MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/09/2013

A FALTA DE AUDÁCIA DESSA MULHER: A história mal contada de “Infâmia”

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de setembro de 2013)

Quase um ano após o desagradável incidente do prêmio Jabuti, quando perdeu o páreo com uma inesperada nota zero de um jurado, Infâmia recebe o cobiçado Zaffari & Bourbon como o melhor romance do biênio 2011-2012, tornando-se a obra adulta mais prestigiada de Ana Maria Machado, feito inalcançado por suas experiências anteriores na área, Alice e Ulisses, A audácia dessa mulher, Tropical sol da liberdade.

O título se vale de uma palavra portentosa[1] e tem a ver com dois crimes morais: um se projeta no passado da família do embaixador aposentado Manuel Serafim Soares de Vilhena, e transcorre na esfera privada (um marido autoritário e violento, também diplomata, levara a filha do protagonista ao suicídio); o outro acontece no presente, a campanha de desmoralização do modesto funcionário público, Custódio Fialho Borges Filho, o qual fora a fonte de uma reportagem investigativa sobre corrupção, desvio de verbas e superfaturamento nas compras do seu departamento. A própria imprensa que utilizara suas informações começa a divulgar inverdades que o comprometem com o “esquema”, alvo de um desses corriqueiros escândalos que acompanhamos nos jornais e pela tevê. Sua vida é destruída.

Quer dizer, o marido que maltrata, humilha e denigre sua esposa por anos é protegido pelo protocolo que cerca o serviço diplomático, tudo é abafado e transcorre em sigilo; o burocrata escrupuloso é vítima de um “assassinato de caráter” executado pela exposição sensacionalista.

Ambas as esferas se entrelaçam uma vez que o filho de Custódio é fisioterapeuta de Vilhena.

Decerto não faltava material para uma obra no mínimo candente, para um painel na tradição de um Zola visando a hipocrisia e tortuosidade que presidem certos linchamentos (no sentido simbólcio) públicos, enquanto nos bastidores as tramoias prosseguem:

“Cada vez mais, percebia que nunca o engano estiveram tão à solta, jamais fora tão fácil o logro coletivo em tão larga escala. O contrário do famoso axioma: agora poucos enganavam a muitos durante o tempo todo. Bastava que o assunto ficasse pouco tempo em evidência. Era só substituir um embuste por outro, permanentemente, em revezamento contínuo. Pela repetição, garantia-se a aceitação do público, levado a crer que ninguém presta, que todo mundo é mesmo pilantra ou canalha, que em toda parte essas coisas acontecem desde que o mundo é mundo e não há o que se possa fazer. O efeito imediato era a sensação generalizada de que, nesse caso, é melhor se desligar. Afinal, não há quem consiga ficar vigilante, de orelha em pé, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Um programa eficiente de saturação emocional levando ao cansaço político e à anestesia moral. De quebra, ainda contribuía para a desmoralização da democracia, espalhando a convicção de que o Congresso não vale nada, o Judiciário não faz coisa alguma, não adianta ter leis, ou todo político não presta.”

No entanto, sem chegar ao radicalismo de Rodrigo Gurgel (o polêmico Jurado C)[2], é preciso reconhecer que o resultado é mediano e que Infâmia só está sendo incluído em listas de premiações porque, de repente, interessa vender a imagem de Ana Maria Machado como “grande dama da literatura” (de qualquer idade), na esteira da sua atuação como presidente da Academia Brasileira de Letras (operação que já se fizera anteriormente com Nélida Piñon).

A emenda ficou pior do que o soneto: o prêmio anunciado em Passo Fundo funcionou como um desagravo à nota zero e impôs ao leitor brasileiro não uma reparação merecida, e sim mais um capítulo de mistificação.

Mas, afinal, o que há de errado com Infâmia? Quase tudo, tirando a “estória”, a fábula. Pois o argumento, como o título, é muito promissor em sua indignação e questionamento moral contra as mazelas nacionais. Fica-se pasmo com uma autora dessa tarimba errando de forma tão flagrante na criação do “tom”, no foco narrativo (no início, Vilhena é um leitor “intruso” que se imiscui em passagens bíblicas de difamação e desmoralização, como as de José e da casta Susana[3]), tão postiço que ela nem se dá ao trabalho de mantê-lo[4], rapidamente recorrendo à narrativa simples, muito calcada em diálogos (de vez em quando ela sapeca alguma veleidade autoral, como a hilária 2ª. parte—intitulada “Intromissão”— nunca convencendo); aí, poder-se-ia dizer que o texto flui. Sim, e como!!?? Pois não há uma reflexão, uma discussão de ideias entre os personagens que não patinem na mais absoluta superficialidade e que não reproduzam o mero senso comum.

