MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/10/2013

Tijolaço biográfico pouco ajuda a conhecer George Eliot

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 18 de agosto de 1998)
Os leitores brasileiros puderam este ano conhecer as grandes criações de George Eliot (1819-1880), Middlemarch & Daniel Deronda, dois romances absolutamente essenciais. Tendo publicado a tradução magnífica de Leonardo Fróes para  o primeiro deles, a Record apressou-se em lançar também um tijolaço biográfico de Frederick R. Karl sobre a genial escritora inglesa:A voz de um século [1].
Karl considera Eliot a voz do século dominado pela rainha Vitória porque conseguiu exprimir as contradições e dilemas que fizeram daquele momento uma encruzilhada entre passadismo e modernidade. Eliot, que se chamava originalmente Mary Anne Evans (ela foi modificando seu nome ao longo da vida, várias vezes), ocupou uma posição dúbia na estratégia social vitoriana, uma mulher que viveu 24 anos com um homem casado, George Lewes, agindo como se fosse a verdadeira esposa dele e intitulando-se sra. Lewes. Isso fez dela a “mulher escarlate”, anatematizada pela moral pública. Por outro lado, a partir do momento em que começou a escrever, tornou-se um ídolo literário, um monumento da intelectualidade britânica (quase todos que a conheceram ficaram impressionados com sua inteligência). Tornou-se o único rival possível para Charles Dickens, o maior vendedor de livros da época (e, diga-se de passagem, um gênio literário também). A grande ironia é que, embora nunca deixasse de ser um sucesso de público (morreu deixando uma grande fortuna, por causa de problemas renais, logo após ter casado, oficialmente dessa vez, aos 60 anos, com John Cross, 20 anos mais novo), Eliot foi escrevendo uma obra cada vez mais difícil, densa, revolucionária, principalmente os dois livros tão tardiamente traduzidos no Brasil.
Psicologicamente, como afirma Frederick Karl, ela vivia a dicotomia da realização e da auto-destruição: “Eliot se dividia entre a personalidade que se alimenta de derrotas, resignação, sentido de mortalidade e o fim do próprio eu e a personalidade que produz, se desenvolve, amadurece, emerge e procura atingir o público como autora e ser social”.
O trabalho de Karl é minucioso, sério, procura equilibrar o relato da vida com a análise da obra (o que é raro), porém é de uma monumental chatice. Deslumbrado, talvez, por  ser “o primeiro biógrafo a ter acesso a todo o material” sobre Eliot, ele exorbita e massacra o leitor com pormenores. Há páginas e páginas em que se tem de aguentar uma lengalenga do tipo: dia 8 de setembro—visita de amigos, chá, bolo, passeios no bosque, quarenta páginas escritas; dia 9 de setembro—dores de cabeça, queixas de dispepsia, cartas para amigos,cartas de amigos, prestação de contas do editor (800 exemplares vendidos, 200 libras de direitos autorais), sessenta páginas escritas; dia 10 de setembro—dores nas costas, inflamação nas gengivas, cartas para amigos, visita de amigos, passeios no bosque, compra de um xale, trinta páginas escritas… e assim por diante.
É lógico que estou caricaturando um pouco o método de A voz de um século, mas a enumeração de detalhes do cotidiano (que poderiam ter sido sintetizados, não há dúvida), de datas, de números de exemplares vendidos e de quantias entrando no cofrinho, vão dando uma impressão amorfa, tornando a vida de Eliot indistinta e opaca para o leitor em geral.
Para o leitor brasileiro especificamente o livro ainda tem um senão mais grave (e é por isso que foi usado o verbo apressar com relação à iniciativa da editora). São tantas as obras de George Eliot que ainda não estão traduzidas por aqui que boa parte do livro escorrega no vácuo do desconhecimento. O que adianta ler sobre Cenas da vida clerical, Romola, Silas Marner, Felix Holt—o radical, A  cigana espanhola ou diversos outros textos se eles permanecem inéditos? Isso só serve para os adeptos da cultura de orelhada. Mais uma vez colocou-se o carro adiante dos bois. Era melhor deixar A voz de um século para depois, quando se tiver uma visão mais ampla da trajetória de George Eliot, que ainda permanece, entre os escritores maiores, um dos mais ignorados no Brasil. O melhor que o leitor tem a fazer é procurar conhecer O triste noivado de Adam Bede, O moinho sobre o rio, Middlemarch Daniel Deronda. Ou conhecer as outras obras de ficção da época vitoriana, como as de Dickens (bastante traduzido por aqui, ainda que não nos últimos anos), A feira de vaidades, de Thackeray (já traduzido pela Civilização Brasileira;  aliás, Thackeray é autor de Barry Lyndon, que originou uma das obras-primas de Stanley Kubrick), algumas obras de Anthony Trollope (que agora estão sendo publicadas pela Ediouro)…
Só assim um livro como o de Frederick R. Karl pode fazer sentido.
VER AQUI NO BLOG:

[1] George Eliot: voice of a century (EUA, 1995), traduzido por Luís Lira.
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11/10/2013

ALICE MUNRO E O UNIDUNITÊ DOS AFETOS: “ÓDIO, AMIZADE, NAMORO, AMOR, CASAMENTO”

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“Eram duas pessoas sem meio-termo, nada situado entre as formalidades educadas e uma intimidade avassaladora. O que houvera entre eles, por todos esses anos, fora mantido em equilíbrio por causa de seus dois casamentos. Seus casamentos eram o verdadeiro conteúdo de suas vidas–o casamento dela com Lewis, o às vezes áspero e desconcertante, indispensável conteúdo de sua vida. Essa outra coisa dependia desses casamentos, por sua afabilidade, sua promessa de consolo. Não era como se fosse algo que pudesse se sustentar sobre si mesmo, ainda que ambos fossem livres.E contudo, não era um nada. O perigo residia em testá-lo, em vê-lo desmoronar e então pensar que não havia sido nada.” (trecho de Comfort-Conforto)

“O trabalho que tinha a fazer, segundo achava, era se lembrar de tudo–e por ´lembrar´queria dizer a experiência em sua mente, mais uma vez–e então guardar aquilo para sempre. Ter a experiência daquele dia ordenada, nenhuma parte dela deixada pendurada ou solta, tudo ajuntado como um tesouro, e encerrada, posta de lado.” (trecho de What is remembered- O que é lembrado)

(o texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em 11 de outubro de 2013, após o anúncio do Nobel para Alice Munro)

O Nobel ignorou a ficção de língua francesa, voltada para os rincões rústicos—eivados de pulsões—,tal como vemos na obra de Anne Hébert (1916-2000), e também a polimorfamente perversa reflexão (em língua inglesa) sobre os vínculos da periferia (a ex-colônia) e o centro (o Reino Unido) com os labirintos da condição feminina, da obra de Margaret Atwood, para distinguir, enfim, uma escritora do Canadá com uma produção calcada na narrativa curta e que, no entanto,  compartilha de certas características comuns (ou incomuns) das duas grandes autoras citadas, mais polivalentes quanto ao exercício de gêneros: Alice Munro.

Sim, é verdade que o nome escolhido como vencedor em 2013 mostra bem a vitalidade da tradição tchekhoviana, dos pequenos conflitos retratados com consumada e compassiva maestria. Nem por isso deixa de haver um toque que lembra outra praticante notável da forma curta, Flannery O´Connor, indicando meandros e contornos mais “pesados”, por assim dizer, na representação de incidentes e situações cotidianas, que são a base para uma arte ficcional marcada pela síntese e pela economia[1].

O leitor brasileiro teve a sorte de conhecer essa inquietante feição dupla (tchekhoviana-flanneryana) de Alice Munro já no primeiro livro dela  traduzido em nosso país (por Cássio de Arantes Leite para a editora Globo, e lançado em 2004): Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento [Hateship,  Friendship, Courtship, Loveship, Marriage], título que causa estranheza por sua rebarbativa sequência de substantivos que, separada ou combinadamente, amiúde aparecem em títulos de auto-ajuda e congêneres, mas que, aqui, tem a ver com uma ladainha tipo unidunitê, executada por duas adolescentes no texto-título (o primeiro dos nove contos longos que compõem essa coletânea de 2001): “A única boa ideia que Sabitha teve era escrever num papel o nome de um garoto e o seu próprio, descartar as letras que se repetiam e somar então as restantes. Depois elas contavam o número na ponta dos dedos, dizendo, Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, até recebe o veredicto sobre o que poderia acontecer entre elas e o garoto”.

Esse unidunitê do aleatório da vida (disfarçado no ritmo da ladainha)  e das escolhas que supostamente fazemos, é muito presente nas histórias contadas por Munro, e equacionado com o peso emocional das pessoas na vida dos seus personagens.

Dessa maneira, ainda no conto-título, um dos jogos das duas garotas, Sabitha e Edith, em sua efêmera condição de “melhores amigas” (até que as diferenças de condição social se evidenciem, afastando-as[2]) leva ao núcleo anedótico do relato, que é a decisão da empregada do avô de Sabitha de pedir demissão, para ir ao encontro do pai da neta de seu patrão: no caso, um viúvo que tem tanto de aventureiro e sedutor quanto de fracassado, e que sequer tomara conhecimento da existência dela;  porém, as meninas inventaram toda uma correspondência que aos poucos foi convertendo a austera e parcimoniosa Johanna Parry (uma das maiores personagens da ficção mais recente) em candidata a noiva.

Vamos conhecendo as etapas da evasão de Johanna (junto com uma mobília a qual, guardada por anos, é um ponto-chave na trama), aos poucos, e de uma forma admirável, pois antes de sabermos a causa de todo o imbróglio e conhecermos os demais personagens, travamos contato primeiro com a sua peculiar personalidade (quando vai comprar a sua passagem de trem e combinar os detalhes do transporte da referida mobília), numa impactante cena inicial.

Nos últimos parágrafos dessa pequena obra-prima, temos uma frase genial, que indica o espírito travesso de Munro, a sua gota de veneno nos licores de laranjeira (tal como sua colega dos EUA, Anne Tyler, mais afeita ao romance). É relacionada a Edith, uma das parceiras no unidunitê que envolve os destinos da até então solteirona  Johanna e do pai de Sabitha: “Pois onde, dentre a lista de coisas que planejava conseguir em sua vida,  havia qualquer menção ao fato de que seria a responsável pela existência no mundo de uma pessoa chamada Omar?” . Desde a Emma de Jane Austen, não víamos consequências tão divertidas (em porções de deleite e de ridículo) a partir da interferência na vida alheia.

Cada um dos nove textos tem seu próprio unidunitê. Em  Urtigas [Nettles], a narradora abandona o primeiro marido e reencontra aquele que foi a paixão da sua infância (também casado), durante visita a uma amiga, e eles estacam no limiar de um relacionamento, afinal interdito devido a todas as decisões anteriores, e sobretudo pelo medo de “estragar” a magia dos jogos da infância (embora seja uma memória muito diferente para cada um deles).

