MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/02/2014

Donizete Galvão (1955-2014), a travessia das coisas e a edificação de escombros


donizete_galvao2donizete

“para quem nasceu destino

à terra

à enxada

às tarefas

às lidas com o gado

                               a descoberta da língua,

                               para além do uso ordinário,

                               e dos livros

traz um veneno

que o aparta dos seus

                              extravia-se

                              vive à margem

                              deseja sem saber o quê

tateia em um mundo

que sempre lhe será estranho” (Donizete Galvão, Vida minúscula)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de fevereiro de 2014)

“Logo vai terminar o prazo/para o homem construir sua fachada/Ele continua em andaimes/Provisório/ (…) parece esconder que/ em todos esses anos de obra/ergueram-se inúteis plataformas/para edificar um escombro…” (versos do poema Fachada).

Donizete Galvão, cujo súbito falecimento, aos 58 anos, ocorreu no último dia 30, era um daqueles casos sempre raros (mesmo com as constantes autoproclamações em contrário) do poeta verdadeiro, aquele que efetivamente “capta” o que pensamos e sentimos de forma desorganizada e fragmentária, aglutinando numa formulação precisa, quase mágica.

Seu último livro, O homem inacabado (finalista do Portugal-Telecom referente a 2010) é exemplar no exercício dessa qualidade ímpar. O paradoxal é que na sua dicção poética podemos perceber nitidamente a faixa etária do eu lírico (a meia-idade), a sua procedência (provinciana e rural), sua inserção-desassossego no desumanizante espaço urbano, sua percepção de um dia a dia bastante “situado-sitiado” (o da amiúde oscilante classe média do nosso país). Ou seja, tudo o que é “limitante” serve para liberar a poesia.

“Esta cidade de São Paulo/ nunca está arrematada/ corpo sempre em retalhos/Mutantes arquiteturas/ que não penetram nas veias”. Se no marcante A carne e o tempo (1997), suas origens (mineiro de Borda da Mata, nascido em 1955) se faziam bem presentes, aqui o homem inacabado do título, que pode ser o próprio eu lírico como qualquer outro indivíduo da metrópole, se move reflexivamente (um mote do livro: o pensamento que gira e gira em torno das coisas, em especial durante a onipresente insônia) entre gruas, caçambas, cacos de azulejos, restos de rebocos, carrinhos de construções, valas de favelas, “A cidade surge sob fumaças/ e o insone reconta detritos.

E é a esse homem acossado por uma feiura social incontornável, pelo tempo que passa, que a falácia publicitária faz a incitação de que fique em forma, mais “bonito”, mais “jovem”: “Na infância, o que se grava na carne permanece/ O sentimento de humilhação por se sentir/ torto/fraco/desastrado/quatro-olhos// Aprende-se a viver inacabado/ a esconder, constrangido, o corpo/nas penumbras// Como querer que o homem velho/ com a parca energia já gasta/ mude o registro consolidado?/ Como querer que ande horas sob o sol/e faça exercícios vigorosos/como se fora um ginasta?

Pois o homem inacabado, além de reflexivo e disfuncional, é também um ser desgastado (Há o cansaço de viver de restos), quase triturado (Morrerás/todo dia/até ninguém lembrar-se/do teu rosto), ou pelo menos desbastado na vivência contínua do espetáculo de um cotidiano banal e atroz: “No círculo que a xícara de café/deixa desenhado no pires/ o grão amargo/ O olhar preso, a vida presa…”

É por isso que, entre notações da “fachada” que o homem inacabado vai improvisando (o que permite a Galvão analogias felizes entre corpo e cidade), reflexões muito bonitas sobre a arte e as coisas (como o lindo poema do uso: “O que o homem gasta/em suas mãos/adquire a aura/de suas dores”)[1], ele não esquece da chaga básica da condição humana, aquela que surde em todos os nadas do dia a dia: “A dor/ empecilho/A dor/veneno/Ninguém quer/sua companhia”, lemos no eloquente Filoctetes[2].

Não obstante a qualidade do conjunto, nem sempre esse poeta da carne, do tempo, da insônia e da dor consegue escapar do trivial, como em Mística do trabalho, que se encerra com estes versinhos tão convencionais, perdendo boa parte do efeito dos anteriores: [o homem] “morre um pouco/ao fim de cada dia”. Que diferença, embora utilize as mesmas palavras simples e nada rebuscadas, com relação ao final do maravilhoso Atravessar as coisas: “Sair do outro lado/com outra densidade/ o corpo mais sólido/diante da correnteza/desses dias!

