MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/01/2014

MARCORÉ, a obra-prima esquecida do irmão de José Olympio


marcoré arqueiroAntonioOlavoPereira

__ Seu filho, como vai?- perguntou-me de súbito.

   Reconciliei-me num segundo com ela e estendi-me em notícias minuciosas.

__ Se sair ao avô, vai dar gente.

   A zanga voltou, fechei-lhe a cara. Velha ignóbil. Tem prevenção contra mim por causa de Emiliana, não reconhece em mim qualidades que possa transmitir a meu filho. Por que sair ao avô e não ao pai?

                       (trecho de Marcoré)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 14 de janeiro de 2014)

Não sei em que medida o fato de Antonio Olavo Pereira, cujo centenário de nascimento quase passou em branco em 2013[1] ser irmão de José Olympio, o mais prestigiado entre os nossos editores, responsável pela publicação dos principais escritores nacionais, contou na ampla rede de comentários e resenhas, quando do lançamento de Marcoré, em 1957. Também não sei se influiu decisivamente no limbo em que obra e autor mergulharam a partir de então. Quanto a mim, admiro-o desde que o li pela primeira vez e saúdo seu ressurgimento, pela Arqueiro (na qual, aliás, aqueles elogios de primeira hora estão compilados).

A narrativa é feita por um Oficial Maior de cartório (que pertence ao seu sogro) numa cidadezinha do interior. Tardiamente para os costumes da época (já estão trintões os dois), sua esposa engravida. Nasce Marco Aurélio, cujo apelido dá o título ao romance. A partir daí, começa uma luta por anos a fio em torno do menino que sidera a todos e que parece ser a única alegria da casa: principalmente depois da morte do avô, pai de Sílvia,  genro e sogra (uma figura tirânica, dada a cenas dramáticas) se digladiarão pela autoridade dentro da casa (e sobre a criança) até que haja um tempestuoso rompimento, com a retirada da matriarca.

Uma das razões cruciais para a tensão em que a família vive (e da qual apenas Marcoré parece excluído, como fosse uma figura “encantada”: “Tudo perece  lentamente e se desagrega. Só Marcoré esplende dia a dia mais…”) é que, em consequência de uma estouvada promessa de Sílvia no momento do parto (o casal não teria mais relações sexuais caso o filho vingasse), o marido montou casa para uma amante, comportamento masculino típico num mundo patriarcal (com surdas disputas femininas pelo poder no âmbito doméstico—entre elas, entre a sogra e a própria mãe do narrador), mas que causa considerável escândalo, talvez porque ainda por cima ele se mostre claramente anti-clerical, avesso à frequentação da igreja.

Antonio Olavo Pereira desenha em densas e precisas filigranas esse ambiente acanhado, provinciano, com as rusgas familiares, as picuinhas e pequenos nadas do dia a dia avultando. Poucas vezes a “vida besta” (“Esta minha terra tem um viver arrastado, sem grandes lances e emoções”) ganhou contornos tão nítidos, e com personagens tão fantásticos: as duas avós de Marcoré, o empregado do cartório, o médico da família…

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    Vamos acompanhando o racismo embutido até na presença maciça das empregadas negras na vida familiar: quando morre Honorata, que cozinha e  “governa” a casa, Dona Ema, a sogra, diz: “Vai ser enterrada como branca”. Por outro lado, apesar do quase opressivo espaço reservado às mulheres nas disputas travadas no relato, não nos é permitido esquecer do machismo vigente, e que sempre dá a última palavra. No dia do nascimento de Marcoré: “Minha mãe estava na sala em conversa com Seu Camilo. Trazia um xale preto sobre os ombros, o rosto levemente empoado. Desgostei-me. Nunca pude compreender a disposição que às vezes a domina de se enfeitar, aplicando até mesmo ruge nas faces. Era como se se rebaixasse a um nível vulgar e suspeito, e aquilo me incomodava. Dona Ema ia mais longe: pintava a boca. Saíamos para ir ao cinema, ela adiante com Sílvia, eu e Seu Camilo mais atrás. O velho chupando o cigarro de palha, mudo, contrariado. Via-se que a extravagância da mulher o molestava”. Afinal, é um mundo do crescei e multiplicai-vos, onde um casal sem filhos é quase uma anomalia (por isso, o narrador contabiliza todos os filhos, geralmente vários, de todo conhecido que encontra).