Quando um empregado da pequena fazenda onde ela e a família viviam (e ele estava de passagem, pois o pai executava um serviço temporário) “malda” a convivência dos dois, e a mãe dela os defende: “Ela estava enganada. O empregado chegara mais perto da verdade do que ela. Não éramos como irmão e irmã, nem como nenhum irmão e irmã que eu já houvesse visto (…) E não éramos como as esposas e maridos que eu conhecia, que para começo de conversa eram velhos, e viviam em mundos tão separados que pareciam mal reconhecer um ao outro. Éramos como um casalzinho íntimo e vigoroso, cuja ligação não necessitava de muita expressão exterior. Algo, pelo menos para mim, solene e emocionante”.

Anos depois, quando adultos (numa cena que justificará o título):

“Tão perto um do outro que éramos incapazes de nos olhar (…) Mike liberou meus pulsos e pousou as mãos sobre os meus ombros. Seu toque ainda era para restringir, mais do que confortar.

    (…) A chuva continuava a cair, mas já se tornara uma chuva pesada qualquer. Ele tirou suas mãos, e ficamos de pé, tremendo. Nossas calças e camisas estavam grudados no corpo (…) Tentamos sorrir, mas mal tínhamos força para isso. Então nos beijamos e nos apertamos brevemente. Isso foi antes um ritual, um reconhecimento de sobrevivência, mais do que a inclinação de nossos corpos.”[3]

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A condição de observadora de relações cristalizadas também é um componente da narradora de Queenie. Ela, que, mais tarde, será uma professora com carreira, marido e filhos, conta um episódio formativo, quando, ainda jovem, visita a “irmã” (a Queenie do título, que agora quer ser chamada de Lena, para não irritar o tirânico marido, com o qual vive numa espécie de cortiço)— na verdade, a filha da mulher que casou com o seu pai—, a qual fugira de casa para se casar com o antigo patrão (o sr. Vorguilla, metamorfoseado em Stan]. O objetivo é conseguir um emprego de verão, mas ela principalmente se dedica a observar o relacionamento de Queenie (que se diz uma “criatura do amor”, reproduzindo—pensa a narradora—clichês assistido nos filmes comerciais no cinema onde trabalha) não apenas com o marido, mas também com os amigos dele:

“Meu pai e Bet. Sr e Sra. Vorguilla. Queenie e o Sr.  Vorguilla. Até mesmo Queenie e Andrew. Esses eram casais, e cada um deles, por mais desunido que fosse, tinha agora ou na lembrança um refúgio particular com seu calor e tumulto, do qual eu ficava de fora. E eu tinha de ficar, eu queria ficar de fora, pois era incapaz de ver qualquer coisa em suas vidas que pudesse me instruir ou encorajar.”

  Então, nessa altura da vida, há a disponibilidade., o unidunitê de um caminho indeterminado, um futuro cheio de possibilidades. O que lhe permite pensar: “Se ao menos tivesse um quarto, pensei, Queenie teria um lugar para onde fugir caso o Sr. Vorguilla ficasse fulo da vida com ela outra vez. E se Queenie um dia decidisse deixar o Sr. Vorguilla (eu seguia pensando nisso como uma possibilidade…), então com o salário de nossos dois empregos quem sabe conseguíssemos um pequeno apartamento”.

Queenie, de fato, inesperadamente “some”, largando o Sr. Vorguilla. E nunca mais é vista. E então se torna uma peça irônica na engrenagem da vida futura da narradora: ela, que era a que tinha dado o mau passo e “fechado” o seu destino, ganha a aura de figura mítica, que pode estar em qualquer lugar e ter qualquer vida: “nesses anos em que meus filhos cresceram  e meu marido se aposentou, e ele e eu viajamos um bocado, tenho a impressão de que às vezes vejo Queenie (…)Certa vez, foi num aeroporto lotado, e ela usava um sarongue e um chapéu de palha com adornos floridos. Bronzeada e animada, parecendo rica, cercada de amigos. E certa vez ela se achava entre mulheres na porta de uma igreja à espera dos noivos e sua comitiva. Vestia uma jaqueta de camurça manchada e não parecia próspera ou bem de vida…” No unidunitê da desaparição de Queenie, as possibilidades multiplicam-se e contradizem-se, e ela adquire uma condição nostálgica e poética.

Haveria muito o que explorar em Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento no caminho dessas linhas de força em que o aleatório (unidunitê) e a presença irrevogável de alguém formam uma espécie de dialética da construção da memória do cotidiano e da trajetória de uma vida.

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Para atender a um propósito de brevidade, me restringirei aos dois contos que considero mais bonitos do livro (uma façanha e tanto, diga-se de passagem), mesmo enfatizando que o conto-título é uma obra-prima à parte: Ponte Flutuante e The bear came over the mountain.

Ponte Flutuante [ Floating Bridge] se inicia significativamente com o relato de uma ocasião em que a protagonista, Jinny, quase largou o marido, Neal (um ativista sempre lutando por boas causas, entre elas a reeducação de delinquentes juvenis). Ela não leva seu intento adiante, mas o leitor já fica de orelha em pé para as fissuras entre um casal cujo engajamento tem muito a ver com uma obrigatória cumplicidade (e olhe que ele é bem mais velho que ela):

“Alugaram uma cama de hospital—na verdade, ainda não tinham necessidade dela, mas fora melhor pegar uma assim que possível, porque em geral a oferta não era grande. Neal pensou em tudo. Pendurou algumas cortinas pesadas que haviam sido descartadas do salão de jogos de um amigo. Tinham uma coleção de canecas de cerveja com tampa e objetos equestres de bronze que Jinny achava muito feios. Porém ela sabia agora que havia épocas em que o feio e o bonito serviam exatamente para o mesmo propósito, quando qualquer coisa para a qual se olha é apenas um pino onde pendurar as sensações descontroladas de seu corpo e os bocados e pedaços de sua mente.”

Quando Jinny é submetida à quimioterapia (com os estragos concomitantes), Neal arranja uma moça desajustada para cuidar da casa. É no dia em que ela  começará a trabalhar e viver com eles que o relato se concentra. Tudo é difícil e pesado para Jinny: o calor do dia, as decisões de Neal, que fazem com que eles tenham de ir à dilapidada propriedade da família que cuidava de Helen, a desajustada empregada, e com que ela tenha contatos com pessoas desconhecidas, hospitaleiras até em demasia, enquanto sente náuseas e uma terrível necessidade de solidão. Parece que o destino de Jinny é ficar atada a esses “compromissos morais” (o marido, quando ela recusa entrar na casa, lhe diz: “você não quer que eles pensem que se julga acima deles, não?”), enquanto a morte vai se aproximando.

Mas eis que a progressão do relato nos mostra que ainda há o unidunitê na vida de Jinny, que ela ainda não acabou (aliás, uma informação sobre o estágio da doença dela vai modificar um pouco o panorama do futuro), e ela tem uma experiência estranha, até assustadora (pode ter ficado à mercê de um desses psicopatas tão contumazes nesse hemisfério), com direito à noite estrelada e beijo (o que rende um trecho lindo: “Beijou-a na boca. Pareceu a ela que pela primeira vez na vida compartilhava um beijo que era em si mesmo um evento. A história completa, encerrada no beijo”). A arte de Alice Munro aí nos envolve totalmente, parece que vemos o mundo com o olhar da sua personagem, e ao mesmo tempo também podemos acompanhar claramente a maneira como os outros a percebem e tiram conclusões a seu respeito.

Encerrando a coletânea, o extraordinário The bear came over the mountain[4] se destaca por um motivo extemporâneo:  foi adaptado para o cinema, mantendo todas as suas qualidades, por Sarah Polley, em Longe Dela. Mesmo após aparecer a visão cirúrgica e ainda mais impiedosa do  tema em Amor (2012), de Michael Haneke, penso que a variação Munro-Polley mantém seu impacto e frescor por levantar questões inteiramente diferentes.

Na juventude, a decisão de Fiona casar-se com Grant obedece ao espírito “unidunitê”: “Acha que seria divertido se nos casássemos”. Entretanto, já na época, para Grant, o assunto se apresentava com mais gravidade: “Jamais queria ficar longe dela. Ela possuía a centelha de vida”. Isso não o impediu de, ao longo de um casamento de décadas, ter casos, alguns sérios, alguns até ameaçando sua carreira (como professor universitário), seguindo  modismos de comportamento sexual,  ainda  que de forma moderada. Enquanto ela, até por um certo esnobismo (ou autenticidade, ou profunda absorção em si mesma) se mantinha à parte.

Com o Alzheimer (não-nomeado, mas supõe-se que seja) evoluindo, ela mesma pondera que o melhor é internar-se numa instituição, na qual uma das regras é: nos primeiros 30 dias, nada de contato com familiares.Então ao revê-la, Grant percebe que ela passou para o outro lado da montanha. Está longe dele. E vemos o reverso doloroso do unidunitê: como conciliar que aquela pessoa-centelha na sua vida o oblitere quase que inteiramente,que lhe seja alheia quase que por vontade própria?

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O que torna o texto sensacional é o fato de que Munro mostra que, mesmo com as deteriorações psíquicas, que esgarçam os laços afetivos de toda uma existência, A VIDA NÃO PARA. Fiona, apesar de se manter renitentemente  opaca—e isso até o final maravilhoso do relato—para  o leitor (no filme, um efeito também da admirável interpretação de Julie Christie), constrói novos afetos e relações ali no Meadowlake. Se a vida (nesse sentido, de afetos e desejos) não para lá fora,  dentro da instituição também não. E Grant se obriga, por ciúme, por desespero, por inaptidão existencial, a acompanhar essa metamorfose dos sentimentos da  esposa. E se acompanhamos Shakespeare, Machado de Assis, Proust e Graham Greene nas suas travessias infernais do ciúme, The bear came over the mountain nos descortina novas veredas nesse território:

“Meadowlake tinha poucos espelhos, de modo que ele não era obrigado a ver a si mesmo espreitando e rondando. Mas de vez em quando lhe ocorria o quão patético, idiota e talvez fora dos eixos devia parecer, perseguindo Fiona e Aubrey por toda parte. E sem sorte alguma em confrontá-la, ou a ele. Cada vez menos seguro sobre que direito tinha de estar na cena, mas incapaz de se retirar. Mesmo em casa, enquanto trabalhava em sua escrivaninha, fazia limpeza ou removia neve com a pá, caso necessário, o tique-taque de um metrônomo dentro de sua mente fixava-se em Meadowlake, em sua próxima visita. Às vezes ele parecia a si mesmo um garoto obstinado fazendo uma corte impossível, outras, um desses malucos que seguem mulheres famosas pelas ruas, convencidos que um dia essas mulheres irão se virar e reconhecer seu amor.”

