MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/09/2013

Contrariando os atestados de óbito do romance: A CASA DE PUCHKIN


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de novembro de 1998)

Um romance concluído em plena era soviética (1970), publicado no estrangeiro (1978), e somente anos depois (1987) no seu país de origem, durante a “glasnost”, tornou-se uma das traduções (realizada por Paulo Bezerra) mais fascinantes desse ano: A CASA DE PUCHKIN [Pushinskii dom], de Andrei Bitov.

Misturando ensaio e ficção e lembrando por vezes Milan Kundera, o romance de Bitov, ao ser publicado agora no Brasil, entra em curiosa confluência com outra tradução de 1998 (aliás, um livro esplêndido), Um Campo Vasto (“Ein weites Feld), de Günter Grass. Em ambos há um “passeio” pelos bosques da tradição literária dos seus países.

Um Campo Vasto utiliza a figura do escritor Theodor Fontane (1819-1898) para armar um contraste alegórico com seu protagonista, que vivencia a unificação das duas Alemanhas. A CASA DE PUCHKIN utiliza igualmente uma grande figura literária do século XIX (bem mais ilustre, aliás, na cultura ocidental), Aleksandr Puchkin (1799-1837)[1]. O protagonista, Liova, trabalha no Instituto que dá título ao livro e escreveu ensaios sobre o “fundador” da literatura russa. Além disso, as partes que compõem o livro remetem a clássicos russos. É mesmo um romance-museu, como afirma o narrador. Mas nada tem de estático ou morto. Revitaliza uma das fórmulas mais utilizadas em nosso século e que já parecia exaurida: a metalinguagem, o narrador discutindo com o leitor seu processo narrativo.

Liova tem problemas com o pai e cultua as figuras do tio e do avô (os quais passaram longos anos na prisão); fica adulto e sua relação com a escorregadia Faína é de amor-ciúme-ódio (isso dá margem a magníficas descrições de sentimentos, que fazem de Bitov um companheiro de Proust e Nabokov, além do já citado Kundera); outra relação, dessa vez de fascínio-repulsa, é com um ex-colega de infância, Mitichatiev, que está sempre reaparecendo na sua vida (algumas vezes os dois me lembraram Stephen Dedalus e Buck Mulligan, de Ulisses, de James Joyce, com Mitichatiev sempre tendo despertar o pior em Liova).

Em cada um desses passos, o narrador vai equacionando as possibilidades de criar um “herói” que possa ter uma sobrevida ao narrado: “O tempo presente é forçosamente a morte do herói, daí serem tão oportunos os finais trágicos. O que está à espera do herói depois de sua morte não reconhecida como morte?” (será que ele também não está se referindo ao mundo soviético, que sobreviveu à morte dos seus ideais primeiros?).

Pois o romance tem que acabar uma  hora. Tem? “Sentimos perante o herói certa culpa que nos obriga a adiar o romance para que amadureçam um final e mais outro, que mais uma vez não nos irão satisfazer”. É por isso que cada momento pode trazer sua variante, uma outra possibilidade, seu avesso, sua negação, assim como a vida real não é monolítica e linear, e sim uma eterna descontinuidade. Como se diz na própria narrativa, “no mundo fragmentado o homem entra em cada fragmento como no mundo inteiro”.

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Há um perigo sério nessa experiência de abrir várias portas dentro do romance: a tautologia, a repetição incessante das mesmas coisas. Bitov não chega a escapar disso e algumas vezes o livro oscila na prolixidade tautológica e quase aderna no blá blá blá. Felizmente, na história do “herói” Liova, cuja vida ilustra a máxima “a princípio tudo foi destino, agora é castigo”, essa oscilação acaba contando pouco diante da inteligência e brilhantismo do conjunto que, em contrapartida, ostenta algumas das páginas mais admiráveis da ficção das últimas décadas, mesmo pedindo a contribuição de toda a literatura russa (e um pouco das outras também, Alexandre Dumas que o diga).

“Liova era atraído pelo ´povo´ como um menino de família nobre pelos quartos dos criados. Ele tinha um amigo, Micha, um filho de zelador, atrasado nos estudos. Liova o ajudava nas aulas e gostava de tomar sopa na casa dele. Essa sopa se distinguia! No apartamento de Liova, onde havia de tudo e tudo estava sempre no lugar, onde coisas como travesseiros, lençóis, garfos, colheres e pratos nunca se  compravam (já adulto, quando um colega de classe recém-casado o arrastou para um supermercado e ele presenciou um pouco a ´montagem de uma casa´ficou surpreso ao sabem que alguém não tinha tais coisas e que elas se vendiam e se compravam), pois bem, no apartamento de Liova as sopas não tinham o mesmo sabor nem o mesmo cheiro. Liova vivera a sua vida nesse mundo remendado, esgarçado a ferro, e sua lembrança da ´outra´ sopa permaneceu para sempre. Ele não conseguira definir com precisão em que consistia esse gostinho, mas consistia de tudo: das palavras que em sua família não se pronunciavam, daquela vida tempestuosa e cheia de volúpia com as saias do uso comum: recompor travesseiros, pôr colchões para tomar sol, bater passadeiras…”

Fragmento que permite a sensação de acesso integral a um mundo que se fragmenta, A CASA DE PUCHKIN prova que o romance continua vivo, apesar dos atestados  de óbito frequentes, dando mostras de sua vitalidade em todos os lugares.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/03/um-campo-vasto-a-implacavel-visao-de-gunter-grass-da-unificacao-das-alemanhas


[1] Cujo nome sempre vejo grafado com s (Pushkin), ao contrário do título brasileiro do romance de Bitov.

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