MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/12/2013

Destaques 2013 (autores de língua portuguesa)


faustocanções mexicanasa-cidadeaos 7satãmemória-da-pedraapocalipsemanual-da-destruicao1solidão é um deusreprodução

(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de dezembro de 2013)

Se não dá para ler tudo, ao menos se pode correr o risco de indicar alguns destaques (não só romances desta vez) da literatura de língua portuguesa ao longo de 2013 (tomei a liberdade de incluir títulos publicados em dezembro de 2012 e cuja “carreira” de fato aconteceu no ano corrente, como é o caso dos livros de Roberto Menezes e Eduardo Lacerda). Não há nenhuma hierarquia entre eles. Como sou adepto da música do acaso austeriana, utilizei o seguinte procedimento: à exceção do hors concours, que é uma obra verdadeiramente à parte (com uma linguagem saturada no limite do suportável, mas simplesmente excepcional), coloquei em pequenos pedaços de papel os outros 15 títulos e depois fiz um sorteio,  do qual saiu a ordem abaixo[1]:

Canções Mexicanas (Casa da Palavra)- 27 relatos  nos quais  anedotas fortemente ancoradas no paradoxo proporcionam um jogo entre uma percepção muito apurada do México “real” , varado pela violência, e as viagens mentais  muito particulares do prolífico e original Gonçalo M. Tavares.

A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários (Companhia das Letras)- Carlos de Brito e Mello constrói um moderno “auto da moralidade”, em que a ausência de um princípio transcendente propicia a um Inquisidor a  instauração das próprias (e arbitrárias) regras em meio à indiferença geral. A meu ver, o grande romance brasileiro deste ano.

Aos 7 e aos 40 (CosacNaify)- João Anzanello Carrascoza já era um maiores nomes do conto  e da ficção infanto-juvenil. Na sua estreia no romance, depura de forma arrasadora seus temas obsessivos, em torno dos afetos familiares, aos quais dá uma dimensão lírica rara na literatura que se faz hoje em dia

Digam a Satã que o recado foi entendido (Companhia das Letras)- Daniel Pellizzari cria uma linguagem especialíssima, evitando com maestria o besteirol (e divertindo tremendamente o leitor), para colocar Dublin como palco de uma história em que os personagens representam as subculturas da pós-modernidade.

Memória da Pedra (Companhia das Letras)- Mauricio Lyrio publica um primeiro romance que tem toda a aura de uma obra de maturidade, abordando a era Collor através do mais inusitado dos  heróis, um professor de filosofia cujo alheamento aos poucos vai sendo fraturado. Temos agora o nosso par de J.M. Coetzee e Ian McEwan?

O Apocalipse dos Trabalhadores (CosacNaify)- Qualquer um que nutra a suspeita de que Walter Hugo Mãe é apenas um desses  escritores “da moda” terá de rever seus conceitos, depois  desse agudo e cruel retrato da classe trabalhadora europeia (são diaristas portuguesas e operários do Leste) dos dias de hoje. Obra de mestre

Manual da Destruição (Hedra)- Outro romancista que arrasou na estreia: o ator/dramaturgo Alexandre Dal Farra faz o equivalente literário das manifestações de rua que marcaram este ano, mas tenho a convicção de que o discurso raivoso do seu personagem perdurará muito além de qualquer aspecto “datado”. Um momento radical e estimulante que mostra a ótima fase da nossa ficção.

A Solidão é um Deus bêbado dando ré num trator (Bartlebee)- Muitos são os que andam por aí com seu lirismo contrariado.  Mas poucos têm o poder de concentrar essa inadequação existencial em brilhantes versos aforismáticos, como Diego Moraes, esse grafiteiro ímpar das paredes da condição humana.

Reprodução (Companhia das Letras)- Deveria ficar hors concours (por marcar os 20  anos de sua carreira literária) essa devastadora sátira de Bernardo Carvalho  sobre as desvairadas visões de mundo formadas a partir da má-assimilação de dados fragmentários e preconceituosos. Inspirado, o autor de Nove Noites criou o Dr. Fantástico do mundo pós-internet.

Quatro Soldados (Não Editora)-  Por falar em internet, Samir Machado de Machado, em seu mergulho no século 18 (com uma paródia sensacional da linguagem da época[2]), realiza um sugestivo paralelo com nosso tempo, em que as novas tecnologias eletrônico-virtuais minam mentalidades e conceitos consolidados assim como o Romance e a Enciclopédia. Tudo através das peripécias de personagens perdidos nas fronteiras extremas do Tratado de Tordesilhas no sul do país (“O que é um mapa, senão uma mentira na qual todos consentem em acreditar?”)

Maçãs Argentinas (Positivo)- Paulo Venturelli faz uma madura, apurada e inesquecível visita ao mundo de desejos e fantasias da infância, sem nenhuma condescendência e com forte impacto emocional (inclusive para o leitor adulto). Uma joia que representa a vitalidade da literatura infanto-juvenil. As ilustrações de Odilon Moraes também são bárbaras.