Conforme a narrativa se complica e se aprofunda, como acontece sempre nesses casos, vai agregando reflexões perspicazes, muito calcadas na concretude da vida (mesmo que tudo o que é sólido nas relações se desmanche no ar). Quando Marian, a esposa de Aubrey, explica a Grant sua relutância em interná-lo de vez no Meadowlake (e a ausência de Aubrey ali acelera a deterioração física e mental de Fiona)—ela teria de vender a casa para mantê-lo ali, e conservar a propriedade da casa é um ponto de honra para ela, a quem a vida tirou tanto–, lemos:

“Ele falhara com a esposa de Aubrey, Marian. Já previra que poderia falhar mas de maneira alguma previra o porquê. Pensara que tudo com que teria de se haver seria o ciúme sexual ou seu ressentimento (…) Não fazia a menor ideia da maneira como ela podia encarar as coisas. E mesmo assim, de algum modo deprimente, a conversa não lhe soara pouco familiar. Isso porque o lembrou de conversas que tivera com gente de sua família. Seus tios, seus parentes, provavelmente até sua mãe teriam pensado da forma como Marian pensava. Teriam acreditado que quando outras pessoas não pensam dessa forma era porque estavam se tapeando—tinham ficado muito intelectuais ou estúpidas, por conta de suas vidas confortáveis e protegidas ou de sua educação. Haviam perdido o contato com a realidade. Gente educada, gente instruída, gente rica como o sogro socialista de Grant havia perdido o contato com a realidade. Devido a uma boa sorte imerecida ou a uma estupidez nata. No caso de Grant, suspeitava, eles achavam  sinceramente que era os dois.

    Era assim que Marian o veria, certamente. Uma pessoa tola, cheia de conhecimento enfadonho e por um acaso protegido da verdade da vida. Uma pessoa que não tinha de se preocupar em manter sua casa e podia sair por aí ruminando seus pensamentos complicados.”

Como se vê, pelo escopo das reflexões e da estrutura narrativa, Munro poderia ser uma escritora que naturalmente passaria para o romance. Que ela tenha conseguido encontrar essa forma intermediária, ao mesmo tempo tão  contida e ampla-flexível, é a sua marca, e uma marca e tanto. Assim como o fato de ela não deixar nunca que a balança penda apenas para um lado, nem para o jogo aleatório nem para os “laços de ternura”. Tal como Anne Tyler, ela tem perfeita noção da tênue fronteira entre eles. Mas sabe que, de fato, Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, em suas formas mais diversas, são realidades substantivas em nossas existências.

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/15/no-mundo-de-alice-o-amor-de-uma-boa-mulher-e-um-nobel-indiscutivel/

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TRECHOS SELECIONADOS

Tinha seu orgulho, ela pensou. Isso era algo a ser considerado. Talvez fosse melhor jamais mencionar as cartas nas quais se abrira tanto. Antes de partir, ela as destruíra. Na verdade, destruíra uma por uma mal as acabara de ler bem o bastante para sabê-las de cor, e isso não demorava muito. Uma coisa que certamente não queria era que as cartas caíssem nas mãos da pequena Sabitha e de sua amiga insidiosa. Especialmente aquela parte da última carta sobre a camisola e estar na cama. Não que esse tipo de coisa não existisse, mas podiam ser consideradas vulgares, piegas ou um convite ao ridículo quando postas no papel (…) Mas ela jamais o frustraria, se era isso que ele esperava.

    Isso não era uma experiência inteiramente nova, este sentimento revigorante de expansão e responsabilidade. Ela sentira alguma coisa parecida pela Sra. Willets—outra pessoa negligente e de aparência distinta necessitada de cuidados e atenção. Ken Boudreau revelou-se um pouco mais desse jeito do que se preparara para ver,  e existiam as diferenças que seriam de se esperar num homem, mas certamente não havia nada em relação a ele de não pudesse dar conta.

    Após a Sra. Willets, seu coração secara, e costumava considerar que poderia ser assim para sempre. E agora esta comoção acalorada, este amor atarefado. (de Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento)

Novamente dentro da van, Helen falou para Neal.

__ Só está desperdiçando gasolina.

__ Norte da cidade?, disse Neal. Sul? Norte sul leste oeste, que região?, Helen diz a melhor direção.

__ Eu já disse. Fez tudo que vai fazer por mim hoje.

__ E eu disse: Vamos buscar aqueles sapatos pra você antes de voltar para casa.

   Independentemente de quanto estivesse inflexível, Neal sorria. Seu rosto exibia uma expressão de tolice consciente, mas involuntária. Sinais de uma invasão de felicidade. Todo o ser de Neal era invadido, trasbordava de felicidade tola.

__ Como você é teimoso, disse Helen.

__ Cai ver como sou teimoso.

__ Também sou. Sou tão teimosa quanto você.

    Pareceu a Jinny que podia sentir o ardor da bochecha de Helen, que estava tão perto deles. E certamente conseguia ouvir a respiração da garota, rouca e carregada de agitação, exibindo algum indício de asma. A presença de Helen era como a de um gato doméstico que jamais deveria ser levado em veículo algum, sendo irritável demais para ter juízo, disposto demais a projetar-se entre os bancos.

   O sol queimava através das nuvens outra vez. Um disco de latão alto no céu (…)

 __ Talvez a gente devesse simplesmente ir embora, disse Jinny. Talvez apenas ir para casa.

    Helen interrompeu, quase gritando:

__ Não quero atrapalhar ninguém a ir pra casa.

__ Então basta me explicar o caminho, disse Neal (trecho de Ponte  Flutuante)

Assim, se Alfrida ia falar sobre isso, pensei, era uma boa coisa que meu noivo não estivesse junto. Uma boa coisa que não tivesse de ouvir falar sobre a mãe  de Alfrida e por tabela descobrir alguma coisa sobre minha mãe e a relativa, ou quem sabe substancial, pobreza de minha família. Ele era um admirador de ópera e do Hamlet de Laurence Olivier, mas não tinha tempo para a tragédia—para a sordidez da tragédia—na vida comum. Seus pais eram saudáveis, bem-apessoados, prósperos (embora ele dissesse, é claro, que eram estúpidos), e parecia que não tivera de conhecer ninguém que não vivesse em circunstâncias igualmente felizes. Admirava-se dos fracassos da vida—fracassos na sorte, na saúde, nas finanças—, que lhe soavam como lapsos, e sua aprovação sem ressalvas de minha pessoa não se estendia às minhas dilapidadas origens. (trecho de  Mobília de Familia[Family Furnishings], que—entre outras coisas, em especial a caracterização de Alfrida, outra grande personagem como a Johanna do conto-título —é muito interessante e divertida enquanto retrato de escritora quando jovem: “ A história que escrevi, com isso incluso, não seria escrita senão anos mais tarde, apenas quando se tornou insignificante o suficiente para que eu pensasse em quem enfiara a ideia em minha cabeça, para começo de conversa”).

“Desistiram após algum tempo de ter um filho. E ela suspeitava que ambos eram um pouco egocêntricos demais—não gostavam do pensamento de se verem enredados nas ligeiramente cômicas e aviltantes identidades de papai e mamãe. Os dois—mais Lewis, em particular—eram admirados pelos estudantes por serem diferentes dos outros adultos da escola (…)

    Ela ingressou num grupo coral. Muitos dos recitais eram executados em igrejas, e foi então que aprendeu quanto Lewis detestava lugares como esses. Ela argumentava que dificilmente havia outros espaços adequados e disponíveis (…). Dizia-lhe que estava sendo antiquado e que nenhuma religião poderia fazer muito mal, nos dias atuais. Isso suscitou uma enorme discussão. Tiveram de correr pela casa batendo janelas, para que suas vozes elevadas não fossem escutadas pelos que passassem na calçada na quente noite de verão.

    Uma briga como aquela era de assustar, revelando não só quanto ele era propenso a fazer inimigos, mas como ela era incapaz de abandonar uma discussão que beirava as raias da violência. (trecho de Conforto)

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As garotas, a exemplo dos garotos, estavam divididas em dois lados, mas uma vez que não havia tantas meninas quanto meninos, não podíamos servir de fabricantes de munição e enfermeira para apenas um soldado. Havia alianças, ainda. Cada garota tinha sua própria pilha de bolas e trabalhava para alguns soldados em particular, e quando um soldado tombava ferido, gritava o nome de uma garota, de modo que pudesse arrastá-lo e cuidar de seus ferimentos o quanto antes. Fiz armas para Mike, e quando ele gritava por socorro, era meu nome que chamava. Havia tanto barulho acontecendo—gritos constantes de Você morreu, triunfantes ou ofendidos (…) tanto barulho, que tínhamos de permanecer o tempo todo alertas para a voz do garoto que iria chamar nosso nome. Havia um sentimento penetrante de alarme quando o grito vinha, uma eletricidade zunindo por todo o corpo uma sensação de fanática devoção (pelo menos para mim era assim, que, ao contrário das demais garotas, prestava meus serviços a único guerreiro) (…) Que alegria imensa foi participar de uma aventura tão arrebatadora e abrangente e ser escolhida, dentro dela, para empenhar-se essencialmente aos serviços de um combatente. Quando Mike se feria ele nunca abria os olhos, ficava lânguido e imóvel enquanto eu pressionava as folhas enlameadas em sua testa, sua garganta e—tirando sua camisa—seu abdômen pálido e macio, com seu doce e vulnerável umbigo. (trecho de Urtigas, que evoca uma brincadeira entre crianças, vejam só!)

Contou-lhe a única lembrança que tinha da mãe. Estava no centro, com ela, num dia de inverno. Havia neve entre a calçada e a rua. Acabara de aprender a ler as horas, ergueu os olhos para o relógio da agência dos Correios e viu que era hora do programa que ela e sua mãe ouviam todos os dias no rádio. Sentiu uma forte preocupação, não de perdê-lo, mas porque ficou imaginando o que aconteceria com as pessoas na história se o rádio não fosse ligado e ela e sua mãe não estivessem ouvindo. Foi mais do que preocupação que sentiu, foi pavor, pensar na forma como as coisas poderiam se perder, poderiam não acontecer, devido ao acaso ou a uma ausência ocasional.

    E mesmo nessa lembrança, sua mãe era apenas um par de ancas e ombros, dentro de um pesado casaco. (trecho de Coluna e Viga [Post and Beam], outro belo momento da coletânea, em que uma esposa muito mais jovem que o marido, um professor, se sente atraída por um ex-aluno—um sujeito de personalidade à Wittgenstein—do marido; há também a visita de uma prima provinciana e ressentida na casa deles, construída da forma arquitetônica que dá sentido ao título do relato; um dos momentos mais bonitos é quando Lorna, a protagonista, visita clandestinamente o quarto de Lionel, o ex-aluno—que se encontra ausente: “A nudez, o anonimato do quarto era seriamente desafiador. Cama, cômoda, mesa, cadeira. Apenas a mobília que tinha de ser providenciada para que o quarto pudesse ser anunciado como mobiliado. Até mesmo a colcha marrom de chenile devia já estar ali antes de ele ter se mudado. Nada de quadros—nem mesmo um calendário—e, o mais surpreendente, nada de livros. As coisas deviam estar escondidas em algum lugar. Nas gavetas da cômoda? Ela era incapaz de olhar. Não apenas porque não havia tempo—podia ouvir Elizabeth chamando lá do jardim–, mas a própria ausência de qualquer coisa que pudesse ser considerada pessoal tornava a sensação de Lionel mais forte”; outro detalhe fascinante, para mim: a intrusão de Polly, a prima, na casa de Lorna, me lembrou—com o momento fantástico em que ela volta com a família para casa, após um fim-de-semana, crente de que encontrará sua hóspede morta por suicídio, num espetáculo destinado a assombrar seus dias, por ter desertado da família—a dinâmica entre as duas personagens principais de Homens e Anjos, a obra-prima de Mary Gordon).

