MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/11/2013

O genial Rubem Fonseca dos primeiros tempos


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de outubro de 2010)

Em 1973, há seis anos sem lançar um livro novo, Rubem Fonseca já publicara três importantes coletâneas: Os prisioneiros; A coleira do cão e Lúcia McCartney.. Só dois anos lançaria outra, justamente aquela que o tornaria famoso: Feliz ano novo. A novidade foi a sua estréia no romance, com o lamentável O caso Morel. Esse gênero monopolizaria sua produção na década seguinte, transformando-o num berst seller, e, na opinião de quem aqui escreve, quase o destruindo como criador.

Nesse mesmo ano, contudo, fora lançada uma antologia reunindo 18 contos dos seus livros anteriores, O homem de fevereiro ou março, a qual acaba de ganhar uma segunda edição, permitindo ao leitor  uma visão panorâmica do “primeiro” Rubem Fonseca, tão talentoso e impactante que se tornou o autor-referência das últimas décadas, ao impor a ficção urbana de forma definitiva.

Dos 10 contos de Os prisioneiros, temos “Fevereiro ou março”, que inaugura de forma memorável esse universo, e nos apresenta um personagem recorrente nesses livros iniciais, o fisioculturista-pugilista galã que vive meio ao deus dará; além dele, “O inimigo”, que é uma das maiores provas do talento rubem-fonsequiano para o conto longo, que sugere um romance (e não de que ele tenha vocação para o romance), com um poder formidável. Nesse conto, ele mostra a desagregação de um grupo de colegas de escola e o apego nostálgico do narrador a uma época que já se foi. O inimigo é o tempo, que muda tudo, inclusive a feição da sociedade brasileira, que se urbaniza celeremente na década de 60.

A coleira do cão é um grande livro. Por isso, nada mais natural que 6 dos seus 8 contos tenham sido incluídos em O homem de fevereiro ou março, e que todos beirem a condição de obra-prima. Deixo de lado “Os graus”, “Madona” e até mesmo o notável “O gravador”, para ressaltar três textos paradigmáticos: “Relatório de Carlos”, em que mais uma vez o sopro do romance insufla num texto curto várias possibilidades e que mostra a queda um advogado poderoso que “reeducava” suas amantes; “A força humana”, no qual nosso anti-herói pugilista vive uma situação parecida a de Bette Davis em A malvada; e “A coleira do cão”, um dos maiores contos da nossa literatura, com a narração do cotidiano de uma delegacia.

A maior quantidade de contos (8) é de Lúcia McCartney (pudera, eram 19 no livro original). Os destaques vão para “O caso de F.A” onde nasce Mandrake, protagonista de tantas histórias de Fonseca, e memoravelmente encarnado por Marcos Palmeira no seriado da HBO; “A matéria do sonho” onde uma boneca de vinil é o grande amor do narrador; “Lúcia McCartney”, onde  o cotidiano de uma garota de programa é explorado de forma desdramatizada e inovadora; o crudelíssimo “Relato de ocorrência”, em que uma vaca atropelada é  toda cortada pelo populacho; e por fim, o extraordinário “O quarto selo”, onde, num Rio de Janeiro do futuro, departamentos especializados de repressão a ondas crescentes de terror e rebelião, são mencionados por siglas, que vão sendo explicadas minuciosamente ao leitor (por exemplo, RDE= regulamento de defesa especial, ESQUADRÕES= grupos de especialistas  em atentados pessoais com explosivos) até que as siglas se tornam rebarbativas e tautológicas: CONTROLE= controle; EUNUCO= eunuco.

O homem de fevereiro ou março é indispensável para o leitor de 2010 constatar  por que tanta gente acha Rubem Fonseca genial.

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/a-moralidade-de-best-seller-de-rubem-fonseca/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/amalgama-um-rubem-fonseca-pifio-para-50-anos-de-carreira/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/24/parcas-emocoes-e-romances-imperfeitos-a-fastidiosa-ficcao-longa-de-rubem-fonseca/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/quitutes-do-caldeirao-do-bruxo/

1 Comentário »

  1. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

    Comentário por anisioluiz2008 — 04/08/2013 @ 9:27 | Responder


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