MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/10/2013

A astúcia camponesa na arte de contar de Mo Yan: “Mudança”


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“Fomos primeiro à praça e entramos na fila para tirar uma foto no Portão da Paz Celestial. Depois entramos na fila do Mausoléu do Presidente Mao para prestar nossas reverências. Enquanto contemplava o presidente deitado em seu sarcófago de vidro, lembrei de quando chegara a notícia de sua morte, dois anos antes. A sensação fora de que o mundo desmoronava e o chão se abria sob nossos pés. Acordamos para o fato de que não há imortais neste mundo. Nem em sonho imaginávamos que o  presidente Mao morreria um dia, mas acontecera. Acreditamos, naquele momento, que a morte dele seria o fim da China. Dois anos mais tarde, o país não apenas sobrevivera como melhorava a cada dia (…) Numa loja de departamentos em Xidan comprei três bolsas pretas de couro sintético, uma para mim e duas para meus companheiros de armas. Comprei também um lenço cor-de-rosa para minha noiva. Ela me fora apresentada por um parente distante quando eu trabalhava na fábrica de processamento de algodão. Eu titubeara por um momento e ele se zangara: Deixe de bobagem! Tem um porco cevado fuçando na sua porta e você acha que é um vira-lata arranhando a soleira!”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 08 de outubro de 2013)

Como vem acontecendo amiúde nos anúncios do Nobel (tradicionalmente em outubro), ano passado tivemos Mo Yan como vencedor, contrariando todas as apostas. Por esse motivo, ao invés de insistir num exercício de adivinhação, muito calcado em preferências subjetivas, aproveito a semana em que devemos conhecer o galardoado de 2013 para festejar a primeira tradução do autor chinês no Brasil, Mudança [Bian, 2009, em tradução de Amilton Reis e excelente projeto gráfico da CosacNaify].

Nesse assombroso relato autobiográfico, o Nobel 2012—atualmente com 58 anos— seleciona 1979 no calendário da sua vida: “ano marcante, tanto para o país quanto para mim, lemos no início do quinto capítulo (são oito, ao todo). Na época, a China contra-atacava o agressivo Vietnã (“Quem me dera um dia ter a oportunidade de ir ao front e me tornar um herói. Se passasse incólume, sairia com méritos e ganharia uma promoção. Se morresse, meus pais seriam tratados como familiares de mártir, o que mudaria o status político da minha família e faria valer a pena terem me criado”) e ele era autorizado a se casar, começando também a desatar os nós do seu destino, até que em 1981, além do nascimento da filha, torna-se um autor publicado— tudo na China, tal como ele nos apresenta, parece seguir um curso tortuoso e lento, principalmente para um camponês de uma região obscura, com pouquíssimas chances de melhorar.

O texto não se sujeita a essa forma biográfica coerente e coesa. De repente, emergem lembranças teimosas que fragmentam o corte temporal, estabelecendo associações superficialmente irrelevantes entre pessoas  “coadjuvantes” (a um primeiro e apressado olhar)  na dinâmica da existência do escritor: “Desculpem minha narrativa prolixa, minha cabeça está cheia de lembranças embaralhadas. Não tenho intenção de escrevê-las, elas é que vão brotando por conta própria.”. Na verdade, tal afirmação, ainda que verdadeira, disfarça a proverbial (benjaminiana?) astúcia de camponês que comanda Mudança[1]. Pois o que está em ação é o infalível olhar de narrador que consegue extrair das anedotas mais contingentes um fio da meada para que mesmo o leitor ocidental mais desinformado consiga ter uma imagem nítida de décadas de história chinesa.

Depois de também ter lido uma obra-prima como Viver, de Yu Hua (cuja idade regula mais ou menos com a de Mo Yan)[2], fico me perguntando se a esperança dos que amam a arte da narração não se encontra na literatura que aos poucos vai se revelando para o mundo a partir da economia mais pujante da atualidade, pois também naquele romance uma expressiva fatia temporal era apresentada de forma quase miraculosa, através de simples incidentes. Como diagnosticou precisamente Martin Walser (aliás, um sério “nobelizável” também), o que é histórico aparece como “detalhe sensível”, “não como declaração, mas como expressão”.

Mo Yan só precisa de um professor (Liu Tianguang) meio fanático e rigoroso na escola, de um colega cheio de vitalidade, He Zhiwu, nada talhado para a vida escolar ou para as lides rurais— e que, como o resto da garotada, idolatra o pai da tímida e delicada Lu Wenli por dirigir um caminhão Gaz 51 (um refugo de guerra)—e, enfim, dos encontros e desencontros com esses três caracteres (Liu, He e Lu) ao longo do tempo, para caleidoscopicamente evocar o processo que justifica o título da sua manhosa autobiografia.

Cada vez que ele os reencontra ou fica sabendo deles, à distância, o leitor percebe uma mudança na teia social supostamente calcada no “imemorial”, pouco propenso à mobilidade. Ao enredá-los na sua própria trajetória (He, que de vagabundo se torna um rico empreendedor, propõe casamento a Lu, mas quem finalmente a desposa é o professor Liu, quando ela já é uma operária viúva e gasta), é como se esses personagens da sua infância mantivessem com ele a relação poética e simbólica que estabelece entre dois diferentes Gaz 51 (o outro é o veículo da unidade em que serviu o exército), ou como a vinculação “genealógica” que o técnico Zhang estabelece entre os motoristas do caminhão da mambembe Unidade 263: “Zhang dizia ser o nono motorista daquele veículo (…) falou o nome e o local de nascimento de cada um de seus oito antecessores, como alguém que desfia a própria árvore genealógica.

É nesse caminhão  que ele, um rapaz da casta mais baixa, dos cafundós da roça, conhecerá a longínqua capital: “Pequim, meu Deus, estávamos em Pequim! Quem diria que um rapaz pobre de Gaomi pisaria o solo da capital nacional no dia 18 de janeiro de 1978 e veria todos aqueles carros brancos e pretos, e jipes verdes, todos aqueles prédios altos e edifícios enormes, todos aqueles estrangeiros narigudos de olhos azuis (…) Mesmo uma pessoa como eu já podia tirar uma foto na Praça da Paz Celestial e ver de perto o corpo embalsamado do presidente Mao.”

Talvez haja quem se ressinta da ausência da ênfase política, da reflexão propriamente ideológica sobre a “mudança”. No entanto, prevalece a visão sintetizada pelo macunaímico He: “Daí se vê que a vida é cheia de mudanças, o acaso é que ata as pontas do destino. Tudo se encaixa de maneira estranha, bizarra mesmo… É ao apreender essa concretude fluida da existência, com a mesma vitalidade e vigor, como narrador, do seu antigo colega —ou personagem (“aqui escrevo basicamente  minhas lembranças. Se houver algo em desacordo com os fatos históricos, a culpa só pode ser da memória”)—Mo Yan justifica fartamente a escolha da Academia Sueca.

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TRECHO SELECIONADO

“Uma vez ele chegou a dizer: Qualquer dia desses vou levar o caminhão até sua aldeia para os dois Gaz 51 se encontrarem. Para ele, o veículo também tinha alma. Se uma árvore muito velha pode ter alma, por que não um caminhão crivado de balas e batizado com o sangue dos mártires? E como seria o encontro entre dois caminhões com alma? (…) O caminhão, produzido em 1951 pela fabrica Górki, na União Soviética, era quatro anos mais velho que eu. Essa história gloriosa despertou em mim um respeito especial por nosso Gaz 51, que me fazia lembrar o que o pai de Lu Wenli dirigia. Para mim, eram como duas gêmeas separadas no nascimento—por que não irmãos gêmeos ou um menino e uma menina, não sei dizer, mas foi essa a ideia que veio primeiro e ficou. A imagem das gêmeas me fez pensar: minha vaga, na verdade, era no forte de Penglai, na Região Militar de Jinan, mas por obra do acaso eu viera trabalhar naquela pequena unidade subordinada ao Comando Geral do Estado-Maior. A probabilidade de isso acontecer era só um pouco maior que a de Lu Wenli mandar a bola de pingue-pongue para a boca do professor Liu, e bem pouco maior. Depois de ouvi o Técnico Zhang contar a gloriosa história de seu veículo, entendi que o destino tinha me colocado naquela unidade insignificante com a missão de juntar as duas irmãs gêmeas separadas havia tanto tempo.”

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[1] Um dos encantos do livro é o tom de conversa com o leitor, de modo que ele seja cooptado (na falta d uma expressão melhor, ou pelo menos mais simpática) pela estrutura maleável do texto:

“A esta altura, acho que vocês já entenderam que naquela época nossa escola era a melhor da península de Shandong. Fui expulso da escola na quinta série; apesar disso descobri, mais tarde, no serviço militar, que ainda podia facilmente dar aulas aos meus companheiros de Exército que haviam concluído o Colegial. Se eu tivesse me formado naquela escola poderia entrar, só com meu Ensino Fundamental, na Universidade de Pequim ou na Tsinghua em 1977, quando foram retomados os exames de admissão.”

Além do fortíssimo senso do concreto, também a perspectivação temporal (o que era e o que se tornou alguém ou alguma localidade) é um elemento crucial para o dinamismo intenso do relato:

“He Zhiwu apareceu no lugar mais visível do pátio usando uma farda desbotada, um quepe de oficial praticamente novo, luvas brancas, óculos de sol e um chicote caseiro (…) E onde He Zhiwu tinha arranjado aquele figurino? Não sabíamos dizer. Muitos anos depois, quando o encontrei em Qingdao, perguntei-lhe a respeito disso. Ele riu e respondeu—meio de brincadeira, meio a sério: Peguei emprestado do pai da Lu Wenli…”

Outro exemplo maravilhoso:

“Fomos ainda a um restaurante em Xidan e ficamos duas horas na fila para comer uma porção de jiaozis feitos a máquina, recheados com carne bem gorda, daqueles que espirram óleo a cada mordida. A máquina funcionava atrás de um balcão baixo. Do lado de cá do balcão havia umas dez mesas. Para mim, aquilo era uma grande invenção, bastava colocar farinha, água e  carne de um lado e os jiaozis saíam prontos do outro lado, caindo um atrás do outro numa panela de água borbulhante. Era extraordinário! Quando voltei para casa, contei tudo a minha mãe, que não acreditou em uma palavra do que eu disse. Pensando bem, os jiaozis de máquina tinham massa grossa e pouco recheio. Metade se desfazia na panela. Nem eram bonitos, nem saborosos. Mas, naquela época, comer aqueles jiaozis de Xidan já era algo de que se gabar em casa. Hoje em dia, ninguém mais quer saber de jiaozis de máquina, e os restaurantes fazem questão de colocar um aviso garantindo que a iguaria é feita a mão. E o recheio vegetariano superou o gorduroso na preferência popular. Isso ilustra bem como as coisas mudaram”.

 

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