MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/01/2014

Cinco duplas na obra de Simone de Beauvoir


beauvoir???????????força da idade

“Assim, cada livro me lançou, desde então, a um livro novo, porque o mundo se desvendara a mim como transbordando tudo que eu podia experimentar, conhecer e dizer dele.”[1]

Os leitores que mergulham na obra de Simone de Beauvoir (1908-1986) maravilham-se de como ela conseguiu transitar da ficção ao memorialismo com rara maestria, tecendo liames apaixonantes entre seus romances e novelas e seus volumes memorialísticos (não podemos esquecer também dos seus ensaios arrojados e sempre muito pessoais).

Para quem ainda não leu nada dela, compus uma lista de “duplas” que se espelham, com maior ou menor sutileza, dentro da sua produção. Optei por uma ordem de preferência pessoal, mais do que cronológica:

1)A convidada (L´invitée, 1943) e A força da idade (La force de l´âge, 1960): aqui temos o seu primeiro romance publicado (após uma década de “escrevinhação” malsucedida), e o meu favorito pessoal entre as suas realizações no gênero, um triângulo amoroso deletério, huis clos entre um casal de intelectuais maduros e prestigiados e uma jovem terrível, para dizer o mínimo. Feiticeiros enfeitiçados. A própria Simone de Beauvoir criticou o autismo dos personagens (focados em suas ligações perigosas) com relação à precipitação da França na Segunda Guerra. Nada que tire a força do livro.

No segundo livro das suas Memórias, ela recapitula o projeto como escritora que levou a esse romance de estreia (nos anos 1930) e a época da guerra até a Libertação. Vemos sua relação com o ainda jovem Sartre, o qual delineava as ideias centrais dos títulos famosos da sua primeira fase (A náusea, O ser e o nada) ou, grosso modo, o existencialismo. Profissão (foi professora durante uma década), viagens, leituras, relações, todos os acordes de uma sinfonia memorialística inigualável.

São os meus dois títulos prediletos entre os que ela escreveu.

os-mandarinsforça das coisas

2) Os mandarins (Les mandarins, 1954) e A força das coisas (La force des choses, 1963)[2]: o romance com o qual ela venceu o Goncourt e que, de forma injusta, sempre é lido como um romance à clé, como dramatização visível das relações—e depois ruptura—entre o casal Sartre-Simone e Camus. Decerto houve um lado de “ajuste de contas”, mas não deixa de ser curioso que ela adote maciçamente o ponto de vista de Henri (o suposto Camus), alternando-o com o de Anne, esposa do suposto Sartre, para passar a limpo os impasses da intelectualidade francesa do pós-guerra, com a polarização extremada entre Direita e Esquerda (superando o autismo individualista de antes do conflito).

O terceiro volume das Memórias (o qual acaba de se completar meio-século da publicação original) mostra a tapeçaria do romance pelo avesso (em ambos, o affair fortíssimo com um americano, no caso Nelson Algren[3]) e vai se encaminhando para um impressionante clímax apocalíptico quando convergem a percepção aguda do envelhecimento e o isolamento moral (por causa da histeria nacionalista) durante a Guerra da Argélia e os horrores do gaullismo.

segundo sexomulher desiludida

3) O segundo sexo (Le deuxième sexe, 1949) e A mulher desiludida (La femme rompue, 1968): o primeiro é uma daquelas grandes sínteses, que mais tarde podem ser questionadas e até desmistificadas, sem perderem o viço e o vigor. O impacto que causou a mantém como um paradigma da reflexão sobre a condição histórica da mulher, e o envolvimento com o estilo beauvoiriano faz com que o leitor passeie pelos bosques da antropologia, da biologia, da história das mentalidades e da literatura, que só mesmo esses fantásticos intelectuais à antiga (que não tinham medo de propor Grandes Narrativas) conseguiam.

As três narrativas de A mulher desiludida[4] percorrem o labirinto de projeções que a mulher tem de enfrentar nas mais diversas idades, os “papeis” propostos a ela pela sociedade. De maneira nenhuma, funcionam apenas como ilustrações das ideias beauvoirianas sobre a condição feminina, graças à empatia que ela cria entre leitor e personagem. Suas histórias sempre são romances com pessoas, é por isso que nunca canso de relê-las.

