MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/03/2014

O jovem Tolstói na Criméia: CONTOS DE SEBASTOPOL


Sebastopoltolstoi1

“__ Tu já tomaste parte em alguma escaramuça?—perguntou, de repente, ao irmão, completamente esquecido de que não queria falar com ele.

__ Não, nem uma vez—respondeu o mais velho—nós perdemos dois mil homens do nosso regimento, sempre em trabalhos; e eu fui ferido também em trabalho. Guerra não se faz assim como tu pensas, Volódia!”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de março de 2014)

A tensão gerada pela anexação (voluntária) da Criméia à Rússia, após algumas décadas como parte da Ucrânia, intensifica a relevância da recente tradução dos Contos de Sebastopol, de Liev Tolstói (1828-1910)[1]. Não que o maior de todos os prosadores necessite desse apelo extraliterário, no entanto a leitura dos três relatos permite ter uma boa ideia de como a síndrome czarista (no sentido da criação e manutenção de um império russo) percorre a História e é simbolizada pela atribulada região peninsular, a qual dá acesso à Europa Ocidental (interferindo de forma direta, portanto, na geopolítica do continente).

Tolstói participou da Guerra da Criméia e escreveu sobre o cerco das forças aliadas (as potências europeias apoiando a Turquia) a Sebastopol que culminará com a melancólica retirada russa em agosto de 1855, após pesadíssimas baixas. Apesar de mutilados pela censura (os tentáculos do czarismo não descansavam), em especial o segundo deles, os Contos de Sebastopol consagraram o improvisado correspondente de guerra e, segundo sua biógrafa Rosamund Bartlett, constituíram “sua obra mais sofisticada até aquele momento”[2] (paralelamente, entre jogatinas, conquistas amorosas e combates, o desassossegado conde se dedicava ao projeto que se tornaria sua trilogia de formação: Infância, Adolescência, Juventude, também há pouco tempo lançada em tradução—realizada por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares—direta do russo, pela L&PM).

A sensação, quando lemos Sebastopol no mês de dezembro, é de que estamos “ao vivo”. Esse texto de abertura é o que mais se assemelha a uma reportagem, percorrendo as ruas da cidade sitiada e as instalações militares em seu entorno, de uma forma que antecipa o olhar cinematográfico. Apesar da energia e do otimismo (“Por muito tempo essa epopeia de Sebastopol deixará na Rússia marcas grandiosas, em que o herói é o povo russo”), sem glamurizar em nada a guerra, já é possível detectar indícios da futura derrocada, no amálgama que o narrador (que assume um avatar de “guia”) executa entre os ritmos da natureza e a paisagem humana em polvorosa.

Em Sebastopol em maio a paisagem humana se enriquece, se colore, se individualiza, o conteúdo ficcional se adensando para mostrar as pequenas vaidades, as aspirações pessoais que levam à competição, aos enfatuamentos, e também à profunda solidão, entre os oficiais que tentam se destacar em ação (pois também é uma forma de viver a juventude). É de cair o queixo a equanimidade épica adotada: o inimigo recebe tratamento igualitário, gregos e troianos são vistos da mesma forma honrosa (aliás, ele não se preocupa em expor os motivos do conflito, os interesses políticos ali representados)[3]. Em todo caso, para além dessas palavras “grandiosas”, honra, pátria, glória, na apreensão do íntimo dos indivíduos, já aos 26 anos (o seu aniversário de 27 anos ocorreu justamente durante a retirada) o genial autor de Guerra e Paz & Anna Karênina executa uma alquimia de ambivalências, de processos mentais contraditórios e tantas vezes irracionais, no termo dos quais o fugidio momento presente adquire valor espetacular, sendo ao mesmo tempo ínfimo e total.

