MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/09/2013

O MILHAR AINDA NÃO SAIU: apontamentos sobre “As Miniaturas”, de Andréa del Fuego


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“__ Isso não é possível.

__ E se passou a ser?” (trecho de AS MINIATURAS)

A minha leitura de Os Malaquias foi bem conturbada. Depois de rejeitar brutalmente o romance de Andréa del Fuego, no primeiro impulso de leitura, acabei por me render ao encantamento de algumas de suas peculiaridades e achados.[1]

De certa forma, esse dobrar de cabo das tormentas ajudou a “amaciar” a estranheza, desassossego e descontentamento que poderia experimentar num contato cru, sem precedentes, com AS MINIATURAS, o segundo romance da autora paulista. Se o resultado ainda não me convenceu totalmente, se ainda acho que ela não deu o melhor de si, fiquei mais atento às qualidades (inegáveis) do que às características derrisórias e irritantes (na minha visão).

Alternando três narradores, o romance na verdade apresenta duas linhas narrativas: há os capítulos narrados pelo “oneiro” (funcionário de um edifício na praça da Sé, centro de São Paulo, chamado Midoro Filho[2]) e há os capítulos narrados por uma Mãe e os narrados por seu filho adolescente, Gilsinho. Ou seja, há uma linha literalmente “onírica”, embora narrada com aquela proverbial sobriedade realista a que Kafka nos acostumou em seus “contos de fada para dialéticos”, e uma linha que, na falta de um termo melhor, podemos chamar de “realista”. A meu ver, foi um erro de estratégia (embora seja um desses erros que dão inesperados frutos) ela ter mesclado as duas linhas. Seria muito melhor para a harmonia e equilíbrio de AS MINIATURAS que elas fossem independentes (em termos da estrutura, não das relações de sentido), ainda que no mesmo volume.

Antes de aprofundar esse ponto, é interessante situar melhor o meu leitor. Na linha narrativa do “oneiro”, o narrador trabalha da seguinte forma, como sói ocorrer em seu ofício: ele recebe a visita de um “sonhante” e estimula o estado onírico através de miniaturas (“As miniaturas no Edifício Midoro Filho têm tamanho-padrão, independentemente do que seja, de montanha a moeda…”) e frases relacionadas a ela. O problema é que ele, fora do regulamento, por um descuido administrativo (como em Kafka, procedimentos burocráticos e protocolos são tanto importantes quanto aleatórios e arbitrários), ele atende dois membros da mesma família, a Mãe e Gilsinho, e os dois o perturbam (“Com a mãe e o filho tenho vivido um tormento. Penso neles o tempo todo, confesso que fecho os olhos e ignoro quem está na sala, menos os dois. Sendo um a continuação do outro, tenho a mesma pessoa em desejos distintos. A mesma pessoa em dois territórios, um na juventude e a outra com medo da velhice. Eu trancaria essa mãe numa casa onde eu a visitaria, observaria cada ruga aprofundar-se, a pele afinar até entregar seu conteúdo à terra, a água escapar do vaso e secar-se ao sol”), de forma que ele acabará rebaixado, afastado de suas funções, transformado num “vidanta” (um ledor de sorte), e depois cada vez mais perceberá que está perto de ultrapassar a fronteira entre “oneiro” e “sonhante”[3].

Apresentando-nos uma técnica, ou seja, algo calcado em princípios fundamentados e seguros, cada vez mais o “oneiro” vai chafurdando num mundo de pressentimentos, de vestígios de verdade envolvidos em símbolos gratuitos e muito baseado na experiência e na “sorte”. Se no início, ele apresentava um orgulhoso ar de superioridade com relação ao “sonhante” (“A mãe me pediu os números premiados da próxima loteria, dou os números com uma técnica antiga, digo um número em alto e bom som, os demais em voz baixa, inaudível. A pessoa tem a sensação de que sonhou com toda a sequência de números e culpa a si por se lembrar apenas de um e não dos demais…”), depois de sua “degradação”, ele constata que: “Não há provas, apenas tendências, e tendências qualquer um tem…”.

Como se pode ver, pelo bosquejo acima, Andréa del Fuego, mesmo dentro da perigosa seara kafkiana, conseguiu imaginar algo inusitado, insólito no melhor sentido da palavra, mesmo porque esse edifício de sonhos se mantém dentro do espaço urbano degradado, e mesmo compartilha alguns de seus elementos[4] (é caracterizado como um arranha-céu, que por seu próprio gigantismo, permite a “desordem” mesmo dentro do ostensivo regramento):

“Em frente ao Edifício Midoro Filho dorme um casal, vejo daqui as pernas de um sobre o outro, mal anoitece eles tomam banho na fonte da praça que está desligada, com água velha. De vez em quando olham para cá, parece que vão falar comigo, mas, sendo o Edifício espelhado, estão é vendo se vai chover ou não pelo reflexo das nuvens. Gosto de olhar pela janela, ver as pessoas passando lá embaixo, cruzando a praça, entrando na catedral, outras fazendo xixi na grama, gente vendendo uma calça jeans que achou no lixo, zelador de prédio comendo milho cozido…”

