MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/08/2013

O ESPELHO VAZIO: a “sifilização” vienense dos Habsburgs

photo credit: Kelly Yuen

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“De repente, veio das ruas um alvoroço. Um garoto estava vendendo o que parecia ser uma edição especial do Neue Freie Presse, e os transeuntes arrancavam os jornais de sua mão, assim que ele conseguia tirar outros da sacola, pendurada no ombro. O garçom falou com uma pessoa que havia acabado de conseguir um jornal. Werthen viu os ombros do rapaz caírem, como se atingido por um golpe forte. Ele levou a mão até o rosto, murmurando:

__ Não pode ser.

__ Karl—disse Berthe, agarrando sua mão.—Será a guerra?

    Werthen chamou o garçom, que veio até a mesa deles.

__ Desculpe, perdoe a emoção. Hoje é um dia terrível.

__ O que foi?—perguntou o advogado.

__ Nossa imperatriz morreu. Assassinada em Genebra!”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de agosto de 2013)

Dentro da ficção policial, um dos filões mais bem-explorados nos últimos tempos é aquele que usa figuras históricas enredadas em crimes. Entre seus praticantes destacam-se Jed Rubenfeld (tramas envolvendo Freud) e J. Sydney Jones, de cuja série Viennese Mysteries acaba de ser lançado no exterior o quarto título (The Keeper of Hands). O leitor brasileiro, por enquanto, terá de se contentar com a recente tradução de O Espelho Vazio [The Empty Mirror, 2009, realizada por Ricardo Gomes Quintana].

O romance de estreia de Jones é ambientado no império austro-húngaro (já com sinais de declínio, nos derradeiros anos do século XIX), centro da “sifilização” européia —não é mero chiste: há uma seita que congrega centenas de aristocratas e poderosos, cujo caráter foi se distorcendo em razão dos efeitos mais severos da sífilis, e que pode estar por trás das atrocidades cometidas ao longo da narrativa. O protagonista, advokat Karl Werthen, intromete-se na investigação de chocantes assassinatos nos quais os cadáveres são desovados num dos cartões-postais de Viena, o Prater, porque um cliente, o grande pintor Gustave Klimt, é preso como suspeito (uma das vítimas era modelo sua). Pede a colaboração do teórico pioneiro da ciência criminalística, numa época em que os métodos policiais ainda eram toscos: Hanns Gross, famoso também como o pai do psicanalista Otto Gross, figura lateral, mas de considerável importância nas biografias de Freud e Jung (de quem foi paciente).

Werthen & Gross (cujas personalidades contrastantes, como é de praxe nesse tipo de associação heróica, são exploradas primorosamente por Jones) conseguem inocentar Klimt e descobrem o assassino. Entretanto, indícios de que tudo —incluindo a identidade do criminoso— fora encenado para encobrir uma conspiração palaciana para a qual foi necessária a eliminação preliminar do príncipe-herdeiro Rodolfo, anos antes e, logo a seguir à onda de crimes, a da imperatriz Sissi (execuções disfarçadas como suicídio e atentado realizado por um anarquista meio desequilibrado), fazem com que a dupla enfrente a feroz burocracia habsburguiana e o descrédito geral quanto a suas teorias, para amarrar todos os fios[1]. Dessa forma, o judeu de família assimilada Werthen (com todos os elementos de tensão que tal condição acarreta numa sociedade onde o antissemitismo está sempre prestes a aflorar[2]) se volta para a sua vocação inicial, a advocacia criminal, que preterira para seguir a mais cômoda e vantajosa financeiramente seara dos espólios e heranças.

Ao se enfronhar nas questões sexuais (além da onipresente sífilis, o “suspeito” Klimt escandalizara Viena com um nu, no qual se encontra o espelho-referência para o título[3]), legais e políticas do império que representa a quintessência de uma certa Europa ainda presente no inconsciente coletivo (foi dela que veio Hitler)[4], o autor de O Espelho Vazio se mantém bem fiel à tradição de Conan Doyle (que, no livro, desperta a ira de Gross, de quem usurpara os métodos sherloquianos[5]), o qual explorava menos o mistério (quem matou?) em suas histórias do que a argúcia e tenacidade do seu detetive contra um adversário oculto na “sombra”, com um poder subterrâneo, disseminado por várias esferas, das autoridades “legítimas” às do submundo. Não é à toa que Viena também sempre foi famosa por seus esgotos labirínticos.

De fato, um dos encantos do romance é o aproveitamento do espaço urbano vienense (embora parte da narrativa transcorra em outros lugares, principalmente quando Werthen & Gross investigam a morte de Sissi em Genebra, e lá sofrem um atentado). Literalmente acompanhamos os personagens pelos mais diversos logradouros de uma metrópole avançada e paradoxalmente tacanha, e sempre de uma forma muito vívida, natural:

“Werthen  era um estudioso das hipocrisias da Viena de fins do século XIX. O desenho dos prédios da Ringstrasse informavam, em particular, suas pequenas histórias, fornecendo uma introdução que falava de impostura e artifício.Essas novas edificações, falsas, tinham todas uma aparência que simbolizava sua função: uma ópera neorrenascentista como o centro das artes; um parlamento neoclássico que era uma tirada de chapéu para a arquitetura grega e a casa da democracia; o Rathaus neogótico, símbolo da riqueza da burguesia. Ali, à sua frente, estava o Burgtheater, com o auditório em forma de lira, que pretendia evocar as origens gregas da dramaturgia. Os vienenses eram ótimos com símbolos.

