MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/09/2013

PSICOSE, de Robert Bloch: O sensacionalismo se foi, ficou o romance sensacional


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“O mais importante era isso. Tinha de parar de falar sozinho. Tinha de se sentir calmo de novo. Tinha de encarar a realidade.

    E que realidade era essa?

    Uma moça morta. A moça que sua mãe matara. Não era uma bela cena, nem uma ideia alegre, mas lá estava.” (trecho de Psicose)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de setembro de 2013)

Recentemente foram exibidos, quase ao mesmo tempo, Hitchcock e A Garota, que têm em comum o recorte temporal: o início dos anos 1960, momento em que o mais famoso dos diretores radicalizava suas neuroses pessoais (em especial, com relação a suas estrelas) e, mesmo consagrado pelas bilheterias e por realizações anteriores, criava obras como Psicose (cuja produção é focalizada em Hitchcock) e Os Pássaros (que completa meio século em 2013, e que é o pano de fundo de A Garota)[1]. Além de complexas, radicais e inovadoras, incorporaram-se ao imaginário coletivo e se tornaram fonte de referência, citação, pastiche e infinitas releituras[2].

Para os leitores brasileiros, a consequência mais interessante trazida pelas duas produções cinematográficas foi a reedição, após décadas, de Psicose (Psycho, 1959, em tradução de Anabela Paiva[3]), permitindo averiguar se ele foi apenas o material original para uma obra-prima das telas ou se, embora eclipsado pelo filme, o romance de Robert Bloch (1917-1994) pode ser apreciado independentemente dele.

Pode. Mesmo que não existisse o Norman Bates hitchcockiano, encarnado por Anthony Perkins, a história (inspirada num assassino interiorano, preso dois anos antes da publicação, Ed Geins) impressionaria pela força narrativa e pelo desafio à imaginação (àquela altura, esse tipo de crime ainda não havia sido explorado à exaustão, é preciso lembrar): “ele era só um dono de motel, gordo e de meia-idade, que piscava diante do casal que entrara e perguntava: Posso ajudar? Sim, o Norman literário é gorducho, quarentão e gosta demais de álcool, mas talvez a diferença mais evidente com relação a sua avassaladora adaptação seja que, enquanto nesta todo o primeiro terço é muito calcado na personagem de Janet Leigh (no livro, Mary; no filme, Marion), de forma a tornar mais intenso o impacto da sua morte (quem não conhece a cena do chuveiro?[4]), Bloch inicia a história apresentando-nos a peculiar relação de Norman com sua mãe, ainda numa atmosfera de “conflitos humanos entre quatro paredes”, tão comum em certa ficção e dramaturgia dos EUA, quando então aparece no Motel Bates a “intrusa” que fará efervescer aquela situação estagnada.

De resto, em linhas gerais o roteiro segue fielmente o desenrolar da trama, e observa-se a mesma divisão em três atos (não sinalizados, mas nítidos), dos quais o primeiro vai até a morte e desova da hóspede no motel ermo; depois, aparecem três outros personagens: Sam Loomis, Lila, o noivo e a irmã de Mary, e o investigador Arbogast, cujo faro de sabugo o leva fatidicamente ao estabelecimento dos Bates; e, por fim, na última parte, Sam e Lila entrando em ação e levando ao desmascaramento da “psicose” de Norman, sua simbiose psíquica com a mãe.

Salta aos olhos que o primeiro ato é o mais forte. Tanto no livro quanto no filme, o maior desafio foi enfrentar o risco de anticlímax do que virá depois da morte no chuveiro (que acontece no 3º capítulo – ao todo, são 17) e do seu ocultamento no pântano em torno da propriedade Bates—motel, casarão e paisagem formando um cenário sinistro de solidão e recalque que deve ter marcado toda uma geração[5].

O mais interessante da 2ª. parte (pelo menos, no livro) é a caracterização de Sam Loomis, cuja vida é o espelhamento “normal” da de Norman, já que ele também é o indivíduo cheio de imaginação e sensibilidade, atado a uma vida sem horizontes, e sem coragem para abandoná-la. E ele também terá a “intrusa” a espicaçá-lo (Lila)[6]. Embora a cena mais chamativa seja a do assassinato de Arbogast (um ponto alto da narração, e no cinema um marco dos efeitos visuais[7]), seu arremate é a revelação de que a mãe de Bates está morta.