Diz-se do autor de Marcoré ser ele cultor do estilo sóbrio e enxuto. Sim, mas que riqueza também no uso de um vocabulário afetivo, muito colorido: “bater a pacuera”, “bangalafumenga”, “malacafento”, “vive num bacalhau danado”, “sapiroquento”, “metido a saberete”, “vá pintar a saracura”, “casas capiongas”! Um procedimento que se tornou cada vez mais raro na nossa ficção, embora de vez em quando apareçam fenômenos de riqueza vocabular como um Francisco J.C. Dantas (cujo extraordinário Coivara da memória apresenta outro oficial de cartório envolvido num exame de consciência memorável).

E, no final, quando o Oficial Maior parece ter vencido a batalha, muito mais tarde, nós o vemos tal como se reflete nos olhos do filho, esse ser tão adorado e estragado, “senhor do mundo” (seguindo a funesta tradição que originou um Bentinho, um Brás Cubas, um João Miramar) e Marcoré adquire foros trágicos, ao revelar a assustadora solidão que se dissimulava nos interstícios de toda abarafunda do viver em família. Seria imperdoável contar para o leitor como isso se dá, só posso dizer que são páginas extraordinárias[2].

Por isso, num meio em que, e isso vem de longe, há tanto compadrio, panelinhas, ação entre amigos (e no qual todo mundo acha que tem de lançar um livro), seria grave injustiça colocar no joio o romance do irmão do nosso editor-mor. Trata-se do grão mais fino da nossa ficção, um momento raro e terrível de perfeição e lucidez. A exceção que justifica a regra.

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TRECHO SELECIONADO

Cinco meses se completaram desde o afastamento de Dona Ema… Teria sido uma temporada de ouro, não fora a intromissão de mnha mãe. Passara a frequentar nossa casa diariamente, dava as suas ordens, determinava mudanças no arranjo dos móveis. Gritava com Doralice como se fosse empregada sua, descompunha Elisa por desperdícios na cozinha. Não havia pausa na vigilância incômoda e impertinente: estava sempre a caminhar de um lado para outro, forcejando para impor autoridade. Marcoré mostrava-se arisco e ressabiado com aquela intervenção em sua liberdade. Gostava de visitar a outra avó na chacrinha, passar horas e horas afundado no pomar, mexendo em ninhos ou atirando de estilingue nas caixas de marimbondo. Mas tê-la ali ao lado feito uma carcereira não lhe agradava. A que saíra dava brados por qualquer coisa, discutia, ameaçava, no entanto tinha bons momentos, ficava às vezes mansinha como a franga peva que vinha comer quirera em suas mãos. Vó Nieta era diferente, nunca sorria, tinha o cenho amarrado, falava pausado e grosso. O que minha mãe pretendia era substituir a ausente. Tomar-lhe o lugar, ocupar o quarto de costura com sua tralha, assumir a direção da casa. Eu percebia no olhar de Sílvia o temor de que viesse a convidá-la para morar conosco (…)

    Ao cabo de dois meses, ou pouco menos, começou a espaçar as visitas, até que as interrompesse de todo. Mandou-me depois um bilhete por uma tia velha de Evangelina, que viera da fazenda de Sabino morar com ela. Dizia que não voltaria mais a nossa casa com a mesma frequência, que quem anda na garupa não comanda as rédeas, e que olugar dos indesejáveis é no seu canto. Lá estaria às nossas ordens (sublinhava a palavra) para as horas de aflição, que mãe é sempre a última procurada, porém a única fiel. Nesse tom escorria o desabafo traçado na caligrafia inclinada, tão minha familiar, e que o tempo não lograra tornar trôpega…

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[1] Seu falecimento deu-se em 1993.

[2] A narrativa parece emular um exame de consciência escrupuloso e objetivo. Mas o olhar do Outro, derrisório e desmoralizante, lança uma nova luz sobre todos os fatos e sobre a autocaracterização do narrador. O fato de que esse olhar do Outro aparece dentro do relato em primeira pessoa é um grande feito psicológico e técnico, que irmana o autor de Marcoré aos grandes textos de Simone de Beauvoir. Reli recentemente as novelas enfeixadas em La femme rompue-A mulher desiludida (1968) e vemos uma interferência similar da consciência (e consequente avaliação) alheia sobre as narradoras. São exames de consciência fraturados.

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