MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/12/2013

UMA MENINA SEM MODOS: QUE MORAL PODEMOS TIRAR?


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UMA MENINA SEM MODOS

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de abril de 2010)

    Como muitos adultos, sou fascinado por Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou lá, de Lewis Carroll, mais até do que muita criança. Relendo o primeiro (no original, Alice´s adventures in Wonderland, 1865 , numa excelente tradução integral (ou seja, não é uma das adaptações e condensações que inundam o mercado editorial) de Nicolau Sevcenko para a CosacNaify (infelizmente com ilustrações medonhas), mais uma vez me espantei com o volume de crueldade, desfaçatez, arrogância, perversidade, estupidez e violência que avulta na aparentemente inofensiva história da menina que vê um coelho tirando um relógio do bolso do colete, vai atrás dele, entra numa toca e a partir daí vive diversas aventuras num País das Maravilhas que de maravilhoso nada tem a não ser o nonsense do autor, seus jogos com as palavras, a lógica formal e seus silogismos, e as convenções sociais.

Nessa outra dimensão da realidade, Alice ora cresce desmesuradamente, ora diminui de forma aflitiva (“dessa vez, pode ser que eu suma de uma vez, como uma vela. E o que seria eu então?”). Isso gera dúvidas quanto à sua própria identidade, como no divertidíssimo diálogo com a pedante Lagarta, que pergunta quem é ela: “Eu neste momento  não sei muito bem, minha senhora. Pelo menos, quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem era eu, mas acho que depois mudei várias vezes… Eu acho que não consigo me explicar, minha senhora, pois não sou mais eu mesma…”

Alice fica confusa e furiosa com todas as suas mudanças, mas não exatamente angustiada, não há uma ameaça à sua identidade. Não estamos  no mundo da Metamorfose de Kafka… ainda. O que está em jogo, aqui, é a disponibilidade infinita da criança, antes de ser domesticada e deformada pelas regras absurdas e impositivas do mundo adulto. Todo o absurdo delicioso de Alice no País das Maravilhas reside no fato de que os seres que a heroína encontra tentam impingir-lhe (e se ela retruca e questiona, consideram-na  “sem modos”) ou considerações lógicas que no fundo são idiotas e rebarbativas, ou regras que não têm sentido, que “têm de ser assim”, sem fundamentação alguma.

Nada demonstra melhor isso (se as cenas anteriores, como a conversa com a Lagarta, a cena com a Duquesa, a Cozinheira e o Bebê, ou a hora do chá interminável com o Chapeleiro |Maluco e a Lebre Aloprada, não o tiverem feito; de qualquer forma, elas inscrevem-se indelevelmente na nossa imaginação, mesmo que não procuremos “explicá-las”) do que o baralho de cartas que forma uma  Corte (é preciso lembrar que Carroll escrevia num país onde até hoje persiste a realeza). E há coisa mais arbitrária do que as regras de um jogo de cartas?

Durante o julgamento do Valete (com a ameaça onipresente da Rainha de Copas de sempre mandar cortar a cabeça de alguém, promulgando a sentença, antes do veredicto, e aí sim estamos já no mundo kafkiano), o Rei quer expulsar  Alice citando a regra 42 do regulamento. Ela, a sem modos, retruca: “Pois bem, eu não vou sair daqui  de jeito nenhum! E além do mais, não existe essa tal regra, você acaba de inventar isso agora mesmo”. O rei replica, como se  bastasse apenas dizer isso: “É a mais antiga regra do Livro”. Alice, impávida, mostra que tudo que é sólido pode se desmanchar no ar e que as certezas do mundo adulto podem sempre ser voltadas contra ele: “Nesse caso, ela deveria ser a de Número Um”.

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QUE MORAL PODEMOS TIRAR?

