MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/10/2013

A bênção da leitura: MAIS VIDA, EM UM TEMPO ILIMITADO


Livrar a mente da presunção. Não tentar melhorar o caráter do vizinho. Centrar-se no auto-aperfeiçoamento, isto é, na luz interior, de forma a tornar-se um “portador da luz” também para outras pessoas. Desenvolver a auto-confiança, que não é um dom, mas um renascimento da mente. E, por fim, resgatar a ironia.

Esses são os princípios que fundamentam COMO E POR QUE LER [traduzido por José Roberto O´Shea para a editora Objetiva]. Já na segunda página, Harold Bloom enuncia/anuncia sua fórmula ideal de leitura: “Encontrar algo que nos diga respeito, que possa ser utilizado como base para avaliar, refletir, que pareça ser fruto de uma natureza semelhante à nossa, e que seja livre da tirania do tempo”. Para ele, só a leitura intensa, constante, “é capaz de construir e desenvolver um eu autônomo. E enquanto não nos tornarmos nós mesmos, que benefício poderemos trazer para os outros?”

Após um ensaio inicial fascinante, Bloom parte para exemplos práticos: primeiro analisa contos, centrando-se numa dicotomia possível entre duas vertentes que para ele dominam essa forma literária: a tchekhoviana e a borgiana. O impressionista Tchekhov, apesar de não pretender simplesmente contar uma história, espera que o leitor aceite “a fidelidade com que seus contos retratam a vida”; Borges, por sua vez, mergulhar-nos-ia em fantasmagorias.

Logo a seguir, temos a seção mais peculiar e idiossincrática de COMO E POR QUE LER, pois Bloom nos inunda de poemas da língua inglesa, perseguindo uma tradição que denomina de desespero visionário, ao mesmo tempo em que defende a memorização e leitura em voz alta como meios cognitivos poderosos para a apreensão da poesia.

Os romances ganham duas seções: na primeira, Bloom contrasta romances que teriam uma filiação shakesperiana ( que chega ao auge na obra de Proust, Em busca do Tempo Perdido), seguindo o método da auto-escuta (melhor dizendo, auto-centramento) no desenvolvimento dos personagens; e uma filiação cervantina (cujo ápice é A montanha mágica, de Mann), seguindo o método de confrontar idéias e personalidades para a formação do indivíduo. Na segunda, ele analisa a tradição melvilliana (Hermann Melville é o autor do atordoantemente belo Moby Dick) no romance norte-americano, tradição que delineia uma espécie de apocalipse moral dos EUA (não seria ainda o desespero visionário?) e que chega ao máximo em Enquanto agonizo, de Faulkner, “a maior obra da ficção norte-americana do século XX” e, mais recentemente, num livro muito admirado por Bloom (mas não por mim, se me é permitida tal impertinência), Meridiano de sangue, de Cormac MacCarthy: “Os Estados Unidos, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer. Vemos à nossa volta descendentes dos piratas de Glanton [uma milícia assassina que executa massacres horripilantes em Merediano de sangue], milícias armadas, atiradores que atacam jardins de infância e escolas, que explodem repartições públicas”.

Ao teatro é reservada a seção mais pobre: repisam-se argumentos sobre Hamlet, já bastante explorados por ele em O cânone ocidental (centrado em Shakespeare) e sobretudo no maravilhoso A invenção do humano (no qual há um ensaio de 50 páginas sobre a peça). Apenas duas outras são analisadas: Hedda Gabler, de Ibsen, e (!!??) A importância de ser prudente, de Oscar Wilde.

COMO LER o livro de Bloom? Com certeza não esperando algo cômodo e fácil, algo assim como O mundo de Sofia da literatura. Já o li inteiro, mas não é a maneira mais eficaz, o melhor é pegá-lo de vez em quando e se deter numa análise, porque do contrário ele chega a causar ansiedade, ao instigar a vontade de ler ou reler tantas obras, incitando a uma voracidade que deve ser disciplinada (e leitura disciplinada é uma das pedras-de-toque  de COMO E POR QUE LER), para melhor fruição do prazer difícil que é a convivência com certas grandes obras.

POR QUE LER o livro de Bloom? Idiossincrático e exagerado, o grande crítico norte-americano é um daqueles espécimes raros: mesmo não concordando com suas opiniões (o leitor deve desculpar a minha pretensão, medindo-me com alguém de uma erudição e uma estatura intelectual que dificilmente alcançarei), sempre se ganha com elas. Nesta minha coluna comentei com reservas A canção de Solomon, de Toni Morrison, e Merediano de Sangue, e Bloom os exalta. Mas e daí? O que ele escreve sobre ambos é sempre interessante e coloca em xeque minha própria opinião.

Além disso, Harold Bloom é um lúcido antídoto (embora afirme, cabotinamente,  que “não deseja polemizar dessa vez”) contra os gurus da análise cultural contemporânea, que pouco ligam para as obras e querem descobrir contextos, muitas vezes significando pêlo em ovo. Quem ficou espantado ao ler as bobagens que Edward Said escreveu sobre Mansfield Park, de Jane Austen, no cultuado e superestimado Cultura e Imperialismo (o que não impede que Said tenha livros mais felizes, como Orientalismo)—há uma passagem particularmente hilária: Mansfield Park sublima as agonias da existência caribenha numa meia dúzia de referências passageiras a Antígua”—ficará  aliviado em ver  como Bloom as extermina sem choro nem vela: “Austen é por demais pragmática para se deter nas origens dúbias das fortunas pessoais” dos futuros maridos de suas heroínas. E acrescenta: “O pragmatismo da autora não deixa de ser louvável, pois que diferença faria se os recursos fossem limpos, expurgados, por exemplo, da exploração dos escravos do Caribe?… para ela, a ordem social é um fato, um dado a ser aceito, algo que lhe possibilita contar suas histórias”.

Contra a presunção dos Edward Said da vida, contra o inútil propósito de reforma da natureza humana (melhorar o caráter do vizinho), a tecla é sempre a mesma: auto-aperfeiçoamento e auto-confiança. E,é claro, a ironia: “a morte da ironia é a morte da leitura e do que havia de civilizado em nossa natureza. Se isso nos remete à solidão, também nos proporciona a Bênção suprema da leitura, pelos Mandamentos de Bloom: “MAIS VIDA, EM UM TEMPO ILIMITADO”. Melhor descrição do que é ler, impossível.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  22 de maio de 2001)

nota- Passados alguns anos, eu matizaria meu julgamente sobre Edward W. Said. Ainda me incomoda seu uso da contextualização, mas aprendi muito com Orientalismo, por exemplo.

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