A morte, no sentido da extinção pessoal, grande tema tolstoiano, ganha páginas memoráveis. O oficial Mikháilov tomba numa escaramuça e lemos: “…cinco, seis, sete soldados passam à sua frente. E de repente teve medo que o esmagassem; quis gritar que estava contundido, mas sua boca estava seca, sua língua colada no palato, uma terrível sede o atormentava. Percebeu que havia algo molhado em seu peito… e começou a se sentir cada vez mais invadido pelo terror de que os soldados, que continuavam a passar à sua frente, o esmagassem; reuniu todas as suas forças e quis gritar Levem-me mas em vez disso lançou um gemido tão terrível que se horrorizou ao escutá-lo…alguns fogos vermelhos puseram-se a dançar diante de seus olhos—e lhe pareceu que os soldados amontoavam pedras sobre ele; aos poucos os fogos iam se tornando raros, raros, e as pedras o soterravam mais e mais. Fez força para afastar as pedras, distendeu-se e já não via mais nada, não escutava, não pensava e não sentia.

E, por fim, em Sebastopol em agosto de 1855, ao narrar o reencontro dos irmãos Kozieltsov, o mais velho voltando ao combate após curar-se de um ferimento (“Eram as mesmas ruas, as mesmas, ainda que fossem mais frequentes os fogos, os ruídos, os gemidos, os encontros com feridos; a mesma bateria, as mesmas barreiras e trincheiras que havia na primavera, quando ele estava em Sebastopol; mas, por alguma razão, tudo aquilo agora estava mais triste e ao mesmo tempo mais veemente: mais rachaduras nas casas, não havia mais luzes às janelas, com exceção da casa Kuschina, não se via mais uma só mulher; não havia mais nas pessoas o antigo ar despreocupado ao perigo, e sim sinais de uma espera ansiosa, de cansaço e tensão”); o mais jovem prestes a ter seu batismo de fogo bélico (“Volódia de repente foi tomado por um medo terrível: parecia-lhe sempre que as balas e os estilhaços das bombas voavam em sua direção e cairiam sobre a sua cabeça. Essa obscuridade úmida, esses ruídos, sobretudo o rumor impertinente das ondas—parecia que tudo lhe dizia para não prosseguir, que nada de bom o aguardava aqui, que seus pés nunca mais pisariam a terra russa se atravessasse a baía, que retornasse agora e corresse para algum lugar, o mais longe possível desse terrível local de morte. Mas talvez já seja tarde, já esteja tudo decidido, pensou…”)[4], às vésperas da ofensiva final esmagadora do inimigo, entendemos porque Tolstói pôde escrever os romances mais completos da literatura, se é que se pode falar assim (eu sigo Doris Lessing, para quem eles pareciam “conter  a vida inteira”), pois mesmo numa narrativa de 70 páginas, consegue alcançar um efeito plural, sinfônico, como se atravessasse de alto a baixo, por dentro e por fora, na costura e no avesso, toda a realidade humana, justificando a afirmação citada de Rosamund Bartlett (ele recuperará esse feitio —texto curto e caleidoscópico— na sua fase final, já no início do século 20).

Candidato a czar o mundo já tem. Será que haverá algum correspondente ou ficcionista que fará a mágica de Tolstói com os dias que Sebastopol vivencia nas últimas semanas?

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TRECHO SELECIONADO

“É fato que se esse oficial se mostrava agora um covarde medroso, seis meses antes estava bem longe de o ser. O que se produziu nele foi uma revolução como muitos experimentaram, antes e depois dele. Até então, vivia em uma das nossas províncias que possuem corpos de cadetes e tinha uma posição excelente e tranquila; mas, lendo nos jornais e em cartas pessoais narrativas sobre os atos dos heróis de Sebastopol, entre os quais contavam antigos camaradas seus, incendiou-o subitamente a ambição e mais ainda —o patriotismo.