Outro dia de folia (Patuá)- Assim como Mauricio Lyrio no romance, Eduardo Lacerda  estreia com poemas maduros, de um acabamento a bico de pena, de tal forma que até o uso intenso de procedimentos parentéticos causa não a impressão de dispersão, mas  de concentração absoluta. Um senhor poeta, que precisa deixar de ser avaro com os seus leitores.

Palavras que devoram lágrimas ou Felicidade Cangaceira (FUNESC)- Outro discurso raivoso, outro memorável manual da destruição, no qual o torrencial Roberto Menezes mostra sua carismática e afogueada narradora digitando ao vivo o relato da vingança contra o ex-marido, expondo ao mesmo tempo a inconsistência do mundo dos “emergentes” da economia nacional da última década. Corrosivo, dilacerante, e muito engraçado.

Labirinto no escuro (Positivo)- Para os quarentões (quase cinquentões), como eu, essa obra-prima arrepiante da literatura juvenil de Luís Dill é permeada por todo um imaginário em torno do medo do controle da mente, da perda da individualidade e da noção de um Sistema tentacular, que marcou a formação da nossa geração.

O último minuto (Companhia das Letras)- Nas confidências de um técnico de futebol preso por assassinato, Marcelo Backes consegue juntar o esporte-fetiche do país com uma acurada visão das desigualdades sociais e regionais (e a tensão entre rural e urbano) que persistem governo após governo.

Hors concours- Doutor Fausto (Topbooks)- Coube a uma editora brasileira a publicação da versão definitiva (a primeira foi lançada em Portugal em 1991) desse  romance “total”  e singularíssimo  de António Vieira. Para se ter uma ideia do desafio empreendido pelo grande autor português, o pacto com o diabo é realizado em maio de 1968. Mas é sempre “O problema: –O eterno, o Fáustico—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento” (Cyro dos Anjos).

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TRECHOS SELECIONADOS

Abaixo, trechos dos livros e, nos casos em que houver uma resenha deles aqui no blog, o link.

“(…) aproximo-me de uma máquina dos caminhos-de-ferro, abandonada, onde dois mexicanos malucos estão a grelhar umas febras, perguntam-me se quero, se tenho Pesos, e eu pergunto o que é aquilo, dizem que é carne e riem-se, mas sabem perfeitamente que o que lhes pergunto  o que é aquilo apontando para a velha estação de caminhos-de-ferro e eles explicam que está abandonada desde que as mulheres começaram a fumar no México nos sítios públicos e riem-se mais uma vez, gozam com o belo estrangeiro, e também grelhamos homens inteiros, diz-me um dos mexicanos, quanto pesas, pergunta-me o outro, e fazem de lobos maus e eu de capuchinho vermelho, perguntam-me mesmo se eu conheço a história do capuchinho vermelho, aqui no México também a conhecem, que sim, respondo, e eles passam-me um lenço que eu ponho na cabeça, entro no jogo, que mais posso fazer?, é de noite, estou na Cidade do México e dois homens com mau aspecto estão a grelhar algo numa velha máquina abandonada numa velha estação de caminhos-de-ferro e dizem que a seguir sou eu, que eles estão com fome, há muita miséria no México, dizem-me, com quem pede desculpa por me comer, e eu quase digo que não faz mal, que compreendo perfeitamente, eles são lobos, eu sou alguém que se perdeu e que só devia sair de noite na Cidade do México bem acompanhado, disseram-me eles, que fazem de lobos e de paizinho, dão conselhos (…) e ali estão eles, a desenhar no chão com um  pau os trajetos bons da cidade e onde eu me enganei, sim, perguntam-me pelo hotel e lá estão eles, um deles, com um galho a marcar o trajeto no chão, você deveria ter virado aqui, virou aqui, marca ele, no chão,e por isso nos encontrou, se tivesse virado para ali, aponta o outro como seu dedo sem se dobrar, se tivesse virado para li se calhar estava agora em frente a uma mexicana que leva vinte pesos para te sugar “el” cachimbo, e riu-se muito com esta do cachimbo, passo errado, diz eles, agora somos nós, diz ele, que queremos que nos chupes “el” cachimbo, e ri-se um  deles, enquanto desaperta a braguilha, que faz ele?, digo ou só penso, tento sorrir, um deles está atrás de mim…”

(trecho de Canções mexicanas: https://armonte.wordpress.com/2013/10/01/aulas-de-paradoxos-as-cancoes-mexicanas-de-goncalo-m-tavares/)

Gonçalo M. Tavares

O APREGOADOR

Ué, você é quem deveria saber, já que deu para falar de modernidade. Quem é que disse que a gente era moderno?

O OLHEIRENTO

Não sei bem quem disse. Disseram por aí. Alguma autoridade, talvez. Se ser moderno é ser novo, então não somos modernos. Veja esta cidade: nosso edifício está aos pedaços; a vizinhança é malconservada; existem montes de carros andando por aí que não deveriam sair da garagem. E não é só o que a gente consegue ver por fora. Sabe o encanamento? Estourado. O esgoto? Entupido.

O APREGOADOR

Mas ninguém nasce de bengala. Não há muitos nascimentos? Mais nascimentos que mortes? Então, nas pessoas, ainda há modernidade.

O OLHEIRENTO

As crianças já estão nascendo gastas; gastas e cansadas; gastas e usadas; gastas e enfraquecidas. E nós estamos ficando velhos.

O APREGOADOR

Nós?

O OLHEIRENTO

Nós.

O APREGOADOR

Há quanto tempo estamos aqui?

O OLHEIRENTO

Há muito tempo.

O APREGOADOR

Bom… se é como você diz… e se você faz tanta questão… sejamos modernos, então! Sejamos modernos enquanto é tempo!

O OLHEIRENTO

Assim, sem mais nem menos?

O APREGOADOR

Tem outro jeito?

O OLHEIRENTO

Bem… acho que não. Sejamos, então!

O APREGOADOR

Tá. Você primeiro.

O OLHEIRENTO

Eu o quê?

O APREGOADOR

Seja moderno, ora. Não foi você quem começou com esse assunto? Não foi você que ouviu, com seus ouvidos de onisciente, que esta cidade deveria ser moderna? Não é você que acha tudo velho e acabado? Estamos atrasados na modernidade. Daqui a pouco, já seremos outra coisa, sem termos sido aquilo que tínhamos de ser.

(trecho de A cidade, o inquisidor e os ordinários: https://armonte.wordpress.com/2013/12/03/a-forca-do-alegorico-a-cidade-o-inquisidor-e-os-ordinarios-de-carlos-de-brito-e-mello/)

carlosbx

Encontrou o menino comendo na cozinha, compenetrado.

Oi, filho,

Oi, pai.

A mulher disse,

Senta,

e começou a lavar a louça,

enquanto os dois se abraçavam.

Vieram as perguntas, diárias, que ele fazia ao menino, pelo telefone,

a primeira,

Você está bem?,

e a segunda,

Já tomou banho?,

e, ali, nem precisavam ser feitas: no rosto do filho se

via que ele estava bem; seu corpo cheirando a

sabonete e seus cabelos úmidos revelavam que

saíra há pouco do banho.

Perguntou-lhe sobre a escola, e,

à medida que o menino respondia,

contando-lhe os gols que fizera nas aulas de educação física,

ele sentiu,

sob a camada grossa de seu próprio silêncio,

uma inesperada alegria,

como se, até então,

vivesse na pré-história desse sentimento,

e, agora, experimentasse a sua estreia.

Se o menino era um rio, ele, pai, colocava só a ponta

dos pés em suas águas, e queria, de novo o mergulho,

queria se resgatar nas suas profundezas.

E já que vivia à sua beira, era melhor se entregar ao

nada daqueles rápidos encontros,

os mínimos episódios cotidianos (e aparentemente

esquecíveis),

como fazer juntos a refeição, ou assistir a que o outro

a fizesse,

como agora.

Continuaram a conversar, coisas banais para o

mundo, mas não para os dois (nem para a mãe que

os ouvia), e o homem, curioso para saber mais do

menino, ia dispondo na mesa como travessas de

comida, outras perguntas…

(trecho de Aos 7 e aos 40: https://armonte.wordpress.com/2013/08/20/aos-50-a-singularidade-e-maestria-da-ficcao-de-joao-anzanello-carrascoza/)

joao

Magnus: “De novo em diante me alimentei somente de espigas de milho, pipoca, tacos sem recheio, Doritos e Jack Daniels, tentando convencer Chicomecoatl a me levar embora de uma vez. A derrocada do meu império pessoal teve início com meu último encontro com Laura, uns dez dias depois da explosão que não aconteceu em Temple Bar. Eu estava sentado meio corcunda no balcão do Hairy Lemon, mastigando devagar as últimas batatas do meu ´coddle´, quando ela apareceu.

__ Sabia que você ia estar aqui—disse com aquela  risada que não causava mais efeito nenhum em mim. Restava apenas um buraco onde antes havia uma resposta fisiológica que um dia eu tinha imaginado ser alguma coisa além disso.”

Patricia: “Não é porque eu vou fazer treze anos daqui a dois meses que sei menos coisas que o meu pai, por exemplo. Estou de mal com ele faz mais de um ano. Ele não entende nada. Nadinha. Mas eu também não. é outra coisa que aprendi bem cedo. Ser humano é estar confuso. Não. Ser humano e medíocre é fingir que não existe confusão nenhuma (…) Meu avô era legal. Pai da minha mão. Ninguém sabe de onde ele veio, só que tinha catorze anos e chegou na Irlanda de navio, sozinho, numa época em que todo mundo estava indo embora porque faltava tudo por aqui. Agora é que ninguém vai ficar sabendo de onde ele veio, mesmo. Sempre que ficava sozinho ele cantava umas musiquinhas que pareciam meio árabes. Ou judaicas, sei lá. Confundo (…) Ele tinha cheiro de lustra-móveis, mas cheiros são que nem idades. Não querem dizer nada.”