Imaginava que se não tivesse sido capaz de fazer aquilo, sua vida talvez tivesse sido completamente diferente.

    Como?

    Talvez não houvesse permanecido com Pierre. Talvez não tivesse conseguido manter seu equilíbrio. Tentar equiparar o que fora dito antes da balsa com o que fora dito  e feito mais cedo naquele mesmo dia a teria tornado mais alerta e mais curiosa. Orgulho e contrariedade talvez tenham desempenhado um papel—a necessidade de fazer algum homem engolir aquelas palavras, uma recusa em aprender sua lição—mas isso não teria sido tudo. Havia um outro tipo de vida que ela poderia ter tido—o que não era o mesmo que dizer que teria preferido assim. Provavelmente por causa de sua idade (algo que estava sempre se esquecendo de levar em conta) e por causa do ar frio e rarefeito que respirava desde a morte de Pierre é que podia pensar naquele outro tipo de vida simplesmente como uma espécie de pesquisa, compreendendo suas armadilhas e realizações.

     Talvez a pessoa não descobrisse tanta coisa, afinal. Talvez a mesma coisa vez após outra—que poderia ser um fato óbvio, porém perturbador, acerca de si mesma. No caso dela, o fato de que a prudência—ou pelo menos algum tipo econômico de gerenciamento emocional—fora sua luz guia em todo o percurso. (trecho de O que é lembrado)

Levantei-me e caminhei pelo apartamento. A gente nunca pode dar uma boa olhada nos lugares onde as pessoas moram enquanto elas estão lá.

    A cozinha era o espaço mais agradável, embora escuro demais. Queenie tinha hera crescendo em torno da janela sobre a pia e colheres de pau enfiadas numa linda caneca sem alça, exatamente do jeito que a Sra. Vorguilla costumava ter. Na sala de estar, havia um piano, o mesmo piano que estivera na outra sala de estar. Havia uma poltrona, uma estante de livros feita com tijolos e tábuas, um aparelho de som, uma porção de discos esparramados pelo chão. Nada de tevê. Nada de cadeiras de balanço em nogueira ou de cortinas bordadas. Nem mesmo o abajur de papel-arroz com cenas japonesas. Ainda que todas essas coisas houvessem feito parte da mudança para Toronto, num dia de neve. Eu estivera em casa na hora do almoço e vira o caminhão de mudança. Bet não conseguia sair de perto da vidraça na porta da frente. Finalmente esqueceu toda a dignidade que normalmente gostava de aparentar para estranhos, abriu a porta e gritou para os homens da mudança: Voltem para Toronto e digam a ele que se algum dia der as caras por aqui outra vez vai se arrepender pelo resto da vida.

   Os homens acenaram alegremente, como se estivessem acostumados com cenas como essa, e talvez estivessem. Mudança de mobília deve expor a pessoa a muito xingamento e rancor.

   Mas para onde fora tudo? (trecho de Queenie)

Inúmeras vezes ele alimentara o orgulho, a fragilidade de alguma mulher, oferecendo-lhe mais afeição—ou uma paixão mais selvagem—do que qualquer coisa que realmente sentisse. Tudo isso para que se visse agora sendo acusado de ferir, explorar, destruir a autoestima. E de enganar Fiona—como é claro de fato enganara; mas teria sido preferível fazer com os outros fizeram com suas esposas e deixá-la?

    Jamais considerara tal coisa. Em nenhum momento parara de fazer amor com Fiona, a despeito das exigências complicadoras em alguma outra parte. Jamais ficara longe dela nem por uma única noite. Nada de inventar histórias intricadas a fim de passar um fim de semana em San Francisco ou acampar na Ilha de Manitoulin. Pegara leve com o baseado e a bebida e continuara a publicar artigos acadêmicos, participar de comitês, progredir em sua carreira. Jamais tivera qualquer intenção de jogar pela janela seu trabalho e seu casamento e ir embora para o campo a fim de praticar marcenaria e cuidar de abelhas. (trecho de The bear came over the mountain)

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[1]  A obra de Alice Munro apresenta um “parentesco”, também, com a de uma escritora injustamente esquecida, que nos deixou vários livros excelentes de narrativas mais curtas, Katharine Anne Porter, e com a parte contística da produção de Doris Lessing.

[2] “Sabitha era agora uma pessoa reservada, bonita e, notável, incrivelmente magra. Usou um chapéu preto sofisticado e não falou com ninguém, a não ser que lhe dirigissem a palavra antes (…) Na igreja Edith tomara a precaução de não falar com Sabitha primeiro; logo, Sabitha não poderia falar com ela.”

[3] Urtigas é outra prova cabal do modo magistral com que Munro constrói seus textos, sempre partindo de informações fragmentárias, “soltas”, e de tempos alternados, para depois chegar ao âmago da anedota. Por essa razão, um dos aspectos mais interessantes desse conto é a parte da infância, em que a narradora seleciona elementos nostálgicos bem flanneryanos, como uma brincadeira de crianças que se revela um jogo de guerra bastante sexualizado, e muito ligado à morte, a baixas humanas, além da descrição da atividade econômica familiar, com seu elemento de brutalidade pragmática:

“Eu tinha mais familiaridade com sangue e matança de animais do que Mike. Levei-o para ver a mancha num canto do pasto, próximo ao portão do curral anexo ao celeiro, onde meu pai sacrificava e cortava os cavalos com os quais alimentava as raposas e martas. O chão era liso de tão pisoteado e parecia tingido de cor de sangue, um vermelho-ferrugem escuro. Então eu o levei para o açougue no celeiro, onde as carcaças dos cavalos ficavam dependuradas antes de serem moídas para virar ração. O açougue era apenas um barracão com paredes de tela, que ficavam cobertas de moscas, enlouquecidas com o cheiro de carne apodrecendo. A gente pegava as leves telhas de madeira e esmagava um monte delas.” O Canadá apresentado por Munro é um palimpsesto de tempos, onde o rústico, o rural, o ermo convive com o urbano, o s choques contraculturais, os modismos. Veja-se o seguinte exemplo (um, entre muitos), tirado de Mobília de Família:

“Os dentes das pessoas nessa época dificilmente apresentavam um aspecto maciço e bonito como os das pessoas de hoje, a menos que fossem falsos. Mas esses dentes de Alfrida eram invulgares em sua individualidade, seu espaçamento linear e seus tamanhos avantajados…”

[4] Que o tradutor preferiu deixar no original, já que é a alusão à canção folclórica em que o urso vai para atrás da montanha para saber o que havia lá…e lá havia o outro lado da montanha.

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09/10/2013

SONHO DO CELTA, PESADELO DO LEITOR

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  04 de outubro de 2011)

“Esta era a palavra que melhor descrevia como ele sempre se sentira, na Irlanda, na Inglaterra, na África, no Brasil, em Iquitos, no Putumayo: um banido. Durante boa parte da vida, Roger se gabou dessa condição de cidadão do mundo… alguém que não é de lugar nenhum porque é de todos os lugares. Por muito tempo pensou que esse privilégio lhe dava uma liberdade que aqueles que viviam ancorados no mesmo lugar desconheciam. Mas Tomás de Kempis tinha razão. Ele nunca sentiu que pertencia a um lugar porque a condição humana era isto: um desterro neste vale de lágrimas, um destino transitório até que, com a morte e o além, homens e mulheres voltariam para o ninho, para a sua fonte nutriz, onde viveriam por toda a eternidade”.

No ano passado, Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel, em meio à expectativa pelo seu novo romance, O sonho do celta[El sueño del celta, em tradução de Paulina Wacht & Ari Roitman] . Afinal, tirando O paraíso na outra esquina (2002), suas últimas realizações no gênero deixaram muito a desejar.

O que vinha ficando evidente, em contrapartida a esse declínio de qualidade, era o desencanto do autor peruano com o ideário neoliberal, a confiança no mundo globalizado pós-industrial, cuja causa ele abraçara tão apaixonadamente.  Nesse sentido, a trajetória que retrata em O sonho do celta é emblemática: Roger Casement é o irlandês que, no final do século 19, vai para a África (servindo à Coroa britânica)  imbuído da ideologia em tripé que sustentou a colonização e o posterior imperialismo das potências ocidentais: civilização, cristianismo e comércio.

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No Congo, ele testemunha horrores (o domínio belga foi um dos  mais brutais da história) contra os negros, de tal monta, que o levam a redigir um relatório que o torna célebre no mundo todo (e é preciso lembrar que, à época, não havia os meios de comunicação à disposição, embora fosse já época de uma opinião pública forte). A desilusão de Casement com a empreitada colonial ficará completa quando, ao viajar pelo Putumayo, a porção peruana da Amazônia, constatar ali horrores similares e novamente a desfaçatez do homem branco. A conseqüência mais importante na vida de Sir Roger (sim, ele ganha o título honorífico) é que ele resolve cuspir no prato que comeu, ou seja, abraça a causa do nacionalismo irlandês contra a Inglaterra e procurará firmar uma aliança com os alemães, ao eclodir a Primeira Guerra, para acelerar a independência da Irlanda. Por essa razão,  é preso como traidor e condenado á forca. Para fomentar o clima de antipatia contra ele divulgam-se trechos dos seus diários onde sua “vida secreta”, como homossexual cujas experiências fundamentais foram com negros, nativos, enfim, outras raças, é exposta escandalosamente.

O sonho do celta relata a vida de Casement, já preso, a partir da espera para ver se a petição de indulto da pena de morte seria concedida. Infelizmente, Vargas Llosa perdeu mesmo a mão de escritor: mesmo que tenha inventado mil coisas, há um ar de biografia ficcional careta e certinha que fulmina qualquer admiração pelo esforço de recriar a vida do intrépido e corajoso irlandês. O pior é que o romancista que nos fez entrar na cabeça de tantos personagens, inclusive os mais repulsivos, como a eminência parda da ditadura Cayo Bermúdez em Conversa na Catedral, ou o fanático republicano Moreira César em A guerra do fim do mundo, nunca consegue nos fazer entrar na cabeça de Roger Casement. Parece que ele o vê à distância, sem nunca se aproximar de fato do seu “sonho”, a não ser com os recursos do best seller ( Llosa não nos poupa nem dos clichês mais banais, como o do carcereiro que é duro e hostil a princípio e depois vai se tornando amigo do suposto traidor degenerado).

