MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/10/2013

AULAS DE PARADOXOS: as “Canções Mexicanas” de Gonçalo M. Tavares


gtavaresPV Rio de Janeiro (RJ) 27/08/2013 Capa de livro. Foto Reprodução

“Tem um plano de viagem?, pergunta-me ela mal acabo de entrar no quarto e largar os pesos acordados, como?, pergunto, estamos aqui para fornicar e ela pede-me um plano de viagem, que exótica e inteligente, penso, aqui vai o programa, digo, e começo a aproximar-me dela, a tocar-lhe nas mamas, e ela afasta-se e diz no, no, primeiro—e depois aponta lá para cima, para a cruz. Uma cruz de madeira pendurada na parede. Que quer ela, não entendo? Primeiro o quê,pergunto. Primeiro, besito, diz ela, e aponta para a cruz. Estamos no México e é preciso dizer que sim aos malucos…” (trecho de Um Plano)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de outubro de 2013)

   “Pensa nisto: um pescador em frente ao rio, com a cana mergulhada na água, espera pacientemente que um peixe apareça. Entretanto, enquanto espera, com uma arma aponta para os coelhos que tentam velozmente escapar, e dispara. Quando acerta (…) vira-se para a cana de pesca para confirmar se existiu alguma alteração nas águas. Não sai do sítio, não vai buscar o coelho. É um pescador, não um caçador. A anedota é do livro Roland Barthes e Robert Musil (publicado junto com A Perna Esquerda de Paris) e ajuda a entender a toada inclassificável dos 27 relatos que compõem Canções Mexicanas, um dos maiores destaques de 2013.

A profusão de títulos, a confusão cronológica e editorial de lançamentos aqui no Brasil, podem dar a falsa ideia de uma certa gratuidade no projeto literário de Gonçalo M. Tavares, ainda mais que suas obras têm como “cenário” países germânicos, a Índia, Paris. No fundo, todas dizem respeito a uma geografia bastante peculiar, que existe apenas na mente e nas palavras do desconcertante autor português (nascido em Angola, em 1970).

Sem embargo, como acontece nos casos da mais alta inventividade e descolamento do “verossímil”, os lugares acabam ganhando uma fisionomia mais verdadeira do que a da realidade: “… aqui estou eu, no meio da Cidade do México, a tentar encontrar a casa de Frida Kahlo, depois de estar uma manhã a olhar para os murais de Rivera...”, lemos em Concentração, um dos pontos altos do livro (há outros: Os Meus Amigos; Os Belos Nomes das CasasA  corrida; Mapas, Mapas). O narrador das estórias é o indefectível turista europeu, fadado a um olhar estrangeiro e pós-colonial, a quem é dado conhecer além do lado mais exótico e folclórico da capital mexicana.

   “E que sei eu do México?”. O que ele saberá estará inteiramente fora do limite de qualquer city tour.  No encontro com uma prostituta,  a qual impõe aos clientes beijar os pés da imagem de Cristo num crucifixo antes da função, lhe é perguntado: “Tem um plano de viagem?” Mesmo que o tivesse, os protagonistas de Tavares compartilham o extravio ontológico fundamental da heroína de A Perna Esquerda de Paris: “Maria Bloom tinha aulas de paradoxos, duas vezes por semana, das seis às cinco da tarde Nunca chegava a tempo porque chegava sempre adiantada.”

Portanto, uma Cidade do México que parecia estar localizada na zona da anti-matéria, em que os efeitos do consumo do Mezcal se entrelaçam à descida do Maelström de Edgar Allan Poe. Ainda assim, nas fragmentárias e bizarras jornadas do narrador, e mesmo que alimentada pela paranóia e pelo medo, surge para o leitor a imagem de uma capital, delineada em traços essenciais, não muito distante daquela em que se poderia perambular: pela apreensão da violência extremada (“só me resta começar a correr e aqui vou eu mais uma vez, estou em grandes corridas na Cidade do México, de noite é isso que me aconselham a fazer, se corres muito as pessoas não vão atrás de ti, nenhum malfeitor vai se pôr a correr atrás de ti, eles não são malucos, quando apanham alguém e lhe cortam o pescoço fazem-no a passo tranquilo, a pasito, como dizem, nada de esforços, quem tem de se cansar é a lâmina”, lemos em A  corrida), subproduto da miséria, da desigualdade e da exclusão (“é bom sempre este dorso de cavalo que a mãe tem e que permite que os meninos subam às suas cavalitas e pensem que é uma brincadeira o que afinal é desespero”), claustrofobicamente superpovoada (“não há rua, tudo é gente”).