E a 3ª. parte, bem mais do que a do filme, vai se escorar nesse roçar do sobrenatural (não se pode esquecer de que o final era uma surpresa). Felizmente, Bloch não força a mão nesse caminho, sempre é muito inteligente nos seus “truques”[8], e seu livro me parece hoje, com suas situações para lá de conhecidas e manjadas, um legítimo elo perdido na confluência de duas tradições muito distintas e significativas—a da imaginação gótica e horripilante de um Poe e de um Lovecraft e a da caracterização do desespero dos habitantes das “cidades médias” do interior, cujo paradigma é a obra de Sinclair Lewis (Babbitt) ou os conto de O. Henry, e, posteriormente, a exploração realista do lado mais apavorante desses nichos geográficos, como A Sangue Frio, de Truman Capote, ou A Canção do Carrasco, de Norman Mailer.

Confrontado com todos eles, Bloch ainda se sai muito bem. Com o tempo, Psicose perdeu seus atributos sensacionalistas e se revela ao leitor de agora um romance sensacional.

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TRECHOS SELECIONADOS:

I

“Norman não gostava de se barbear por causa do espelho. Havia linhas curvas nele. Todos os espelhos pareciam ter ondas que ferem sua vista.

  Talvez o problema fossem os seus olhos. Sim, era isso, pois ele lembrava de se olhar no espelho quando menino. Gostava de ficar em frente do espelho, sem roupas. Certa vez a Mãe o surpreendeu e deu-lhe uma pancada na cabeça com a grande escova de cabelo, de cabo de prata. Ela bateu com força, e doeu. A Mãe lhe disse que aquilo era muito feio, olhar-se daquela maneira (…)

    E a Mãe tinha razão. Era indecente ficar se olhando, nu e desprotegido; espiar a banha, os braços curtos e sem pelos, a barriga grande e, logo abaixo…”

II

“Claro, o tempo é relativo. Einstein disse isso, e ele na fora o primeiro a descobrir—os antigos também sabiam, assim como alguns místicos modernos, como Aleister Crowley e Ouspensky. Tinha lido todos, tinha até alguns livros deles. A Mãe não aprovava; dizia que essas coisas eram contrárias à religião. Mas esse não era o verdadeiro motivo. Era porque, quando ele lia esses livros, não era mais o filhinho dela. Era um adulto, um homem que estudava os segredos do tempo e do espaço, e sabia os segredos da dimensão e da existência.

   Era como se fosse duas pessoas, na verdade—a criança e o adulto. Quando pensava na Mãe, ele voltava a ser criança, usava vocabulário de criança, referências e reações infantis. Mas quando estava sozinho, não; em verdade, não sozinho, mas afundado em um livro, era um indivíduo maduro. Maduro o suficiente para compreender que talvez fosse vítima de uma forma leve de esquizofrenia, ou provavelmente uma neurose na fronteira dela.

   Com certeza a situação não era das mais saudáveis. Ser o Filhinho da Mamãe tinha seus inconvenientes. Por outro lado, enquanto percebesse os perigos, ele poderia lidar com eles e com a Mãe. Sorte dela ele saber quando ser homem…”[9]

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[1] Comparando os dois filmes, vemos que mais uma vez, como fez com relação ao Truman Capote de Philip Seymour Hoffman, o grande Toby Jones representou Hitchcock de maneira muito superior à caricatura produzida por Anthony Hopkins.

Um detalhe curioso: Hitchcock se baseia no livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, de Stephen Rebello, que li na edição brasileira da Autêntica (traduzido por Rogério Durst); e há ali também se encontra bastante material para o que é contado em A garota; no entanto, não há quase nenhuma participação de madame Hitchcock, tal como foi realçado na versão cinematográfica (permitindo, aliás, que Helen Mirren até concorresse a prêmios por sua interpretação).

Está longe de ser um grande livro, mas é uma leitura gostosa de se fazer.

[2] Nessa época, na passagem entre décadas, alguns dos maiores diretores resolveram fazer uma espécie de operação “back to basic”, utilizando alguns elementos fundadores da estética cinematográfica (entre eles, o preto e o branco) em obras de grande maturidade e maestria: Orson Welles, com A marca da maldade; John Huston, com Freud; John Ford, com O homem que matou o facínora; e, claro, Hitchcock, com Psicose.

[3] A DarkSide Books oferece duas edições: a que eu li, em capa dura, muito bacana; outra, em brochura.

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[4] Que, literariamente, é narrada da seguinte forma:

     “Não podia ouvir nada além do barulho da água, e o banheiro começou a se encher de vapor.