Aliás, eu não me surpreenderia em ver O sonho do celta transformado num filme em Hollywood e ganhando o Oscar. Ele tem todos os ingredientes para se transformar num daqueles filmes amorfos (tipo Entre dois amores, Dança com lobos, O paciente inglês), bem produzidos, com um ótimo protagonista, ótimos cenários, ótimos figurinos, tema politicamente correto e um destino tão certo e implacável quanto a forca para Sir Roger Casement: a irrelevância das Sessões da Tarde.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/10/04/rumo-ao-oscar-e-ao-tony-passando-pelo-nobel/

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08/10/2013

A astúcia camponesa na arte de contar de Mo Yan: “Mudança”

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“Fomos primeiro à praça e entramos na fila para tirar uma foto no Portão da Paz Celestial. Depois entramos na fila do Mausoléu do Presidente Mao para prestar nossas reverências. Enquanto contemplava o presidente deitado em seu sarcófago de vidro, lembrei de quando chegara a notícia de sua morte, dois anos antes. A sensação fora de que o mundo desmoronava e o chão se abria sob nossos pés. Acordamos para o fato de que não há imortais neste mundo. Nem em sonho imaginávamos que o  presidente Mao morreria um dia, mas acontecera. Acreditamos, naquele momento, que a morte dele seria o fim da China. Dois anos mais tarde, o país não apenas sobrevivera como melhorava a cada dia (…) Numa loja de departamentos em Xidan comprei três bolsas pretas de couro sintético, uma para mim e duas para meus companheiros de armas. Comprei também um lenço cor-de-rosa para minha noiva. Ela me fora apresentada por um parente distante quando eu trabalhava na fábrica de processamento de algodão. Eu titubeara por um momento e ele se zangara: Deixe de bobagem! Tem um porco cevado fuçando na sua porta e você acha que é um vira-lata arranhando a soleira!”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 08 de outubro de 2013)

Como vem acontecendo amiúde nos anúncios do Nobel (tradicionalmente em outubro), ano passado tivemos Mo Yan como vencedor, contrariando todas as apostas. Por esse motivo, ao invés de insistir num exercício de adivinhação, muito calcado em preferências subjetivas, aproveito a semana em que devemos conhecer o galardoado de 2013 para festejar a primeira tradução do autor chinês no Brasil, Mudança [Bian, 2009, em tradução de Amilton Reis e excelente projeto gráfico da CosacNaify].

Nesse assombroso relato autobiográfico, o Nobel 2012—atualmente com 58 anos— seleciona 1979 no calendário da sua vida: “ano marcante, tanto para o país quanto para mim, lemos no início do quinto capítulo (são oito, ao todo). Na época, a China contra-atacava o agressivo Vietnã (“Quem me dera um dia ter a oportunidade de ir ao front e me tornar um herói. Se passasse incólume, sairia com méritos e ganharia uma promoção. Se morresse, meus pais seriam tratados como familiares de mártir, o que mudaria o status político da minha família e faria valer a pena terem me criado”) e ele era autorizado a se casar, começando também a desatar os nós do seu destino, até que em 1981, além do nascimento da filha, torna-se um autor publicado— tudo na China, tal como ele nos apresenta, parece seguir um curso tortuoso e lento, principalmente para um camponês de uma região obscura, com pouquíssimas chances de melhorar.

O texto não se sujeita a essa forma biográfica coerente e coesa. De repente, emergem lembranças teimosas que fragmentam o corte temporal, estabelecendo associações superficialmente irrelevantes entre pessoas  “coadjuvantes” (a um primeiro e apressado olhar)  na dinâmica da existência do escritor: “Desculpem minha narrativa prolixa, minha cabeça está cheia de lembranças embaralhadas. Não tenho intenção de escrevê-las, elas é que vão brotando por conta própria.”. Na verdade, tal afirmação, ainda que verdadeira, disfarça a proverbial (benjaminiana?) astúcia de camponês que comanda Mudança[1]. Pois o que está em ação é o infalível olhar de narrador que consegue extrair das anedotas mais contingentes um fio da meada para que mesmo o leitor ocidental mais desinformado consiga ter uma imagem nítida de décadas de história chinesa.

Depois de também ter lido uma obra-prima como Viver, de Yu Hua (cuja idade regula mais ou menos com a de Mo Yan)[2], fico me perguntando se a esperança dos que amam a arte da narração não se encontra na literatura que aos poucos vai se revelando para o mundo a partir da economia mais pujante da atualidade, pois também naquele romance uma expressiva fatia temporal era apresentada de forma quase miraculosa, através de simples incidentes. Como diagnosticou precisamente Martin Walser (aliás, um sério “nobelizável” também), o que é histórico aparece como “detalhe sensível”, “não como declaração, mas como expressão”.

Mo Yan só precisa de um professor (Liu Tianguang) meio fanático e rigoroso na escola, de um colega cheio de vitalidade, He Zhiwu, nada talhado para a vida escolar ou para as lides rurais— e que, como o resto da garotada, idolatra o pai da tímida e delicada Lu Wenli por dirigir um caminhão Gaz 51 (um refugo de guerra)—e, enfim, dos encontros e desencontros com esses três caracteres (Liu, He e Lu) ao longo do tempo, para caleidoscopicamente evocar o processo que justifica o título da sua manhosa autobiografia.

Cada vez que ele os reencontra ou fica sabendo deles, à distância, o leitor percebe uma mudança na teia social supostamente calcada no “imemorial”, pouco propenso à mobilidade. Ao enredá-los na sua própria trajetória (He, que de vagabundo se torna um rico empreendedor, propõe casamento a Lu, mas quem finalmente a desposa é o professor Liu, quando ela já é uma operária viúva e gasta), é como se esses personagens da sua infância mantivessem com ele a relação poética e simbólica que estabelece entre dois diferentes Gaz 51 (o outro é o veículo da unidade em que serviu o exército), ou como a vinculação “genealógica” que o técnico Zhang estabelece entre os motoristas do caminhão da mambembe Unidade 263: “Zhang dizia ser o nono motorista daquele veículo (…) falou o nome e o local de nascimento de cada um de seus oito antecessores, como alguém que desfia a própria árvore genealógica.

É nesse caminhão  que ele, um rapaz da casta mais baixa, dos cafundós da roça, conhecerá a longínqua capital: “Pequim, meu Deus, estávamos em Pequim! Quem diria que um rapaz pobre de Gaomi pisaria o solo da capital nacional no dia 18 de janeiro de 1978 e veria todos aqueles carros brancos e pretos, e jipes verdes, todos aqueles prédios altos e edifícios enormes, todos aqueles estrangeiros narigudos de olhos azuis (…) Mesmo uma pessoa como eu já podia tirar uma foto na Praça da Paz Celestial e ver de perto o corpo embalsamado do presidente Mao.”

Talvez haja quem se ressinta da ausência da ênfase política, da reflexão propriamente ideológica sobre a “mudança”. No entanto, prevalece a visão sintetizada pelo macunaímico He: “Daí se vê que a vida é cheia de mudanças, o acaso é que ata as pontas do destino. Tudo se encaixa de maneira estranha, bizarra mesmo… É ao apreender essa concretude fluida da existência, com a mesma vitalidade e vigor, como narrador, do seu antigo colega —ou personagem (“aqui escrevo basicamente  minhas lembranças. Se houver algo em desacordo com os fatos históricos, a culpa só pode ser da memória”)—Mo Yan justifica fartamente a escolha da Academia Sueca.

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TRECHO SELECIONADO

“Uma vez ele chegou a dizer: Qualquer dia desses vou levar o caminhão até sua aldeia para os dois Gaz 51 se encontrarem. Para ele, o veículo também tinha alma. Se uma árvore muito velha pode ter alma, por que não um caminhão crivado de balas e batizado com o sangue dos mártires? E como seria o encontro entre dois caminhões com alma? (…) O caminhão, produzido em 1951 pela fabrica Górki, na União Soviética, era quatro anos mais velho que eu. Essa história gloriosa despertou em mim um respeito especial por nosso Gaz 51, que me fazia lembrar o que o pai de Lu Wenli dirigia. Para mim, eram como duas gêmeas separadas no nascimento—por que não irmãos gêmeos ou um menino e uma menina, não sei dizer, mas foi essa a ideia que veio primeiro e ficou. A imagem das gêmeas me fez pensar: minha vaga, na verdade, era no forte de Penglai, na Região Militar de Jinan, mas por obra do acaso eu viera trabalhar naquela pequena unidade subordinada ao Comando Geral do Estado-Maior. A probabilidade de isso acontecer era só um pouco maior que a de Lu Wenli mandar a bola de pingue-pongue para a boca do professor Liu, e bem pouco maior. Depois de ouvi o Técnico Zhang contar a gloriosa história de seu veículo, entendi que o destino tinha me colocado naquela unidade insignificante com a missão de juntar as duas irmãs gêmeas separadas havia tanto tempo.”

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[1] Um dos encantos do livro é o tom de conversa com o leitor, de modo que ele seja cooptado (na falta d uma expressão melhor, ou pelo menos mais simpática) pela estrutura maleável do texto:

“A esta altura, acho que vocês já entenderam que naquela época nossa escola era a melhor da península de Shandong. Fui expulso da escola na quinta série; apesar disso descobri, mais tarde, no serviço militar, que ainda podia facilmente dar aulas aos meus companheiros de Exército que haviam concluído o Colegial. Se eu tivesse me formado naquela escola poderia entrar, só com meu Ensino Fundamental, na Universidade de Pequim ou na Tsinghua em 1977, quando foram retomados os exames de admissão.”

Além do fortíssimo senso do concreto, também a perspectivação temporal (o que era e o que se tornou alguém ou alguma localidade) é um elemento crucial para o dinamismo intenso do relato:

“He Zhiwu apareceu no lugar mais visível do pátio usando uma farda desbotada, um quepe de oficial praticamente novo, luvas brancas, óculos de sol e um chicote caseiro (…) E onde He Zhiwu tinha arranjado aquele figurino? Não sabíamos dizer. Muitos anos depois, quando o encontrei em Qingdao, perguntei-lhe a respeito disso. Ele riu e respondeu—meio de brincadeira, meio a sério: Peguei emprestado do pai da Lu Wenli…”

Outro exemplo maravilhoso:

“Fomos ainda a um restaurante em Xidan e ficamos duas horas na fila para comer uma porção de jiaozis feitos a máquina, recheados com carne bem gorda, daqueles que espirram óleo a cada mordida. A máquina funcionava atrás de um balcão baixo. Do lado de cá do balcão havia umas dez mesas. Para mim, aquilo era uma grande invenção, bastava colocar farinha, água e  carne de um lado e os jiaozis saíam prontos do outro lado, caindo um atrás do outro numa panela de água borbulhante. Era extraordinário! Quando voltei para casa, contei tudo a minha mãe, que não acreditou em uma palavra do que eu disse. Pensando bem, os jiaozis de máquina tinham massa grossa e pouco recheio. Metade se desfazia na panela. Nem eram bonitos, nem saborosos. Mas, naquela época, comer aqueles jiaozis de Xidan já era algo de que se gabar em casa. Hoje em dia, ninguém mais quer saber de jiaozis de máquina, e os restaurantes fazem questão de colocar um aviso garantindo que a iguaria é feita a mão. E o recheio vegetariano superou o gorduroso na preferência popular. Isso ilustra bem como as coisas mudaram”.