    O Burgthater era uma das monstruosidades mais clamorosas do Ring, pensava Werthen. Instalado havia 16 anos no prédio, com uma expansão de custos contínua, que ultrapassara em muito a estimativa inicial, o Burgtheater ou Teatro da Corte—com pinturas decorativas no teto, feitas por Klimt, entre outros—fora inaugurado em 1888, com grande fanfarra e quatro mil lâmpadas elétricas iluminando a fachada. Mesmo hoje, dez anos depois, a rede elétrica da cidade ainda tinha um longo caminho a percorrer. A noite continuava a ser iluminada a gás, ao contrário de outras capitais européias, onde a eletricidade estava se tornando o padrão rapidamente…”

Parece-me que boa parte do enredo foi idealizado para permitir esse ir-e-vir dos personagens por uma topografia muito amada pelo autor.

É de se lamentar que a versão brasileira não acompanhe esse cuidado, inclusive pela sempre irritante barafunda dos nomes próprios dos vultos históricos. Ainda assim, a leitura deixa com água na boca para os futuros mistérios vienenses de Mr. Jones.

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[1] Jones narra as pompas fúnebres para a célebre”imperatriz viajante” (também vítima da sífilis), numa cena em que há a participação de Mark Twain: “…Rodolfo não cometeu suicídio nove anos atrás, mas foi assassinado por gente próxima do poder, que não tinha nenhuma admiração por seus modos liberais ou por suas ideias pró-magiares. Eu tenho a impressão de que estão dizendo a mesma coisa sobre sua pobre mãe, que também tendia a romantizar os húngaros…”

[2] De fato, a primeira teoria para a motivação por trás dos crimes era baseada na tradicional suspeita de sacrifícios humanos em rituais judaicos.

[3] “Werthen lembrou-se de que a coisinha núbil, doce e jovem que Klimt retratara na capa da revista da Secessão [movimento de protesto dos artistas da época contra as normas tradicionais]escandalizara o conservadorismo vienense. A garota/mulher aparecia completamente nua e aparentava não estar nem um pouco preocupada com isso. Tranças longas cobriam parcialmente os seios, e ela segurava um espelho com a mão direita. Werthen apreciara em especial o simbolismo daquele espelho vazio. O que o homem moderno veria nele, a luz incandescente da verdade ou um mero reflexo de sua vaidade tola?”

[4] “O imperador anulava continuamente a vontade do parlamento, governando pela brecha aberta pelo Parágrafo 14 da Constituição, que permitia o controle por decretos de emergência. O sufrágio masculino universal—e menos ainda o voto feminino—ainda estava longe. Aquelas audiências, duas vezes por semana, era o mais próximo da democracia a que o velho imperador se dava ao trabalho de chegar. Esses encontros individuais, Angesicht zu Angesicht sehen, ou cara a cara, como eram chamados, duravam apenas  alguns minutos, na melhor das hipóteses. Tempo suficiente para algumas palavras ensaiadas, mas elas serviam como válvula de escape para o povo. Afinal de contas, que necessidade tinham eles de um parlamento operante quando podiam falar com o imperador em pessoa toda vez que desejavam.

    O burocrata mais famoso da Europa, Francisco José supervisionava pessoalmente o funcionamento de seu vasto império…”

[5] “__ Doyle. Eu acho que é esse o nome do indivíduo. Escreve sobre os incidentes mais fantásticos, mas insiste em usar meus métodos para o personagem principal, esse tal de Holmes (…) Ele obviamente leu meus primeiros artigos para investigadores criminais. Tornou-me objeto de zombaria entre meus colegas de profissão. Como se fosse eu que estivesse surrupiando as técnicas do grande Sherlock Holmes, e não o contrário…”

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03/08/2013

LEITURA EM ESPELHO: “O enigmista”, de Ian Rankin, e “Prelúdio para a morte”, de Val McDermid

20 de fevereiro de 2010- INTRODUÇÃO GERAL

Ian Rankin (nascido em 1960) e Val McDermid (nascida em 1955) são, ambos, autores escoceses especializados em romances policiais densos e climáticosm e os quais, salvo engano, começaram suas carreiras no mesmo ano (1987).

Nesta última semana, li de Rankin The falls (2000), que no Brasil ganhou o belo título O ENIGMISTA, e de McDermid The grave tattoo (2006), o qual foi rebatizado como PRELÚDIO PARA A MORTE (parece apelativo, contudo tem a sua razão de ser, como veremos). Dois livros que concentram o charme e a atração da ficção policial. E ambos têm um pé na erudição, ainda que de maneira leve e hábil, apoveitando fatos (que se tornaram meio lendários) do passado das regiões onde transcorrem: em Rankin, a descoberta de pequenos caixões em Arthur´s Seat, em 1800 e tantos, que poderiam estar associados aos chamados “ressuscitadores”, ladrões de corpos (tais como aqueles da história de Stevenson, o maior dos autores escoceses); em McDermid, a descoberta de um corpo preservado na turfa,  no Lake District inglês, o qual  poderia ser o do líder do motim do Bounty, aquele mesmo que originou pelo menos três superproduções (a mais famosa, a dos anos 30 com Clark Gable e Charles Laughton; depois, uma versão sofrível, com Marlon Brando no auge do seu desinteresse, nos anos 60; e enfim, uma versão mais realista, e mais chata, com Mel Gibson e Anthony Hopkins), e que agora ganha uma explicação que dá relevo à questão homossexual, ao desejo do capitão do navio, Bligh,  pelo amotinado Fletcher Christian; tal descoberta tem a ver com os indícios que começam a aparecer de que, voltando clandestinamente dos Mares do Sul (onde supostamente fora morto por uma revolta dos nativos), Christian contara suas vicissitudes ao poeta-mor do romantismo inglês (e ser quase que unanimamente considerado assim é um feito e tanto, se pensarmos em Byron, Keats, Blake e sobretudo em Coleridge e Shelley), William Wordsworth, que teria escrito um poema épico sobre a questão, desaparecido desde então.

Anotações sobre O ENIGMISTA

“Talvez Stevenson tivesse razão.

     Sobre o quê?

     Ele chamava Edimburgo de cidade abissal. Talvez a vertigem esteja na natureza deste lugar”.

