MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/08/2013

” A Ladeira da Memória” merecia o esquecimento?


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de outubro de 2003)

A editora Planeta lançou em capa dura um famoso romance brasileiro há muito (desde 1977, salvo engano) fora de circulação:  A LADEIRA DA MEMÓRIA.Na época de sua publicação original (1950), José Geraldo Vieira (1897-1977) era bastante conhecido como romancista, além de ser um dos nossos mais solicitados e prestigiados tradutores. A primeira edição,  pela Coleção Saraiva, foi —em termos  de tiragem (45 mil exemplares)— um acontecimento editorial.

Sabe-se que não poucas vezes é injusto o esquecimento de um autor ou de uma obra. No caso do romance em questão, talvez tenha sido um caso de seleção natural. A LADEIRA DA MEMÓRIA é uma leitura intragável. Eu já tinha sido derrotado inúmeras vezes por outro catatau de Vieira, A quadragésima porta (1943). Nem reunindo todas as forças como leitor aplicado, consegui chegar ao fim daquele que é considerado “o mais cosmopolita dos grandes romances da língua portuguesa”!

A história de amor entre o médico radiologista Jorge e Renata, sua amada casada (ao tirar uma radiografia com ele, ela descobre estar tuberculosa) não é tão ilegível, deu para levar até a última página, mas foi um osso duro de roer. Vieira tinha material, tinha uma mirada de escritor legítimo sobre a vida, tinha sobretudo uma ambição romanesca invejável. A maneira como ele estruturou a narrativa, utilizando o título de forma literal geograficamente (a ladeira com esse nome em São Paulo) e simbólica (pois o livro é um exercício de memória por parte de Jorge) é bastante sofisticado. O trabalho com os tempos verbais (alternância do presente com o pretérito tanto perfeito quanto imperfeito) é requintado. O que aconteceu então?

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O que estraga A LADEIRA DA MEMÓRIA é que suas personagens falam entre si numa linguagem inaceitável, ora pernóstica e chatíssima, ora de forma cafona e subliterária. Já no início, o leitor tem de aturar o insuportável tio do narrador  fazendo longas e pedantíssimas  reflexões e lançando-se num indigesto “apólogo”, utilizando a dupla feição da ladeira-título, que servirá de mote ao narrador e que quase faz com que se desista da leitura. Mas não, pensei com meus botões, se estaquei frente à quadragésima porta, não hei de temer subir a ladeira.

Depois, entra em cena o grande amor de Jorge, a falecida Renata, que se revela tão acaciana e cacete quanto tio Rangel. É a mais consumada “preciosa ridícula” da ficção brasileira. E é um alívio quando sai de cena. Infelizmente, permanece no palco a tia dela e ainda surge outra chata de galocha como candidata ao coração do médico (no penúltimo capítulo do romance, o qual foi bastante modificado com relação ao texto original de 1950;  Vieira não só alterou quase tudo, como introduziu anacronismos como referências a acontecimentos posteriores ao ano da edição princeps e aos anos em que transcorre a trama, basicamente os da Segunda Guerra, tornando toda a parte final ainda mais estranha e inconvincente)[1].

Só para o leitor ter uma ideia do tipo de linguagem utilizada no livro, basta recolher dois exemplos de Tia Noêmia. Ao saber da relação adúltera da sobrinha: “Se  tal caso existe deve ser sublime, porque eu, dr. Jorge, eu sei que criatura, que alma é Renata” !!!!!???? Sobre a doença: “Eu não sei se ela tem uma caverna em formação ou esvaziada no pulmão; lá isso sabe o senhor que é médico. Mas que tem um rombo na alma, isso eu sei”!!!!!!!!!?????

É uma pena que o rombo na alma de Renata seja tão irritante que acabe ofuscando aspectos periféricos mais interessantes, como a descrição da Alta Paulista (a cidade de Marília aparece com o nome de Hacrera) e seu rápido desenvolvimentos urbano nos anos 1940, contrastada ao lirismo com que é retratado o Rio de Janeiro, cenário central do amor do casal; ou ainda, a desconfiança com relação aos japoneses durante o período pós-Pearl Harbor.

Existem escritores de livros difíceis e no entanto paradoxalmente prazerosos (Guimarães Rosa, Cornélio Penna, Osman Lins, a primeira Clarice Lispector); e outros, que são difíceis porque obrigam a leituras laboriosas em que se sente mais o esforço do que o talento (Mário de Andrade, Lúcio Cardoso, Nélida Piñon, Antonio Callado). A conclusão que se pode tirar é que, sendo uma leitura do segundo tipo, A LADEIRA DA MEMÓRIA permanecerá como um desses livros frustrantes, porém nunca inteiramente descartáveis e dignos do completo esquecimento.


[1]  Nota de 2013:  Naquele momento da leitura, me dei ao trabalho de comparar três edições: 1) a da Planeta; 2) a original, da Coleção Saraiva; 3) a do Círculo do Livro, cujo texto foi preparado pelo autor no final da vida, e que ficou como a “versão final”.

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5 Comentários »

  1. Por que perder tempo lendo livros apenas bons se há tantos livros ótimos para serem lidos?

    Comentário por Geraldo Maia — 29/08/2013 @ 17:21 | Responder

    • E quem decide isso? E como saber se um livro será bom ou ótimo, antes da leitura?

      Comentário por alfredomonte — 29/08/2013 @ 18:21 | Responder

      • Realmente não dá saber se o livro é ótimo antes de lê-lo. Esta frase “Por que perder tempo, etc…” foi escrita por um escritor famoso. Não sei mais quem é. Se alguém se lembrar poderia me dizer.

        Comentário por Geraldo Maia — 31/08/2013 @ 22:40

  2. Com todo respeito, também acho que não se deve seguir apenas a linha das Leituras dos Livros Certos, aquela coisa doutrinária de ir atrás somente do que os outros dizem ser ótimo ou genial.

    Sobre o José Geraldo Vieira, se não me engano a tradução de O Idiota que tenho guardada esperando leitura é assinada por ele, mas sempre fico na dúvida se leio o romance nessa tradução ou se vou atrás da lançada pela editora 34.

    Comentário por Vlademir — 31/08/2013 @ 11:35 | Responder

    • É isso aí, Vlademir, concordo inteiramente com você, mesmo porque a vida é feita de contingências e as leituras às vezes se atrelam a elas, para o bem e para o mal. Quanto ao lado tradutor do José Geraldo Vieira, li sua tradução de “O idiota” e não me fez mal nenhum, muito pelo contrário, embora a do Paulo Bezerra seja direta do russo. Abração, e obrigado pelo comentário.

      Comentário por alfredomonte — 31/08/2013 @ 14:13 | Responder


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