 

07/10/2013

Nos confins da rarefação: “Elizabeth Costello”, de J.M. Coetzee

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“A pergunta a ser feita não deveria ser: temos algo em comum- razão, autoconsciência, alma- com os outros animais? (E o corolário que se segue é que, se não tivermos, estamos autorizados a tratá-los como quisermos, aprisionando-os, matando-os, desrespeitando seus cadáveres). Volto aos campos de extermínio. O horror específico dos campos, o horror que nos convence de que aquilo que aconteceu ali foi um crime contra a humanidade, não reside no fato de que a despeito de os matadores partilharem com suas vítimas a condição de humanos, eles as terem tratado como piolhos. Isso é abstrato demais. O horror está no foto de os matadores terem recusado a se imaginar no lugar de suas vítimas, assim como todo mundo. Disseram: São eles naqueles vagões de gado passando. Não disseram: Como seria para mim estar naquele vagão de gado? Disseram: Devem ser os mortos que estão sendo queimados hoje, pesteando o ar e caindo em forma de cinza em cima dos meus repolhos. Não disseram: Estou queimando, estou me transformando em cinzas.

Em outras palavras, eles fecharam seus corações. O coração é sitio de uma faculdade, a simpatia, que, às vezes, nos permite partilhar o ser do outro. A simpatia tem tudo a ver com o sujeito e pouco a ver com o objeto, o ´outro´, como percebemos de imediato quando pensamos no objeto não como um morcego (Posso partilhar o ser de um morcego?), mas como outro ser humano. Certas pessoas têm capacidade de se imaginar como outra pessoa, há pessoas que não têm essa capacidade (quando essa falta é extrema, chamamos  essas pessoas de psicopatas), e há pessoas que têm a capacidade, mas escolhem não exercê-la.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de julho de 2007)

Estrela maior da FLIP deste ano, o sul-africano J.M. Coetzee publicou em 2003 (ano em que ganhou o Nobel) Elizabeth Costello[1], romance que apresenta a protagonista, célebre escritora australiana, já bastante idosa, numa agenda incessante de viagens que envolvem palestras, premiações e cursos. Há até um cruzeiro, para o qual ela e outros autores foram contratados como recreação cultural.

É o lado mais ferino do livro: Elizabeth escreveu várias obras, contudo persistentemente a apresentam como a autora de A Casa da Rua Eccles, seu maior sucesso, como se só houvesse realizado isso, e o resto da sua produção fosse mera nota de rodapé. Além disso, os eventos enfocados no romance mostram Elizabeth tendo que lidar em público com temas espinhosos, ou mesmo explosivos, como o Realismo, a africanidade e o exoticismo, os direitos dos animais (sua área de ativismo, aliás, uma das mais espinhosas da má consciência da Humanidade com a sua própria crueldade), as Humanidades, o Mal… Só que o ambiente em que eles ocorrem é tão institucionalizado e atenuado que os discursos mais terríveis e lúgubres se tornam inócuos, quando muito gerando polêmica acadêmica.

Então, já temos esse lado sombrio, ainda que apresentado com extrema secura: a palavra do escritor, de quem tem algo a dizer, tornando-se irrisória, uma espécie de performance pelo ganha-pão, pela manutenção da carreira e da reputação. Uma existência-FLIP, por assim dizer.

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Há outro lado mais terrível, porém: dessa apresentação do mundanismo que cerca a carreira literária esperava-se mesmo uma visão mordaz. O que não se espera é que, ao se entrar no mundo interior, no laboratório interno do qual saem os livros de Elizabeth Costello, se encontre tanta aridez emocional, que ela já nem acredite mais no poder da palavra, nem para se defender quando supostamente morre e fica diante de instâncias superiores kafkianas e tem de verbalizar o seu credo para ingressar… em quê? Mas quais as suas credenciais? Ela se apresenta como escritora e isso parece insuficiente até mesmo para ela:

“Quando era moça, em um mundo hoje perdido e acabado, encontravam-se pessoas que ainda acreditavam na arte, ou pelo menos no artista, que tentava seguir os passos dos grandes mestres. Não importava que Deus tivesse fracassado, e o socialismo: ainda existia Dostoievski para guiar a pessoa, ou Rilke, ou Van Gogh  com a orelha enfaixada que simbolizava a paixão. Terá levado essa crença infantil para os seus anos de velhice e além: a fé no artista e em sua verdade?

Sua primeira sensação seria dizer que não. Seus livros decerto não demonstram nenhuma fé na arte. Agora que está encerrado e acabado, esse trabalho de vida inteira de escritor, ela é capaz de lançar um olhar retrospectivo bastante isento, acredita, até frio, a ponto de não se enganar. Seus livros não ensinam nada, não pregam nada; simplesmente contam com todas as letras, com a clareza possível, como viveram as pessoas em determinado tempo e lugar. Mais modestamente, dizem com todas as letras como uma pessoa vivia, uma pessoa entre bilhões: a pessoa que ela, ela para si mesma chama de ela, e que outros chamam de Elizabeth Costello. Se ela afinal acredita em seus livros, mais do que acredita nessa pessoa, essa crença só é crença no mesmo sentido em que um carpinteiro acredita em uma mesa sólida, ou um tanoeiro acredita em um barril sólido. Ela acredita que seus livros são mais bem construídos do que ela.”

No limite, não se pode viver no mundo de Elizabeth Costello. Ao mesmo tempo, e justamente por causa dessa revelação dissolvente, já não é exato afirmar (como fiz um tanto levianamente nesta coluna com relação a outros livros de J.M. Coetzee) que estamos diante de um autor médio. A alguém que nos apresenta esses confins da rarefação, por mais inóspitos que eles nos pareçam, não pode faltar um poderoso talento.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/16/o-autor-como-personagem-o-dostoievski-de-coetzee/

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TRECHO SELECIONADO

“Na visão ecológica, o salmão, as algas fluviais e os insetos aquáticos interagem em uma grande dança complexa com a terra e o clima. O todo é maior que a soma de suas partes. Nessa dança, cada organismo tem um papel: são esses múltiplos papéis, mais que os seres particulares que os desempenham, que participam da dança. Quanto aos intérpretes reais, na medida em que são auto-renováveis, na medida em que continuam vindo, não precisamos prestar nenhuma atenção neles.

Chamei isso de platônico e chamo de novo. Nosso olho está na criatura em si, mas nossa mente está no sistema de interações de que ela é a encarnação terrena, material.

É uma terrível ironia. Uma filosofia ecológica que nos diz para viver lado a lado com outras criaturas se justifica apelando para uma ideia, a ideia de uma ordem superior a qualquer criatura viva. Uma ideia, afinal- e esse é o caráter esmagador dessa ironia- que nenhuma criatura é capaz de entender, a não ser o Homem. Toda criatura viva luta por sua vida própria, individual, e recusa, por meio da luta, render-se à ideia de que o salmão ou o mosquito pertencem a uma ordem de importância inferior à ideia do salmão ou à ideia do mosquito. Mas quando vemos o salmão lutando por sua vida, dizemos que ele é simplesmente programado para lutar; dizemos, com Tomás de Aquino, que ele está trancado em sua escravidão natural; dizemos que não tem consciência de si.

Os animais não acreditam na ecologia. Nem os etnobiólogos pretendem isso. Nem os etnobiólogos afirmam que a formiga sacrifica sua vida para perpetuar a espécie. O que eles dizem é sutilmente diferente: a formiga morre e a função de sua morte é a perpetuação da espécie. A vida da espécie é uma força que age através do indivíduo, mas que o indivíduo é incapaz de compreender. Nesse sentido, a ideia é inata, e a formiga é governada pela ideia, da mesma forma que um computador é governado por um programa.

Nós, os gerentes da ecologia- desculpem se estou me deixando levar, me afastando muito da pergunta, mas já vou terminar-, nós, gerentes entendemos a dança maior, portanto podemos decidir quantas trutas podem ser pescadas ou quanto jaguares podem ser enjaulados sem afetar a estabilidade da dança. O único organismo sobre o qual não pretendemos ter esse direito de vida e morte é o homem. Por quê? Porque o homem é diferente. O homem entende a dança de um jeito que os outros dançarinos não são capazes de entender…

Enquanto ela falava, ele tinha deixado a cabeça divagar. Ele já ouviu isso antes, esse antiecologismo dela. Poemas de jaguar, tudo bem, mas você nunca vai ver um bando de australianos parando em volta de um carneiro, ouvindo o seu balido sem graça, escrevendo poemas a respeito. Será que não é isso que é tão suspeito nesse negócio todo de direito dos animais: ter de se ater a gorilas pensativos, jaguares sexy e pandas abraçáveis porque os verdadeiros objetos de sua preocupação, galinhas e porcos, para não falar de ratos brancos e camarões, não rendem notícias de jornal?”

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[1] No Brasil, em tradução de José Rubens Siqueira (Companhia das Letras)

06/10/2013

Uma tradição pedagógica da literatura honrada pelo Nobel 1998 (José Saramago)

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O ano da morte de Ricardo Reis. Círculo de Leitores(

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de outubro de 1998)

Finalmente o Nobel descobriu que existe a língua portuguesa.  Pelo menos, a primeira escolha foi feliz. Já no ano passado, José Saramago era o favorito, entretanto ridiculamente  escolheram Dario Fo, após deixar que morressem quase todos os maiores ficcionistas italianos do século:  Italo Svevo, Carlo Emilio Gadda,  Leonardo Sciascia, Dino Buzatti,  Italo Calvino, Alberto Moravia, Elsa Morante, Cesare Pavese, para citar os mais óbvios, sem premiá-los.

Além de sua obra como dramaturgo (In nomine Dei; Que farei com este livro?), poeta, contista (Objecto quase), observador da “realidade” (A bagagem do viajante; Viagem a Portugal) e auto-cronista (nos dispensáveis e desagradáveis Cadernos de Lanzarote), o prolífico e notável primeiro autor nobelizado da nossa língua vem destacando-se, desde o início da década de 1980 como romancista, um dos maiores da atualidade.

Levantado do chão (1980) já prefigura, ao que parece, o grande Saramago. A explosão acontece com Memorial do convento (1982), para muitos o seu melhor romance e que já tem o status de clássico, adotado inclusive por vestibulares.

Nessa obra extraordinária, Saramago realizou um feito de concepção e de linguagem, feito que se repetiu no romance seguinte, O ano da morte de Ricardo Reis (84), no qual imagina o heterônimo mais conservador de Fernando Pessoa sobrevivendo ao seu criador e voltando a Portugal, justamente quando os países europeus estão sendo  dominados pelo fascismo. Dos livros de Saramago, esse (que eu li em primeiro lugar) é ainda o meu favorito, o mais rico, aquele em que os seus recursos narrativos se casaram  melhor. Logo nas primeiras páginas, o leitor encontra uma homenagem a Jorge Luis Borges, pois uma das leituras de Reis no navio que o leva à pátria é um livro de Herbert Quain, criação do grande escritor argentino; assim, o jogo de espelhos das autorias se adensa e ao mesmo tempo se amplifica.