Siobhán: “… é um momento difícil  e então convido todos  para cantarem e começo a cantar o hino dos Ofídios Gnósticos  que fala sobre a luta contra a Confederação Galáctica  e a vitória final no dia da Arrebatação  e eles me olham sem dizer nada   e ficam assim até o final do hino  e depois eu saio da cozinha  e me sento em uma cadeira  na sala de costas para a janela. Fico imóvel e curvada  como uma das gárgulas da igreja grande ali subindo a rua, amanhã bem cedinho quero levar a menina nova até lá para ver,  acho que ela vai gostar porque ouvi ela dizendo que nasceu  e morou a vida inteira em Dublin e nunca tinha vindo para Howth e então sei que nunca viu as gárgulas. Elas ficam do lado de fora do templo com aqueles rostos congelados em caretas de ameaça e o corpo todo transformado em pedra e rígido para sempre por amor ao dever de assustar as coisas ruins e os demônios e  a imundície e impedir que entrem dentro do espaço sagrado…”

Demetrius: “A memória serve para que você se esqueça de quem é, Demetrius. É um artefato do Inimigo. Quanto mais você se lembra, mais se esquece do que é natural e antigo e verdadeiro. E o olho com o qual a criança enxerga os Ofídios é o mesmo olho com que os Ofídios enxergam a criança. O olho puro e solitário de Crom Cruach. Mas sem demora esse olho é recoberto por memórias. E com as memórias vêm as opiniões. E com as opiniões, as preferências. E com elas, as abstrações. E por fim a chamada personalidade, a forma rígida dentro da qual a Confederação aprisiona os incontáveis seres que foram criados livres, mas que estão aprisionados em grilhões…”

Barry: “Larguei dela, dos meus velhos,dos meus parcêro, da minha cidade, da vida que eu tinha em Cork. Subi pra Dublin e fiquei livre pra não fazer porra nenhuma. Não que eu odiasse essa coisa toda. Nem é por aí. A assistente social tinha um peitão classe especial e chupava que nem uma sanguessuga, engargantava tudo. Meus velho eram uns inútil sem educação nenhuma, mas sempre fizeram de tudo pra mim. Meus parcêro eram um monte de bêbado gente boa. Minha cidade é o melhor lugar do universo e tinha cerveja barata em qualquer pub. Minha vida era só moleza. O ruim é que essas coisas toda me atrapalhavam. Pra falar a verdade, de vez em quando eu sentia uma vontade imbecil de fazer algo de útil com a minha vidinha, e isso é péssimo pra caralho. Aí cortei o mal pela raiz. Eu sou irlandês, porra. Sou um cara que tenho meus princípio…”

Zbigniew: “Mas não adianta, eu sei que agora o medo vai chegar a qualquer momento. E quando o medo vem  é intenso, piorando muito à noite ou em meio à multidões.  Luzes, ruídos e pessoas ficam cada vez mais velozes e se revelam forças agressivas, sinistras.  Quando alguém ri, está rindo de mim. Se gargalha, está me enfiando uma faca. Olhou, quer me matar. Até os gatos de rua estão planejando tocaias. Os ruídos do mundo tramam crescer em proporção geométrica até me envolverem por completo como um oceano de gelatina e me deixarem suspenso ali dentro para que as luzes cheguem muito rápidas e agudas e me perfurem o corpo inteiro, causando uma dor física sem adjetivos e permitindo que minha consciência escape pelas feridas abertas…”

(trechos de Digam a Satã que o recado foi entendido: https://armonte.wordpress.com/2013/08/27/destaque-do-blog-digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendido-de-daniel-pellizzari/)

pellizzari

__ Não gosto do teu olhar, Eduardo.

__ Faz lembrar outra coisa?

__ Faz.

__ Ele chegou a tocar em você?

   Laura fechou os olhos.

__ Ele chegou a tocar em você ou só tocava nele mesmo?

__ Faz muito tempo.

__ Você não sabe ou quer esquecer?

__ As duas coisas.

   As mãos cobriam o rosto. Falava por entre os dedos.

__ Só lembro dos olhos. Como um bicho, atrás da porta. Era outra pessoa. Não podia ser ele.

__ Por que você nunca falou nada?

__ Você nunca quis saber. Você sabe que eu tentei.

[…]

Anita olhou o chão, tirou o pé direito da sandália de salto baixo e roçou a ponta do dedo maior na perna esquerda, como quem se desfaz de uma pequena pedra, de um grão de areia. Voltou a calçar a sandália, com a mesma naturalidade, a mesma rapidez. Não durou um segundo, mas Eduardo teve a impressão, pelo patético, pelo inesperado, de que tudo se fizera muito lentamente. Via os dedos desembaraçarem-se das tiras da sandália, a perna dobrar-se sob o vestido, o pé esticar-se perpendicular ao chão, como num trejeito de balem, o instante em que se erguia e tocava a panturrilha,  o forte contraste de cores entre a planta e o peito do pé, o claro e o escuro, o rosa  e o negro, na pele anfíbia, como se pertencesse a dois seres. Podia não ser um grão de areia, apenas uma mania, um gesto repetido ao longo dos anos. Era a espontaneidade perfeita e fora de lugar…