Para quem gosta dos seriados policiais ingleses (é o meu caso), muitos deles centrados em equipes de investigadores, como “Dalziel & Pascoe”, “Silent Witness” (com a grande Amanda Burton), as legendárias temporadas de “Prime Suspect” (um dos maiores momentos de Helen Mirren), o apaixonante  “Wire in the blood” (que foi criado a partir de livros de Val McDermid, responsável portanto por Tony Hill, um dos meus personagens favoritos da cena atual, tanto convivendo– nas primeiras três temporadas–na cidade imaginária de Bradfield, com Carol Jordan, e nas temporadas subseqüentes com  Alex Fielding,  uma guinada que foi meio traumática para os aficionados da série, mas que se revelou bem-sucedida, graças à intérprete: Hermione Norris era ótima como Jordan, porém  Simone Lahbib não ficou atrás como Fielding, e o que dizer do excepcional e carismático Robson Green como Hill?, que merecia ser tão famoso quanto o House de Hugh Laurie,  não esquecendo do delicioso Kevin Geoffries, papel de Mark Letheren?; pelo que soube, a série foi cancelada em 2009, o que é uma lástima), o livro de Rankin é uma pedida perfeita de leitura.

O ENIGMISTA pertence a uma série (até agora são 17 romances) que tem como protagonista o detetive John Rebus e cuja ação transcorre em Edimburgo, um dos fascínios da minha adolescência. Curiosamente, foi por causa de Edimburgo que li o insípido O clube filosófico dominical, de Alexander McCall Smith, quando na mesma coleção da Companhia das Letras havia um autor muito mais interessante.

Como é a Edimburgo de Rankin, tal como aparece em O ENIGMISTA?

“Que cidade bonita, declarou. Rebus tentou concordar, mas quas enão conseguia ver a cidade agora. Para ele, Edimburgo se tornara um estado de espírito, um malabarismo de intenções criminosas e instintos maléficos. Gostava de seu tamanho, de sua forma compacta. Gostava dos bares. Mas havia muito tempo sua paisagem externa não mais o impressionava (…) Eu nunca me canso desta paisagem, ela disse, começando a andar em direção ao carro. Rebus aquiesceu novamente, sem muita convicção. Para ele, nem era uma paisagem. Era uma cena de crime esperando para ser ativada”.

 “A sensação era de claustrofobia, mesmo ao ar livre (…) Em tardes como aquela, Edimburgo parecia uma prisão, uma cidade entre muralhas.”

“Os escoceses eram recordistas em ataques cardíacos e problemas dentários, resultado da dieta nacional: gorduras saturadas, sal e açúcar. Já tinha refletido sobre o que fazia o povo escocês gostar de comidas congeladas, chocolate, batatas fritas e bebidas espumantes: seria o clima? Ou a resposta estaria em algum lugar mais profundo, na natureza do país?”

“Ficou pensando se alguém da década de 1770 que fosse transportado para o presente acharia essa parte da cidade muito diferente. As luzes, os carros, poderiam chocá-lo, mas não a atmosfera do lugar”.

“A impressão que se tinha era de que Edimburgo sempre fora assolada pela crueldade, seus séculos de barbarismo mascarados por um exterior que se alternava entre o sereno e o inabalável”

“A terça-feira tinha se tornando uma outra segunda-feira: uma noite morta na cidade”.

Essa “metafísica” de Edimburgo (e da Escócia, por extensão), que determina o pessimismo e a desilusão de John Rebus, contrasta nitidamente com as ocorrências policiais na plácida cidade:

“A cidade andava tranqüila. Algumas brigas domésticas, uma ou duas batidas em busca de drogas” ou ainda “Algumas agressões à faca no fim-de-semana, um espancamento, três brigas domésticas e um incêndio premeditado. Tudo isso estava mantendo seus colegas ocupados”.

A polícia de Edimburgo se desdobra em torno de um caso “quente”: o desaparecimento de Flip Balfour, filha de um banqueiro, que depois aparecerá morta num local chamado Hellbank. Rebus faz parte da equipe de investigação. A sua parte da trama é que justifica o título original do romance, The falls (título que será aproveitado de forma supimpa na economia da trama, pois envolverá até Camus, que dá nome a ruas de Edimburgo e cujo A peste é, em inglês, The fall): no lugarejo chamado Falls, em cujos arredores a família Balfour tem uma grande propriedade, aparece um pequeno ataúde simbólico, tal como os encontrados no século XIX em Arthur´s Seat.  Rebus desconfia de que há uma ligação entre o achado e uma série de mortes que pareciam acidentais, e também desaparecimentos, que remontam a quase 30 anos antes, desde 1972. Sempre uma morte ou desaparecimento (em lugares diferentes) seguidas pela descoberta de um caixãozinho. Ninguém dá muito crédito a essa linha de investigação, e ele teum uma trabalheira danada em reunir os artefatos e as pistas (incluindo as autópsias) dos casos anteriores, além de mergulhar na história de um antigo e sinistro anatomista da “old” Edimburgo, o dr. Kenneth Lovell, cuja descendente , Claire Benzie (estudante de medicina, especializando-se em patologia forense), torna-se uma das suspeitas do assassinato de Flip Balfour; poe causa dessa linha de investigação, ele entra em contato com o patologista aposentado Donald Devlin e com a curadora de museu Jean Burchill, a primeira a se aperceber da relação entre os caixões e os prováveis crimes, e com quem Rebus se envolve romanticamente, se é possível dizer isso de um personagem tão negativo.