Destila-se, aliás, um tom didático que denuncia os macetes (totalmente impróprios, no caso) da prática como autora infanto-juvenil[5], e sempre se escolhe a solução mais fácil (como fazer as próprias personagens explicarem as implicações dos fatos para o leitor como a melhor amiga de Cecília, Madalena, num diálogo importante com a mãe dela, Ana Amélia Vilhena), atentando contra a complexidade que é vocação natural do gênero—de uma maneira quase infame.

Empilhando equívoco sobre equívoco, ela nos apresenta personagens que, por força do argumento, enfrentam cataclismos morais avassaladores e que, todavia, são a quintessência do desinteressante. Os dois protagonistas (Vilhena e Custódio) são anódinos e chatos, a mocinha (Camila) é uma boboca constrangedora[6], os rapazes (como Jorjão, o fisioterapeuta, e Luís Felipe, o filho de Cecília) praticamente só discursam. Todos parecem saídos de uma telenovela das 18 horas[7] e a caracterização anacrônica de Custódio e da sua família, “gente decente” parece fazer parte de um pacote maniqueísta digno dos folhetins televisivos (e que nos incitam à perversidade): são puros, bons, honestos, quem não ia querer que fossem cometidas maldades contra eles? Menos virtuosos, ganhariam mais como caracteres, e o impacto de sua desdita seria bem maior. Também Xavier, o marido de Cecília (que não aparece em cena) é descrito com requintes caricaturais de vilania da mais consumada subliteratura. Esta, por sinal, não poupa nem o estilo: temos passagens como “ela de vez em quando ainda exalava um soluço perdido”.

Em algum ponto do relato, o narrador menciona “o ângulo para contar estes acontecimentos”. Dando-nos, embaladinha e mastigadinha, a moral da sua fábula, o ângulo que faltou a essa mulher foi a audácia da imaginação[8]. Seu protagonista diz ao neto: “tenho a sensação de que tem muita história mal contada”. Infâmia é uma delas.

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TRECHO SELECIONADO

“Lera e relera, tentando descobrir o que não estava escrito, mas não chegara a perceber nada. Porém sabia que tinha. Porque o que estava escrito era uma mistura de mentiras, em cima de um punhadinho de coisas verdadeiras e inegáveis.

    Era verdade que o nome dele era esse. E que ele trabalhava lá no Instituto, onde tinha uma função de responsabilidade no controle do material. Era verdade também que ultimamente havia suspeitas de irregularidades nessa área—ele, por exemplo, suspeitava muito, tinha praticamente certeza de que a roubalheira estava comendo solta (…)

    Mas do jeito que estava tudo junto agora, num jornal para valer, desses que se vendem em banca e amigo da gente lê, até parecia que estavam desconfiando que ele fosse ladrão. Quer dizer, a notícia não dizia isso. Só estava escrito que nos últimos tempos seu nome tinha sido citado num possível envolvimento com irregularidades, que estariam sendo investigadas por uma comissão de sindicância interna (…) Em seguida, o jornal falava que havia indícios que levavam a fortes suspeitas de superfaturamento, compras sem licitação, notas frias. Tudo isso também era certo. Não podia negar (…) Ele mesmo levantara essa lebre e apontara os tais indícios. Tudo verdade.

    Mas na hora em que a notícia juntava aquilo, daquele jeito, as verdades viravam mentiras. A impressão que ficava era de que ele tinha a ver com o roubo, não com a vontade de apurar e impedir que as falcatruas continuassem.

    E se alguém achasse que aquilo podia ser verdade? Só de imaginar, tinha vergonha.

    Absurdo. Ninguém podia acreditar numa coisa daquela. Qualquer pessoa que o conhecesse sabia que era honesto, incapaz de uma tramoia, nunca na vida se metera em nada suspeito. Mas, e quem não o conhecia? Ou que, de repente, pudesse achar que pensava que o conhecia mas estava descobrindo que ele era um patife e salafrário? Mal conseguia imaginar essa possibilidade. Será que alguém podia achar uma coisa dessas? Será que ele mesmo já não tinha feito isso alguma vez na vida, lendo ou ouvindo alguma coisa sobre os outros, gente que nem conhecia, mas ele acreditara na acusação só porque estava no jornal?”

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[1] Tal como duas relativamente recentes (e excelentes) obras no gênero, Atonement (por aqui, Reparação) e Disgrace (Desonra), de Ian McEwan e J.M. Coetzee, que tiraram o maior partido das implicações das suas.

