MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/08/2013

Destaque do Blog: DIGAM A SATÃ QUE O RECADO FOI ENTENDIDO, de Daniel Pellizzari


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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de agosto de 2013)

Para o leitor que, como eu, tenha forte prevenção contra a moda recente de projetos editoriais nos quais um escritor passa algum tempo em um determinado lugar do nosso mundo dito “globalizado”, publicando um livro a partir dessa fugaz experiência, Digam a Satã que o recado foi entendido (que faz parte da série Amores Expressos—a Daniel Pellizzari coube Dublin) revela-se uma exceção de peso.

A capital irlandesa que aparece no romance se vale, em certa medida, das imagens tradicionais e estereotipadas que circulam sobre ela (os habitantes briguentos, beberrões, chauvinistas e extravagantes; os “dublinenses” como personagens joyceanos[1]) e, mais ainda, de núcleos dramáticos bizarros e farsescos que reviram aquelas imagens-clichês pelo avesso e fornecem uma legítima atmosfera de humanidade, para além da “ambientação”, empurrando para um papel decididamente secundário a questão da “localização espacial”.

O que está em cena é a Ficção, no que tem de melhor e mais exuberante. Não sei como Pellizzari conseguiu, talvez seja mesmo o caso de nos rendermos ao que um talento tem de único, ainda que num trabalho de encomenda, e que lhe permite brilhar onde outros participantes do mesmo projeto sucumbiram ao falso, modernoso e literariamente pobre, utilizando um material que se prestava totalmente  ao pastiche, e que (sem perder as possibilidades de humor e paródia) ele trabalha de uma forma tão inteligente.

São muitos os narradores dessa Dublin pellizzariana. Há os que exploram a credulidade turística, oferecendo passeios enganosos a partes mal assombradas da cidade, como o maior candidato a protagonista na estória, Magnus Factor, homem “de lugar nenhum”[2] (“Eu teria voltado para casa, se soubesse onde ficava. Mas como eu não tinha mais certeza sobre coisa nenhuma, resolvi ficar parado no mesmo lugar para ver se minha casa acabava me encontrando”), envolvido com duas mulheres: Stefanija, eslovena escorregadia, e a nativa Laura, que faz parte de um grupo universitário de “terroristas poéticos”; ou como o maravilhoso personagem que é o dono do negócio, Barry O´Shaugnessy (sua intervenção como narrador é um dos pontos altos do relato), cujo “tom”, um achado de mestre, é o do cara tosco arquetípico que pode viver em qualquer rincão do globo: politicamente incorreto, trata afrontosamente outros membros da trupe turística e mora de favor no sobrado de Stuart, este último perigosamente enredado com traficantes gregos, vivendo do dinheiro que uma tia mantém muito bem escondido.

E há aqueles como a pré-adolescente Patricia (a narrativa nos reserva surpresas sobre ela), que foge de casa após a morte de um avô pra lá de exótico e acaba associando-se aos seguidores de Demetrius Vindaloo, guru do culto dos Ofídios Gnósticos, inimigos da imperialista Confederação Galáctica, cujo domínio sobre nosso planeta seria quase absoluto não fossem esses iluminados, que esperam a Arrebatação a partir do sacrifício de uma virgem (no caso, a própria Patricia). Parece ridículo? Não, não é, em razão da atordoante capacidade de Pellizzari em entrar na mente e no discurso peculiar de cada um de seus narradores, de forma que eles soam críveis dentro da sua própria lógica de percepção (“Essas pessoas acreditam mesmo nessa história toda, e eu também quero acreditar pelo menos um pouco. Ou pelo menos deixar que exista essa possibilidade. Estou falando da chance de eu talvez decidir acreditar nessas coisas, não de elas serem mesmo verdade).[3]

E há também um capítulo composto pelo diálogo entre dois membros—Rod e Marcel—dos  “terroristas poéticos”, com marcação em 3ª. pessoa.