Então, qual é o problema do leitor, que o do oneiro já conhecemos? É que não vejo muito bem a função que aquela mãe e aquele filho específicos cumprem nessa linha narrativa. Ela não precisava deles para conseguir o mesmo efeito, e a relação entre as duas esferas me parece muito postiça. Além disso, ela não conseguiu vivificar muito bem as tais miniaturas, que me parecem mais um gancho do que algo bem explorado no transcorrer da fabulação (talvez eu esteja sendo obtuso, mas li o romance duas vezes e para mim as referências às miniaturas pouco contribuíram para a história, permaneceram como um detalhe hipertrofiado pelo título). Tenho a impressão de que se ela nos contasse a história do “oneiro” sem a mãe e o filho (embora perturbado por “sonhantes”), apesar daquele trecho bonito que citei mais atrás, ela ficaria mais afiada. E como já acontecia em Os Malaquias, há uma quebra inexplicável do tom, em alguns momentos, que prejudicam o resultado textual. Por que um “oneiro” se exprimiria, de repente, da forma que se vê na seguinte passagem: “(…)vagabundo senta na minha frente com aquela cara de morto, se diverte com minha criatividade e disso nem se lembra. Claro, ninguém se lembra da mente e sim do conteúdo que ela produz…” ? “Vagabundo senta na minha frente”!!!??? Baixou um mano no oneiro, um bróder?

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Por outro lado, com alguns senões mínimos (implicância com o que eu acho escorregões de estilo), adorei a linha narrativa fora do Midoro Filho, com a mãe taxista quarentona e envelhecida, empurrando seu filho adolescente para um emprego que ele não quer (frentista num posto de gasolina), para o aproximar do amante (o pai deu no pé) casado. Acreditando na sorte, no jogo, ela tenta jogar com os elementos de sua vida, e o filho por sua vez tenta resistir ao desabono, à desordem, instituídos por essa tendência da mãe de achar que pode manipular o destino.

Como Andréa del Fuego explora bem a tensão entre os dois! Um momento particularmente expressivo pode servir de prova:

“Tenho estranhado o Gilsinho.Ele aceita tudo com tanta mansidão, mas alguma  coisa está deixando esse menino mais forte, ele faz o que peço, mas não é mais como antigamente. Ele temia minha voz, minha aproximação, ele está ficando superior. O corpo já poderia me surrar até a morte. Ele já poderia me abandonar por justa causa. Ele já podia ter percebido que sou confusa o suficiente para achar que um aborto  ainda é uma possibilidade. Eu o mataria no meio  de um descontrole, com um tiro certo, caída no cão depois de um telefonema como o que acabei de receber.

   Nelson me disse que fica com o garoto, mas não comigo. Que comigo nunca mais, que tem a criança e a mãe da criança que ele ama desde ontem. Meu filho não é um dado que ora eu coloco no tabuleiro ora guardo numa caixinha dentro do criado-mudo. Gilsinho veio me dizer que tem pensado muito no pai dele, que o emprego que eu arranjei é péssimo, que estudar à noite depois de estar entorpecido por gasolina não pode ser um projeto materno. Que tem ficado com dores de cabeça, que os comprimidos não dão conta e são muitos. Que tem demorado para dormir, está insone, que não lavará meu carro de graça só porque conheço o Nelson, que ele não é bobo. Diz isso tudo com uma calma perigosa. A superioridade da juventude misturada com a espera do velho da cadeira de balanço…”[5]

Conforme vamos acompanhando a “educação sentimental” de Gilsinho vemos que ele vai realmente criando uma oposição à mãe: “Minha mãe continuava do outro lado da avenida, com outro cigarro aceso. Um caminhão parou na frente e a perdi de vista. Quando saiu, ela secava o suor da testa com um pedaço de papel. Aquele plantão para saber se eu faria tudo certo ia nos levar à falência, o que eu ganharia no mês estava muito longe do potencial diário do táxi…”; ou ainda: “Ela foi murchando, ficando decepcionado com o fato de eu viver perfeitamente sem ela, que, aliás, me atrapalhava bastante.”

   No entanto, o lance verdadeiramente magistral aqui é a junção desse tema da sorte, da tentativa de decifrar os indícios do destino (através dos sonhos, principalmente), colocada em prática, por exemplo, no jogo do bicho[6], com a dinâmica familiar. É verdadeiramente admirável que ela consiga permear todas as relações pela economia, de tal forma que os empreendimentos econômicos vão tomando o caráter de um processo autofágico: as individualidades vão sendo limadas e vai aparecendo uma “sociedade”: a mãe, o filho (misto de frentista-fotógrafo-amante da mulher do ex-amante da mãe), Nelson (o amante), a mulher dele, a filha (caracterizada mais como filha de Gilsinho do que dele), Ademar, o pai que retorna. Eles exploram o táxi, abrem um carrinho de lanches no posto, a mulher de Nelson vai trabalhar na lojinha do posto, e então armam um ponto de jogo de bicho ali[7]:

“__ Teu filho faz falta no posto, tava pensando, não quer estacionar a Kombi no Jacaré?