[2] Devo dizer que não posso concordar com a atribuição de uma nota zero a uma obra àquela altura, e independentemente de qualquer avaliação pontual, uma nota zero a uma autora com uma trajetória como a de Ana Maria Machado.

[3] Passando da 3ª. para a 1ª. pessoa, ela nos obriga a ler coisas do tipo:

“Gostaria de imaginar que nesse momento, eu, leitor, intruso no texto ao lado da mulher covardemente acusada, lhe dei um alento de esperança fazendo com que seu olhar perdido andasse a esmo, buscando algo em que se agarrar, e pousasse sobre um canteira dessas alvas flores no jardim. E que esse olhar cálido teria então agido sobre os lírios, fazendo-os exalar um perfume poderoso, que atingiu as narinas de um garoto que estava entre a multidão e a tudo assistia.

     Mas sou obrigado a confessar que o toque poético foi apenas invenção minha. A Bíblia não fala nisso.”!!!!???

[4] É por isso que  o tempo todo tive a impressão de estar lendo um arremedo de texto final, como se fosse o primeiro tratamento de um romance. Quem porventura tiver lido ou chegar a ler Infâmia notará como é mal aproveitada e inócua, do ponto de vista do rendimento ficcional, a evocação da campanha de difamação de Artur Bernardes (evocada por Villhena), com o fito de inviabilizar sua candidatura, através de cartas falsificadas, e de onde provavelmente veio o título (“Não adiantou nada o Clube Militar ter examinado as cartas e chegado à conclusão de que eram uma fraude e todo o episódio uma infâmia”).È meramente uma alusão a um fato histórico, e nada mais.

[5] As relações de permeabilidade e interpenetrabilidade entre a produção nas duas áreas (infanto-juvenil e adulta) de um autor não é problema, como podemos ver nos casos de João Anzanello Carrascoza e Maria Valéria Rezende.

O problema acontece quando no “melhor romance do biênio 2011-2012) lemos passagens como esta:

“—Desculpe, embaixador, mas em matéria de Condessa de Ségur, acho que estou mais para Sofia do que para Camila e Madalena (…)

__ A Sofia dos desastres?

__ Essa mesma. Muito mais divertida (…). E mais curiosa, mais disposta a aprender, a saber das coisas. Sofia não quer dizer conhecimento, sabedoria?”!!!??? Diga-se de passagem, a caracterização de Camila ao longo do romance e sua relação com o embaixador é mais apropriada a uma narrativa infanto-juvenil.

E as conversas dela com o namorado Edu (irmão de Jorjão)? Veja-se uma pérola de originalidade que ele solta:

“__ (…) Somos mesmo. Mestiços e tropicais. Basta sentir o calorão do trópico. E na precisa ninguém ter dúvida sobre isso de mestiço. Todo mundo no Brasil é mesmo misturadinho…” Para que leitor Ana Maria Machado estava escrevendo mesmo???!!

Outro exemplo de didatismo (quase proselitismo) mal colocado, munição gasta à toa: “…a frase definia bem a sensação que tinha quando mergulhava nos textos de ficção. Territórios de silêncio, ainda que tão eloquentes e feitos de palavras. Também palavras, palavras, palavras—outra citação, de novo lhe vindo à mente no mesmo dia, aliás, e essa ele sabia muito bem que era de Shakespeare. Mas ao contrário dos noticiários dos jornais, esses textos dos bons livros sempre tinham coisas novas para dizer, mesmo em sucessivas releituras. Não se esgotavam nunca.” 

[6] Contrariando suas afirmações quando entra em cena, Camila está mais para Polyana, porque a tonta  [que reedita o clichê da pessoa intelectual que de repente é arrastada para um mundo vitalista e menos racional; engraçado como esse fenômeno, já em si muito desgastado,  é encenado, em pleno século XXI, com uma clave machista, quando não fálica: é a relação com um homem que dá acesso a esse mundo “mais real” a uma mulher] se deslumbra e sofre uma reviravolta mental com as coisas mais óbvias: “…sabia que estava despertando para um universo riquíssimo de que não fazia ideia. Ficava achando que sabia coisas, só porque conhecia um pouco da literatura ocidental e tinha uma infinidade de referências sobre a tradição artística letrada. De repente, um clarinete que solava frente a um conjunto de violões, cavaquinho e bandolim lhe mostrava por quantas frestas a criação pode se esgueirar e se impor.”!!!!????

[7] A verdade é que muitas vezes o livro me lembrou Manoel Carlos, o autor que me fez desistir definitivamente de acompanhar telenovelas, tão exasperado eu ficava com suas tramas e personagens.

[8] Formulando melhor, a audácia de uma arquitetura romanesca apropriada e arrojada.

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