Por outro lado, o título brasileiro acaba privilegiando o outro pólo da trama: outra investigadora, mais jovem do que Rebus, Siobhan Clarke, e dividida entre a admiração pelo colega e o arrivismo (há a chance de promoção na carreira se aceitar ser a porta-voz da polícia nas relações com a imprensa), descobre e-mails estranhos no laptop de Flip, enviados pelo “Enigmista”, que indicariam um jogo, com etapas vencidas a partir da decifração de charadas: Flip teria alcançado a etapa “Hellbank” e estava pronta para a etapa “Constrição” (palavra cujo significado tem muito a ver com a Edimburgo das citações mais acima: restrição, limitação, estreitamento). Siobhan se torna uma jogadora, mesmo o Enigmista sabendo que é uma policial, e começa a se  absorver obsessivamente no jogo, decifrando enigmas cujo substrato tem muito a ver com a topografia escocesa.

Não importa muito que o desvendamento da identidade do(s) assassino(s) vá pelo óbvio (eu diria que pelo lógico).  O ENIGMISTA é um livro de atmosfera, de clima. E exige do leitor concentração e disposição, pois como os seriados de que eu tanto gosto, é meio lento. Mas é um ritmo lento que encanta e absorve, que nunca aborrece. Tanto que o li em meio a uma onda intensa de calor, e em pleno carnaval, e me transportei para a Edimburgo rankiniana (ou rebusiana) sem maiores problemas, a não ser implicando com a nova linha de capas (feia, muito aquém da anterior) que a Companhia das Letras imprimiu à sua já tradicional (e cara) série policial.  A meu ver, o romance tem a dose certa de ação (no sentido de perseguição e correrias), de densidade e de informação e erudição. Nada falta, nada sobra. E para terminar essa primeira aproximação com o universo de Ranking-Rebus duas passagens de que gosto muito no livro (por falar nisso, gostei muito dos personagens secundários, todos interessantes, especialmente as femininas, e gostei muito de Siobhan Clarke). Na primeira, o barman de um pub conta que “quando o hospital se mudara para Petty Fance, eles tinham perdido metade dos clientes. Não médicos e enfermeiras, mas os pacientes. Pijamas e chinelos, sem brincadeira: eles vinham direto do hospital para cá. Num dos caras tinha até tubos pendurados nos braços”. A segunda tem a ver com Camus, cujo A peste/The fall está associado a uma banda, The Fall, e os dois, somados, a Falls, a cidade na qual o caixão simbólico de Flip Balfour é encontrado. Rebus agradece a Siobhan o termo “existencialismo”, que ele não conhecia até então e diz a ela:

“Então talvez entenda o que estou dizendo.

     (…) Na verdade, não faço a mínima idéia do que você está dizendo.

     Ótimo, isso quer dizer que está aprendendo.

    Aprendendo o quê?

   A marca do existencialismo patenteada por John Rebus”.

Posters of Val McDermid, Ben Okri and Ian Rankin

ANOTAÇÕES DO DIA 02.03.2010- sobre PRELÚDIO PARA A MORTE

“Edith, Tillie e Eddie estavam todos na casa dos oitenta. Pessoas idosas realmente morriam e às vezes jogavam a toalha quando as dores, as mágoas e as fragilidades se tornavam demais para elas”. Não, leitor, não são as dores, as mágoas e as fragilidades que dão cabo dos idosos citados (e há mais uma vítima), em  Prelúdio para a morte. É um assassino frio e cruel, que está atrás de um manuscrito que poderia conter um épico perdido do genial poeta romântico William Wordsworth, no qual se contaria a verdadeira história do célebre motim do Bounty, no século XVIII.

Como já coloquei na minha introdução (ver abaixo), Val McDermid já entraria para a história por ser a criadora de Tony Hill (embora ela não seja responsável pela hipnotizante atuação de Robson Green, o personagem já é maravilhoso); eu sempre admiro, também, a capacidade dela em colocar situações muito contemporâneas nas suas investigações: a desmoralização dos espaços urbanos, o afrouxamento dos vínculos familiares, a distância desalentadora das gerações, a indiferença dos jovens por tudo, e a violência como um expediente contra o vazio, tudo isso em meio a aterradoras histórias de perversidade e rituais psicopatas.

Não foi muito diferente em PRELÚDIO PARA A MORTE. Um dos fios da trama é um achado: é a amiga adolescente da personagem principal, Tenille, que vive num condomínio meio favelão (assim como a própria Jane, especialista em Wordsworth), com a tia, uma tipa que sempre arranja um certo tipo de namorado… O último se aboleta na casa e visivelmente quer tirar uma casquinha de Tenille. Ela, pressentindo o abuso, comenta com Jane, que  toma a seguinte atitude: todos comentam no condomínio que Tenille é filha do maior criminoso da área, ainda que ele nunca tenha assumido a paternidade. Jane o procura, expõe a situação, e quando ela parte para a região dos Lagos para investigar se existe ou não o manuscrito de Wordsworth, Tenille encontra o namorado do tio assassinado no seu apartamento. Ela toca na arma, deixa suas digitais, e dando-se conta disso, toca fogo no apartamento. Depois, esconde-se no apartamento de Jane, só que fica sabendo que a polícia está atrás dela, tomando-a como autora delinquente do assassinato e do incêndio, e, então, disfarçada de menino, vai para a região dos Lagos também, conseguindo que Jane lhe dê guarida. Acontece que ela, entediada com a reclusão, e achando que os velhinhos que podem estar com o manuscrito, estão embromando a “ingênua” Jane (Tenille não acredita que as pessoas digam, por princípio, a verdade), ela rouba a lista com os nomes e endereços dos descendentes da criada de Wordsworth, Dorcas Mason, e começa a vasculhar as casas à noite. É numa dessas incursões que ela dá de cara com o assassino (mas não o vê muito claramente), e é numa outra que acaba sendo detida pela polícia local, complicando seriamente Jane, suspeita de ser autora dos crimes e mentora das invasões…