Dizer que um livro é muito divertido sempre pode dar ensejo ao  equívoco comum que coloca a diversão como fator preponderante de uma obra menor. Eu ri muito ao longo da leitura de Digam a Satã que o recado foi entendido porque ali o estapafúrdio não se faz de rogado (por exemplo, a maneira como Barry causa a morte da tia de Stuart devido ao hábito do escocês de tentar despertá-lo, após festas dignas de épicas ressacas, com baldes de água suja[4]). Ao mesmo tempo, o livro trata de problemas tão sérios e portentosos, até mesmo sombrios (a inserção da Irlanda na comunidade européia, a subcultura de diversos “losers”, a solidão e incompletude essenciais que residem em nós, as mitologias e fetiches particulares—pode ser até o mundo dos “games”—que criamos na falta de uma Grande Crença a costurar a civilização)[5] que só podemos admirar a mão leve de Pellizzari, sem cair no frívolo ou no besteirol (mesmo porque todos os núcleos se concatenam à perfeição, no final, mesmo que as desordens pessoais prossigam ao infinito)[6], fazendo com que acreditemos piamente nessa gente toda que ele cria para a sua Dublin nada turística, mas tão animada. Certamente, um dos melhores livros do ano.

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TRECHOS SELECIONADOS (amostras dos narradores de Digam a Satã que o recado foi entendido)

Magnus: “De novo em diante me alimentei somente de espigas de milho, pipoca, tacos sem recheio, Doritos e Jack Daniels, tentando convencer Chicomecoatl a me levar embora de uma vez. A derrocada do meu império pessoal teve início com meu último encontro com Laura, uns dez dias depois da explosão que não aconteceu em Temple Bar. Eu estava sentado meio corcunda no balcão do Hairy Lemon, mastigando devagar as últimas batatas do meu ´coddle´, quando ela apareceu.

__ Sabia que você ia estar aqui—disse com aquela  risada que não causava mais efeito nenhum em mim. Restava apenas um buraco onde antes havia uma resposta fisiológica que um dia eu tinha imaginado ser alguma coisa além disso.”

Patricia: “Não é porque eu vou fazer treze anos daqui a dois meses que sei menos coisas que o meu pai, por exemplo. Estou de mal com ele faz mais de um ano. Ele não entende nada. Nadinha. Mas eu também não. é outra coisa que aprendi bem cedo. Ser humano é estar confuso. Não. Ser humano e medíocre é fingir que não existe confusão nenhuma (…) Meu avô era legal. Pai da minha mão. Ninguém sabe de onde ele veio, só que tinha catorze anos e chegou na Irlanda de navio, sozinho, numa época em que todo mundo estava indo embora porque faltava tudo por aqui. Agora é que ninguém vai ficar sabendo de onde ele veio, mesmo. Sempre que ficava sozinho ele cantava umas musiquinhas que pareciam meio árabes. Ou judaicas, sei lá. Confundo (…) Ele tinha cheiro de lustra-móveis, mas cheiros são que nem idades. Não querem dizer nada.”

Siobhán: “… é um momento difícil  e então convido todos  para cantarem e começo a cantar o hino dos Ofídios Gnósticos  que fala sobre a luta contra a Confederação Galáctica  e a vitória final no dia da Arrebatação  e eles me olham sem dizer nada   e ficam assim até o final do hino  e depois eu saio da cozinha  e me sento em uma cadeira  na sala de costas para a janela. Fico imóvel e curvada  como uma das gárgulas da igreja grande ali subindo a rua, amanhã bem cedinho quero levar a menina nova até lá para ver,  acho que ela vai gostar porque ouvi ela dizendo que nasceu  e morou a vida inteira em Dublin e nunca tinha vindo para Howth e então sei que nunca viu as gárgulas. Elas ficam do lado de fora do templo com aqueles rostos congelados em caretas de ameaça e o corpo todo transformado em pedra e rígido para sempre por amor ao dever de assustar as coisas ruins e os demônios e  a imundície e impedir que entrem dentro do espaço sagrado…”

