MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/10/2013

O HERÓI DISCRETO: um Vargas Llosa “eficiente, tímido e funcional”. Ou seja, muito pouco.


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“Você não sabe em que país vivemos, compadre?”

“Desde que fui readmitido  na corporação, já estive na serra,na selva, em Lima. Rodando pelo Peru inteiro, pode-se dizer…”

(trechos de O herói discreto)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no Caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 26 de outubro de 2013: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1362157-critica-vargas-llosa-reaviva-personagens-em-narrativa-com-tempero-dramalhonico.shtml)

A decepção com o fraco O sonho do celta (2010), seu romance anterior, fez crescer a expectativa do retorno ficcional de Mario Vargas Llosa ao país natal. Afinal, excetuando-se A guerra do fim do mundo (1981), o Peru foi o cenário das suas maiores realizações no gênero, cujos derradeiros lampejos foram Lituma nos Andes (1993) e Cadernos de Don Rigoberto (1997), cujos protagonistas, aliás, marcam presença em O herói discreto [ “El héroe discreto”, que comento na tradução de Paulina Wacht & Ari Roitman].

Duas histórias se alternam (e depois se entrelaçam): em Piura—para onde volta o veterano Lituma em suas errâncias na função policial (e suas aventuras, ao longo de vários livros, nos proporcionaram uma das mais notáveis Macronarrativas contemporâneas, uma comédia humana peruana)—a tentativa de extorsão de um modesto comerciante, dono de uma frota de veículos, Felícito Yanaqué; em Lima, o casamento entre um empresário de peso, Ismael Carrera, e uma empregada doméstica, com a conivência de seu gerente e amigo, Don Rigoberto, o qual, prestes a se aposentar, é ameaçado pelos herdeiros “legítimos” e lesados (além disso, ele tem que lidar com as aparições de um misterioso e mefistofélico senhor na vida do filho adolescente, Fonchito: “E agora acontece que aquele tal que não existe se meteu com a nossa família, o que me diz disso?”)).

O título do livro poderia ser aplicado aos dois, Rigoberto ou Felícito: cada um a seu modo “discreto” enfrenta forças obscuras e ameaças; porém, é o comerciante de Piura que se torna famoso em seu modesto heroísmo de cidadão comum e decente, ao não compactuar com a exigência de pagamento de uma quantia mensal aos que lhe oferecem “proteção”. A amante, por exemplo, descobre que “sob aquele aspecto de homezinho insignificante, tão magrinho, tão pequeno, um caráter robusto e uma vontade à prova de balas”.

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O lado mais interessante das duas narrativas, afora os confrontos íntimos entre os personagens recorrentes de outras obras e as mudanças na fisionomia dos espaços sociais em que os conhecemos, é a incorporação de uma das modalidades mais insidiosas da criminalidade contemporânea: aquela que envolve os membros da própria família, sinalizando a ruptura de valores e gerações.

O tempero “dramalhônico”, decalcado da paixão hispânica pelas telenovelas exageradas, assim como acontecia no maravilhoso Tia Júlia e o escrevinhador (1977) faz com que um bom naco do livro seja bastante divertido.

Contudo, a diluição implacável que vem corroendo a obra llosiana aqui se faz aguda e seu retorno à pátria não consegue revitalizá-la. O terço final, continuando a analogia anterior, lembra o ritmo amorfo das nossas telenovelas atuais. Pior ainda, a outrora multifacetada e polifônica visão do autor de Conversa no Catedral (1969) se resolve agora num elogio tão raso do que outrora chamávamos valores pequeno-burgueses (com os seus desagradáveis componentes de conformismo e tacanhice) que chega a ser chocante. De fato, o simpático sargento Lituma (tão subaproveitado na história) acaba apontando o lado mais deprimente desses valores, ao ficar estupefato com o tratamento dado pelo tão correto don Felícito ao filho (que ele sempre desconfiou não ser realmente dele): “Nunca imaginei que alguém pudesse dizer essas barbaridades que o senhor disse ao seu filho lá na prisão. Fiquei com o sangue gelado, juro.” Recebendo a seguinte resposta (como se o fato de Miguel não ser do seu sangue justificasse tudo): Não é meu filho. Se o autor peruano queria fazer o elogio do “cidadão comum decente” não podia ter escolhido pior personagem. Ademais, a trama que envolve Fonchito (e as histórias que ele e sua família trocam entre si), sobre a qual eu depositava tanta expectativa, é frustrante (estamos longe das delícias de Elogio da Madrasta & e dos Cadernos de don Rigoberto).

Num ensaio de A verdade das mentiras (1990), LLosa criticou acerbamente Graham Greene por se resignar a ser um “escritor eficiente, tímido e funcional”. Se avaliado pelos seus últimos cinco romances– A festa do bode, O paraíso na outra esquina, Travessuras da menina má, O sonho do celta e este O herói discreto (com a ressalva de que O paraíso na outra esquina, de 2003, ainda é o mais vigoroso entre eles), a caracterização cairia como uma luva para o nobel 2010.

TRECHOS SELECIONADOS

“E então o transportista, com lágrimas nos olhos, começou a falar do pai para uma Mabel assustada. Nunca, em todos os anos em que estavam juntos, ela o tinha ouvido se referir ao pai dessa maneira tão emotiva (…)  Não era um homem que manifestasse afeto dando abraços e beijos no filho, nem dizendo essas coisas carinhosas que os pais dizem aos filhos. Era severo, duro, e até agia com mão de ferro quando se enfurecia. Mas demonstrou que o amava dando-lhe estudos, roupa, alimentação, por mais que ele mesmo não tivesse o que vestir ou o que botar na boca (…) Era graças a esse arrendatário analfabeto que a Transportadora Narihualá existia. Seu pai era pobre mas era grande pela retidão da sua alma, porque nunca fez mal a ninguém, não transgrediu as leis, nem guardou rancor à mulher que o abandonou deixando um garotinho recém-nascido para criar…”

“Quando o dr. Arnillas saiu, Lucrecia começou a chorar , desconsolada. Rigoberto  tentava em vão acalmá-la. Ela tremia com os soluços e escorriam lágrimas por suas bochechas. Coitadinha, coitadinha, sussurrava, quase se sufocando. Eles a mataram, foram esses canalhas, quem mais poderia ser. Ou mandaram sequestrá-la para roubar tudo o que Ismael deixou.  Justiniana foi buscar um copo d´água com umas gotinhas de elixir paregórico que, finalmente, a tranquilizaram. Permaneceu na sala, quieta e triste. Rigoberto ficou abalado ao ver a sua mulher tão abatida. Lucrecia tinha razão. Era bem possível que os gêmeos estivessem por trás dessa história; eles eram os mais prejudicados e deviam estar furiosos com a ideia de que toda a herança podia escapar das suas mãos. Meus Deus, que histórias surgiam na vida cotidiana; não eram obras-primas, estavam mais perto das novelonas venezuelanas, brasileiras, colombianas e mexicanas que de Cervantes e Tolstoi, sem dúvida. Mas não tão distantes de Alexandre Dumas, Émile Zola, Dickens ou Pérez Galdós.”

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