E essa é apenas uma das muitas linhas que McDermid cria, acompanhando o ponto-de-vista de vários personagens: a própria Jane, é claro; seu irmão, Matthew, que guarda um profundo ressentimento com relação a ela e que resolve investigar também a questão do manuscrito, uma vez que havia pedido aos seus alunos (ele é professor e diretor da escola pública local) que fizessem árvores genealógicas de suas famílias, muitas delas antigas no lugar, e dois deles haviam se mostrado descendentes diretos de Dorcas; a antropóloga forense, River Wilde, que está estudando o corpo encontrado preservado no pântano, que além de ajudar Jane, ainda tem um romance com o chefe da polícia local, o cara que mais suspeita da especialista em Wordsworth (é a dra. Wilde quem fará as autópsias que comprovarão não serem “naturais” as mortes dos quatro velhinhos). o ex-namorado de Jane, o ambicioso Jake, que virou amante de uma importante negociante de arte antiga e manuscritos, a qual, ao saber da pesquisa de Jane, manda Jake se reaproximar da antiga namorada, para se adiantar a ela (ele chega a invadir os e-mails dela) e chegar antes ao manuscrito (além dele, a negociante ainda enviou o assassino, que não sabemos quem é, e que tenta atropelar Jane, e depois dá uma paulada na cabeça dela à beira de uma cachoeira, jogando-a na cascata)…

Tudo muito bem tramado e executado, o livro segue o esquema “caça ao tesouro” com rara destreza. Só achei, no cômputo geral, que a dra. Wilde foi sub-aproveitada na trama, McDermid nunca consegue avançar muito nessa parte da narrativa, ainda que ela dê o toque final do romance. O mais interessante é que a parte policial, de mistério mesmo, aquela do quem matou fulano, beltrano e sicrano, só começa depois de duzentas e tantas páginas, há uma cuidadosa (e lenta) preparação para depois tudo se acelerar e ganhar um ritmo galopante.

Além de cada capítulo trabalhar essas linhas diversas, sempre há um trecho introdutório que é um suposto manuscrito do século XIX, ou da mulher de Wordworsth, ou do próprio poeta, com as anotações das experiências no Bounty e depois dele de Fletcher Christian, material para o épico perdido (“estou ávido para compreender tais acontecimentos e traduzi-los em versos”).

“Gostaria de sentir o que Fletcher Christian sentira ao rever aquela paisagem depois de ter regressado dos Mares do Sul. Acaso seu espírito se enchera de júbilo e alívio ao ver-se rodeado por aquelas montanhas conhecidas, suas cores tênues, as mesmas que haviam composto a palheta da sua juventude? Ou teria ansiado pelos exuberantes trópicos com suas cores improváveis? Teriam o frio e a umidade feito os seus ossos sentirem saudade da quentura do sol meredional? Teriam as mulheres lhe parecido pálidadas e desinteressantes após a beldade exótica que lhe dera um filho? Teria tido a sensação de que voltara para casa ou aquela lhe parecera apenas uma espécie de prisão diferente da Ilha de Pitcairn?”

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02/08/2013

Uma grande contadora de estórias: VAL McDERMID

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de março de 2010)

“Edith, Tillie e Eddie estavam todos na casa dos oitenta. Pessoas idosas realmente morriam e às vezes jogavam a toalha quando as dores, as mágoas e as fragilidades se tornavam demais para elas. Não, leitor, não são as dores, as mágoas e as fragilidades que dão cabo dos idosos citados, em  Prelúdio para a morte[The Grave Tattoo, 2006, em tradução de Marcia Heloísa Amarante Gonçalves]. É um assassino frio e cruel, que está atrás de um manuscrito que poderia conter um épico perdido do genial poeta romântico William Wordsworth, no qual se contaria a verdadeira história do célebre motim do Bounty, no século XVIII.

Na semana passada (VER  https://armonte.wordpress.com/2013/08/02/um-romance-policial-perfeito-o-enigmista-de-ian-rankin/)  comentei um romance policial do escocês Ian Rankin. Agora é a vez da sua compatriota, Val McDermid, criadora do fascinante Tony Hill, herói da série Rastros da Maldade, e que, aqui, está particularmente inspirada,  tecendo diversas linhas narrativas e entremeando-as de forma muito engenhosa.Tanto que os assassinatos (os quais não são tomados por tais, durante um bom tempo) só começam a dominar Prelúdio para a morte após mais de duzentas páginas. Quem são as pessoas eliminadas? São os descendentes da criada de Wordsworth, Dorcas Mason, encarregada pela família do poeta de “dar sumiço” ao texto embaraçoso,  que poderia envergonhar a família, pois dá uma versão gay ao motim, já contado em várias versões cinematográficas.

Até chegar a esse ponto, o que movimenta o enredo é o corpo de um homem assassinado, preservado por séculos pela turfa, e que poderia ser o líder da sublevação, Fletcher Christian (essa descoberta macabra traz à cena a antropóloga forense River Wilde), o que faz com que a especialista em Wordsworth  Jane Gresham, que vive em Londres num condomínio-favela, onde fez amizade  com a nada convencional adolescente negra Tenille (que pode a qualquer momento ser abusada pelo novo namorado da tia que a cria), volte para sua região natal, Lake District, para levantar a genealogia da família Mason, contando com a ajuda da dra. River, do amigo Dan, e da própria Tenille (que se envolveu com o assassinato do seu assediador e fugiu da capital).

Quando fica evidente  que a morte dos descendentes de Dorcas nada teve de natural, Jane passa a ser a maior suspeita, chegando a ser detida. Ao mesmo tempo, seu ex-namorado,  Jake Hartnell, agora empregado e amante de uma importante negociadora de relíquias e manuscritos raros, aparece para disputar com ela e seu grupo a primazia de encontrar o poema de Wordsworth.

A cada abertura de capítulo, temos uma passagem das anotações do poeta, narrando o aparecimento de Fletcher (que era tido como morto nos Mares do Sul e que só podia levar uma vida clandestina e perseguida na Inglaterra) na sua vida e seus planos para relatar as aventuras e desventuras do amigo num épico.

