MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/10/2013

MORRISON NÃO MERECIA O NOBEL


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de outubro de 1993)

O prêmio Nobel deste ano foi vexatório. A escolha de uma autora mediana demonstrou uma desprezível preocupação mais com os dados civis do escritor do que com a literatura: Toni Morrison ser mulher e negra pesou mais do que os avassaladores clichês compilados no seu romance Jazz (de 1992; no Brasil, editado—como todos os outros até agora—pela Best Seller[1]).

Talvez o próximo cidadão estadunidense premiado seja um  romancista chicano gay ou, talvez, um poeta sino-americano travesti. Assim, raças e preferências sexuais contariam mais que qualidades literárias.

E um time de primeira linha vai sendo preterido. O ótimo escritor (negro e gay) James Baldwin morreu sem ser cogitado para o Nobel. E quanto às mulheres, esqueceram desta vez escritoras infinitamente superiores a Morrison. Só para ficar nos EUA: Joyce Carol Oates, um dos maiores nomes entre os autores norte-americanos; Joan Didion, cujo romance Democracia é esplêndido; a grande ensaísta—e romancista (basta lembrar de O amante do vulcão—Susan Sontag; Mary Gordon, autora de The company of women-As beatas & Homens e anjos; Anne Tyler, autora de O turista acidental e de um livro genial chamado Dinner at homesick restaurant (aqui, Jantar no restaurante da saudade[2]). Até Marion Zimmer Bradley, autora de As brumas de Avalon, merecia mais o prêmio: seu estilo é um tanto relaxado, mas o conjunto de quatro romances apaixona e marcou época…

E os homens como William Styron,  E.L. Doctorow (cujo maravilhoso Ragtime pulveriza Jazz), Norman Mailer, John Updike, John Irving, Pajul Auster, John Barth, Thomas Pynchon, Philip Roth, até Gore Vidal…?

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Dos livros de Morrison publicados no Brasil, o melhor é A  canção de Solomon (1977).  Apresenta um certo frescor e vivacidade, a par de sua inclusão na corrente de escritos femininos que escavam o passado americano para reescrever a história (caso dos ótimos Machine dreams- Sonhos desfeitos, de Jayne Anne Philips, e Love medicine-Feitiço de amor, de Louise Erdrich).

Mas tal intenção fica empanada por conta dos modestos recursos criativos da autora ora nobelizada. Portanto, A canção de Solomon acaba sendo um dos livros mais fracos da linha “histórias de gerações” sob o olhar feminino (não se compara a, por exemplo, A cor púrpura, de Alice Walker, romance bem diferente do show de pieguice que é sua versão cinematográfica).

O personagem central é Milkman Dead,  que nasceu “empelicado”, filho de um casal negro abastado, fato raro na racista Virginia. O empelicamento de Milkman é simbólico (tal qual o seu nome): ele não quer saber da sua ração, tendo conflitos por isso com suas irmãs, mais conscientes.

Durante uma viagem conhece mais a respeito do pai e do avô, “o esperto irrigador, o plantador de pessegueiros, o matador de porcos (…) o homem capaz de arar mais do que qualquer lavrador e que cantava como um anjo enquanto trabalhava. Ele chegara ninguém sabia de onde, ignorante como um martelo e pobre como Jó, sem nada a não ser os documentos de liberto e uma Bíblia” (utilizo a tradução de Evelyn Kay Massaro).

A mensagem é clara: é preciso ter orgulho dos ancestrais, apesar do aviltamento e da violência (o avô fora assassinado), o que detona uma viagem de autoconhecimento de Milkman, cujo clímax acontece quando seu carro enguiça numa cidadezinha em frente ao Armazém Solomon…

É um romance legível, competente. Nada mais. Toni Morrison chove no molhado. Para um livro que se inicia com um homem ameaçando voar do alto de um hospital, era preciso realmente asas mais possantes.

VER TAMBÉM

https://armonte.wordpress.com/2010/07/06/bacante-sem-grandezaa-ficcao-ruim-de-toni-morrison/


[1] Nota de 2013– Atualmente, Toni Morrison é editada no Brasil pela Companhia das Letras, a qual reeditou alguns dos títulos previamente lançados pela Best Seller.

[2] Nota de 2013– Posteriormente, saiu outra tradução com o título Almoço no restaurante da saudade.

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