MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/09/2013

Destaque do Blog: A IDADE DAS CHUVAS, de André Ricardo Aguiar


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“Numa obscura era

de água

o riacho canta de dentro

da caixa torácica

das samambaias gigantes (…)

Casa, casa aberta

Para o orvalho branco

e a alvorada cor

de leite, doce à vista;

para o convívio franco

com lesma, traça,

camundongo

e mariposas grandes;

com uma parede para o mapa

ignorante do bolor

 

(…) alegra-te! Que em outra era

Tudo será diferente…”  (trechos de Canção do Tempo das Chuvas, Elizabeth Bishop[1])

“E é a mesma água que ainda sonha

os grandes oceanos” (versos finais de A Idade das Chuvas, André Ricardo Aguiar)

(escrito especialmente para o blog, em setembro de 2013)

“E o que sei são os dons primordiais/que não explicam, e é amor” (versos de Estudo Corporal). Como verificamos à nossa volta, há quem tenha um raciocínio lógico (ou matemático) entranhado, e é natural que isso acabe por moldar toda uma concepção da realidade. Também há diversos poetas no mundo (nem que seja por autoproclamação), uma parte deles com considerável talento. Mas, mesmo entre os verdadeiros poetas, André Ricardo Aguiar revela-se uma raridade: eu, pelo menos, poucas vezes vi uma inteligência lírica tão notável. Não, não se trata de aplicar a racionalidade ao poema ou equacionar engenho-engenharia no exercício do gênero. Já tivemos um espécime quase quimérico nesse sentido, João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

Trata-se, no tocante ao jovem escritor paraibano, de um lírico no mais intenso sentido da palavra, ainda que ele (como tantos na pós-modernidade) se valha da ironia, dos jogos com os significantes da palavra; ainda que tenha consciência aguda e crítica da linguagem e de suas crises[2]. Nos momentos mais plenos (e eles pululam) dos 73 poemas de A Idade das Chuvas, o leitor fica assombrado porque, com os meios mais comuns e corriqueiros do fazer poético, ao alcance de qualquer praticante fortuito ou dedicado —o  ritmo e as figuras de linguagens básicas (a metáfora, o símile, a metonímia)— Aguiar  consegue extrair imagens de cabal, quase aterradora, precisão, como se fosse um cirurgião operando na página, com um mínimo de recursos, e mesmo assim resgatando os momentos e percepções moribundos para a vida: “Anoto os recados que a carne irradia/ Não peço informações, não procuro a saída/ não creio que haja memória suficiente”.

Por falar em página, não há praticamente uma, nesse inspirado e invulgar A Idade das Chuvas, em que não encontremos esse momento “vivo” que descortina a exatidão quase inacreditável do lirismo do seu autor. A pólvora do instante. Mas, afinal, “o lume do poema” está aí para ruminar a escuridão. Uma bicicleta circula pelas ruas “até que uma esquina/engatilha o ciclista/ e dispara”.

O lume do poema engatilha os objetos, os seres e as palavras disparando significados que, por serem “líricos”, não são menos matematicamente (pelo menos, numa matemática insólita) definidos e definitivos: “este aquário tem um quê/de sonâmbulo noite adentro:/ os peixes varam as horas/ que não se pescam no tempo”. Se no dicionário, a palavra “entra nos teus brios/de represa”, ao ser manejada pelo dr. Aguiar, esse cirurgião de uma especialidade em que a perícia e a delicadeza têm que operar com os instrumentos do assombro tanto quanto com os desalinhos das contingências, vira, como o gato (o animal preciso-fugidio eleito pelo nosso poeta, e como podia ser diferente?[3]), “uma biblioteca esquiva de sinais”: “De relance/qualquer realidade/é um folhear/inquietante”. Ou então: “dá para vestir/um poema/se uma imagem/souber o caminho/mais curto/entre a coisa em si/e o dizer espantado”.

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Já me foi dito que resenhar livro de poema, costurando o texto com citações de versos esparsos, tal como estou fazendo, é um modo fácil e cômodo (quase como quem diz: preguiçoso), pouco revelador. Verdade seja dita, esta minha estratégia, neste caso específico, está mesmo fadada à inglória derrota, independentemente da validade ou não da reprimenda. Pois, embora seja também um supremo frasista, capaz de lewiscarrollmente (ou millôrmente) nos dar todo o encanto de manipular o senso comum (não constam de A Idade das Chuvas, mas servem de exemplo: “Não tenho medo de gastar meu latim. Já não é uma língua morta?”; Sempre que termino de ler um conto de fadas, ouço um farfalhar e um baque. Caiu mais um fruto de minha imaginação”)[4], é um pecado extrair versos lapidares de seus poemas, pois aqueles são o que há de mais vistoso na disciplina da inteligência poética extrema a que já aludi, de forma que  é um prazer ver toda a preparação, em seu ruminar de escuridão, para o ponto de lume: “reter da palavra/ (mel embebido)/o sonho do/engenho://refinar-se”.

