MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/07/2013

ESTRELA CADENTE: Roberto Bolaño, o visgo da literatura e o desgaste da aura de um autor

A meus amigos Miguel Loureiro e Maria Valéria Rezende, antípodas quanto ao assunto.

De la violencia, de la verdadera violencia, no se puede escapar, al menos nosotros, los nacidos em Latinoamérica en la década de los cincuenta, los que rondábamos los veinte años cuando murió Salvador Allende”… (El ojo silva, em Putas asesinas, Roberto Bolaño)

Em 1968, enquanto os estudantes erguiam barricadas e os futuros romancistas da França quebravam com tijolos as janelas de suas escolas ou faziam amor pela primeira vez, ele decidiu fundar a seita ou o movimento dos Escritores Bárbaros. Assim, enquanto alguns intelectuais saíam de suas casas para ocupar as ruas, o ex-legionário se fechou em seu cubículo de zelador da rue Des Eaux e começou a dar forma à sua nova literatura. A aprendizagem se fazia em dois passos aparentemente simples. O confinamento e a leitura (…) O segundo passo era mais complicado. Segundo Delorme, era preciso se fundir com as obras-primas. Isso se obtinha de uma forma bastante curiosa: defecando sobre as páginas de Stendhal, assoando o nariz com as páginas de Victor Hugo, masturbando-se e espalhando esperma sobre as páginas de Gautier ou Banville, vomitando nas páginas de Daudet, urinando sobre as páginas de Lamartine, cortando-se com lâminas de barbear e fazendo respingar o sangue nas páginas de Balzac ou Maupassant, submetendo os livros, enfim, a um processo de degradação que Delorme chamaca de humanização. O resultado, depois de uma semana de ritual ´bárbaro´, era um apartamento ou quarto cheio de livros destroçados, sujeira e mau-cheiro onde o aprendiz de escritor se punha a boquear relaxadamente, nu ou de shorts, sujo e convulso como um recém-nascido ou, mais precisamente, como o primeiro peixe a ter decidido dar o salto e viver fora da água…” (trecho de ESTRELA DISTANTE)

Antes de abordar de modo específico ESTRELA DISTANTE (Estrella distante, 1996, na tradução de Bernardo Ajzenberg), quero compartilhar um dilema com meus leitores: considero Roberto Bolaño (1953-2003) um grande escritor, mas tirando suas obras monumentais, Os detetives selvagens & 2666, e com a exceção de A pista do gelo e de alguns contos, a maioria do que ele escreveu pode ser considerada ruim, incluindo o romance de que ora me ocupo. Cada título publicado no Brasil parece diminuir a “aura” do escritor. A pista do gelo (do qual talvez eu goste mais por ter lido na sequência e embalo de Detetives selvagens), Noturno do Chile, Amuleto, Estrela distante (durante muito tempo mantive uma posição ambivalente sobre estes dois últimos, não me atrevendo a achá-los fracos, mas já decepcionado), Monsieur Pain (este, especialmente tosco), Putas assassinas, Chamadas telefônicas. Tenho agora a impressão de ouvir um samba de uma nota só, de que cada livro só consegue resistir a uma impressão crítica mais forte, evocando-se os livros maiores e o conjunto da obra, e que ao fim e ao cabo a literatura foi um visgo que prendeu Bolaño e contaminou irremediavelmente sua visão sobre a vida e os fatos históricos. Ele parece incapaz de refletir sobre (e narrar o) mundo sem o recurso de aludir a movimentos literários, a querelas entre literatos. A literatura parece um muro de Berlim. Quando ela adquire proporções ciclópicas, no caso dos dois romances já citados (Detetives selvagens & 2666), todos ganhamos com isso. Nos romances “menores”, a impressão que se tem é que Bolaño patina na falta de assunto e revela-se incapaz, na maior parte das vezes, de escrever uma narrativa que forme um todo.

Como já é de conhecimento amplo, ao se saber irremediavelmente doente, talvez condenado, ele passou a escrever e publicar de forma ininterrupta, nos dez anos que precederam sua morte precoce. Foram lançados tanto livros de escritura mais antiga (como Monsieur Pain, que é do começo dos anos 1980, mas publicado em 1999) quanto os livros que ele ia escrevendo.

ESTRELA DISTANTE é de 1996. Como o próprio autor alega, esse pequeno romance desenvolve um dos capítulos de La literatura nazi en América, espécie de história universal da infâmia, em que ele traça minibiografias ficcionais. Daí surge a figura do poeta de vanguarda que também é militar e torturador. E um serial killer, que se compraz no assassinato de mulheres (como as delicadas irmãs poetas que ele visita e executa, uma das quais, aliás, sua amante), e que depois fotografa o resultado dos seus crimes.