Em compensação, são artificiosos e forçados demais A jangada de pedra (1986) e História do cerco de Lisboa (1989). A idéia que norteia o primeiro é genial (a Península Ibérica aparta-se geologicamente da Europa e fica à deriva) e o livro é importante porque dá o primeiro passo para um desenvolvimento posterior de sua obra romanesca (uma situação alegórica inicial que se espraia pela narrativa toda), mas História do cerco de Lisboa parece concentrar o que de pior podemos dizer da obra saramaguiana, se não gostamos dela: certa tendência à monocórdia, à monotonia mesmo,  um humor forçado e sisudo (se se aceitar a contradição de termos), e sobretudo uma aridez cortante.

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Não é à toa que muitos consideram o livro praticamente ilegível. Não é o caso, evidentemente, porque nada do que José Saramago escreve como ficção pode ser descartado muito facilmente; aliás, agora, depois do Nobel, ou pelo menos daqui a algum tempo, a revisão de suas obras será natural e muitos juízos serão refeitos.

O vigor retornaria com o soberbo O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), a maior requisição contra Deus que já se fez num romance. Não é improvável que no curso dos próximos anos esse livro venha a se estabelecer como o ponto alto de toda a produção ficcional de José Saramago. Nunca é demais lembrar que ele fez milagres (se é que se pode usar uma palavra pela qual ele parece ter aversão) com um assunto tão batido.

Se Memorial do convento O evangelho segundo Jesus Cristo demonstraram ser os livros mais prestigiados do Nobel de 1998, permitam-me uma impertinência: mesmo com toda a sua grandeza, eu admiro mais os dois últimos romances, que trabalham com uma situação ao mesmo tempo alegórica e contemporânea, tal como A jangada de pedra prenunciava. São eles Ensaio sobre a cegueira (1995) e Todos os nomes (1997). Talvez não tenham o virtuosismo dos outros, mas, resgatando mitos, pensando a situação atual, discutindo barbárie e civilização, caos e ordem, pessimismo e esperança, são obras emocionantes, candentes, memoráveis, que fazem pensar em autores como Albert Camus, Thomas Mann ou Doris Lessing, que exercitaram a difícil arte de persistir no humanismo, mesmo com toda a reprovação da vanguarda e do engajamento político mais evidente. Apressadamente declarou-se que a obra dos dois primeiros caducara e hoje percebe-se que estão mais vivos do que nunca. Mais próximo de Mann do que de Kafka, o objetivo de Todos os nomes e especialmente Ensaio sobre a cegueira, a meu ver, é mostrar horrores e situações-limite não de forma a reiterar o absurdo da existência e a desesperança, e sim, de forma a transformar a literatura numa experiência pedagógica (palavra tão ao gosto do autor de A montanha mágica, mas que não causaria estranheza aos autores de A peste e Shikasta).Ou seja, o ser humano precisa aprender.

Apesar da constrangedora vaidade que desnorteia o leitor dos Cadernos de Lanzarote é esse aspecto da obra de José Saramago que o torna proeminente (no sentido  de um entrelaçamento do fazer literário com uma postura ética), mesmo em meio a seus pares igualmente merecedores do Nobel, nessa literatura tão ignorada no Brasil como é a de Portugal: Agustina Bessa-Luís,  José Cardoso Pires, António Lobo Antunes e Eugênio Andrade, já que o grande Vergílio Ferreira já se foi.

Há outro aspecto digno de se destacar do prêmio deste ano:  foi dado a um escritor que ainda está produzindo,  que ainda está no melhor da sua forma; em suma,  que ainda está vivo, no sentido amplo da palavra. Sabemos que nem sempre foi assim nas premiações do Nobel.

Atenção- Todos os livros de Saramago destacados nesta resenha estão publicados no Brasil e acessíveis. Com exceção de Memorial do Convento e Levantado do chão, publicados pela Difel-Bertrand Brasil, todos os demais foram lançados pela Companhia das Letras.

nota de 2013– Curiosamente, todos eles (Mann, Camus, Lessing e Saramago) foram distinguidos com o Nobel.

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05/10/2013

MORRISON NÃO MERECIA O NOBEL

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de outubro de 1993)

O prêmio Nobel deste ano foi vexatório. A escolha de uma autora mediana demonstrou uma desprezível preocupação mais com os dados civis do escritor do que com a literatura: Toni Morrison ser mulher e negra pesou mais do que os avassaladores clichês compilados no seu romance Jazz (de 1992; no Brasil, editado—como todos os outros até agora—pela Best Seller[1]).

Talvez o próximo cidadão estadunidense premiado seja um  romancista chicano gay ou, talvez, um poeta sino-americano travesti. Assim, raças e preferências sexuais contariam mais que qualidades literárias.

E um time de primeira linha vai sendo preterido. O ótimo escritor (negro e gay) James Baldwin morreu sem ser cogitado para o Nobel. E quanto às mulheres, esqueceram desta vez escritoras infinitamente superiores a Morrison. Só para ficar nos EUA: Joyce Carol Oates, um dos maiores nomes entre os autores norte-americanos; Joan Didion, cujo romance Democracia é esplêndido; a grande ensaísta—e romancista (basta lembrar de O amante do vulcão—Susan Sontag; Mary Gordon, autora de The company of women-As beatas & Homens e anjos; Anne Tyler, autora de O turista acidental e de um livro genial chamado Dinner at homesick restaurant (aqui, Jantar no restaurante da saudade[2]). Até Marion Zimmer Bradley, autora de As brumas de Avalon, merecia mais o prêmio: seu estilo é um tanto relaxado, mas o conjunto de quatro romances apaixona e marcou época…

E os homens como William Styron,  E.L. Doctorow (cujo maravilhoso Ragtime pulveriza Jazz), Norman Mailer, John Updike, John Irving, Pajul Auster, John Barth, Thomas Pynchon, Philip Roth, até Gore Vidal…?

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Dos livros de Morrison publicados no Brasil, o melhor é A  canção de Solomon (1977).  Apresenta um certo frescor e vivacidade, a par de sua inclusão na corrente de escritos femininos que escavam o passado americano para reescrever a história (caso dos ótimos Machine dreams- Sonhos desfeitos, de Jayne Anne Philips, e Love medicine-Feitiço de amor, de Louise Erdrich).

Mas tal intenção fica empanada por conta dos modestos recursos criativos da autora ora nobelizada. Portanto, A canção de Solomon acaba sendo um dos livros mais fracos da linha “histórias de gerações” sob o olhar feminino (não se compara a, por exemplo, A cor púrpura, de Alice Walker, romance bem diferente do show de pieguice que é sua versão cinematográfica).

O personagem central é Milkman Dead,  que nasceu “empelicado”, filho de um casal negro abastado, fato raro na racista Virginia. O empelicamento de Milkman é simbólico (tal qual o seu nome): ele não quer saber da sua ração, tendo conflitos por isso com suas irmãs, mais conscientes.

Durante uma viagem conhece mais a respeito do pai e do avô, “o esperto irrigador, o plantador de pessegueiros, o matador de porcos (…) o homem capaz de arar mais do que qualquer lavrador e que cantava como um anjo enquanto trabalhava. Ele chegara ninguém sabia de onde, ignorante como um martelo e pobre como Jó, sem nada a não ser os documentos de liberto e uma Bíblia” (utilizo a tradução de Evelyn Kay Massaro).

A mensagem é clara: é preciso ter orgulho dos ancestrais, apesar do aviltamento e da violência (o avô fora assassinado), o que detona uma viagem de autoconhecimento de Milkman, cujo clímax acontece quando seu carro enguiça numa cidadezinha em frente ao Armazém Solomon…

É um romance legível, competente. Nada mais. Toni Morrison chove no molhado. Para um livro que se inicia com um homem ameaçando voar do alto de um hospital, era preciso realmente asas mais possantes.

VER TAMBÉM

https://armonte.wordpress.com/2010/07/06/bacante-sem-grandezaa-ficcao-ruim-de-toni-morrison/


[1] Nota de 2013– Atualmente, Toni Morrison é editada no Brasil pela Companhia das Letras, a qual reeditou alguns dos títulos previamente lançados pela Best Seller.

[2] Nota de 2013– Posteriormente, saiu outra tradução com o título Almoço no restaurante da saudade.

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03/10/2013

A VASTIDÃO GÜNTER GRASS

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GÜNTER GRASS, AUTOR DE GRANDES ROMANCES

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de outubro de 1999)

Com certo atraso o Nobel foi concedido a Günter Grass, o que já deveria ter acontecido na década de 1970. É só lembrar que, em 1972, o premiado foi Heinrich Böll, um ótimo autor (Casa sem dono, por exemplo), mas que está para Grass como o rio Tietê para o Amazonas.

Grass é um criador de vastidões. Nos seus grandes romances convergem fábula, alegoria, farsa, poesia, um extremado senso do cômico que há na vida, tudo para tornar o texto de ficção mais maleável e abrangente como meio de desvendar os tormentos e dilemas de nossa época. De fato, se há uma ficção abrangente na nossa época é a do extraordinário autor alemão. Ficção crítica, demolidora, ferozmente anti-establishment.

O sucesso do seu primeiro romance (para muitos, ainda o melhor), O tambor (titulo nacional para O tambor de lata) surpreendeu-o: “Eu não tinha contado com o fato de que alguém no centro-oeste dos EUA ou no sul da França ou na Escandinávia pudesse interessar-se pelo ranço pequeno-burguês no período de transição da república de Weimar para o nazismo”.

Infelizmente, num curto espaço, é impossível comentar pormenorizadamente os próprios textos, uma vez que Grass escreve livros caudalosos, com geralmente 700 páginas.

O tambor de lata integra uma trilogia, cuja referência fundamental é a cidade de Dantzig—que atualmente chama-se Gdansk (Grass nasceu lá, em 1927). Os outros títulos da trilogia são Gato e rato (publicado em 1961 e que, para os padrões guntergrassianos, é um livro minúsculo: pouco mais de cem páginas de implacável densidade) e Anos de cão (1963), provavelmente sua obra-prima suprema, pelo menos entre os livros que chegaram a ser publicados no Brasil; segundo George Steiner, é uma fábula “que gira em torno da irmandade de sangue e amor-ódio do nazista e do judeu”. Para o autor de Linguagem e silêncio, “Grass entendeu que nenhum escritor alemão depois do Holocausto poderia aceitar a língua pelo seu valor nominal. O nazismo fora o discurso do inferno. Então ele se pôs a rasgar e derreter; despejou palavras, dialetos, frases, lugares-comuns, slogans, trocadilhos e citações no cadinho. Saíram como lava ardente. A prosa de Grass tem uma energia torrencial e viscosa; está cheia de escombros e fragmentos acres. Marca e machuca a paisagem deixando bizarras e eloquentes formas (…) Isso acontece porque Grass é decididamente um ´não-literário´, porque lida com convenções literárias com a despreocupada ingenuidade de um artesão. Ele chegou à linguagem verbal vindo da pintura e da escultura. É indiferente aos argumentos e expectativas bem tecidas da moderna teoria literária”.

