentário por Maria Valéria Rezende — 28/03/2014 @ 13:45 | Responder

    • Rsrsrsrs

      Comentário por alfredomonte — 28/03/2014 @ 16:13 | Responder

      • Rs.. podia ter sido um pouquinho menos erudito e mais claro: priápico, por exemplo…

        Comentário por Maria Valéria Rezende — 28/03/2014 @ 19:25

      • É o lado Nélido do Callado que o atrapalhava, Maria Valéria.

        Comentário por alfredomonte — 28/03/2014 @ 21:11

  2. precisando de um copidesque póstumo estamos aí, se falei besteira fico calado.. Outro dia mesmo eu até vomitei uns vocativos e palavras estranhas

    Comentário por Alexandre Boure — 28/03/2014 @ 21:10 | Responder

    • hehehe, ótima essa, Alexandre Boure.

      Comentário por alfredomonte — 28/03/2014 @ 21:12 | Responder


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