Assim como Bolaño se duplica em Arturo Belano e aposta seu destino na literatura, mais especificamente na poesia, Alberto Ruiz-Tagle se duplica em Carlos Wieder (aliás, depois ele vai se multiplicar em heterônimos, avatares e codinomes), que faz a mesma aposta, apesar de que a “poesia”, no seu caso se multiplica também em outras formas de expressão (o assassinato, a aviação, a fotografia).

É preciso dizer que para alguém que teve de se haver com o golpe contra o presidente Allende e a ditadura militar de Pinochet durante toda a sua carreira literária, foram poucos os resultados “felizes”,pois obras “chilenas” como Noturno do Chile estão longe de ser interessantes como as mexicano-espanholas.

Mesmo assim, dessa vez ele tinha tudo para acertar, já que a vinculação nazismo-a poesia como expressão da morte, ao invés de exaltação da vida—o golpe militar no Chile, cristalizada na figura de Wieder, era fascinante.

Além do mais, a tessitura da narrativa, em que os fatos são relembrados via terceiros muitas vezes, e portanto é um “ouvi dizer”, um”pode ser que tenha sido assim”, ou seja, adquire-se um tom conjectural, hipotético, muito adequado a uma figura fugidia, evasiva, ajudaria muito a manter o ar evanescente e misterioso da “estrela distante” Carlos Wieder: “Tudo o que se relatou talvez tenha sido assim mesmo. Talvez não. Pode ser que os generais da Força Aérea Chilena não tenham levado suas mulheres. Pode ser que o aeródromo Capitán Lindstrom jamais tenha sido cenário de um recital de poesia aérea. Talvez Wieder tenha escrito seu poema nos céus de Santiago sem pedir autorização a ninguém, sem avisar ninguém, embora isso seja menos provável. Talvez naquele dia nem tenha chovido sobre Santiago, embora haja testemunhas (gente ociosa que olhava para o céu num banco de praça, solitários debruçados numa janela) que ainda se lembram das palavras no céu e, depois, da chuva purificadora. Mas talvez tudo tenha ocorrido de outra maneira. Em 1974, as alucinações não eram pouco frequentes…”

E também seria pertinente, nesse caso, o exame dos grupos literários, das oficinas de poesia, das trajetórias dos candidatos a poeta da época, em face aos acontecimentos políticos e ao destino chileno.

Porém, após um primeiro capítulo estupendo, ESTRELA DISTANTE patina em todos os vícios bolañescos, sem que haja uma estrutura grandiosa que os absorva, como o caso do irregularíssimo mas poderoso Os detetives selvagens. Há, é claro, momentos incríveis, pois como já disse, não vou deixar de achar Bolaño um grande escritor, mas todos são comprometidos por uma amorfia narrativa, por uma contaminação de tudo pela literatura (no pior sentido), que chega a ser irritante a leitura. Quando aparece o policial Abel Romero e engaja Belano numa investigação do paradeiro de Wieder na Europa, o livro degringola de vez, a meu ver.

Mesmo assim, prefiro ESTRELA DISTANTE mil vezes a Amuleto e principalmente a Noturno do Chile, que considero intragável. Mas será que se não existissem Detetives selvagens ou 2666 alguém ainda daria atenção maior a esses textos, será que eu teria essa postura ambivalente, tendendo à condescendência? Eis o meu dilema, leitor.

Sob o signo de Bauman (ficções da modernidade líquida): A PISTA DE GELO e o cadáver da poesia

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2007)

Nome de grande repercussão no momento literário atual, apesar de sua morte prematura em 2003 (aos 50 anos), o chileno Roberto Bolaño   tem sido vítima da pressa com que críticos e resenhadores procuram ou corresponder ao interesse suscitado por sua obra ou se apropriar dela para fins de mapeamento do panteão artístico contemporâneo, sempre necessariamente uma paisagem na neblina porque feita de apostas.

Temos afirmações fundadas na facilidade: seu ciclópico Detetives Selvagens  já foi apresentado, e isso é repetido sem qualquer revisão, como o romance que Borges escreveria, só porque seus protagonistas são poetas e porque ele trata de uma das vanguardas poéticas dos anos 70; Francisco Goldman, em “The New York Review of Books”, afirma sobre A Pista de Gelo (“La pista de hielo”, 1993,  tradução de Eduardo Brandão) que a história “envolve a descoberta de um misterioso corpo nu que se descobre pertencer a um poeta”. Na verdade, o cadáver encontrado nesse romance de estréia de Bolaño é o de uma velha mendiga numa cidade balneária da Catalunha. Ela vivera certo tempo no camping onde trabalha clandestinamente o poeta e narrador Gaspar Heredia (o qual fica bem vivinho ao longo da narrativa e tem uma biografia parecida com a do seu criador, que depois de viver muito tempo no México, liderando inclusive um movimento de vanguarda, tornou-se um imigrante ilegal na Espanha, sobrevivendo em subempregos) e acaba assassinada numa grande propriedade à Xanadu do Cidadão Kane na qual há uma pista de gelo construída por meio do desvio de verbas públicas por Enric Lesquelles (nada que diga respeito a nós brasileiros), assessor da prefeita da cidade e um dos três narradores (o outro é Remo Morán, dono do camping que emprega o poeta), para sua amante, Nuria, uma patinadora que fora cortada da seleção e que, tentando uma volta triunfal, precisa de um lugar para treinar (ela também é amante de Morán).