O que se nota, mesmo com a variação do resultado do verso, é a limpidez da linguagem alcançada por Donizete Galvão. Ele, que numa Evocação a Príapo pedia “Livre-nos do mijo nas calças/das quimioterapias e escleroses/Quando chegar o enfado/dê-nos o prêmio da morte limpa e súbita”, alcança a mais transparente rutilância nestes versos (de Urge to going): “Numa segunda-feira de abril/sem sombra de nuvens/o sol/a queimar a frente/você desiste de caminhar nas ruas/e busca refúgio no quarto/com o ventilador ligado ao máximo/Esperança de chuva no horizonte/O verão insiste em sua permanência/Não há trabalho, amigos ou planos/Só a inexprimível tristeza das coisas/Você busca consolo na voz de Joni Mitchell/na lembrança de um tempo/ em que as canções faziam sentido/ e os sonhos mentiam/que iam ganhar altitude/Embora ninguém note o esforço/como é trabalhoso permanecer à tona/quando tudo na cadeia dos dias/aponta a hora da partida”.

O homem inacabado encontrou seu termo. Sua poesia, em compensação, está mais viva do que nunca.

carne e tempo


[1] Veja-se nessa linha o exatíssimo A aparição dos objetos: “Tirar do ciclo da morte/aquilo que tantos desprezam/ restos, trapos, cordas/ estrados de cama e roupa sujas/ e fazer com que na tela/nova realidade se revele/ Embebidas de tinta/ os objetos em sua humildade/ ganham outra manifestação/Renomeados pelo olhar/ pelas mãos do pintor/estão para sempre/consagrados”.

[2] A simbologia em torno dessa figura da mitologia grega parece ter fascinado o poeta, que a “aclimatou” com rara felicidade. Se no poema de O homem inacabado, o tom é alusivo e mais “abstrato” e generalizante (“Num átimo/a picada da serpente/Abre-se a ferida/que nunca sara/Que não supura/Coleção de escaras/que saem à unha/ e renascem/novas crostas/Ri da chaga/aquele que nunca/foi atingido/A dor/empecilho/A dor/veneno/Ninguém quer/ sua companhia”), no inesquecível  Nós e Filoctetes, ponto alto de A carne e o tempo, a formulação ainda é alusiva, mas que concretude!

Nós e Filoctetes

À memória de Anita

                          “Sangro à margem do negro riacho,

                           Do meu ramo partido.” (James Joyce)

1

A tarde, banhada em luz,

agora, esmaece em sombras.

Galinhas ensaiam seus altos

Para alcançarem os galhos do limoeiro.

Trabalhadores da estrada de ferro

passam tocando a música de seus troles.

Em bando, paturis vindos das várzeas

Grasnam sobre nossa cabeça.

Antes, já cortáramos rentes

verdes touceiras de guanxuma.

O sumo escorreu pela faca,

manchou os dedos

e grudou nas narinas.

As vassouras espalham agora

o cheiro das folhas maceradas.

Salpicamos de água o terreiro

que, depois da varredura, ficou sem um cisco.

Estamos pacificados pela labuta do dia.

    

      Há um elo. Fala de olhos.

      Veio  de ternura, como minério,

      que mimetiza a tarde.

      Estamos sós. Minha avó e eu.

      Temos os dons. Entendemos tudo.

 

2

Vindo do morro, o barulho dos cincerros das mulas

quebra a harmonia. Anuncia a chegada do avô.

Relho no ar, conduz nervoso a carroça.

–Vou pôr a chaleira na trempe.

Ande e traga bambu para atiçar o fogo.

 

O avô tem suas exigências.

A água tem de estar no ponto.

Nem morna. Nem esperta demais.

Pode ser que, nessa hora, resolva

lavar com água boricada o olho de vidro.

 

–Traga também a bacia, o sabão e a toalha.

(Terá tido cãibras?)

O pasto estava coberto pela geada

Quando foi buscar as mulas de manhã.

O virado de feijão o terá entaipado?

Será que pegou carreto para o dia inteiro

ou passou a tarde com a carroça vazia?

 

–Corra e vá macetar carvão.

As mulas estão com duas rodelas de feridas.

Deixe a porteira aberta. Ele é muito sistemático.

Se a encontrar fechada, irrompe na maior gritaria.

 

Depois do ritual cumprido,

guardamos tapas, barrigueiras e peitorais.

Por fim, um último agrado:

varrer a fina poeira dos tijolos

que se acumulou na carroça.

 

3

Naqueles dias tão transparentes,

ela pressentia a noite que depois viria?

 

Aquela película de mágoa acompanhou-a,

dormente por dormente, desde o Rio?

 

Nas conversas com o vento,

sabia que um dia abriria em mim

a mesma ferida que consigo trazia?

 

Nas súbitas aparições de santos,

antevia os mesmos signos da melancolia,

impressos nas correntes dos genes,

a memória da dor gravada nos neurônios?

 

Seriam também meus os vincos de sua carne triste?

 

Se acaso soubesse disso, me avisaria

que nem pó de carvão, nem água boricada,

nem mesmo a visita do filho de Aquiles

fechariam a ferida que nós dois possuíamos?

artigo sobre donizete

2 Comentários »

  1. Tenho este livro. Muitíssimo bom.

    Comentário por Chico Lopes — 04/02/2014 @ 12:18 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: