MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/10/2013

SONHO DO CELTA, PESADELO DO LEITOR


mario-vargas-llosa-594x397O-Sonho-de-Celta

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  04 de outubro de 2011)

“Esta era a palavra que melhor descrevia como ele sempre se sentira, na Irlanda, na Inglaterra, na África, no Brasil, em Iquitos, no Putumayo: um banido. Durante boa parte da vida, Roger se gabou dessa condição de cidadão do mundo… alguém que não é de lugar nenhum porque é de todos os lugares. Por muito tempo pensou que esse privilégio lhe dava uma liberdade que aqueles que viviam ancorados no mesmo lugar desconheciam. Mas Tomás de Kempis tinha razão. Ele nunca sentiu que pertencia a um lugar porque a condição humana era isto: um desterro neste vale de lágrimas, um destino transitório até que, com a morte e o além, homens e mulheres voltariam para o ninho, para a sua fonte nutriz, onde viveriam por toda a eternidade”.

No ano passado, Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel, em meio à expectativa pelo seu novo romance, O sonho do celta[El sueño del celta, em tradução de Paulina Wacht & Ari Roitman] . Afinal, tirando O paraíso na outra esquina (2002), suas últimas realizações no gênero deixaram muito a desejar.

O que vinha ficando evidente, em contrapartida a esse declínio de qualidade, era o desencanto do autor peruano com o ideário neoliberal, a confiança no mundo globalizado pós-industrial, cuja causa ele abraçara tão apaixonadamente.  Nesse sentido, a trajetória que retrata em O sonho do celta é emblemática: Roger Casement é o irlandês que, no final do século 19, vai para a África (servindo à Coroa britânica)  imbuído da ideologia em tripé que sustentou a colonização e o posterior imperialismo das potências ocidentais: civilização, cristianismo e comércio.

7580512_HzbJHSir_Roger_Casement_(6188264610)

No Congo, ele testemunha horrores (o domínio belga foi um dos  mais brutais da história) contra os negros, de tal monta, que o levam a redigir um relatório que o torna célebre no mundo todo (e é preciso lembrar que, à época, não havia os meios de comunicação à disposição, embora fosse já época de uma opinião pública forte). A desilusão de Casement com a empreitada colonial ficará completa quando, ao viajar pelo Putumayo, a porção peruana da Amazônia, constatar ali horrores similares e novamente a desfaçatez do homem branco. A conseqüência mais importante na vida de Sir Roger (sim, ele ganha o título honorífico) é que ele resolve cuspir no prato que comeu, ou seja, abraça a causa do nacionalismo irlandês contra a Inglaterra e procurará firmar uma aliança com os alemães, ao eclodir a Primeira Guerra, para acelerar a independência da Irlanda. Por essa razão,  é preso como traidor e condenado á forca. Para fomentar o clima de antipatia contra ele divulgam-se trechos dos seus diários onde sua “vida secreta”, como homossexual cujas experiências fundamentais foram com negros, nativos, enfim, outras raças, é exposta escandalosamente.

O sonho do celta relata a vida de Casement, já preso, a partir da espera para ver se a petição de indulto da pena de morte seria concedida. Infelizmente, Vargas Llosa perdeu mesmo a mão de escritor: mesmo que tenha inventado mil coisas, há um ar de biografia ficcional careta e certinha que fulmina qualquer admiração pelo esforço de recriar a vida do intrépido e corajoso irlandês. O pior é que o romancista que nos fez entrar na cabeça de tantos personagens, inclusive os mais repulsivos, como a eminência parda da ditadura Cayo Bermúdez em Conversa na Catedral, ou o fanático republicano Moreira César em A guerra do fim do mundo, nunca consegue nos fazer entrar na cabeça de Roger Casement. Parece que ele o vê à distância, sem nunca se aproximar de fato do seu “sonho”, a não ser com os recursos do best seller ( Llosa não nos poupa nem dos clichês mais banais, como o do carcereiro que é duro e hostil a princípio e depois vai se tornando amigo do suposto traidor degenerado).

Aliás, eu não me surpreenderia em ver O sonho do celta transformado num filme em Hollywood e ganhando o Oscar. Ele tem todos os ingredientes para se transformar num daqueles filmes amorfos (tipo Entre dois amores, Dança com lobos, O paciente inglês), bem produzidos, com um ótimo protagonista, ótimos cenários, ótimos figurinos, tema politicamente correto e um destino tão certo e implacável quanto a forca para Sir Roger Casement: a irrelevância das Sessões da Tarde.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/10/04/rumo-ao-oscar-e-ao-tony-passando-pelo-nobel/

Sueno_del_Celta1

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: