MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/08/2013

POUCO ANTES DO DILÚVIO: o universo de Isaac Bashevis Singer


 

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(resenha publicada originalmente  em 07 de dezembro de 2010, em A TRIBUNA de Santos, sem a citação inicial e as notas de rodapé):

“…quando finalmente resolvi atender o telefone, ouvi uma voz desconhecida que tossia e gaguejava como alguém que não sabe por onde começar. Dizia o sujeito:  Sou um leitor fiel seu. Comecei a ler suas narrativas muito antes de o senhor se tornar conhecido. Seria uma grande honra para mim se… O homem do outro lado da linha perdeu a fala.

   Convidei-o a subir a meu quarto e dez minutos depois ele estava batendo na porta…”

A moldura narrativa de O produtor cultural”, 11ª  das 20 narrativas de A morte de Matusalém e outros contos (The death of Methuselah and other stories, traduzido por  Alexandre Hubner), transcorre no Brasil e reitera um esquema que domina a maioria das situações do livro: alguém conta uma história para o autor, Isaac Bashevis Singer (1904-1991): em O produtor cultural e Uma vigia no portão são encontros com desconhecidos durante uma viagem; em A cilada e O contrabandista são pessoas que o visitam em seu apartamento; em O amigo da casaPresentesFugindo para lugar nenhum e A linha extraviada são conversas em cafeterias e clubes de escritores.

Neles todos, delineia-se o universo dos judeus poloneses que submergiu na Segunda Guerra, junto com a língua iídiche. Não se pode esquecer também de O denunciante e o denunciado, que é uma variação enviesada do esquema básico, pois trata-se de uma anedota envolvendo conhecidos do autor.

Geralmente são narrados infernos passionais, em meio a uma cultura sufocante em seus valores rígidos, quer nos rincões já remotos do leste europeu, quer nos lugares pós-imigração em massa devido ao antissemitismo europeu que resultou naqueles horrores que conhecemos{[1]}.  Particularmente notáveis são O amigo da casa, no qual se fala do amante que é tolerado e muitas vezes incentivado pelo marido (o que ganha uma variação brilhante em “A cilada”{[2]}) e Uma vigia no portão, em que Singer nos revela a patologia do ciúme machista: “quando me dava conta de que tinha duas filhas que estavam crescendo e que um dia seriam tão dissimuladas quanto as outras mulheres, tinha vontade de matá-las também…”

Também há as histórias em que tias pretéritas “fofocavam” nas reuniões de família, contando casos de paixões inusitadas, como a do gênio matemático que abandona um casamento triunfal, em Logaritmos, ou o nobre russo degredado que se apaixona por uma estúpida criada, a ponto de casar-se com ela, moribunda, após ser desfigurada por um incêndio, em Deslumbrado. Em outros momentos, há uma primeira situação que engendra a narrativa da situação principal, como a do trio de presos em Enterro no mar (no qual uma garota foge com dois homens, seus dois “maridos”), e o grupo de desocupados, em O recluso (outra história forte de machismo e possessividade).

Talvez, pelo exotismo, as narrativas “diretas” que chamem mais atenção sejam as que mostram fantasias sobrenaturais mergulhadas no imaginário judaico, como o curandeiro arrebatado por demônios, em O judeu da Babilônia {[3]}, os habitantes do inferno que apresentam suas reivindicações, em Shabat na Geena ou o personagem do conto-título, na véspera da sua morte aos 969 anos, que tem sua última tentação de luxúria. Eu, porém, sem desdenhar dessas narrativas, prefiro os maravilhosos contos mais pé-no-chão, como Disfarçado, a história de um marido que desaparece; quando a mulher cai no mundo para descobrir seu paradeiro, descobre que ele vive com outro homem, travestindo-se para enganar a comunidade onde se instalaram; A amarga verdade, na qual após uma separação de anos, por conta da guerra, o protagonista descobre que seu melhor amigo, um casto paspalhão, casou-se com uma das mais desavergonhadas prostitutas que ele freqüentara; e O hotel, em que a um velho negociante, que espera a morte em vida, aposentado em Miami,  é ofertada a chance de ainda se sentir vivo, tomado pela “força que tem a última palavra: o desejo, que nos faz amar, pecar, que nos consome, mas sem o qual não entendemos o que é viver.

 

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[1] “A própria criação do homem foi uma decepção para Deus. Ele teve de destruir sua obra-prima, que havia se corrompido. Segundo o Talmude e o Midrash, a corrupção era de ordem totalmente sexual. Pouco antes do dilúvio, até os animais tinham um comportamento sexual pervertido…”

[2] Este conto é todo ambientado nos EUA, embora os personagens sejam refugiados judeus da Europa.  A narradora (que está conversando com o autor), Regina Kozlov, conta que conheceu o marido quando era camareira de um hotel, “um dia eu era camareira e poucos dias depois estava noiva e prestes a tornar-me a senhora Kozlov”, condição que descobre não ser nada agradável: “Foi uma vida extremamente solitária desde o princípio. Boris acordava todos os dias às sete em ponto. Tomava sempre o mesmo café da manhã. Tinha úlcera, o médico o obrigara a seguir uma dieta, da qual não se desviava nem um milímetro. Deitava-se às dez da noite, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Não trocou a cama de solteiro por uma de casal, pois queria esperar o momento de comprar uma casa. Vivíamos entre judeus. Tinha eclodido a guerra (…) Era um daqueles homens antiquados que achavam que a única finalidade do casamento era ter filhos. Como não podíamos tê-los, as relações sexuais eram supérfluas”. Um dia, ela solta um chiste, após o marido (que mexia com ações) afirmar que as ações das petroquímicas “chegaram ao fundo do poço”: “Não sei por quê, mas comentei: Então estão como eu”. Boris traz, então, o filho de uma irmã que vivia em Londres e que veio estudar nos EUA, para a casa deles: “Minha primeira reação ao saber das novidades foi de alegria. Não agüentava mais aquela solidão. Deus deve ter ouvido as minhas preces, pensei. Mas logo ficou claro para mim que o Boris tinha, à sua maneira conspiratória, arquitetado aquele plano todo. Homens como ele são por natureza impelidos a fazer planos com muita antecedência e a executá-los meticulosamente. Apesar das acusações que fazia a Stálin, chamando-o de asiático sanguinário, de Gêngis Khan do século XX, Boris sempre me pareceu ser ele próprio um Stálin. Nunca sabemos o que se passa pela cabeça de pessoas assim. Vivem urdindo intrigas vingativas…” E acontece o inevitável: a narradora e o sobrinho do marido, Douglas (14 anos), se tornam amantes, com a complacência do marido: “Um ou dois dias após a chegada de Douglas, Boris começou a ir para o escritório todas as manhãs, e eu sabia que não era por acaso. Às vezes tinha vontade de perguntar-lhe: Qual o sentido de tudo isso? Mas sabia que ele não me diria a verdade. Junto com o amor pelo rapaz, eu era acometida por um temor silencioso, o receio de cálculos frios e maquiavélicos. Tinham-me preparado uma cilada, e eu estava fadada a cair nela…”

    Ela nunca fica sabendo se os dois, tio e sobrinho, estavam mancomunados.  Douglas anuncia que foi aceito por uma faculdade não em Nova York, porém no Meio-Oeste, propõe a ela uma “noite de despedida” e ela se recusa (“A última noite a pessoa precisa passar consigo mesma”, diz a ele). Quando ele se vai, ela se atira do quarto andar: “Quebrei os braços. Quebrei as pernas. Fraturei o crânio, e os médicos tentaram colar os pedaços. Continuam tentando… Não vou viver mais muito tempo. Só vim para dizer ao senhor uma coisa: de todas as esperanças que um ser humano pode cultivar, a mais esplêndida é a morte. Senti o gosto dela, e quem quer que tenha experimentado esse êxtase não pode senão rir dos outros pseudoprazeres…” O interlocutor replica dizendo que é raro que alguém queira apressar o momento de desfrutar dessa “suprema alegria” que é a morte. E ela responde: “A espera faz parte da alegria”.  E Boris e Douglas: “Nunca mais tive notícias nem dele nem do sobrinho”.

 

[3] “Era evidente  que os maus espíritos o estavam dando em casamento a um demônio-fêmea. Aterrorizado, e reunindo o que restava de suas forças, ele conseguiu exclamar: Shadai, destrua Satã, Shadai!

       Tentou fugir, porém seus joelhos fraquejaram. Foi cingido por braços compridos, que o beliscavam, puxavam, faziam-lhe cócegas e o socavam como se ele fosse massa de padeiro. Agarravam-se a seu pescoço, beijavam-no, acariciavam-no, violentavam-no. Espetavam-no com seus chifres, lambiam-no, afogavam-no em baba e saliva. Uma giganta o estreitou contra seus seios nus, depositou todo o peso de seu corpo sobre ele e suplicou: Não me envergonhe, Kaddish, diga: Com este anel negro, caso-me contigo, segundo a blasfêmia de Satã e Asmodeu”

 

   

   

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