Demetrius: “A memória serve para que você se esqueça de quem é, Demetrius. É um artefato do Inimigo. Quanto mais você se lembra, mais se esquece do que é natural e antigo e verdadeiro. E o olho com o qual a criança enxerga os Ofídios é o mesmo olho com que os Ofídios enxergam a criança. O olho puro e solitário de Crom Cruach. Mas sem demora esse olho é recoberto por memórias. E com as memórias vêm as opiniões. E com as opiniões, as preferências. E com elas, as abstrações. E por fim a chamada personalidade, a forma rígida dentro da qual a Confederação aprisiona os incontáveis seres que foram criados livres, mas que estão aprisionados em grilhões…”

Barry: “Larguei dela, dos meus velhos,dos meus parcêro, da minha cidade, da vida que eu tinha em Cork. Subi pra Dublin e fiquei livre pra não fazer porra nenhuma. Não que eu odiasse essa coisa toda. Nem é por aí. A assistente social tinha um peitão classe especial e chupava que nem uma sanguessuga, engargantava tudo. Meus velho eram uns inútil sem educação nenhuma, mas sempre fizeram de tudo pra mim. Meus parcêro eram um monte de bêbado gente boa. Minha cidade é o melhor lugar do universo e tinha cerveja barata em qualquer pub. Minha vida era só moleza. O ruim é que essas coisas toda me atrapalhavam. Pra falar a verdade, de vez em quando eu sentia uma vontade imbecil de fazer algo de útil com a minha vidinha, e isso é péssimo pra caralho. Aí cortei o mal pela raiz. Eu sou irlandês, porra. Sou um cara que tenho meus princípio…”

Zbigniew: “Mas não adianta, eu sei que agora o medo vai chegar a qualquer momento. E quando o medo vem  é intenso, piorando muito à noite ou em meio à multidões.  Luzes, ruídos e pessoas ficam cada vez mais velozes e se revelam forças agressivas, sinistras.  Quando alguém ri, está rindo de mim. Se gargalha, está me enfiando uma faca. Olhou, quer me matar. Até os gatos de rua estão planejando tocaias. Os ruídos do mundo tramam crescer em proporção geométrica até me envolverem por completo como um oceano de gelatina e me deixarem suspenso ali dentro para que as luzes cheguem muito rápidas e agudas e me perfurem o corpo inteiro, causando uma dor física sem adjetivos e permitindo que minha consciência escape pelas feridas abertas…”

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[1] Uma das características mais louváveis do livro é justamente se furtar a essa fácil apropriação do imaginário joyceano, uma tentação e tanto.

[2] E no entanto lemos:

“…ali estava eu no início da noite de Halloween, perdido no coração daquele bairro detestável, vestido com minha tradicional fantasia de brasileiro (camisa amarela da seleção de futebol com detalhes em verde, colar de contas coloridas com pingente de folha de maconha, calça azul de tactel, tênis de corrida escandalosos e muito gel no cabelo). E rumo ao Oliver St. John  Gogarty, ainda por cima. O pub mais cenográfico de todos, menos genuinamente irlandês que todos os pubs  supostamente irlandeses  que infestam cidades ao redor de todo o planeta,.”

[3] A alternância de vozes e  a falta de complacência de Pellizzari possibilitam que ele escape a cacoetes de uma certa “literatura de macho”, movida a testosterona (que era o que eu temia quando comecei a ler o livro e suas primeiras páginas), que permearia frases do tipo “Por que eu tinha me metido com essa gente, mesmo? Ah, claro. Minha vida inteira é uma história de decisões catastróficas tomadas pela cabeça do meu pau” (Magnus) ou “E assim levo adiante os meus dias, entre pensamentos circulares e obsessivos sobre sexo e suicídio” (o polonês Zbigniew, outro funcionário dos tours mal assombrados)

[4] Esse mesmo segmento, que narra uma das festas da casa de Stuart tem uma sequência de cenas escatológicas, em que o vômito é a tônica dominante, e mesmo assim o danado do Pellizzari hipnotiza a empatia do seu leitor.  Outro momento difícil de ser narrado, em sua comicidade potencial (e também a involuntária) e maravilhoso em sua realização, é a do sacrifício de Patricia por Demetrius.

[5] E com a presença (virtual ou efetivada) da violência física.

[6] Porque o tom do livro é a apropriação paródica (e não o pastiche) dos discursos dessas pessoas “dançadas”.

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