Assim como Rankin, McDermid mostra-se hábil na confluência entre ação, erudição, elementos contemporâneos (como a figura de Tenille) e um senso de mistério impecável. Prelúdio para a morte é um belo retorno à arte de contar bem uma história e nos entreter por mais de 400 páginas. Pena que Edith, Tillie, Eddie tenham que morrer para termos esse prazer.

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Um romance policial perfeito: “O ENIGMISTA”, de Ian Rankin

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,em 23 de fevereiro de 2010)

Quem aprecia seriados policiais ingleses tais como Prime Suspect, Silent Witness ou Rastros da Maldade (Wire in the blood), que giram em torno de delegacias envolvidas em investigações complexas, encontrará o equivalente literário deles no ótimo O Enigmista (The Falls, 2001, em tradução de Cláudio Carina) do escocês Ian Rankin.

Em Edimburgo, a filha de um banqueiro, Flip Balfour, desaparece e dias depois é encontrada morta. Antes disso, porém, na aldeia de Falls, perto da qual a família da moça possui uma propriedade, é encontrado um caixão simbólico. Destoando da habitual tranqüilidade da cidade em termos de ocorrências policiais, esse crime mobiliza praticamente o efetivo inteiro de investigadores, entre ele John Rebus (o protagonista da série criada por Rankin, que já conta com 17 volumes), veterano com um pé no alcoolismo, dois pés na solidão, totalmente desiludido e pessimista, o qual sempre consegue se  encrencar com a chefia.

Rebus, sob ostensivo descrédito, insiste em investigar a conexão que o assassinato de Flip e outros desaparecimentos e mortes, ao longo de décadas, acompanhados pelo aparecimento dos estranhos ataúdes, poderiam ter  com a descoberta, no século XIX, de uma série de artefatos semelhantes na montanha de Arthur´s Seat, fato que se tornou uma espécie de lenda urbana escocesa.  Ele conta com a ajuda do patologista aposentado Donald Devlin e da curadora do museu Jean Burchill, com quem se envolverá romanticamente. Ambos o levam à figura sinistra do anatomista Kenneth Lovell, cuja descendente (e candidata a patologista) Claire Benzie se torna uma das principais suspeitas do crime atual, já que guardava ressentimento contra a família da amiga Flip, de certa forma responsável pela  ruína e suicídio do seu pai.

O título nacional privilegiou a segunda linha de investigação do romance, seguida por Siobhan Clarke, a qual está dividida entre ser uma policial na linha do parceiro mais velho, e portanto, permanecer meio que à margem, ou se tornar o braço-direito da recém-nomeada inspetora-chefe, que a usaria como porta-voz da polícia junto à imprensa, que acompanha avidamente o caso.

Siobhan descobrira, no computador de Flip, que ela participava de um jogo virtual comandado pelo misterioso Enigmista. Mesmo revelando-se a ele como policial, ela e o charadista iniciam um jogo engenhoso onde as pistas e etapas têm a ver com a topografia escocesa. E Siobhan começa a ficar obcecada pelo jogo, tanto que o clímax do livro é o encontro que marca, sozinha, com o Enigmista.

Será que as duas linhas de investigação levarão ao mesmo assassino?

Já tendo revelado até demais de O Enigmista, é preciso dizer que ele se destaca na produção atual do gênero pelo equilíbrio perfeito da ação, da erudição e da densidade psicológica, além da atmosfera de Edimburgo. Até sua lentidão é apropriada (nisso também lembrando aqueles seriados antológicos).É o ritmo ideal para esse tipo de mistério, sem pressa, e no entanto, nunca enfadonho. Nada falta, nada sobra.

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O LADO B DE BOSTON

VER TAMBÉM: https://armonte.wordpress.com/2013/08/02/tsunami-de-cliches-devasta-a-ilha-do-medo/

OS RESTOS DO HERÓI NORTE-AMERICANO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 2004)

Entrar em automóveis alheios não dá  muito certo para Dave Boyle, em Mystic River (Sobre Meninos e Lobos  na tradução de  Luciano Vieira Machado): na primeira vez,  aos onze anos,  é enganado por dois homens que se passam por policiais e violentado durante quatro dias num porão; vinte e cinco anos mais tarde, é levado como o mais provável suspeito do assassinato de Katie Marcus, filha de um velho amigo, Jimmy (que estava com ele no momento em que foi raptado pelos dois pedófilos);por fim, entra no carro de Val Savage, cunhado de Jimmy, que o leva para uma espelunca à beira do Mystic River do título original, onde ele e Jimmy vão confrontar seus destinos.

Dave é o bode expiatorio do romance de Dennis Lehane (publicado em 2001): o tempo todoele lembra aos outroa realidades recalcadas que incomodam e fazem com que ele seja sempre prejudicado ou machucado. O título nacional pretensiosíssimo (já o original, que tem a ver com o clímax da narrativa,evoca ironicamente todos aqueles faroestes com rio no título, Rio Vermelho, Rio Lobo, Rio Bravo, por exemplo, que exaltavam a lealdade e camaradagem masculinas) também parece fazer dele o personagem mais importante da trama, quando na verdade o centro é Jimmy Marcus.

A própria eliminação de Dave Boyle e a impotência do terceiro vértice do livro, o policial Sean Devine (o qual também estava presente ao rapto na infância), em impediruma tragédia anunciada desde que eles tinham onze anos, configuram o grande objetivo de Mystic River: revelar Jimmy como um gângster, uma espécie de chefão implícito no seu bairro (na periferia de Boston), que está sendo avassalado pela especulação imobiliária.