Uma poesia que espacializa seres e afetos: “As coisas crescem, quintais/e respiram verdes ou maduras”. A “voz varanda” da amada, “quase um pátio de intenções”. Até a memória se objetifica em espaço, no caminho mesmo do seu processo: “nasce/como um casulo que nos observa/ a pele da memória”. Assim como a autopercepção, frente ao espelho: “latido de imagem/ no canil solto da manhã”. Pois é assim que somos, como ele também o é, uma “fábula de carne”, espaço-ser (ou não-ser) que se debate na transitoriedade: “vivo com o tempo/como quem inaugura/ uma sombra:// essa que me acompanha/até a morte”.

Não saberia dizer a quantidade de seres e coisas que são redefinidos pelo justo cálculo verbal de Aguiar[5] : fora os gatos (que ganharam alguns momentos magníficos),caracóis,peixes, pirilampos, pássaros, o cupim; não menos, os gestos do amor e os jogos de sensualidade (mesmo que a cama seja “uma ilusão de náutica”): “esse gosto de amor que me repete/dentro de ti, que te penetra”.

“Armazenei algo de mim/fora de mim”. Sim, o lirismo exato a nível quântico de “A Idade das Chuvas” mostra que tudo à nossa volta ainda está à espera de ser recodificado pelo poeta legítimo: “enquanto o mundo lá fora/sempre às vesperas/de ser novamente lido”.

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TRECHOS SELECIONADOS

 

PIRILAMPO

 

Usina tão leve,

breve susto da luz

 

ínfima clareira

de mil olhos

 

o pirilampo

nos funerais da noite

 

brinca de ser ou não ser

night and day

pálido prometeru

 

acesa ponta

de cigarro

que se esfuma

no breu.

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CÂNTICO DOS CÂNTICOS  Parte II

Amor só é exato quando

cego

 

quando erra, amor é mais

vênus que terra

 

quando não, só é exato

nada mais.

 


[1] Utilizo a tradução de Paulo Henriques Britto para Song for the Rainy Season, que consta da antologia O Iceberg Imaginário (2001).

O motivo de usar Bishop para a epígrafe é que em A Idade das Chuvas há um lindo Bilhete a Bishop:

Tudo soa como perda,

a mesa, esse poema,

uma cachaça,

um continente,

o alarido abstrato

dos quintais,

pétalas do calendário,

o amor

(esse outdoor silencioso)

runas e ruínas

o tempo cronometrado

do metrô,

as segundas exiladas,

os domingos

em ponto morto,

tudo soa e ressoa

melancolicamente

pequena luz para insetos:

 

a perda,

maçã sabendo

a paraíso perdido.

[2] “Vou ao dentista

como quem espera o poema

–e me doem as imagens.

 

Tento arrancá-lo

–enquanto misturo alicates

e metáforas.

 

Depois carrego uma dor

entredentes, do cansaço

sem flúor.

 

abstrato siso” (um dos meus favoritos no livro, Sala de Espera)

[3] “O gato

nunca é o gato

mas a ausência

domesticada”

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[4] De fato, meu primeiro conhecimento de André Ricardo Aguiar como autor foi através de suas “frases”, que fui colecionando ao longo dos meses. Mais alguns exemplos:

“Existe crime doméstico sim. O meu foi lavagem de dinheiro. Do bolso da calça jeans indo pra lavanderia.”

 “O leitor sempre é um voyeur autorizado. O autor, um exibicionista à mão.”

“A burocracia é um dinossauro que pede a você que assine em três vias de extinção.”

“Eu tenho hora marcada com o tempo livre. Mas descubro que ele já foi embora.”

“Resumo da ópera: a menor distância entre dois leitores ainda é um bom livro. (filosofia da traça)”

“Não tem espaço para rir em fotos 3×4. Elas parecem quitinetes.”

 “Poesia é uma janela em que a paisagem é que se debruça pra ver a gente.”

E este belo haicai?

“uma folha suicida

com requintes de outono

desarvora-se”

E até nos poemas, principalmente nos seus fechos (ah, os fechos de André Ricardo Aguiar, que admiráveis), sentimos essa feição frasista: “eu ando por linhas, torto” (verso final de Teologia); ou “Amar, às vezes, é pisar/em asas” (fecho de Gestos)

   O que me traz à pele da memória outro autor que conheci como frasista admirável, Diego Moraes, e que me surpreendeu com sua poesia vigorosa em A solidão é um deus bêbado dando ré num trator. No entanto, até nas frases de efeito (uso esse termo não no intuito de diminuir seu engenho e alcance), temos as diferenças gritantes: enquanto que as de Diego Moraes expressam seu lirismo a contrapelo, sua visão mais nelsonrodriguiana, com um certo romantismo desesperado, uma desilusão com os signos degradados da cultura e do cotidiano, André Ricardo Aguiar opera mais com o nonsense, a brincadeira paradoxal e desautomatizadora da linguagem usual, na linha de Millôr e Lewis Carroll.

VER aqui no blog: https://armonte.wordpress.com/2013/04/30/destaque-do-blog-a-solidao-e-um-deus-bebado-dando-re-num-trator-de-diego-moraes/

[5] “Deixo tudo e algo mais

dos noves fora” lemos em Legado, poema derradeiro de A Idade das Chuvas.

NOTA- A foto abaixo é de autoria de outro talentoso autor paraibano, Roberto Menezes, autor de palavras que devoram lágrimas:

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