     Foi por isso que não percebeu a porta abrir, nem o som de passos. Logo as cortinas do chuveiro se abriram, o vapor obscureceu o rosto.

     Então ela viu—um rosto, espiando entre as cortinas, flutuando como uma máscara. Um lenço escondia os cabelos e os olhos vidrados a observavam, inumanos. Mas não era uma máscara, não podia ser. Uma camada de pó dava à pele uma brancura de cadáver; havia duas manchas de ruge nas maçãs do rosto. Não era uma máscara. Era o rosto de uma velha louca.

   Mary começou a gritar. A cortina se abriu mais e uma mão apareceu, empunhando uma faca de açougueiro. E foi a faca que, no momento seguinte, cortou o seu grito.

    E a sua cabeça.”

[5] Já a partir da casa, Bloch parece fazer o leitor penetrar numa espécie de espaço tomado por uma espécie de permanência mórbida. Quando Mary vai à casa dos Bates: “…deu uma espiada pela janela da sala. Quase não acreditou no que viu; não imaginava que lugares assim ainda existissem nos dias de hoje. Geralmente, mesmo uma casa velha exibe alguns indícios de reforma e melhorias. Mas a sala de visitas diante dela jamais fora modernizada. O papel florido das paredes, os pesados ornamentos em mogno, o tapete vermelho, as cadeiras de altos espaldares e exageradamente estofadas, e a lareira encimada por painéis pareciam estar lá desde a virada do século. Não havia sequer uma televisão para inserir uma nota dissonante na cena; em compensação, reparou que em uma das mesinhas havia um velho gramofone…”

[6] Quando eles se conhecem, ele está ouvindo Impressões Brasileiras, de Ottorino Respighi, no fundo de sua loja de ferragens, e ela pensa tratar-se uma composição de Villa-Lobos. Ele sofre um choque com a semelhança dela com Mary, choque que depois será sentido por Norman, quando os dois aparecerem no motel.

Com relação a ter mais imaginação e aspirações (um tanto patéticas) do que o meio permite, veja-se Norman: “O álcool ajudava. Ajudava a ficar pacientemente detrás do balcão, aguardando que entrassem. Podia ver os dois conversando fora do escritório, e aquilo não o incomodava. Podia ver as nuvens escuras chegando do oeste, mas isso também não o aborrecia. Ele via o céu escurecer e o esplendor do sol se render. O esplendor do sol se render… Ora, isso era poesia; ele era um poeta. Norman sorriu. Ele era muitas coisas. Se eles soubessem…”

[7] “…ela não o ouvia, ela estava no banheiro, estava se vestindo, estava se maquiando, estava se aprontando. Estava se aprontando.

E de repente deslizou para fora, usando um vestido bonito de babados. Pó de arroz e ruge no rosto, bonita como um quadro, e sorria ao começar a descer a escada.

    A meio caminho, bateram à porta.

   Estava acontecendo. O senhor Arbogast estava ali; Norman quis gritar e avisá-lo, mas havia qualquer coisa fechando-lhe a garganta. Só pode ouvir a Mãe respondendo, alegremente: Já vou! Já vou! Um momento!

    E foi mesmo um momento.

    A Mãe abriu a porta e o senhor Arbogast entrou. Olhou para ela e abriu a boca para dizer alguma coisa. E, ao fazer isso, ergueu a cabeça, e era só o que a Mãe esperava. Seu braço se esticou, alguma coisa brilhante lampejou para frente e para trás, para a frente e para trás…

    Aquilo doía nos olhos de Norman e ele não queria olhar. Ele não precisava mesmo olhar, porque já sabia.

      A Mãe tinha encontrado a sua navalha…”

Como os dois assassinatos ocorrem num sábado, eu pensei em intitular, a princípio, esse meu texto de “Os animados sábados do Motel Bates”.

[8] Com uma exceção. Acho deplorável, quando Lila bate o pé e resolve ir até o Motel Bates, que ele tenha acrescentado, de forma tão apelativa, o seguinte: “Ergueu o rosto em desafio e a sombra afiada rasgou o seu pescoço. Por um momento, pareceu que alguém tinha decepado a sua cabeça…”

[9][9] Ao ser pressionado por Arbogast, por conta dos 40 mil dólares que Mary roubou: “Seu coração batia como naquela noite, agora era como naquela noite—nada mudara. Não importava o que fizesse, não podia fugir disso. Nem tentando se comportar como bom menino, nem tentando se comportar como adulto. Não adiantava, porque ele era o que era, e isso não bastava.”

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