Desde que Katie é morta insinuam-se elementos esquisitos na vida do pacato cidadão Jimmy Marcus, dono de uma loja de conveniência: sua atual esposa, Annabeth (madrasta de Katie) tem vários irmãos que são criminosos conhecidíssimos no bairro, a própria filha assassinada tinha sido namorada de um gangsterzinho, que não se conforma com o fim do relacionamento, mas que sendo considerado perigoso, curiosamente não toma nenhuma atitude mais radical, além de pressioná-la (saberemos por que depois).

Avançando na trama, sabemos que Jimmy foi chefe de uma quadrilha até ser preso e só resolveu assumir a máscara de cidadão honesto ao sair da prisão e se deparar com uma filha de cinco anos, órfã de mãe; ainda sabemos que ele matou (sem que ninguém descobrisse) o pai de Brandon, o rapaz com quem a filha pretendia fugir para viver em Las Vegas (o que tornará mais contundente o desfecho; aliás, a solução do crime é arrepiante).

Além de Annabeth, outra personagem feminina marca o romance: Celeste Boyle, a esposa de Dave, que tem um comportamento bizarro e impressionante. Primeiro, ela ajuda destemidamente o marido a se livrar de todos os vestígios de um crime (ele chega ensanguentado em casa na mesma noite em que assassinam Katie); ao começar a desconfiar que ele é o assassino, Celeste muda radicalmente e sua participação é decisiva no desenlace, ao trair o marido (e sua delação ganha um cunho quase sexual, como se fosse um adultério), de uma forma impensável para uma mulher como Annabeth.

Mystic River demora a deslanchar: o início é bem arratado. Dennis Lehane satura seu texto com um preciosismo excessivo para aqueles personagens e aquelas situações e até escorrega no estilo: “Celeste leu em seu olhar a dor mais sincera, mais terna. Pareceu-lhe que um fragmento em forma de lágrima se desprendia do coração de Jimmy e lhe caía dentro do peito”!!!??

Quando deslancha, porém, e começa a mexer a fundo na má consciência norte-americana, que envolve coisas como pedofilia, violência ffamiliar e o problema do fracasso,vamos mergulhando num romance cada vez mais poderoso, um investigação forte do que restou do herói norte-americano, ou simplesmente do Homem americano. Não é à toa que, perto do momento decisivo do romance, Dave comenta a dificuldade de se sentir adulto: “Eu sempre achei que iria ser diferente… na maior parte do tempo não me sinto diferente do que era aos 18 anos. Muitas vezes acordo pensando. Eu tenho um filho? Eu tenho uma mulher? Como aconteceu isso? (…) Ele sentia necessidade de explicar-se. Para que Val entendesse quem ele era e gostasse dele.”

Lembrando heróis de seriado, ele diz: “Eles eram homens. O tempo todo… homens que nunca questionavam a justeza de suas próprias ações, que não  se deixavam perturbar pelo mundo nem pelo papel que esperavam deles. Era o medo, pensou ele… O medo se instalara em Dave e nunca mais se fora, por isso ele tinha medo de se enganar, de se embananar, de não ser inteligente, de não ser um bom marido, nem um bom pai e de não ser um homem de verdade”.

A ironia é que o homem ue consegue tudo o que o fraco Dave não conseguiu acaba por ser um monstro moral e o patriarca de uma família criminosa.

nota para o blog- A meu ver, a adaptação de Clint Eastwood resultou num de seus filmes mais mal resolvidos: ele pesa na mão na direção, o elenco está muito irregular (em especial Sean Penn, a quem ele deixa exagerar à vontade), e Kevin Bacon e Laura Linney se sobressaem pela discrição e eficiência. Ao fim e ao cabo, tudo fica melodramático demais.

TSUNAMI DE CLICHÊS DEVASTA A ILHA DO MEDO

VER TAMBÉM: https://armonte.wordpress.com/2013/08/02/o-lado-b-de-boston/

“Você não vai conseguir sair daqui. Agora é um dos nossos”

“… algum dia, xerife, e ele não está muito longe, a experiência humana estará de tal modo submetida aos tratamentos medicamentosos que nada mais terá de experiência humana” (Dennis Lehane, Shutter Island)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 2010)

Há um aspecto que me fascina em Shutter Island, o livro de Dennis Lehane e o filme de Martin Scorsese (nunca acertaram no Brasil com o título, seja o anterior ao filme, Paciente 67, quanto o atual por causa da versão cinematográfica, A ilha do medo) e que tem a ver com a minha geração específica: assim como eu, Lehane (mais velho dois anos) está com quarenta e tantos anos e cresceu até certo ponto longe das manifestações da contracultura, atrelado a um bairro e a um estilo de vida. Nossa geração ainda pegou muito da paranóia e loucura anti-comunista, de receio do domínio do mundo  (principalmente via controle da mente) ou da sua destruição, e nós crescemos vendo episódios cheios da mais pura paranóia, de séries como Além da Imaginação, Galeria do Terror e congêneres, sem falar nos filmes B ou mesmo filmes precocemente assistidos (para mim, durante muito tempo instituição psiquiátrica significou Elizabeth Taylor sendo acossada por loucos e ameaçada de lobotomia, em De repente, no último verão, e não estou muito certo de que me “curei”  totalmente dessa imagem). Hoje em dia, revendo uma série como Invaders, no canal TCM, ou outras da mesma época, e lendo o romance de Lehane, posso fechar os olhos e remontar a um imaginário muito específico de sinistro e terror, que é algo à parte do terror à Poe, ou do terror moderno, auto-referencial. Eu nunca li nada a respeito, nem sei se estou na pista certa, mas para mim Lehane imaginou a história de Shutter Island a partir desse ponto-de-vista da nossa geração, como um exorcismo da nossa educação sentimental paranóica.

Nem por isso dá para dizer que o livro é bom. Nele,  deixa de lado sua paisagem habitual, os subúrbios de Boston, cenário de Sobre meninos e lobos e das aventuras da dupla de detetives Patrick Kenzie e Angie Gennaro (Gone, baby,gone, por exemplo) para contar uma fantasia gótica ambientada nessa década paranóica e doentia que foram os anos 50, nos EUA, com as feridas da guerra ainda recentes, a obsessão pela ameaça comunista, a certeza de um “modo de vida americano” que precisa ser “preservado a qualquer custo”, e a ilusão de que certos horrores não poderiam acontecer em solo americano (como experiências de lavagem cerebral, controle da mente, programação do indivíduo), embora acontecessem. Aliás, esse era um dos meus maiores medos na infância e pré-adolescência: ser trancado num lugar onde  dominassem a minha mente, me transformassem num ser autômato, desprovido da minha humanidade. Como se o nosso dia a dia não se encarregasse disso, sem tanto melodrama! E como se o modo a ser preservado a todo custo não fosse justamente um modo desumano e injusto.

Na trama (uma história do seu Zé, quase risível), o agente federal Teddy Daniels e um parceiro, Chuck Aule  (com o qual ele trava conhecimento apenas no momento da missão) chegam a uma instituição na inóspita Ilha Shutter, ao mesmo tempo presídio e manicômio para pacientes perigosos. Um deles, Rachel Solando, que afogara os três filhos, desapareceu. Há algo sinistro na atmosfera, além da loucura dos internados: uma batalha entre correntes de tratamento psiquiátrico (a prática da lobotomia ainda era comum), a suspeita de que um paciente (o qual assassinara a esposa de Teddy) é mantido escondido dos registros oficiais, e conforme a narrativa prossegue (principalmente depois do desaparecimento de Chuck), a de que tudo é uma farsa, uma armadilha para o agente Daniels, uma forma de aprisioná-lo na ilha, e fazer com que o mundo lá fora acredite que ficou insano, de molde a abafar futuras investigações. Tendo bebido, comido e fumado coisas da ilha, ele acredita que foi drogado e começa a ter sonhos e alucinações horríveis, em que sua mulher morta e Rachel Solando intercambiam-se… Aliás, Teddy encontra Rachel Solando numa caverna, e se o leitor não perceber aí , se é que não percebeu antes, a solução do mistério, sei não… Só daria para acreditar nessa aparição da personagem se ela fosse da ilha de Lost.

No final, não seria Teddy mesmo o paciente 67 que nunca chega a encontrar? Não quero revelar muito da história, mas isso atrapalha um pouco para ressaltar os defeitos e obviedades de Shutter Island. Só digo que o livro começa com um trauma de infância da personagem, ligado à imensidão do mar, quando sai para pescar com o pai, e depois os clichês vão se transformando numa onda gigantesca, que destrói até mesmo as observações mais perspicazes e o lado mais anti-institucional do livro (a discussão sobre os métodos de tratamento psiquiátrico).

Ao contrário dos seus outros romances,sempre muito interessantes e intensos,  onde o brilho da ambientação, a atmosfera dos bairros, das ruas, bares e relações familiares e entre vizinhos, ora disfarçava uma trama tênue e inconvincente (como a de Gone, baby, gone), ora reforçava uma trama poderosa e complexa (como a de Sobre meninos e lobos), esse livro de Lehane  tem contra si uma atmosfera toda falsa, a começar pelo seu cenário, que parece tirado de filmes B e de seriados como Além da Imaginação ou Galeria do Terror, e piorado pelos clichês que se acumulam vertiginosamente, até a solução mais que batida . Tudo soa como um roteiro de terceira categoria. Para se ter uma idéia, ao relembrar da guerra, Teddy lembra de um soldado dizendo a ele: “Você sabe onde foi parar o resto de mim?” Se vocês  tiverem a impressão de já ter ouvido essa frase, é porque já a ouviram na boca do Ronald Reagan de Kings Row- Em cada coração um pecado, ou nas inúmeras citações e paródias dessa cena.  Todas as 300 e poucas páginas de A ilha do medo dão essa mesma impressão.

E todos os defeitos foram reforçados na adaptação de Scorsese. Acho que se fosse um filme B dos anos 50 e 60 (e ele se esforça por criar essa atmosfera no início, pelos enquadramentos dos atores no barco), tudo bem, algo como o Cabo do Medo original de J. Lee Thompson (que ele estragou na refilmagem), mas um diretor da categoria e com a experiência de Scorsese fazer cenas de pesadelo e alucinação com truques tão baratos, que fizeram o público da sessão na qual eu estava rir à beça, como a menina morta deitada, o personagem se aproximando dela, a câmera focalizando-a e, pum, ela abre os olhos: “Por que você não me salvou?” O problema é que é uma imitação de um filme B, e tudo muito premeditado, intelectualizado e “fake”. O roteiro, por sua vez, se manteve bem fiel, e falha justamente quando deveria manter essa fidelidade: eles cortaram toda a parte (que é a que tem mais suspense e emoção) em que Teddy tenta sair da ilha, escondendo-se no ferry boat, e o diretor não permite que ele parta sem que o agente federal seja encontrado (e por isso Teddy volta, explode o carro do médico-chefe e vai até o farol, onde encontra as explicações…).

Nem por isso, o filme deixa de ter qualidades: a principal delas é o belo desempenho de Leonardo di Caprio (como sou chatinho, vou dizer que às vezes, mas só às vezes, principalmente na sequência em que relembra como a mulher foi morta de fato, ele exagera um pouco), muito bem secundado por Mark Ruffalo, Ben Kingsley e o indestrutível Max Von Sydow. Quanto a Patricia Clarkson, sobreviver a uma cena ridícula como o diálogo da caverna, mostra como ela é boa atriz. A coitada da Michelle Williams não tem o que fazer no filme (ser um fantasma não é fácil, já vimos em Lovely Bones). O que não se sustenta mesmo é a história, como no livro.

Melhor para nós que Lehane volte para a periferia de Boston e seus crimes pequenos e sórdidos.

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