E pairando sobre toda essa desordem social, as categorias do pensamento ocidental, as dicotomias da racionalidade (e suas perversões)[1], que o autor das séries O Reino e O Bairro disseca sempre de forma tão magistral, sem perder o gosto pelo anedótico[2]: o padre pedófilo com mania de suicídio e que, numa de suas tentativas, sempre testemunhadas por uma multidão, é remunerado para gritar o nome de um estabelecimento comercial; o sujeito cuja trabalho é anunciar o fim do mundo (“explicam-me que aquele não é maluco, que é um empregado, um empregadito, dizem-me, e com essa palavra querem dizer que recebe pouco, um empregado, sim, quem é maluco é outro que não está ali e que lhe paga”); o ex-matador cuja casa vira local de devoção pelo ajuntamento de inúmeras variedades de cruzes…

No fim, cabe ao leitor decidir a verdade da seguinte máxima: “ser feliz é para os europeus, no México as coisas são mais excitantes”.

Já é hora de Gonçalo M. Tavares começar a ser considerado seriamente para o Nobel.

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TRECHOS SELECIONADOS

“Sabes contar até quanto, pergunta-me um menino. Eu digo que sei contar até muitos.

Até quanto?, insiste o menino. Eu respondo que não sei.

Se não sabes até quanto, como podes dizer que é muito?

Eu começo a contar: 1,2,3,4,5,6, e continuo; e o menino não sai de ao pé de mim; está à espera que eu acabe, que eu vá até ao fim—mas eu paro.

   1657, basta? É tudo—digo, para fechar a conversa. Não sabes contar mais—diz ele.

   Sei contar mais, mas estou cansado—digo.

   Não sabes contar mais, diz-me o menino; não tens força para contar mais, diz o menino e cospe-me para a cara, assim, aqui mesmo, na bela Cidade do México (….) e eu sempre soube que por vezes ser humilhado faz bem, não precisava de ir à Cidade do México.” (QUE FUERZA, NIÑO!, COMO TE ADMIRO)

“(…) aproximo-me de uma máquina dos caminhos-de-ferro, abandonada, onde dois mexicanos malucos estão a grelhar umas febras, perguntam-me se quero, se tenho Pesos, e eu pergunto o que é aquilo, dizem que é carne e riem-se, mas sabem perfeitamente que o que lhes pergunto  o que é aquilo apontando para a velha estação de caminhos-de-ferro e eles explicam que está abandonada desde que as mulheres começaram a fumar no México nos sítios públicos e riem-se mais uma vez, gozam com o belo estrangeiro, e também grelhamos homens inteiros, diz-me um dos mexicanos, quanto pesas, pergunta-me o outro, e fazem de lobos maus e eu de capuchinho vermelho, perguntam-me mesmo se eu conheço a história do capuchinho vermelho, aqui no México também a conhecem, que sim, respondo, e eles passam-me um lenço que eu ponho na cabeça, entro no jogo, que mais posso fazer?, é de noite, estou na Cidade do México e dois homens com mau aspecto estão a grelhar algo numa velha máquina abandonada numa velha estação de caminhos-de-ferro e dizem que a seguir sou eu, que eles estão com fome, há muita miséria no México, dizem-me, com quem pede desculpa por me comer, e eu quase digo que não faz mal, que compreendo perfeitamente, eles são lobos, eu sou alguém que se perdeu e que só devia sair de noite na Cidade do México bem acompanhado, disseram-me eles, que fazem de lobos e de paizinho, dão conselhos (…) e ali estão eles, a desenhar no chão com um  pau os trajetos bons da cidade e onde eu me enganei, sim, perguntam-me pelo hotel e lá estão eles, um deles, com um galho a marcar o trajeto no chão, você deveria ter virado aqui, virou aqui, marca ele, no chão,e por isso nos encontrou, se tivesse virado para ali, aponta o outro como seu dedo sem se dobrar, se tivesse virado para li se calhar estava agora em frente a uma mexicana que leva vinte pesos para te sugar “el” cachimbo, e riu-se muito com esta do cachimbo, passo errado, diz eles, agora somos nós, diz ele, que queremos que nos chupes “el” cachimbo, e ri-se um  deles, enquanto desaperta a braguilha, que faz ele?, digo ou só penso, tento sorrir, um deles está atrás de mim…” ( OS MEUS AMIGOS)

“(…) há mesmo polícias que não se limitam a desenhar os contornos dos mortos, fazem também desenhos ao lado, desenhos de casas, de anjos, de diabos, de fogo a arder numa grande casa, enfim, são artistas, os polícias, e têm também de se divertir e muitos gostam disto, de fazer desenhos que continuam o contorno dos mortos, como se aquela morte permitisse que eles exercessem o seu instinto mais belo, eis a beleza ali naquele polícia risonho, curvado sobre o corpo que recebeu, vejam bem, sete tiros, sete, e está tão morto sete vezes que é quase um anjo e o esforçado do polícia é bem visível que não pensa em nada senão na sua arte, e está a fazer um desenho enorme, começou, claro, por fazer um traço em redor do corpo e já está no traço para o desenho de um quarteirão, uma casa, duas, três, e vejam, este excelente polícia, que veio cheio de instrumentos, pois sacou já de giz de cores e o malandro está a pintar uma bela cidade e dois anjos, que nunca faltam,uma cidade toda colorida, que nasce do contorno do morto, casas a laranja, casas azuis, e está tão esmerado e concentrado o polícia que em volta dele estão já dezenas e dezenas de curiosos, incluindo mulheres, a admirar o desenho pintado e o morto está quase em segundo plano, e o perigo, agora, é que a multidão de admiradores cresça tanto que comece a passar por cima do cadáver…” (OS BELOS NOMES DAS CASAS)

“… quando o abro percebo que é bem maior que o da Cidade do México, isso é bem evidente quando ponho os dois mapas juntos, ao lado um do outro numa mesa da cozinha. Não consigo explicar a uma criança, impossível, que  o mapa mais pequeno é da Cidade do México, e que o mapa maior, bem maior do que o dobro do outro, é o da catedral da Cidade do México, que fica na praça Zócalo (…) Tento perceber o mapa da cidade enquanto o menino me diz bruscamente que a sua mãe está muito sozinha, que não tem homem. Levanto a cabeça ligeiramente do mapa, digo que sim, distraído,e o menino interpreta o sim como o sim a um noivado qualquer imaginário e chama logo a mamã, grita que encontrou um homem.” (MAPAS, MAPAS)

“… como o SALVADOR, é este o seu verdadeiro nome, que avança pelas ruas de boba de DDT em punho (…) e há sempre mais malucos que o maluco e muitos homens da rua anseiam pela chegada do SALVADOR e, quando este vem, há alguns que ficam à espera do chuveiro e o recebem como o único momento de higiene da semana ou talvez do mês (…) e há um terrível orfanato, um nojento orfanato, que paga ao SALVADOR para ele passar por ali à segunda-feira e, quando os meninos estão no pátio, todos direitinhos, ao lado uns dos outros, como se fosse uma parada de meninos de sete anos, ali vai o belo chuveiro de DDT, que logo descompõe a parada, os meninos começam a rir como se estivessem na piscina…” (DDT)

artigo de jornal

“… no Mural de Rivera a história lê-se, mas para a entender precisamos de ser um louco que salte com uma certa ordem. Vejo-me, pois, a saltar à corda e a aprender datas ao mesmo tempo.” (TELEFONEMA)

“Viva a ciência, digo eu, Viva o México, grita o presidente na varanda do palácio no grande dia do país, e eu que penso nisto: como este país seria tão diferente, tão distinto, se em vez de Viva o México o senhor presidente gritasse de cima da varanda, no dia da revolução, Viva a ciência, sim, viva a ciência que ajuda os doentes de Parkinson a subir para cima da bicicleta e depois os deixa ir para onde quiserem…”  (EL HOMBRE FELIZ)

“Preferes andar à roda em círculos ou num quadrado, eis do que se trata, entendes? As arestas são o grande perigo…” (SEDATIVOS)

“Saio para a rua e que rua: não há rua, tudo é gente, como quando cheguei a Roma, estúpido e imberbe, e pergunto conduzindo o carro, onde é o centro? Que centro, responde-me um romano, tudo é centro, tudo é centro. Sim, tudo é centro, já tenho idade para perceber, não preciso de ir a Roma, mas agora estou aqui nas ruas do centro da Cidade do México e aqui tudo é gente, não há rua, não se vê o chão, se olhas para baixo és empurrado, se olhas para cima és empurrado, estás no México…”  (NÃO ENTENDO PORQUÊ)

“… o padre fez isto, antes de passar a lâmina pelo pescoço gritou o nome de uma loja de ferragens para cavalos, fez publicidade à loja, mesmo antes de se suicidar, entendes isto?, difícil, não? Eles sabiam que ele o ia fazer de novo e como quando o padre se suicidava juntava uma multidão, eles fizeram isso…” (O CAVALO)

“Tantos cavalos metafísicos e nenhum Quixote, digo.

Um bordel com nome de genocida, diz ele. Si? E sobes?

Subo.” (EL DESEO)

“… ser feliz é para os europeus, no México as coisas são mais excitantes. Si? Pergunto. Si, responde ela.” (O QUE MAIS IMPRESSIONA)

“…os homens recolhem uma sensação, tentam absorvê-la como um fato absorve água e a faz desaparecer e a certa altura não existe fato e água, mas apenas um fato úmido; eis o que procuram os que levam a energia que se libertou na queda de um corpo sólido para a sua velha madre que está a morrer, ou para o seus filhotes, para que cresçam grandes e fortes, e a vida é isto: um certo prazer que vem da queda dos outros.” (A QUEDA)

“… aqui estou eu, no meio da Cidade do México, a tentar encontrar a casa de Frida Kahlo, depois de estar uma manhã a olhar para os murais de Rivera: como concentrar a história em pessoas, como se a história fosse um somatório de biografias, a história de um país com o somatório de cinco milhões de vidas, ou talvez o somatório das vidas realmente relevantes—os que matam, os que torturam, os que salva, os que fazem grandes discursos, os que têm pontaria…” (CONCENTRAÇÃO)

“…e o mundo é isto, e por vezes funciona: salvar pela humilhação, já vimos, é uma metodologia possível e muito antiga.” (NÃO SE DEVE IDOLATRAR OS ANIMAIS)

“..revistam-nos para sair da catedral da Cidade do México, não levas a fé para aí num bolso da mala ou da mochila, é isso, diz o anão, não querem que os estrangeiros, os turistas, levem a fé, queremos aqui tudo, los espíritus—diz; la mierda de la geometria, diz o anão, essa podem levar, ninguém vos revista para ver se levam a porcaria da geometria convosco de volta, levem-na, diz o anão que agora está irritado, levem-na para a europa…” (O ANÃO)

“…penso que é um maluco, claro, mais um. Quantos são os malucos?, são ás centenas, mas explicam-me que aquele não é maluco, que é um empregado, um empregadito, dizem-me, e com essa palavra querem dizer que recebe pouco, um empregado, sim, quem é maluco é outro que não está ali e que lhe paga, dizem-me e explicam-me, recebe para vir aqui todo dia e dizer que está a chegar o fim do mundo…” (EL FIN DEL MUNDO)

“… fico mais calmo, mas não entendo, três meninos de dezesseis anos a violar uma máquina de filmar,pelo menos é isso que dizem estar a fazer, aquilo é uma máquina, para que fazem aquilo (…)

   A ellos no les gustan las fotografias, diz o velho…” (LOS VAIDOSOS)