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Grass recusa a herança literária deixada por um Thomas Mann ou um Hermann Hesse e valoriza sobretudo, entre os grandes autores alemães da primeira metade do século, Alfred Döblin (Berlim Alexanderplatz). Sua obra continua uma prática de ferocidade literária que pode ser encontrada não só em Döblin como também em Céline. Seus livros são sempre “viagens ao fim da noite”.

Um risco que ele correu, na década de 1970, foi o de ficar datado, de ficar emparedado na vanguarda da reconstrução da Alemanha marcad a pela Guerra Fria. Em 1977, ele provou que tinha fôlego e vitalidade para várias épocas. Publicou O linguado, um dos romances que o autor deste artigo mais ama. Tanto que, ao propor nesta coluna semanal uma lista de 100 maiores romances do século XX, colocou-o como representante da obra de Grass, caracterizando-o da seguinte forma: os apetites básicos da humanidade (comida, sexo) transformados numa mistura maravilhosa de fábula, conto de fada e alegria, que conduz uma instigante reflexão sobre o poder subterrâneo das mulheres ao longo da história.

A própria estrutura de O linguado homenageia as mulheres, pois acompanha os nove meses de uma gestação.

Depois de O linguado, por duas vezes Grass sacudiu fortemente a sociedade alemã com romances poderosos e polêmicos: em 1986, com A ratazana, que utiliza uma imagem de sobrevivência asquerosa e que pressagia catástrofes (os ratos) para julgar a Alemanha que se consolidara novamente como potência europeia e mundial (a certa altura, a ratazana-narradora afirma: “Nós, apertadas notas de rodapé do homem, seu comentário exuberante! Nós, indestrutíveis”); e, em 1995, com o sensacional Um campo vasto (publicado aqui no ano passado), o qual, juntamente com O teatro de Sabbath, de Philip Roth, parece ser o romance mais importante dos derradeiros anos do século. Nele, satiriza-se a unificação das duas Alemanhas, a partir da queda do muro de Berlim.

Salvo engano, além dos já citados, O tambor de lata, O linguado, A ratazana (Nova Fronteira), Gato e rato (Labor), Anos de cão (Rocco) e Um campo vasto (Record), apenas mais dois livros do Nobel de 1999 foram publicados no Brasil: há uma edição mais antiga e fora de circulação de Anestesia local (Globo); e uma, bem mais recente, de Maus presságios, que foi traduzido para a Siciliano a partir de uma versão em espanhol!!!???

A premiação de Grass vem coincidir também com o lançamento de Romance de formação em perspectiva: O tambor de lata de Günter Grass, de Marcos Vinicius Mazzini (Ateliê Cultural), um estudo daquele que permanece a sua obra paradigmática, que graças ao Nobel deverá entrar em circulação novamente (espera-se). O que é muito bom. Mais gente conhecendo seu livro, o genial autor alemão ficará livre da sombra da medíocre versão cinematográfica que extraíram (ou extorquiram) dele.

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2013/10/03/um-campo-vasto-a-implacavel-visao-de-gunter-grass-da-unificacao-das-alemanhas

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UM CAMPO VASTO: a implacável visão de Günter Grass da unificação das Alemanhas

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GÜNTER GRASS MERECE O NOBEL

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de outubro de 1998)

É lamentável que Günter Grass seja ainda mais conhecido no Brasil pela adaptação medíocre que Völker Schlondorff (um contumaz assassino de obras literárias no cinema) fez de seu primeiro romance, O tambor (na verdade, O tambor de lata). O descaso é tão grande que um de seus últimos livros, Maus presságios, foi traduzido a partir de uma versão espanhola !!!??

Espera-se que UM CAMPO VASTO (Ein Weites Feld, Alemanha-1995, em tradução de Lya Luft) modifique essa situação, o que nem a publicação de obras-primas como O linguado e Anos de cão conseguiu. Trata-se, porém, de um romance difícil, que satiriza a unificação das Alemanhas. Para isso, Grass utiliza um recurso que dificultará a vida do leitor brasileiro: sobrepõe ao seu personagem principal, Théo Wutke a figura do escritor (do século passado) Theodor Fontane, totalmente desconhecido por aqui (inclusive pelo autor deste artigo). Wutke tem a mania de citar o “Imortal” (Fontane) e muitas vezes confunde as duas vidas de forma que uma parece ser a modernização dos eventos da outra.

Por que a escolha de Fontane? Porque ele escreveu, entre outras coisas, vários livros sobre as guerras que “unificaram” a Alemanha nos oitocentos e possibilitaram a criação dos “Reichs” que levaram a Europa às guerras mundiais.

A narrativa, feita por arquivistas do Instituto Fontane, começa a partir da queda do muro de Berlim (e também da comemoração dos 70 anos de Wutke), prosseguindo por dois anos, nos quais os ocidentais vão sucateando a Alemanha Oriental, dentro da lógica nefasta do processo neoliberal e globalizante. Por outro lado, através dos embates de Wutke e de Hoftaller—uma espécie de eterno conspirador, sempre ligado ao poder (e que possui informações comprometedoras sobre Wutke & família—relembram-se os anos em que as Alemanhas existiram separadas pelo muro (mas será que a Alemanha não esteve sempre separada por coisas menos concretas e entretanto igualmente coercitivas?).

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É um painel esplêndido, complexo, saboroso, mesmo para quem nunca leu uma linha de Fontane na vida (a edição brasileira poderia ter ajudado, com um trabalho mais sério de notas de rodapé). Um romance de ideias maravilhoso, no qual o passado e o presente se interpenetram de forma sempre notável (e, para observar esse processo, não é preciso ter lido Fontane, basta apenas ter lido outras obras de Grass onde o tempo é tratado de forma especialíssima, basta lembrar de O linguado e A ratazana).

Para quem achar que a situação tratada em UM CAMPO VASTO é muito particularizada para nos interessar, é bom lembrar que a Alemanha teve um papel preponderante nos rumos do mundo no último século e tudo que acontece ali nos diz respeito, portanto. Além disso, a relação Wutke-Hoftaller lembra, em diversas ocasiões, a clássica relação Quixote-Sancho Pança, o idealismo debatendo com o pragmatismo (aliás, Wutke lembra às vezes o nosso Policarpo Quaresma, da obra-prima de Lima Barreto). E, como diz o próprio Wutke à sua neta francesa, “os alemães têm tendência e até talento para a obra de arte total”.

E, claro, em toda “obra de arte total” há sempre os momentos marcantes, que ficarão para sempre na memória. Um deles, em UM CAMPO VASTO, é patético, e também mordaz: Wutke e Hoftaller visitam uma famosa ponte havia troca de “espiões” e “reféns” de ambos os lados, e ali ficam “brincando de troca”: “Ora Fonty [Wutke] era o objeto oriental trocado por algum refém ocidental, depois Hoftaller vinha a passo do lado oriental, enquanto Fonty deixava atrás de si o Ocidente, até ambos estarem na mesma altura, por um segundo congelados num instantâneo, sem olhar, sem falar, para logo depois, a passo, voltar a se aproximar do outro sistema, da potência mundial, do inimigo mortal e da garantia de segurança, do inimigo da classe ou do perigo vermelho, entregando-se ao seu próprio lado. Um jogo com poucas variações. Fonty por Hoftaller. Hoftaller por Fonty. Ambos se equivaliam. Um não existia sem o outro. Jogava-se com a mesma aposta, para ambos a ponte Glienecke era longa como um pesadelo. Como ocorre depois de um exercício muito prolongado, a tensão caía, e afinal ocorreram-lhe algumas variantes: Fonty, o que vinha do frio, piscava o olho direito assim que estavam lado a lado, e Hoftaller, que estava sendo entregue pelo inimigo da classe, piscava o olho esquerdo. Por fim, na hora da troca os dois agentes até diziam uma palavrinha…”

Depois desse extraordinário e vasto campo onde jogou o leitor do final do século, só se pode esperar que a justiça seja feita e que Günter Grass seja o próximo Nobel de literatura.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/03/a-vastidao-gunter-grass/

https://armonte.wordpress.com/2013/09/12/contrariando-os-atestados-de-obito-do-romance-a-casa-de-puchkin/

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02/10/2013

APOSTAS PARA O NOBEL

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 6 de outubro de 2007)

Chega outubro e as pessoas começam a perguntar: quem você acha que merece ganhar o Nobel? Quais as suas apostas?

Há 50 anos Albert Camus foi anunciado como o vencedor. Quem sabe em 2007 o nome escolhido seja tão fundamental para a literatura…

Se Doris Lessing  é o primeiro nome a vir à mente do responsável por esta coluna, dos grandes escritores ativos da atualidade o que produziu as obras mais impressionantes em anos recentíssimos (caso de Submundo e Cosmópolis) foi Don DeLillo. Nos EUA, além dele, seriam escolhas mais que justas Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon,Joyce Carol Oates, Joan Didion, John Irving, sem falar no lendário Norman Mailer, cuja obra-prima Um sonho americano acaba de ser reeditada no Brasil.

Na América Latina, o peruano Mario Vargas Llosa é imbatível, embora o mais venerável (ainda que inativo) seja o argentino Ernesto Sábato (e não possamos esquecer o uruguaio Mario Benedetti). O Brasil também poderia passar a existir no mapa Nobel com o genial Dalton Trevisan, nosso maior escritor vivo, ou com Autran Dourado. Na nossa ex-metrópole, o nome mais cotado é mesmo o de Antônio Lobo Antunes.

A literatura da França anda muito fraca, mas seria justo lembrar o espanhol que criou obras-primas em francês, Jorge Semprún (A grande viagem, A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo); ou do tcheco Milan Kundera, que após ter escrito alguns dos melhores livros do século XX (A brincadeira, A valsa dos adeuses) na sua língua natal, adotou a língua do seu país de exílio nos seus últimos textos.

É, aliás, a síndrome Camus (escritor que veio da Argélia para o coração da literatura de língua francesa). Os “que vêm de fora” lentamente dominam a cena. Ninguém exemplifica melhor isso do que o extraordinário anglo-indiano que escreveu Os filhos da meia-noite, Os versos satânicos, O último suspiro do mouro e Fúria:  Salman Rushdie.

Mas se o império britânico agoniza e os imigrantes é que lhe trazem seiva nova, um escritor como Ian McEwan, com livros da categoria de Amsterdam, ainda representa seu último alento.

Aqui também não poderia faltar a canadense Margaret Atwood, de Madame Oráculo e Olho de gato. E um autor insólito e inventivo de um país que foi destruído e pulverizado, a Iugoslávia: Milorad Pavitch, de Dicionário Kazar e Paisagem pintada com chá. E por falar em paisagens na neblina temos ainda o albanês Ismail Kadaré, de Abril despedaçado e Dossiê H.

E se o mundo islâmico é a maior inquietação do Ocidente de Bush, um escritor lúcido e poderoso não pode faltar nesta lista: Táriq Ali, de Sombras da Romãzeira e Medo de espelhos.

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Apostas feitas.

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