Se pensarmos mais a fundo na arquitetura simbólica de A Pista de Gelo, talvez o errôneo resumo da história feito por Francisco Goldman não seja tão absurdo, se o aceitarmos como imagem: temos a morte da poesia (e, portanto, a morte simbólica do poeta), questão ampliada de forma alucinante em Detetives Selvagens (uma obra-prima que continua me desafiando  a comentá-la), que trata da obliteração de dois poetas ao longo das últimas décadas; um deles, aliás, a certa altura começa a escrever ficção, e esse ato parece mais uma capitulação, entre muitas, à realidade circundante (e por circundante entenda-se claustrofóbica). Em A Pista do Gelo parece que Remo Morán tem como fito domesticar Gaspar Heredia com o empreguinho que oferece a ele, selvagem colega de profissão (Morán também escreve). Assim como com relação à Arturo Belano e Ulises Lima, cultuadores incultos da sua arte, nunca se menciona um poema, um único verso de Heredia, que lhe dê substância como poeta. Ele apenas é apresentado como tal e cada vez mais se patenteia a insubstancialidade de sua “identidade” poética (diga-se de passagem o rasgo poético mais convincente do livro inteiro é a construção da pista por Enric).

No final, triunfa o mundo da intrigas, do enredo prosaico, que Bolaño parece tão bem mimetizar nesse romance, para depois parodiá-lo e triturá-lo em Detetives Selvagens e Noturno do Chile, seus outros livros publicados no Brasil.

09/07/2013

Destaque do Blog: A obra-prima de uma autora incomum (“Breathing Lessons-Lições de Vida”, de Anne Tyler)

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de julho de 2013)

Um quarto de século atrás, coroando uma década gloriosa na produção de Anne Tyler, aparecia Lições de Vida, com o qual ganharia o Pulitzer[1].

Porém, o lançamento do livro pela Novo Conceito demonstra à exaustão a lamentável sabotagem que ela sistematicamente vem sofrendo no Brasil, a forma apelativa como se sugere tratar-se de uma auto-ajuda ficcional ou de “ficção para mulheres”: não bastasse a editora veicular a falsa impressão de que o livro é recente, sem a menor indicação da publicação original (o leitor incauto pensará que é de 2012), na poluidíssima capa lemos sobre a romancista de A Passagem de Morgan (1980), Refeição no Restaurante da Saudade (1982) e O Turista Acidental (1985): “autora best seller pelo The New York Times”! E embaixo do título: “Uma viagem inesperada aos sentimentos há muitos esquecidos…”! Ninguém merece, como se diz.

A falta de uma revisão decente sabota igualmente a tradução de Denise Tavares Gonçalves (em geral, boa; a anterior, lançada pela Imago e realizada por Wilma Freitas Ronald de Carvalho me irritou porque, entre outras coisas, custou a se decidir quanto ao sexo da criança que é neta do casal central), com erros crassos: num dos recuos temporais da narrativa (cuja espinha dorsal transcorre num dia), evocando a escolha profissional da protagonista (cuidadora de idosos), temos pacientes macróbios que comentam “a nevasca de 1988 ou a de 1989” (pág.104), o que é inverossímil, claro, nos anos 1950 (eles evocam a nevasca de 1888 ou a de 1889)!; no diálogo a respeito dos cada vez menores trajes de banho femininos utilizados na praia: “Ah, está ficando impossível. Eu estou me virando com meu velho terninho até a moda terminar” (pág. 218)!!!?? E a frase: “Tinha um estilo nasal e inexpressivo de cantar que fazera [sic] parecer que ele estava cantando” (pág.250)!!??  O que Camila Fernandes e Tamires Cianci (respectivamente, a preparadora e a revisora do texto como pomposamente nos informa a editora) estavam fazendo enquanto Lições de Vida era reeditado no Brasil?

Já é uma infelicidade o título adotado para Breathing Lessons (em Portugal foram mais criteriosos: Exercícios de Respiração)[2]. O significado decorre de um episódio: ao assessorar a nora Fiona durante a gravidez, a intrometida Maggie Moran insiste em que ela faça uso do que aprendeu nos cursos preparatórios para o parto, recebendo uma resposta atravessada: “Aulas de respiração, por favor! Será que eles não acham que, a esta altura, eu já sei respirar?” [3]

Anne Tyler coleciona contingências e detalhes em seus textos, e eles nunca são “a mais”: aqui vemos que todo um repertório de aconselhamentos, de fórmulas, de receitinhas de como viver bem a vida em todos os seus aspectos, muitas vezes não funciona e não auxilia ninguém a “respirar melhor” nesse mundo de colisão de afetos e gerações, de padrões emocionais circulares, que fazem com que cometamos os mesmos erros.

Nem por isso Maggie desiste. Para exasperação do sisudo Ira (há 28 anos casado com ela), no dia em que eles saem de Baltimore para a cerimônia fúnebre do marido de uma antiga amiga, encasqueta de visitar (em outra localidade mais ou menos próxima) Fiona, a nora, há anos separada do filho, Jesse, para tentar reconciliar o jovem casal, e principalmente tornar a ser uma presença próxima na vida da neta, com quem não têm mais contato —por culpa daquele desencontro entre as “aulas de respiração” e o estado emocional, muitas vezes desorganizado e irracional, tão contumaz nas relações familiares, que faz com que entremos em atrito pelos motivos mais estapafúrdios e insignificantes, as famosas picuinhas.

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Além do passado que emerge nesse modesto “on the road”, o leitor vai se dando conta de que o casal Moran é tão real quanto qualquer pessoa que conheça. Os dois são inesquecíveis. Curiosamente, no final dos 40 anos (ela) e no começo dos 50 (ele), já são daquelas figuras que se cristalizaram como “pessoas de idade”, “avós”, que rapidamente queimaram (em torno da percepção que se tem deles, pelo menos) o estágio “the middle ground”, a geração do meio (como no título do romance de Margaret Drabble)[4], de todo modo uma geração descompensada, sempre meio em passo falso.[5] Quando Serena, a amiga que fica viúva, lhe diz que entrou na menopausa: “__Acredite, eu nem me preocupei. Ah, que bom, disse para mim mesma. Mais uma coisa da qual me desprender.   

           Maggie disse:

__ Eu não sinto que esteja me desprendendo; sinto que estão tirando as coisas de mim. Meu filho está um homem e minha filha está indo embora para a faculdade, e na casa de repouso estão falando em dispensar alguns funcionários…”

Em diálogos nunca menos do que primorosos, acompanhamos uma travessia pelas circunstâncias (mais do que escolhas) que moldaram o destino de ambos, numa ciranda que oscila maravilhosamente entre Bergman e a melhor sitcom (penso na encantadora e inteligentíssima The Middle, por exemplo), embora haja uma sequência —quando eles dão carona a um senhor negro—quase beirando o teatro do absurdo (na segunda parte, um ponto alto do romance, momento em que ela adota o ponto de vista de Ira). E quantas cenas incríveis, como aquela em que Maggie abre o coração com a garçonete de uma biboca da estrada, e quase que podemos medir o aborrecimento do seu cauteloso cônjuge. Aliás, para dar uma ideia do quanto de “turista acidental” tem o sr. Moran: “Ira ficou s perguntando por que Maggie sempre tinha de convidar outras pessoas para dentro da vida deles. Ela não achava que um mero marido era suficiente, ele desconfiava. Dois não era um número satisfatório para ela. Ele lembrava os desgarrados que ela havia abrigado ao longo dos anos (…) Em seu humor atual, Ira pensou que poderia incluir seus próprios filhos também, pois Jesse e Daisy não eram também estranhos? Interrompendo seus momentos mais íntimos, pondo-se entre eles dois? (É difícil acreditar que algumas pessoas tinham filhos para segurar o casamento).”[6]

Mesmo que conflitos em família sejam o que há de mais batido, sabe-se lá por qual milagre Anne Tyler faz tudo parecer novo e interessante. Talvez porque poucos como ela sabem equilibrar o gosto pelo que o cotidiano tem de mais pesadamente banal, com a capacidade de fazer sobressair o lado precário e insubstancial de toda essa materialidade, em redor da qual nos movimentamos. Isso ajuda a explicar a ênfase negativa que a palavra “comum” (na tradução anterior, “vulgar”, que não me parece reproduzir bem o escopo de preocupações tylerianas) adquire na boca da filha e da mãe de Maggie, que olham sua vida e perguntam acusadoramente como ela deixou tudo se tornar “tão comum”.

Como no final da primeira parte (Ida e Maggie foram flagrados num ato constrangedor durante as exéquias em razão das quais se deram ao trabalho de sair do seu ramerrão): “Um carro passou zunindo e Ira trocou de lugar com Maggie, colocando-a mais distante do trânsito. Agora, caminhavam ligeiramente separados, sem se tocar. Haviam voltado ao normal. Ou quase. Não totalmente. Alguma réstia de luz ou calor embaralhava a visão de Maggie e a velha casa de pedra diante da qual eles passavam pareceu tremeluzir por um momento. Ela se dissolveu numa névoa fina e brilhante, em seguida reestruturando-se e voltando a ficar sólida[7].

Lições de Vida é esse constante vaivém entre dissolução e reestruturação. E vinte e cinco anos depois continua a ser uma obra-prima. E Anne Tyler uma escritora incomum.

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TRECHO SELECIONADO

Uma das coisas que mais adoro em Lições de vida é a maneira como a bem-intencionada mas trapalhona Maggie espalha confusão à sua volta ao “interpretar” coisas que as pessoas disseram ou teriam dito, “no fundo”. É assim que ela garante que Fiona não aborte, ao comentar a intenção de Jesse de criar o filho, e do berço que ele “planejava montar ele mesmo”. Dispersivo e volúvel, Jesse tinha falado de montar um berço, mas esquecera há muito tempo.

Para convencer Fiona, Maggie pega umas peças avulsas de Ira (que está montando um varal ou coisa que o valha) e as apresenta como se fossem do berço em processo de montagem. Essa estratégia é utilizada inúmeras vezes e sempre termina em desastre:

“Fiona disse a Jesse:

__ Eu estava lá em cima caçando a minha saboneteira.  

  Maggie hesitou.

__ Saboneteira?—Jesse perguntou.

__ Eu tentei a gaveta da cômoda mas está vazia. Só achei naftalina. Você levou a minha saboneteira junto quando mudou para o seu apartamento? __ De que saboneteira você está falando?

__ Da minha saboneteira de tartaruga! Aquela que você guardou.   

Jesse olhou para Maggie. Maggie disse:

__ Lembra-se daquela saboneteira?

__ Bom, não, não posso dizer que lembro—Jesse disse, puxando um cacho da franja, como sempre fazia quando ficava intrigado.

__ Você a guardou depois que ela foi embora—Maggie disse a ele—Eu a vi com você. Tinha um sabonete dentro, lembra? Um sabonete claro, quase transparente.

__ Ah, sim!—Jesse disse, soltando a franja.

__ Você lembra?

__ É claro.   

  Maggie relaxou. Ela deu um largo sorriso para Leroy, que havia abaixado o pé e parecia insegura.

__ E onde ela está?—Fiona perguntou—Onde está a minha saboneteira, Jesse?

__Hum… a sua irmã não levou?

__Não.

__ Eu achei que ela tinha levado junto com as suas coisas.

__ Não—Fiona disse—Ela estava na sua cômoda.

__Nossa, Fiona—Jesse falou—Nesse caso alguém deve ter jogado fora. Mas olhe, se ela significa tanto para você, eu terei o maior prazer…

__Mas você a guardou para se lembrar de mim—Fiona disse—Ela tinha o meu cheiro! Você fechava os olhos e enfiava o nariz na minha saboneteira.   

O olhar de Jesse voltou-se para Maggie novamente. Ele disse:

__ Mãe? Foi isso que você disse a ela?

__ Quer dizer que não é verdade?—Fiona perguntou a ele.

__Você disse que eu fiquei por aí cheirando saboneteiras, mãe?

__ Você ficou!—Maggie disse. Embora ela odiasse ter que repetir aquilo na cara dele. Não tinha a intenção de envergonhá-lo. Ela virou-se  para Ira (que tinha exatamente a mesma expressão de choque e repreensão que ela esperava) e disse: Ele a guardou na gaveta de cima (…)

__ O que você acha que eu sou? Algum perdedor?—Jesse perguntou a Fiona.

__ Escutem aqui—Ira disse.    Todos pareceram contentes em olhar para ele.

__ Vamos esclarecer isso—ele disse—Vocês estão falando de uma saboneteira de plástico.

__ Da minha saboneteira de plástico—Fiona disse a ele—com a qual Jesse dorme toda noite.

__ Parece haver algum engano—Ira disse—Como é que a Maggie saberia de uma coisa dessas?”

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[1]  Foi a época em que a Imago diversos títulos da autora (que depois teria alguns títulos editados pela Mandarim, e depois pela Record; a Companhia das Letras lançou uma tradução de Quase Santo). Na época do lançamento de Lições de Vida fazia sucesso a linda versão cinematográfica de Lawrence Kasdan para O turista acidental. Eu já lera o romance e, ao saber do elenco (antes de ver o filme), achei estranhíssima a escolha de William Hurt e Kathleen Turner para os papéis centrais. No caso dela, foi de fato um equívoco, mas o grande Hurt tem possivelmente o maior momento da sua carreira. E até hoje, tirando o fascínio inesgotável por Corpos Ardentes, considero O turista acidental o melhor trabalho de Kasdan como diretor.
[2] Anteriormente, já tinham traduzido  o belo título original A PATCHWORK PLANET (1998) como O jogo da vida  (Mandarim, 2000).
[3] Em outro passo:
“__ Querida, acho que você não está respirando corretamente—Jesse disse a ela.
  Fiona disse:
__ Para de falar da minha respiração! Eu respiro do jeito que quiser.”
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[4] Esse “envelhecimento”, por assim dizer, de pessoas já maduras, mas não velhas, por conta da condição de avós, era uma realidade mais palpável à época do lançamento do romance; mas, pensando bem, ainda hoje encontramos exemplares parecidos com os Moran, pessoas que parecem já ter completado o ciclo das suas vidas, e ficam em frente da televisão vendo a família crescer e multiplicar.
[5]  Até hoje, essa geração do meio não conquistou realmente nem o prestígio e status da Terceira Idade (pelo menos, é o que se apregoa; se é fato…) e nem a ascendência que a adolescência, em todos os seus aspectos, adquiriu na cultura ocidental.
[6] Diga-se de passagem, a família de Ira é tão esquisita e disfuncional quanto a do protagonista de O turista acidental. Tyler nunca cai no erro de querer transmitir o cotidiano através de famílias “normais”, “típicas”. Num passeio no qual, caracteristicamente, tudo dá errado: “A neblina amarrava-os juntos, trancava-os lá dentro, e as mãos de suas irmãs o arrastavam para baixo, como as vítimas de afogamentos arrastam quem tenta resgatá-las. E Ira pensou: Ai, meu Deus, estou preso nesta armadilha com estas pessoas por toda a vida…”. Mais adiante na narrativa, porém: “Ele soube, então, qual era o verdadeiro desperdício; é claro, meu Deus. Não era ter que sustentar essas pessoas, mas deixar de perceber quanto ele as amava. Ele amava até seu desgastado, derrotado pai, até a memória de sua pobre mãe, que sempre fora tão linda e nunca percebera isso, pois sempre que se aproximava de um espelho, ela puxava um lado da boca para cima, desfigurada pela timidez. Entretanto logo em seguida essa sensação se desfez (provavelmente no instante seguinte, quando Junie começou a implorar para ir embora) e ele esqueceu o que havia aprendido…”
[7]  Há um momento que serve quase como uma síntese dos seus romances (dessa fase, pelo menos): “Um dia, quando voltei do mercado—Serena disse—Max não estava em casa. Era sábado e, quando eu saí, ele estava trabalhando no jardim. Bom, não dei muita importância para aquilo e comecei a guardar as compras. Então, de repente, eu olho pela janela e vejo uma mulher totalmente desconhecida conduzindo Max pela mão. Parecia que o guiava; dava para notar que ela pensava que ele tinha alguma deficiência ou coisa assim. Eu saí correndo para fora. Ela disse: Ah, ele é seu? Se era meu? Como quando um vizinho vem arrastando seu cachorro todo sujo e pergunta: Ele é seu? Mas eu disse sim. Acontece que essa mulher o encontrou vagando pela Rua Dunmore com tesouras de poda na mão, parecendo não saber para onde estava indo. Ela perguntou se poderia ajudar e tudo que ele disse foi: Não estou bem certo, não estou bem certo. Mas ele me reconheceu quando me viu. Seu rosto se iluminou e ele disse a ela: Lá está a Serena. Então, o levei para dentro e o fiz sentar. Perguntei o que havia acontecido e ele disse que tinha sido uma coisa muito estranha. Ele disse que, do nada, se viu andando na rua Dunmore. Então, quando a mulher o conduziu de volta por onde ele tinha vindo e ele viu nossa casa, sabia que era nossa, mas ao mesmo tempo era como se aquilo não tivesse nada a ver com ele. Ele disse que foi como se houvesse saído de sua própria vida por um minuto.  
    (…) Maggie tentava imaginar Max naquela nova versão—vago, aturdido e com os joelhos deformados, sem dúvida, como seus pacientes da casa de repouso. Porém só conseguia imaginar Max como sempre o conhecera, um jogador de futebol robusto com mechas de cabelo louro brilhante e uma cara larga, saudável e cheia de sardas; o Max que havia ficado nu ao surfar em Carolina Beach. No final das contas, ela o havia visto poucas vezes nos últimos dez anos; não era exatamente sua especialidade manter o emprego e ele havia feito sua família mudar de casa diversas vezes. Mas o que ficara na mente dela era a imagem de um eterno garotão. Era difícil imaginá-lo envelhecido.”
Outro momento maravilhoso e esclarecedor acontece quando a irmã de Fiona vem buscar as coisas dela na casa dos Moran e só leva o que é bom, descartando tudo o mais: “Maggie disse:
__Ah—e deixou a blusa de lado. Ela sentiu uma pitada de inveja. Não seria maravilhoso guardar somente  que era de primeira, puro e genuíno, e deixar para trás todo o resto?”
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08/07/2013

Um forte candidato a maior autor dos EUA: Saul Bellow

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de janeiro de 1998)

Seria difícil apontar o maior escritor dos EUA,por causa do número de grandes autores, contudo Saul Bellow apareceria como um dos mais fortes candidatos ao título.