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4) Todos os homens são mortais (Tous les hommes sont mortels, 1946) e Por uma moral da ambiguidade (Pour une morale de l´ambiguïté, 1947): o seu terceiro romance (depois de A convidada e O sangue dos outros) é um devaneio épico sobre o fascínio do homem pela imortalidade (o protagonista atravessa vários séculos), que ela resolve numa estrutura narrativa muito forte (a primeira parte especialmente, contudo gosto da fábula toda)[5]. Todos os homens são mortais não chega a ser dos mais admirados entre os livros de Simone (ela mesma o aborda com ceticismo nas suas Memórias[6]), mesmo assim é um dos mais poderosos, a meu ver (foi um dos que mais me impressionaram quando o li, ainda adolescente).

O ensaio[7] é um exercício de esclarecimento da “moral” do livro e de certas escolhas do existencialismo, sempre ancoradas nas “situações”, na práxis (a práxis é a moral, podia ser o mote), portanto nunca absolutas e limpas (é interessante ver que isso vai contra toda a  sua formação, sempre muito ancorada nos ideais do absoluto e da felicidade—o que torna sua trajetória de escritora e pensadora um exercício constante de desvencilhamento[8] com relação às mistificações interiorizadas).

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5)Memórias de uma moça bem comportada (Mémoires d´une jeune fille rangée, 1958) e Quando o espiritual domina (Quand prime le spirituel, 1979):  se a vida e a obra de Simone de Beauvoir foram um exercício de desvencilhamento da mistificação espiritualista burguesa, o primeiro livro de suas Memórias é um ajuste de contas com a atmosfera malsã e visguenta de um certo fervor católico e de direita muito francês, em meio ao qual ela se formou, e do qual se salvou ao conhecer Sartre, com todas as consequências desse encontro.

Nos anos 1930, tentando se tornar uma escritora, ela descreveu a má fé inerente a esse ambiente (que se reflete na filosofia de Jacques Maritain) em cinco novelas muito bonitas e contundentes (cada uma abordando uma jovem diferente: Marcelle, Chantal[9], Lisa, Anne[10], Marguerite), que no entanto foram recusadas para publicação (em 1937), talvez porque ela estava tentando fazer desse material um romance. No final da vida da autora, elas foram resgatadas merecidamente do esquecimento e se tornaram uma peça essencial para compreender a sua evolução.

deuxieme sexe

TRECHO SELECIONADO

“Os homens que chamamos grandes são os que, de uma maneira ou de outra, puseram sobre os ombros o peso do mundo: saíram-se mais ou menos bem da tarefa, conseguiram recriá-lo ou soçobraram; mas primeiramente assumiram o enorme fardo. É o que uma mulher jamais fez, o que nenhuma pôde jamais fazer. Para encarar o universo como seu, para se julgar culpada de seus erros e vangloriar-se de seus progressos, é preciso pertencer à casta dos privilegiados; é somente a esses, que lhe detém os comandos, que cabe justificá-lo, modificando-o, pensando-o, desvendando-o; só eles podem reconhecer-se nele e tentar imprimir-lhe sua marca. É no homem e não na mulher que até aqui se pôde encarnar o Homem. Ora, os indivíduos que nos parecem exemplares, que condecoramos com o nome de gênio, são os que pretenderam jogar em sua existência singular a sorte de toda a humanidade. Nenhuma mulher se acreditou autorizada a tanto? Como Van Gogh poderia ter nascido mulher? (…) Uma mulher nunca poderia ter-se tornado Kafka: em suas dúvidas e inquietudes, não teria reconhecido a angústia do Homem expulso do paraíso. Não há por assim dizer senão Santa Teresa que tenha vivido por sua conta, em um abandono total, a condição humana: vimos por quê. Situando-se além das hierarquias terrestres, como São João da Cruz, ela não sentia um teto seguro sobre a cabeça. Era para ambos a mesma noite, os mesmos relâmpagos, em si o mesmo nada, em Deus a mesma plenitude. Quando finalmente  for assim possível a todo ser humano colocar seu orgulho além da diferenciação sexual, na glória difícil de sua livre existência, poderá a mulher—e somente então—confundir seus problemas, suas dúvidas, suas esperanças com os da humanidade, somente então ela poderá procurar desvendar toda a realidade, e não apenas sua pessoa, em sua vida e suas obras. Enquanto ainda tiver que lutar para se tornar um ser humano, não lhe é possível ser uma criadora…” (trecho de O segundo sexo, tradução de Sérgio Milliet)