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 20 de abril de 2010)

Na minha geração (a dos quarentões), a referência de tradução para Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho (e o que Alice encontrou por lá) é a de Sebastião Uchôa Leite (1980), que resgatou os clássicos de Lewis Carroll do mundo Disney e das adaptações infantis (mesmo a de Monteiro Lobato). Atualmente, contudo, a versão de maior destaque é a da Zahar, realizada por Maria Luíza X. de A. Borges, porque se baseia na edição norte-americana comentada (por um grande especialista, Martin Gardner). Além das notas enciclopédicas,  apresenta as ilustrações originais de John Tenniel e um capítulo que permaneceu inédito de Através do Espelho, “O marimbondo de peruca”.

       Agora, com o lançamento da superprodução (que não parece nada auspiciosa) de Tim Burton, lançou-se uma versão reduzida, sem o aparato crítico-informativo de Gardner e sem o capítulo extra, tornando-a mais palatável para o leitor comum, e talvez para as crianças. A meu ver ainda continua sendo um belo acontecimento editorial, mesmo porque não se compromete de forma alguma com o visual do filme (e leva a vantagem sobre o empreendimento similar da CosacNaify, uma notável tradução de Nicolau Sevcenko, já que este se limitou à primeira parte).

     Que “impulsos inconscientes” tornavam necessário para Carroll (pseudônimo do clérigo e matemático Charles Dodgson) “estar sempre deformando e esticando, comprimindo e invertendo, revertendo e distorcendo o mundo conhecido, pergunta Martin Gardner. O autor de Alice foi um pedófilo que nunca abusou (ao que se saiba) de uma criança, mas que sempre teve a necessidade de estar cercado por menininhas impúberes e até desenvolveu a arte da fotografia na Inglaterra para registrar suas “amiguinhas”, inclusive a verdadeira (e homônima) inspiradora da sua heroína.

  No entanto, todos concordam, há tanto dele quanto da sua musa no personagem (ele se auto-retrata de uma forma mais explícita no cavaleiro desajeitado e quixotesco de Através do Espelho). A duplicidade em que se debatia, um homem que inovou a lógica formal e ao mesmo tempo acreditava em fadas, um solteirão inveterado e com uma orientação sexual muito particular numa das épocas (a vitoriana) mais conservadoras da história, é magistral, cômica e bizarramente transformada num desfile de personagens malucos (alguns deles inesquecíveis) e paradoxais.

      “Há uma moral em tudo, desde que tiremos proveito dela, escreveu Dickens, um dos ídolos literários de Dodgson, o qual, por sua vez, afirmou num ensaio: Tudo tem uma moral, se decidimos procurar por ela”, o que vai de encontro ás suas reiteradas afirmações de que não se deveria procurar uma “moral” nas histórias de Alice (aliás, a Duquesa, uma personagem ridícula e feia do primeiro livro, vive fazendo isso). Qual seria a moral dessas aventuras? Creio que já nos primeiros capítulos podemos extraí-la (sem que isso tire o encanto e a variedade dos episódios, principalmente de Através do Espelho): Alice chegou ao País das Maravilhas, mas há uma porta fechada e ela procura a chave. Com ela em mãos, nem por isso consegue a entrada, pois muda de tamanho a toda hora, ou seja, nunca está na medida certa para ingressar no outro lado da porta, que é o mundo dos adultos. No final, para vencer esse desafio, ela cria um emblema de si mesma, torna-se uma Rainha. Vitória ou derrota da infância, da inocência e da infinita disponibilidade e desenvoltura, tudo o que Charles Dodgson/Lewis Carroll idolatrava?

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/04/09/destaque-do-blog-as-aventuras-de-alice/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/11/excesso-de-fadas-na-mente-do-matematico-lewis-carrol-silvia-e-bruno/

alice-summusCarroll,_Alice,_3._Kapitel

2 Comentários »

  1. Vc postou o link no Face e vim correndo ler. Adore. Parabéns!

    Comentário por Elizabeth F Cobo — 04/07/2015 @ 15:25 | Responder

    • Obrigado, caríssima amiga. Bjs.

      Comentário por alfredomonte — 04/07/2015 @ 15:32 | Responder


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