A Rocco está lançando Trocando os pés pelas mãos e outras histórias (“Him with his foot in his mouth and other stories”), uma coletânea de cinco “novelas”—aquele velho termo infeliz, que só causa confusão, para designar um texto cuja extensão é maior do que a de um conto e menor do que a de um romance.

Trocando os pés pelas mãos é uma amostra (com altos e baixos) de temas recorrentes na obra de Bellow, como a incapacidade dos intelectuais de lidar com a vida, muitas vezes deixando-se arrastar para a abjeção, além do envolvimento com o submundo criminoso da sociedade (em duas histórias do livro são parentes que arrastam os narradores para esse submundo: o irmão na narrativa-título, e o primo na história intitulada justamente Primos). Outro tema importante, e incessantemente repetido pelo grande escritor judeu norte-americano, é a natureza ambígua da amizade e do afeto. Na coletânea, como em várias outras obras dele, os amigos se tornam acusadores, “testemunhas de caráter”, num sentido inquisitório e ressentido. O narrador de Trocando os pés pelas mãos põe-se a contar sua história por causa de uma carta venenosa de um velho amigo. E uma das histórias chama-se Zetland- Por uma testemunha de caráter.

Ainda temos o tema da civilização norte-americana, de seu desgaste, da sua abstração, apesar do materialismo triunfante, que faz dos protagonistas bellownianos inadaptados eternos, vistos sempre com desconfiança e desconforto, e condenados ao inferno da sua época e dos seus laços familiares (que ele sempre retrata com sarcasmo). Como diz o narrador de Primos, “posso dizer que estou preso num pequeno porto histórico, sem poder sair para o mar”.

Nenhum dos cinco textos do livro é perda de tempo, porém os melhores são, sem dúvida, o texto-título e Uma travessa de prata. Conseguem concentrar seus temas num curto espaço e são redondos, perfeitos. No primeiro, como já foi dito, uma carta de um velho amigo coloca em discussão o caráter do narrador (que está no Canadá, fugindo da Justiça estadunidense), a partir da discussão de um incidente, décadas antes, no qual ele teria sido grosseiro com uma bibliotecária; no segundo, o episódio do roubo de uma travessa de prata confronta pai e filho e, mais ainda, diferentes reações à cultura judaica e á cultura hegemônica protestante nos EUA.

Dois outros textos, Como foi o seu dia? & Primos alternam momentos fantásticos com momentos mortos. A impressão que se tem é que Bellow não conseguiu se decidir se iria amplificá-los num romance ou mantê-los nos limites da narrativa curta. Muita coisa transborda na história de Katrina, mulher suburbana e comum que arrisca a guarda dos filhos para se encontrar com seu amante, um intelectual extremamente prestigiado, com a proverbial sombra da morte pairando sobre ele (sem contar a não menos proverbial sombra do egocentrismo), e na história de Ijah Brodski, importunado com pedidos de ajuda de seus primos, um envolvido com a Máfia, e o outro, um pensador obscuro que acredita ter realizado uma revolução no pensamento humano.

São, para ser franco, os textos com os momentos mais envolventes e fortes do livro inteiro. Entretanto, o resultado final parece confuso, uma massa não totalmente trabalhada. E Zetland- Por uma testemunha de caráter parece um fragmento de um texto maior. O leitor fica frustrado ao ver que o texto se interrompe abruptamente.

Mesmo com esses percalços, prova de que Bellow não se sente inteiramente confortável em textos mais curtos, embora suas últimas obras (Um furto e A conexão Bellarosa, por exemplo) caminhem nesse sentido, sua prosa está muito acima do que se faz hoje em dia por aí. Agora esperemos que se publique no Brasil As aventuras de Augie March[1],seu livro mais prestigiado. Ou que se coloque em circulação novamente suas obras-primas Herzog, O planeta do Sr. Sammler & O legado de Humboldt (os quais eu li e reli apaixonadamente na primeira metade dos anos 1980), que estão há anos sumidos das livrarias.


[1] Nota de 2011: Isso só aconteceu em 2009, numa edição da Companhia das Letras que eu indiquei como o destaque entre as traduções daquele ano.