    Ademar achou a proposta irrecusável, Gilsinho voltou a ser frentista e estudava à noite, os motoristas comiam ali mesmo no posto. A mulher do Nelson reclamou do lanche, disse que tinha muito sal na maionese (…) A mulher pediu ao Nelson que arrumasse um bico para ela na lojinha do Posto Jacaré. Ela sabia fazer bolo com cobertura, bolo de casamento (…) Em dois meses, ela estava atrás do balcão, com uniforme do Posto Jacaré…”

   Não que Gilsinho não resista a esse processo, mantendo-se cético: “A mulher do Nelson jogava toda semana e sempre no jacaré. Eu nunca joguei, não ia dar dinheiro para o meu pai…” Talvez porque ainda haja a possibilidade de seu destino ainda não estar totalmente codificado. Seu sonho ainda pode ser estimulado “fora do regulamento”. Enquanto isso, ele é um dos personagens mais interessantes da ficção brasileira recente.

O pé na realidade de Andréa del Fuego parece muito mais firme do que o seu pé no onírico. O que não deixa de ser surpreendente, já que ela parece jogar o grosso da suas apostas no bicho-quimera. Talvez por isso, ela não tenha ainda tirado o milhar, mas suas centenas e dezenas me parecem, a cada leitura,  entre exasperos, cada vez mais fascinantes.

(setembro de 2013)

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[1] O resultado pendular (e, no limite, um não-resultado, no sentido de “conta fechada”) dessa experiência pode ser constatado em:

https://armonte.wordpress.com/2013/09/08/procurando-o-angulo-do-encontro-com-os-malaquias/

[2] O nome é referência ao primeiro grande codificador da “interpretação dos sonhos”, Artemidoro de Daldis (cf. A Interpretação dos Sonhos, de Freud), como já indicado pela dedicatória do romance.

[3] As perplexidades individuais do narrador são espelhadas pelo desnorteamento coletivo que, a partir de certo momento, acomete o Midoro Filho. Em certo passo, lemos que “…O Edifício Midoro Filho tinha mais oneiros que sonhantes…”;  num outro momento, em que ele invade a sessão de um colega:

“O oneiro, um pouco atrapalhado, dirigiu a miniatura de elefante para mim, e não para o sonhante. Cruzei  meus braços.

__ Você é oneiro ou sonhante?”

[4] E essa ambiguidade da localização do edifício é bem explorada no final, quando Gilsinho vai trabalhar numa loja ali defronte; e numa sessão, já totalmente em estado de perturbação, o oneiro nos diz:

“A porta se abriu devagar, o filho entrou, sentou-se e tentou pôr as mãos sobre a mesa. Ele certamente teve o desejo de ser atendido por mim outra vez e voltou, fiquei comovido. Da mãe me livrei, mas não da herança e da vaidade em ser obsediado (…)me ocorreu uma sugestão melhor, sem miniatura que lhe desse estofo. Eu dividiria com o filho a minha dúvida.

__ Edifício Midoro Filho.” Ou seja, ele—contrariando a técnica—usa uma sugestão alheia a qualquer miniatura.

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[5] O trecho que eu sublinhei mostra aquilo que chamo “escorregões” no estilo da Andréa del Fuego, um certo truncamento da linguagem que não procede, a meu ver, e que se imiscui mesmo em momentos de força narrativa. Outro exemplo: “Ela foi embora para o quarto, corri para o banheiro, fiquei aliviando uma vontade que nem parecia minha de tão grande, tipo o coma da minha mãe…”.

Devo dizer também que muitas das “anedotas de táxi” do romance me pareceram muito postiças e mal alinhavadas.

[6] “Jogo do bicho funciona na base da visão, o povo sonha e vai jogar. Tem que interpretar, não é porque sonhou com um galo que o bicho da vez será o galo. Pode ser vaca, se ele estiver cantando numa fazenda, por exemplo. Deve ser por isso que é difícil acertar, o sonho não é o que aparece nele, ele é, só que com as coisas que a gene já tinha antes e isso se mistura. Por exemplo, a casa do meu sonho. Eu que inventei, mas casa é uma coisa que existe e vivo numa. As coisas se misturam.”

[7] “Antes que eu voltasse ao Posto Jacaré, avisei que só trabalharia no Centro e que, bobeasse, era melhor que eu estudasse direito para tentar uma cadeia menor quando fôssemos presos, meus pais estavam à vontade para sentar num pudim cuja bandeja tinha pregos. ..”

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