MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/10/2013

UM CAMPO VASTO: a implacável visão de Günter Grass da unificação das Alemanhas


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GÜNTER GRASS MERECE O NOBEL

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de outubro de 1998)

É lamentável que Günter Grass seja ainda mais conhecido no Brasil pela adaptação medíocre que Völker Schlondorff (um contumaz assassino de obras literárias no cinema) fez de seu primeiro romance, O tambor (na verdade, O tambor de lata). O descaso é tão grande que um de seus últimos livros, Maus presságios, foi traduzido a partir de uma versão espanhola !!!??

Espera-se que UM CAMPO VASTO (Ein Weites Feld, Alemanha-1995, em tradução de Lya Luft) modifique essa situação, o que nem a publicação de obras-primas como O linguado e Anos de cão conseguiu. Trata-se, porém, de um romance difícil, que satiriza a unificação das Alemanhas. Para isso, Grass utiliza um recurso que dificultará a vida do leitor brasileiro: sobrepõe ao seu personagem principal, Théo Wutke a figura do escritor (do século passado) Theodor Fontane, totalmente desconhecido por aqui (inclusive pelo autor deste artigo). Wutke tem a mania de citar o “Imortal” (Fontane) e muitas vezes confunde as duas vidas de forma que uma parece ser a modernização dos eventos da outra.

Por que a escolha de Fontane? Porque ele escreveu, entre outras coisas, vários livros sobre as guerras que “unificaram” a Alemanha nos oitocentos e possibilitaram a criação dos “Reichs” que levaram a Europa às guerras mundiais.

A narrativa, feita por arquivistas do Instituto Fontane, começa a partir da queda do muro de Berlim (e também da comemoração dos 70 anos de Wutke), prosseguindo por dois anos, nos quais os ocidentais vão sucateando a Alemanha Oriental, dentro da lógica nefasta do processo neoliberal e globalizante. Por outro lado, através dos embates de Wutke e de Hoftaller—uma espécie de eterno conspirador, sempre ligado ao poder (e que possui informações comprometedoras sobre Wutke & família—relembram-se os anos em que as Alemanhas existiram separadas pelo muro (mas será que a Alemanha não esteve sempre separada por coisas menos concretas e entretanto igualmente coercitivas?).

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É um painel esplêndido, complexo, saboroso, mesmo para quem nunca leu uma linha de Fontane na vida (a edição brasileira poderia ter ajudado, com um trabalho mais sério de notas de rodapé). Um romance de ideias maravilhoso, no qual o passado e o presente se interpenetram de forma sempre notável (e, para observar esse processo, não é preciso ter lido Fontane, basta apenas ter lido outras obras de Grass onde o tempo é tratado de forma especialíssima, basta lembrar de O linguado e A ratazana).

Para quem achar que a situação tratada em UM CAMPO VASTO é muito particularizada para nos interessar, é bom lembrar que a Alemanha teve um papel preponderante nos rumos do mundo no último século e tudo que acontece ali nos diz respeito, portanto. Além disso, a relação Wutke-Hoftaller lembra, em diversas ocasiões, a clássica relação Quixote-Sancho Pança, o idealismo debatendo com o pragmatismo (aliás, Wutke lembra às vezes o nosso Policarpo Quaresma, da obra-prima de Lima Barreto). E, como diz o próprio Wutke à sua neta francesa, “os alemães têm tendência e até talento para a obra de arte total”.

E, claro, em toda “obra de arte total” há sempre os momentos marcantes, que ficarão para sempre na memória. Um deles, em UM CAMPO VASTO, é patético, e também mordaz: Wutke e Hoftaller visitam uma famosa ponte havia troca de “espiões” e “reféns” de ambos os lados, e ali ficam “brincando de troca”: “Ora Fonty [Wutke] era o objeto oriental trocado por algum refém ocidental, depois Hoftaller vinha a passo do lado oriental, enquanto Fonty deixava atrás de si o Ocidente, até ambos estarem na mesma altura, por um segundo congelados num instantâneo, sem olhar, sem falar, para logo depois, a passo, voltar a se aproximar do outro sistema, da potência mundial, do inimigo mortal e da garantia de segurança, do inimigo da classe ou do perigo vermelho, entregando-se ao seu próprio lado. Um jogo com poucas variações. Fonty por Hoftaller. Hoftaller por Fonty. Ambos se equivaliam. Um não existia sem o outro. Jogava-se com a mesma aposta, para ambos a ponte Glienecke era longa como um pesadelo. Como ocorre depois de um exercício muito prolongado, a tensão caía, e afinal ocorreram-lhe algumas variantes: Fonty, o que vinha do frio, piscava o olho direito assim que estavam lado a lado, e Hoftaller, que estava sendo entregue pelo inimigo da classe, piscava o olho esquerdo. Por fim, na hora da troca os dois agentes até diziam uma palavrinha…”

Depois desse extraordinário e vasto campo onde jogou o leitor do final do século, só se pode esperar que a justiça seja feita e que Günter Grass seja o próximo Nobel de literatura.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/03/a-vastidao-gunter-grass/

https://armonte.wordpress.com/2013/09/12/contrariando-os-atestados-de-obito-do-romance-a-casa-de-puchkin/

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3 Comentários »

  1. Günter Grass e o escritor francês Michel Houellebecq são autores que merecem mais análises! São autores descontestes com o tempo, mas esses decontentam,ento sugere visões de mudanças… e não ficam apenas no imaginário. O Teatro do Absurdo de Günter é a realidade sendo mostrada na sua verdadeira essencia… Em 1999 foi mais do que merecido o Nobel… Quem sabe agora seja a hora de do sempre provocador Michel Houellebecq??? abraço

    Comentário por Danilo Pereira — 03/10/2013 @ 15:22 | Responder

    • Desculpe-me, Danilo, mas jamais compararia Michel Houellebecq a Günter Grass. Mas é questão de gosto, claro. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 03/10/2013 @ 15:45 | Responder

      • Concordo contigo!!! Me desculpe se eu passei a ideia de “comparação” entre os autores… na verdade a diferença é gritante… Günter Grass é fora de série… mas eu gosto do “Houellebecq”… ele é diferente!!! abraço

        Comentário por Danilo Pereira — 03/10/2013 @ 16:07


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