“Não se mexe, a pequena Ataraxia—explica-me o guia, como se me estivesse a explicar o que é que os índios faziam antes de vir o povo branco ou como se estivesse a explicar o mural de Rivera, as datas, os nomes, mas ali não se trata de um ponto turístico, é uma niña que pede esmola, aliás não pede, não mexe nada…” (ATARAXIA)

“…nunca digas que não és daqui, és muito branco, mas diz que nasceste em México df e que acreditas no jesus negro…” (LO MÁS SEGURO)

“…é bom sempre este dorso de cavalo que a mãe tem e que permite que os meninos subam às suas cavalitas e pensem que é uma brincadeira o que afinal é desespero.” (O COALA)

“E agora aquela casa está transformada num sítio de culto, tocam à campainha para rezar, e o ANIMAL, nome por que é conhecido o dono da casa, matou tantos quando era novo e agora pôs-se a colecionar cruzes, o ANIMAL atende, deixa-os entrar, eles entram e rezam à sua cruz…” (NO ÁTRIO DA ESCOLA)

“… és uma espécie de ignorante, de estúpido que pensa que a maldade e a violência são para aparecer em momentos precisos, como se fossem um tesouro, nos momentos excepcionais da tua vida eis que tens direito à violência, eis o que pensas, e isso mostra como não percebes nada, aqui a violência surge antes de o menino calçar os sapatos…” (OS MENINOS)

“E tu conheces a maldade?

    Sim, responde quem quer entrar

    Mas tu não és daqui, não conheces a maldade, estás a brincar; ao entras, eis como se selecionam os homens à entrada, por esta pergunta e pelo dinheiro

    E tu, conheces a maldade?

    E de fato no número 17- a dona do número 17 chama-se MALDADE, se isso é uma alcunha um apelido ou nome verdadeiro ninguém sabe—sempre conheceram a velha como velha e como MALDADE…”  (ISSO É IMPOSSÍVEL)

“… precisa de ir ao México para ver dois meninos para aí com 12 anos a pegarem em pedras e quando o herói vai beijar a mulher, eles atiram duas grandes pedradas, uma acerta no herói, a outra não acerta na tela, mas é bom pensar que uma foi para o herói, a outra para a mulher, e a tela não vai ser a mesma depois daquelas duas pedras (…) de qualquer maneira o filme não foi interrompido, o filme continua, o beijo entre o herói e a heroína já ficou para trás e agora o herói tem uma mancha escura no olho que resulta da pedrada que ficou marcada na tela, um sinal para não nos perdermos no filme, na narrativa…” (O HERÓI)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/03/09/o-apelo-do-pensamento-o-senhor-tavares/

A perna esquerda (1)


[1] Uma outra anedota (de A Perna Esquerda de Paris) nos ajuda a compreender essas perversões lógicas:

“Sete crianças correm em redor do boi, como se o boi fosse uma pista de atletismo grande (…)

   Mas as sete crianças decidem não correr mais em volta do boi. Começam a afastar-se e a atirar-lhe pedras, depois aproximam-se e insultam-no. Julgam que o boi é um ser estrangeiro que não entende insultos em língua rápida, no entanto pelo menos entende uma pedra que lhe acertou fortemente no dorso. As crianças prosseguem aumentando lentamente a maldade. O boi calmo, mas afiando o seu passo, mesmo parado, afiando o passo como se faz à espada.

   Sete crianças sem a sintaxe definida, mas já conhecem a maldade. Uma delas—das sete—tem uma pequena lâmina e repete:

__Um boi não morre com uma lâmina tão pequena. Vamos experimentar.

    E experimentam.

    No pescoço não, diz um, começa pelo rabo, pelas nádegas.

    O boi não tem nádegas, diz outro.

    Mas depois espeta no pescoço, quero ver.

    Deixa o pescoço para o fim.”

Em outra passagem:

“Existem limites para a bondade: se a matéria à tua frente não exercer vontade política: podes torturá-la, experimentar sobre ela maldades novas. O porco não pertence à polis: podes comê-lo.”

[2] “O mundo, felizmente, não interrompe a produção de histórias.” (A Perna Esquerda de Paris)

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1 Comentário »

  1. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

    Comentário por anisioluiz2008 — 01/10/2013 @ 9:10 | Responder


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