(trecho de Memória da Pedra: https://armonte.wordpress.com/2013/05/21/destaque-do-blog-memoria-da-pedra-de-mauricio-lyrio/)

lyrio

“o senhor ferreira acreditara mesmo que todo aquele dinheiro haveria de ir parar às mãos da maria da graça, ganho assim a compasso de trabalho, à medida que ela fosse correndo a casa com o seu pano de pó ou vassoura. o imbecil acreditara que a casa ficaria inviolada e que a maria da graça seguiria o seu ofício sem interrupção para descobrir quanto ali deixara para ser descoberto. era o modo como receberia de prêmio toda aquela fortuna mal escondida, como quase a manifestar-se, à espera de que a lida da casa passasse por ali, como por etapas bem definidas em que o trabalho se visse recompensado para sempre. o senhor ferreira divertira-se a escolher o lugar de cada maço de notas, rindo até, achando que, mais difícil ou menos difícil, cada oferta seria inequívoca para a maria da graça, que compreenderia várias coisas, independentemente de serem verdadeiras ou falsas, compreenderia que não lhe era indiferente, que ele sabia da sua condição financeira menos do que remediada, que gostava dela mais do que qualquer outra pessoa para lhe deixar tamanho presente, que considerava o seu trabalho digno, que gostava de a ver trabalhar, que a amava, que se poderia ter casado com ela e até ter ainda um filho, se aos quarenta anos ela pudesse arriscar-se a ser tão feliz. a maria da graça mexia-se na cama incomodada com tais pensamentos e odiava-o por não ter tomado outras decisões. não era pelo dinheiro, que estaria nas mãos da agente quental, no mínimo corrupta, era pelo perto da felicidade que tinham estado os dois. e da felicidade deu um salto para o monstruoso das coisas. se ele se podia ter casado com ela, se era tão mais razoável querer casar-se em vez de morrer, porque teria querido morrer e deixá-la sozinha, incapaz de realizar depois os sonhos. maldito seja, senhor ferreira, pensava ela, estupor, que lhe havia de ter acertado com uma jarra na cabeça para lhe mostrar como se decide uma vida…”

(trecho de O apocalipse dos trabalhadores)

valter

“estou sozinho dentro do banheiro do aeroporto de merda. caminho até encostar a cintura na pia e vejo a minha cara estúpida no espelho, e ela não tem nada a ver com nenhuma das lembranças de merda nem com nada do que existe dentro da minha cabeça. é só uma cara idiota, igual ao que ela já era antes. vejo no espelho como o meu rosto é o mesmo, o mesmo rosto que eu já vi outras vezes nos espelhos de merda. sempre a mesma imagem refletida. mas o meu rosto não é sempre o mesmo. percebo isso por dentro. o rosto filha da puta finge que é o mesmo por fora, quando está na frente do espelho de merda, mas de dentro eu sei que ele não é o mesmo. sinto as mudanças na carne, pelo lado de dentro, retiro os meus óculos e olho para a minha cara monótona no espelho. ligo a torneira de merda e enfio as mãos embaixo da água (…) gostaria que a água passasse da pele e entrasse por dentro da minha cara. gostaria de jogar água por dentro, diretamente no meu cérebro. gostaria de poder resfriar os órgãos todos por dentro. enfio os dedos molhados dentro dos olhos e procuro enfiar água em todos os buracos do rosto (…) vejo pelo reflexo o velho. o velho entrou no banheiro de pulôver marrom. ele procurou não olhar muito para mim pelo espelho (…) eu estava olhando para mim mesmo com ódio. o velho viu isso. disfarcei e apertei ainda mais os dentes, e dou um jeito de me machucar um pouco enquanto o velho está dentro do compartimento de fórmica. enfio dois socos no meu próprio estômago, e torço para o velho ser surdo. ele se enfiou em um compartimento de merda e eu aproveito para socar meu próprio estômago. sinto a minha mão fechada socar a minha barriga, sinto a dor e dou mais sete socos no um estômago com toda a força possível, apesar da posição, até que o meu braço fica um pouco cansado. enfio ainda mais três socos com toda a força possível no mesmo ponto que já estava doendo. sinto o estômago quase rasgar com os socos que eu enfiei em mim com toda força e sem nenhum prazer. enfio os meus óculos de volta na cara…” 

(trecho de Manual da Destruição: https://armonte.wordpress.com/2013/07/30/o-romance-manifestacao-manual-da-destruicao-de-alexandre-dal-farra/)

farra

Um índio bêbado escrevendo peças de teatro que nunca serão montadas

Seu vizinho desmanchando automóveis e revendendo tudo a preço de banana

Sou tão carente que entro de cadarços desamarrados na padaria

só pra ver se ela se importa e diz alguma coisa

 Anteontem andei de roda gigante e o cara disse que não era preciso

pagar o ingresso porque eu parecia o avô dele

O mais foda é que só tenho 29 anos”.

(poema de A solidão é um deus bêbado dando ré num trator: https://armonte.wordpress.com/2013/04/30/destaque-do-blog-a-solidao-e-um-deus-bebado-dando-re-num-trator-de-diego-moraes/)

diego

“Ritual, para mim, é isso: sobreviver em sociedade. Tem que se igualar, compartilhar, reproduzir. Não? Agora não é tudo coletivo? Todo mundo não faz a mesma coisa? E se todo mundo é crente… Achei que você já tivesse pensado nisso. Eu penso todos os dias. Ritual serve pra te convencer de que você não está sozinho. Não é melhor acreditar e pertencer? Quem vai ligar pro que eu penso ou você, sozinhos? Pense bem. Quem vai ligar daqui a dez, vinte anos, quando o país inteiro for só um amontoado de igrejas, disputando espaço a tapa umas com as outras?  Daqui a vinte anos, é possível que o que gente pensa nem seja mais pensamento. Então, não é melhor parar de pensar logo e começar a orar para que os psicotrópicos—não é assim que você diz?—continuem fazendo efeito. Pela força da palavra coletiva. Antes de começar a tomar os psicotrópicos, achei que estava ficando louca, e foi só por isso que eu pensei que, nessas horas, o melhor—e é o que os loucos em geral não fazem—é ficar calada. É. Não dizer mais nada. Você acha o quê? Que eu não sei disfarçar? É isso mesmo. É o problema da hipocrisia. Você diz uma coisa aqui e faz o contrário ali. E tem que acreditar que está fazendo a mesma coisa. Não é pra discutir. Tem grupo de apoio pra ajudar. Tem que acreditar no poder da palavra coletiva. Tem que acreditar que o que você diz é o que você faz. Eu te pergunto: que é que toda essa gente vai fazer com Deus se não é pra resolver o problema da hipocrisia? Me diz. Eu olho pros lados, na igreja, na marcha com Jesus, e penso: que é que eles vão fazer com Deus? Posso responder por mim. Sério? Cínica? Sabia que você ia dizer isso. Não disse, mas pensou. Ainda está se perguntando o que vou fazer na igreja se não acredito em nada? É porque não leu o relatório. Se tivesse lido, sabia que vou lá repetir, reproduzir…”

(trecho de Reprodução: https://armonte.wordpress.com/2013/10/29/reproducao-bernardo-carvalho-e-o-seu-negocio-da-china-nos-20-anos-de-carreira/)

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“__ (…) Mas, de qualquer modo, voltando ao Voltaire, este homem, o Micrômegas, não nasceu na terra, e sim no planeta Sirius, e vem ao nosso mundo acompanhado de um amigo de Saturno para conhecer nossos costumes e…

__ Como se pode levar a sério tal cousa?

__ Ora, tanto se me dá, que são só firulas para divertir. O que importa é tentar ver nossos costumes do ponto de vista de outrem, como nós vemos aos estrangeiros. Um estrangeiro que fosse de outro mundo veria a todas as nações como donas e prisioneiras dos mesmos hábitos viciados, e nisso está o mérito de uma história assim….

    Licurgo encolheu-se nos ombros.

__ Já me disseram para esgotar os clássicos antes de partir a ler os novos—lembrou o garoto.—Afinal, não há tempo para se ler tudo… ainda mais que os tais romances não distinguem os fatos da ficção, não é o que dizem? Inventando geografias falsas e seres que não existem?

__ Ah, agora tudo se explica! Quem te meteu um dislate desses na cabeça!?—o Andaluz exaltou-se, erguendo os braços dum modo intimidante, particularmente seu, de tenor de ópera.—Se queres conhecer o passado, busca os clássicos, se queres prever o futuro, vá a um astrólogo… mas para interpretar os dias em que vivemos, só vais encontrar as respostas lendo a ficção do nosso tempo. E algumas das mais fabulosas e distantes histórias do que se considera a Verdade e a Realidade são, por consequência, as que mais próximas chegam da essência das cousas. Todo homem anseia por ver cousas impossíveis, inimagináveis, não apenas para divertir e entreter seus sentidos, mas para ser deslumbrado ao confrontar o que antes julgava inconcebível.

__ Mas ainda assim é uma mentira. Como pode a Verdade nascer de uma mentira?

__ Decerto que conheces o Tratado de Tordesilhas? Teu rei assinou com o rei de Espanha um documento, dividindo a América entre os dous. Consegues ver Laguna daqui?—apontou para trás, para a vila, já distante deles mas ainda visível no horizonte.—Laguna era o limite do tratado. Por um acaso vês alguma linha traçada na terra ou no céu, a dividir o mundo em dous? Por um acaso algo muda no ar, nas árvores ou nos rios, ao serem separados entre dous reinos? O que é um mapa, senão uma mentira na qual todos consentem em acreditar?”

(trecho de Quatro soldados: https://armonte.wordpress.com/2013/12/10/quatro-soldados-e-os-caminhos-que-nao-levam-a-nenhum-centro/)

samir1

“Salário! Certamente foi a palavra que mais boicotou minha infância. Uma espécie de ferrugem que toldava aquela fé e orgulho. Na época em que a cidade ia ficando pequena, à medida que eu crescia, a ideia do salário funcionava na consciência como um tipo de mordida a tirar lascas. Salário! Um tormento nas mais diversas situações. Toda vez que se queria um sorvete, um álbum de figurinhas, em especial aquele do filme A dama e o vagabundo, lá vinha a palavra martelar nossos ouvidos.

    E era um mistério. Eu não entendia direito a relação entre ele, o dinheiro e a compra de coisas que me fascinavam. Do mesmo modo, era outra complicação saber por que as pessoas tinham de trabalhar e por que, trabalhando, ganhavam dinheiro. De onde vinha o dinheiro que eu julgava estar no interiro das fábricas? E por que era sempre tão pouco se, por meio dele, toda sorte de delícia pode entrar na nossa vida?

   Do portão da casa, eu via um enorme caminhão de toldo verde-escuro, bancos de madeira, passar cheio de operários. A maioria com bonés na cabeça. Era um pessoal enrugado, meio magro, de roupa escura e gasta (…) Cada um levando numa sacola de pano sua garrafa térmica, fatias de pão caseiro embrulhados em toalha que formava uma trouxa amarrada num laço tipo orelhas de coelho…

   Para completar o quadro de minhas incompreensões, no fim de cada manhã desfilava o ônibus do escritório da fábrica. Minha mãe preparava o almoço segundo a passagem dele. Ela botava um olho comprido sobre a poeira, que ficava como lembrança do veículo, e dizia:

__ Meu maior sonho é te ver um dia trabalhando com esse pessoal. Isso sim que é vida!…”

(trecho de Maçãs argentinas)

Paulo_Venturelli_Paiol_6_138

O vizinho mudou de lugar

a caixa do correio

 

(Como se mudam cardumes

de peixes no meio

 

do mar.

 

/Quando há pesca

Fora de época/)

 

Conto isso porque o garoto

nunca mais fisgou,

 

pelas frestas

 

do portão,

 

as cartas de amor (sua primeira

literatura)

 

tão raras entre e

 

nem mesmo, as contas de luz

telefone, água

 

esgoto

 

impostos

 

cobranças

 

(acúmulos de mágoas, cartas datadas)

 

Antes da improvável

 

hora certa.

 

/Ele

 

depois pensaria

que se cortasse os dedos

e os desse de isca

aos peixes (os segredos

em mãos que não sabiam

escrever) enviaria cartas

 

a quem nunca mais

 

o escreveu/

(poema de Outro dia de folia: https://armonte.wordpress.com/2013/09/19/de-penetra-na-folia-os-poemas-de-eduardo-lacerda/)

edulac

“…por essas horas eu já deveria ter falado de todas as camadas de tintas da parede do quarto que fui retirando, uma a uma, com lixas e raivas diversas. por essas horas eu já deveria ter dito o dobro do que eu disse com essas palavras todas. gastei meu verbo fazendo muitas interrupções. necessárias e pertinentes. no mais, grande parte do que fiz antes de chegar aqui, hoje, no seu gabinete, foi de caso pensado, premeditado, como você bem gostaria de dizer agora. foi tudo premeditado: desde as cordas de náilon que mandei trazer de campina até o notebook que comprei semana passada em dez mil parcelas! nem sei quando vou pagar. puxei pelo torrent a mais nova versão do Word, dizem que não dá tanto bug quanto o outro. e esse tem, acho eu, a opção de não salvar automático. estas palavras todas só serão salvas se e quando eu quiser. não posso ter pleno controle sobre elas, mas são todas minhas e até posso contar quantas escrevi até aqui no exato momento em que estou escrevendo. agora que já passei de dez mil, olha aqui embaixo—dez mil e o escambau—já escrevi essas tantas páginas e nem parece tanto assim. posso também agora passar pro próximo ato. da maneira que eu planejei, a primeira parte englobaria toda a história das camadas de cores do nosso quarto. olha, de agora em diante quando eu falar nosso é sobre as que pertencem a mim e a você, ok? o nosso nosso banal que todo casalzinho tem…”

(trecho de Palavras que devoram lágrimas: https://armonte.wordpress.com/2013/07/26/destaque-do-blog-palavras-que-devoram-lagrimas-ou-a-felicidade-cangaceira-de-roberto-menezes/)

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“__ Agora vamos verificar a pressão.

    Abre a bolsa e apanha o aparelho. Envolve o braço de Nicolas com a braçadeira. Ruído de velcro. Começa a bombear na pera com válvula de metal. Coloca o manômetro sobre o peito do jovem. Usa gestos econômicos e profissionais.

__ Perfeito. Doze por oito—conclui o exame.—Não poderia ser melhor.

__ Vai me soltar agora, doutor?

__ Sim—diz e recolhe seu equipamento para o interior da bolsa de náilon. O som do zíper.—Não vai fazer nada de estúpido, vai?

