MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/10/2013

A FESTA DO BODE (ou como a obra de Vargas Llosa foi tomando a feição do best seller)


a-festa-do-bodeCaricatura_Mario_Vargas_Llosa

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em três de outubro de 2000)

Sem contar seus magistrais romances de outras décadas (muitos dos quais reeditados pela Companhia das Letras em novas versões), Mario Vargas Llosa, o maior ficcionista vivo da América Latina, nesses anos 90 que estão por terminar publicou dois livros magníficos: Lituma nos Andes & Os Cadernos de Don Rigoberto.

Longe da atividade política, da qual participou numa espécie de surto neoliberal constrangedor, ele ousa agora, em A festa do bode [lançado pela ARX, ex-Mandarim, em tradução do Wladir Dupont][1], insistir num filão que parecia já esgotado: o retrato de um ditador latino-americano, no caso o Generalíssimo Trujillo, o Bode, o qual tiranizou durante trinta anos a República Dominicana até ser assassinado em 1961.

Llosa narra o último dia de vida de Trujillo. Além disso, variando o foco narrativo, narra a vida dos seus assassinos, a maioria dos quais acabou sendo torturada durante meses e depois executada em meio ao processo de transição da ditadura trujillista para a “democracia” (ou algo remotamente parecido), trabalho delicado de ourivesaria realizado por Joaquim Balanguer, que de presidente-fantoche de Trujillo passa a presidente de fato.

Para costurar a estrutura narrativa, conta-se a volta para a República Dominicana, trinta e cinco anos depois, de Urania, a filha de um ex-colaborador de Trujillo, o senador Cabral, que no momento do assassinato estava “em desgraça” dentro do Regime. Urania odeia o pai porque ele a usou como instrumento para se reabilitar com o Bode: como o “Pai da Nação”, mesmo aos 70 anos, gosta de deflorar mocinhas, Cabral se deixa convencer a enviar a filha de 14 anos para ele, duas semanas antes da sua execução.

A Festa do Bode é bem-vindo numa época em que se começa a esquecer a horrível desmoralização social que as ditaduras militares trouxeram para a América Latina, e da qual mal se recupera; numa época em alguns já sentem “pena” de Pinochet, como se ele fosse um velhinho comum. O que passou, passou? Não. Nunca. Jamais. Porque não devia ter acontecido.

Em compensação, o livro deixa a desejar nos seus procedimentos narrativos: Llosa sempre se destacou no “chorus line” dos romancistas latino-americanos que retrataram ditaduras por sua genial capacidade de manipular o tempo na narrativa, de forma a justapor várias situações cronológicas diferentes num mesmo entrecho. Esse virtuosismo se empobrece em A Festa do Bode. Há vários focos narrativos, porém eles não constroem uma visão prismática dos fatos (como os romances anteriores, extremamente complexos). Quando um personagem dá lugar a outro, apenas reitera os mesmos acontecimentos, de forma diferente. Quando se pensa na riqueza que os múltiplos focos e versões davam a livros como A cidade e os cachorros, A casa verde, Conversa na Catedral, Pantaléon e as visitadoras, A guerra do fim do mundo ou Lituma nos Andes…ou então na impactante maneira como Llosa fingia, em História de Mayta, seguir os procedimentos do romance-reportagem, do chamado “jornalismo literário”, para depois informar (ao próprio personagem-título) que inventara e distorcera deliberadamente várias informações e detalhes biográficos, subvertendo a pretensa objetividade jornalística…

mariovargasllosa

Nem por isso, o novo romance deixa de ter momentos poderosos, entre eles o capítulo que mostra Pedro Livio, um dos executores de Trujillo, no hospital ao qual foi levado em função de ferimentos no tiroteio (numa patetada absurda, foi um de seus companheiros que o feriu), sendo torturado pelo chefe da inteligência de Trujillo, Johnny Abbes, numa situação claustrofóbica, sem saber se o golpe foi bem sucedido ou não.

Também, por mais que já se tenha lido descrições de tortura, as do livro são, ainda assim, impressionantes (e pensar que há uma parte da população nostálgica com relação à truculência militar). E há a figura ambígua do Presidente Balanguer, a mostrar como as chamadas “transições para a democracia” foram feitas a um custo terrificante. Mais que tudo, porém, o romance é um grande libelo contra os EUA e a sua interferência que, segundo seus interesses do momento, faz com que apóie ou dissolva regimes de exceção.

E a prova maior que a habilidade de Vargas Llosa não se esgotou, mesmo que ele pareça convicto de que o leitor atual não tem mais paciência ou concentração para complexidades narrativas, está no fato de que nem os mais consagrados best sellers conseguem o ritmo veloz e o suspense que ele imprimiu ao seu romance. O autor deste artigo não gostaria que um dos maiores escritores do mundo competisse com Michael Crichton, Tom Clancy, Jeffrey Archer ou similares. Se, todavia, for esse o rumo dos ventos na carreira do autor de A Festa do Bode, com certeza superará a todos eles.


[1] Título original: La fiesta del chivo

la fiesta del chivo

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1 Comentário »

  1. É maravilhoso saber que Vargas Llosa surpreende muitos de seus leitores, como eu, sou fã e leitora dos seus livros, cada um é específico, sem contar com a complexidade de enredo que se tem em cada um deles, por exemplo, a Festa do Bode, contar a história de um povo sofrido pelo ditadura de Trujillo em Santo Domingo, em detalhes, é como se vce pudesse visualizar essa história, passa pela memória do leitor, como se fosse rever-la, tudo isso é fantástico. Por isso, continuo lendo seus livros.

    Comentário por Ingrid Primavera — 15/11/2013 @ 12:39 | Responder


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