   Sacrificou a esse sentimento muitas coisas: uma situação estabelecida, um apartamento com móveis confortáveis que lhe custara oito anos de esforços, os amigos, e a esperança em realizar um rico casamento —jogou tudo para o alto e ainda em fevereiro solicitou sua entrada no exército de campanha, sonhando com os louros imortais da glória e as dragonas de general. Dois meses após enviar seu pedido, recebeu uma interpelação através do comando, para que dissesse se solicitaria alguma ajuda do governo. Respondeu negativamente e continuou pacientemente a aguardar seu engajamento, embora o calor patriótico viesse arrefecendo sensivelmente nesses dois meses. Passados mais dois meses, recebeu nova interpelação para que respondesse se pertencia ou não a alguma loja maçônica e outras formalidades do gênero; após sua resposta negativa, obteve, por fim, passado o quinto mês, seu engajamento. Durante todo esse tempo, os seus amigos e, sobretudo um sentimento posterior de descontentamento com o novo que surge a cada mudança de situação, conseguiram convencê-lo de que havia feito uma tremenda besteira ao decidir ingressar no exército de campanha. Assim, ao se encontrar só, com azia e o rosto poeirento, na quinta estação, onde um correio que vinha de Sebastopol contou-lhe os horrores da guerra, e depois de esperar doze horas por cavalos —ele lamentou amargamente sua leviandade; pensou com  um terror angustiado naquilo que o aguardava e prosseguiu inconsciente seu percurso, como se caminhasse para o sacrifício. Esse sentimento, ao longo dos três meses em que vagou de estação em estação, onde quase sempre teve de esperar e ouvir relatos horríveis de oficiais que voltavam de Sebastopol, não fez outra coisa senão crescer e, por fim, levou o pobre oficial a tal ponto de exasperação que, ao invés do herói pronto às ações mais temerárias, como havia se imaginado em P, eis que surgia em Duvánka como um lamentável covarde. Viajando desde o mês anterior com os jovens recém-saídos da escola de cadetes, tentava prosseguir o mais lentamente possível, considerando esses dias como os últimos da sua vida; a cada estação, instalava seu leito, sua adega, organizava partidas de preference, olhava os registros de reclamações para passar o tempo e se alegrava quando lhe recusavam cavalos.”

sebastopol

[1] Até hoje não se normatizou no Brasil a grafia do prenome de Tolstói: há edições, como a que comento acima, onde temos “Liev”; em outras, aparece “Lev”, que se juntam aos tradicionais “Leão” e “Leon”.

[2] Cf. a tradução de Renato Marques para Tolstoy: a russian life, publicada pela ed. Globo em 2013, com o título Tolstói- A biografia.

Na 4ª. capa da edição da Hedra da versão de Sonia Branco para os  Contos de Sebastopol há um curto, mas bastante bonito, texto de Eduardo F. Coutinho, o qual contém um erro de informação, cuja retificação poderia ter sido feita pelo pessoal da editora: afirma-se que os contos eram inéditos em português. Há pelo menos uma versão, a que aparece no terceiro volume das Obras Completas do autor russo publicada pela Aguilar.

Tenho esses três volumes há 20 anos (comprei a edição de 1993) e apesar dos aspectos questionáveis (que não são poucos), considero-os um material de apoio precioso e inestimável, que pelo menos para mim forneceu uma ideia mais precisa da imensa produção toltoiana (ainda mais quando me dispus a ler com mais afinco o autor de A morte de Ivan Ilitch), cuja “carreira”, por assim dizer, no Brasil, é marcada pelo privilegiamento de alguns títulos, e uma carência absoluta de versões mais abalizadas da maioria dos títulos. Podemos seguir esse percurso graças ao meticuloso levantamento efetuado por Denise Bottmann, Bibliografia de Tolstói no Brasil, publicado como apêndice na referida edição da Globo da biografia de Rosamund Bartlett.

[3] Lendo os textos, às vezes tinha a sensação de que Tolstói era um elo perdido entre Homero e Camus.

[4] O jovem Volódia tem logo a seguir um pensamento tipicamente tolstoiano: “Será que serei morto, justamente eu?”

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