**********

É evidente que a proposição dessas duplas não tira o brilho de outros momentos da obra beauvoiriana, caso dos seus dolorosos mas tremendamente lúcidos relatos dos momentos finais da mãe e de Sartre em Uma morte muito suave (Une mort très douce, 1964[11]) e A cerimônia do adeus (La cérémonie des adieux, 1981[12]—este último com os preciosos colóquios que ela entreteve com Sartre, comentando o encadeamento dos seus projetos); caso também do pequeno e agudo romance As belas imagens (Le beaux images, 1966), em que ela lança mão de alguns recursos do noveau roman (sem que o livro deixe de ter a sua “cara”) para fazer uma crítica impiedosa ao que antigamente chamávamos fetichismo da mercadoria e que hoje é inapelavelmente a conversão do indivíduo em consumidor.

    Para dizer a verdade, aprecio bastante até livros “menores” como O sangue dos outros (Le sang des autres, 1945)—nem que seja pelo capítulo inicial— e o quarto volume das Memórias, Balanço final (Tout compte fait, 1972), onde ela parece tão “rompue” que temos a impressão de que escreve por pura teimosia, uma teimosia de capricorniana que, fazendo todas as contas, ainda proporciona momentos intensos (e graças a ele descobri um romance maravilhoso, Bela do senhor).

Enfim, uma obra e tanto, que me acompanha desde a adolescência e que iluminou minha vida de leitor. Ou, simplificando, minha vida.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/05/07/simone-de-beauvoir/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

signo          


[1] Trecho de A força da idade, na tradução de Sérgio  Milliet.

[2] Também traduzido no Brasil com o lindo título de Sob o signo da História.

[3] A Correspondência entre os dois é fascinante e está publicada em livro.

[4] São elas: A idade da discrição, Monólogo o texto que dá título ao volume (um pouco mais extenso que os outros). Gosto muito do primeiro.

[5] Dos episódios do livro acabou saindo a peça As bocas inúteis, que é boa de ser lida, não sei como ficaria encenada, um raro flerte de Simone (ao contrário de Sartre e Camus) com a carpintaria para o palco.

[6] Mas Claude Francis e Fernande Gontier, na biografia que fizeram dela, contam que era o seu romance preferido.

[7] Que desenvolve as concepções (e a tentativa de esclarecimento para o público—e nisso Simone era melhor do que o próprio Sartre—do que seria o existencialismo) de Pyrrhus et Cinéas, o primeiro ensaio dela publicado (em 1944).

[8] E que acarretou o célebre e terrível final de A força das coisas: “Fui ludibriada”.

[9] A que eu mais aprecio.

[10] Cujo núcleo dramático é uma obsessão beauvoiriana na sua primeira fase. De qualquer forma, sempre achei que o “fracasso” com essas tentativas iniciais está na base do posterior A mulher desiludida.

[11] Também traduzido (belamente) como Morte Serena.

[12] Cujo parágrafo final é simplesmente lapidar:

“Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. Assim é: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo”. (tradução de Rita Braga)

1523-simone-de-beauvoir

2 Comentários »

  1. Grande Texto. Coincidentemente estou lendo nesse momento uma das tais duplas: O Segundo Sexo e paralelamente A Mulher Desiludida.

    Comentário por adrianascarpin — 09/01/2014 @ 15:21 | Responder

    • Obrigado pelo comentário, também estou lendo A Mulher Desiludida, após muitos anos, para uma resenha. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 10/01/2014 @ 12:08 | Responder


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