__ Não—indigna-se sem saber com precisão a que ele pode estar se referindo. Não sou louco, protesta mentalmente. Por acaso ele pensa isso de mim?

__ Ótimo. Porque eu detestaria vê-lo machucado.

    A frase tem impacto sobre Nicolas.

__ Não, não, tranquilo—acha por bem reforçar. Não sabe se foi aviso ou ameaça. De toda forme, prefere ser prudente. Não é o momento de importar-se com seus brios masculinos…”

(trecho de Labirinto no escuro)

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“Fica-se encafifado com a grosseria da máscara que cobre aquele homem, esse tal de João, o Vermelho, Yannick pros íntimos, conforme ele logo diz, ainda em tom de piada, as caneladas doem, mas, também sem saber por quê, se vai gostando dele aos poucos, depois de tantos encontros, talvez porque ele fale tudo e não esconda nada, porque ele não entra no jogo, não veste máscara civilizatória, e com isso faz o humano sentir saudade do bafejo da barbárie na nuca, porque ele veio dum outro mundo e ainda vive num outro mundo, e experimenta tudo na carne, sem camisas nem casacos cosmopolitas pra lhe proteger a pele exposta, as fraturas mal saradas por causa de seu metafísico arrumador de ossos, as feridas todas que lhe cobrem a alma.

    Os grandes problemas de comunicação vão diminuindo aos poucos,e com pasmo se percebe que inclusive se vai assumindo a linguagem do estranho na muita intimidade que passa a vincular o falante ao estranho…”

(trecho de O último minuto: https://armonte.wordpress.com/2013/06/08/o-mundo-a-partir-de-uma-voz-o-ultimo-minuto-de-marcelo-backes/)

20130605marcelo-backes

“… as suas próprias janelas sobre o mundo—a ideia da fenomenologia, o pensamento do Jogo enquanto motor central, a polemos dos pensadores da Grécia antiga—recortavam-se em luz dentro dele… As três colunas que tinham suportado as razões do seu viver—inquirição do Ser, contemplação do universo, fruição do discurso amoroso—tinham-se-lhe esvaído na dissipação da vida. Por isso, todos os nós do Enigma estavam por resolver, como se a resolução de uns dependesse da resolução dos outros, e emaranhavam-no numa teia de insatisfação. O tempo de fuga para o futuro, onde poderia partir à procura das regras do Jogo através da palavra decifradora, designava a sua vida ainda a viver, fracção precária de si mesmo interposta entre o Eu actuante e o pairar da morte no horizonte. Para esse tempo delineara um projecto decisivo: desenovelar as questões-chave que o rondavam sem trégua nem resposta. No limite, animava-o a iminência de um confronto privado que, das longas horas de estudo e reflexão, da multidão de ideias e formas incompletas, pudesse responder ao desafio do Outro (…)

   Que impaciência dominava Fausto quando das longas leituras intentadas, visava apreender visões do mundo que outros tinham traçado, para delas alcançar a sua própria visão! Mas após ter absorvido em prazer e cansaço a substância de um livro numa alegria efêmera, logo outros e outros livros afirmavam os seus direitos a serem escutados e o compeliam a analisar ideias latentes em seus escusos corredores e câmaras. Imobilidade dolorosa do corpo… Corrida improfícua do pensar à descoberta de si mesmo… Renúncia a sóis, a crepúsculos, à música, ao amor… Uma vertigem mediada pela palavra guiava Fausto a pontos cruciais do questionar-primeiro, á clarificação das traves-mestras do Ser, do conhecer, do aparecer das aparências, mas que desembocava quantas vezes em esvaimento (…) Sofria no corpo e no espírito o despotismo do livro sobre o homem do ocidente: o livro doador de oferendas, instigador de promessas; mas também causador de impasses, tirano do repouso, rival da natureza…”

   (trecho de Doutor Fausto)

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[1]  De autores cuja carreira venho acompanhando com grande admiração, como António Lobo Antunes, Ricardo Lísias e Michel Laub foram publicadas obras “menores” com relação às suas anteriores (Comissão de lágrimas, Divórcio e A maçã envenenada, respectivamente),todavia não quero deixar de mencioná-los (e é bom lembrar, no caso do romance de Lísias, de que a repercussão foi enorme).

Também não estão na lista final e gostaria de mencioná-los: As miniaturas, romance que comprova ao mesmo tempo o talento e a imaginação de Andréa Del Fuego e sua dificuldade com a forma-romance; Ar de Arestas, com os  poemas sempre rigorosos e precisos de Iacyr Anderson Freitas; Pelas Beiradas, o livro de estreia do talentoso poeta Éder Fogaça; e, por fim, Esquilos de Pavlov, de Laura Erber, que trata de um mundo muito restrito como se representasse o Zeitgeist pós-1989, mas que é muito bem escrito.

[2] O autor gaúcho decerto pratica a verdadeira paródia, e não um pastiche, como seria mais fácil.

destaques

1 Comentário »

  1. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

    Comentário por anisioluiz2008 — 17/12/2013 @ 9:22 | Responder


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