Um artesão genial das palavras e a respeitabilidade mental: Saul Bellow (1915-2005)

(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de abril de 2005)

“Eu tive consciência da influência de Ravelstein quando imaginei este perfil. É preciso admitir também que ele normalmente estava presente em acontecimentos diários. Isso se devia ao poder da sua personalidade. E também porque sua vida tinha mais estrutura interna do que a minha, e eu tinha me tornado dependente do seu poder de ordenar experiências… Muitas pessoas querem livrar-se dos seus mortos. Eu, pelo contrário, tenho uma tendência para me agarrar a eles. Minha persistente intuição, já deve estar claro nesta altura, é que eles não partiram para sempre… Eu sei que se perde a respeitabilidade mental quando se reconhece esse tipo de fantasia. Até eu, perceba, rendo-me às opiniões correntes. Mas pode haver explicações simples para a persistência de Ravelstein na minha vida diária. Quando ele morreu, eu comecei a ver que tinha se tornado meu hábito contar-lhe o que havia acontecido desde que nos víramos pela última vez…”

Saul Bellow, um dos grandes escritores contemporâneos, sério candidato a maior escritor dos EUA pós-Segunda Guerra,e outra perda (após Susan Sontag), se foi no dia 5 deste mês. Todavia—pelo menos no Brasil—os editores já anteciparam sua morte, uma vez que livros maravilhosos como Herzog (1964), O planeta do Sr. Sammler (1969) e O legado de Humboldt (1975)—difícil escolher o melhor dos três—,para não falar dos menos conhecidos Agarre a vida (1956), Henderson-O rei da chuva (1959) e Dezembro fatal(1985), entre outros, sumiram há muitos anos das livrarias e nunca foram relançados.

Felizmente, o livro que ele escreveu aos 80 e poucos anos (em 2000; Bellow nasceu em 1915), ainda demonstrando sua perícia como artesão das palavras, Ravelstein (em tradução de Léa Viveiros de Castro), o qual gira em torno de uma de suas obsessões (a discussão da natureza da amizade), permite que não haja um vazio em torno do comentário à sua morte. É o tributo de Chick, o narrador, a um amigo, que lhe pedira que escrevesse sua biografia.

Abe Ravelstein era um pensador carismático com uma polêmica carreira acadêmica (“as preocupações sérias de Ravelstein coexistiam, para tomar emprestada uma palavra da política do século XX, com sua bufonaria”) e que escrevera (por sugestão de Chick) um best-seller filosófico (foi o que aconteceu com o inspirador do personagem, Allan Bloom, amigo de Bellow e autor de O declínio da cultura ocidental).

Como acontece nesse tipo de romance, a pretexto de falar sobre o amigo, Chick acaba mesmo é revelando-se para o leitor (ele é o típico herói bellowniano, conforme já se mostrou aqui em outros artigos desta coluna, o introvertido junguiano: “Ele achava que eu estava preso na privacidade e que devia ser devolvido à comunidade—Muitos anos de introspecção—costumava dizer…”) e confrontando-se com sua própria mortalidade (Ravelstein já morrera devido a complicações trazidas pela AIDS): numa viagem consome peixe contaminado e, numa idade bem avançada, passa semanas na UTI entre a vida e a morte (fato que realmente aconteceu com Saul Bellow).

Embora seja um livro digno de seu autor, Ravelstein sofre certo esgotamento porque se imprime grande vitalidade à figura do amigo morto nas primeiras cem páginas (o livro tem duzentas e poucas) e depois não há personagens e situações (mesmo a aterradora experiência de Chick) que sustentem com a mesma intensidade a narrativa.

Por outro lado, é imperdoável que um escritor da categoria dele caia, mesmo numa formulação elegante, naquele velho clichê que envolve o transplante de coração: “Os órgãos são também repositórios das sombras ou dos impulsos assertivos, ansiosos ou alegres,conforme o caso, e estes tinham entrado no corpo de Herbst junto com o coração novo… Se fosse um transplante de rim ou de pâncreas, seria diferente. Mas o coração traz tantas conotações, ele é o centro das emoções do homem—sua vida mais elevada…”!!!??

Numa narrativa dominada por acontecimentos médicos (uma praga do nosso tempo), é preferível a visão do insubmisso Ravelstein: “…ele não gostava muito de médicos, eram os aliados da burguesia que tinha pavor da morte”.

O introvertido junguiano na ótica de Saul Bellow

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de setembro de 1999)

Sempre que leio um texto de  Saul Bellow me vem à mente uma frase do monumental Tipos Psicológicos (um livro que poucas pessoas se animam a ler, o que é uma pena, pois é uma experiência extraordinária), de Jung: “…o que tende para fora tem de viver o seu mito,o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real” (o que tende para fora= extrovertido; o que tende para dentro= introvertido).

A chamada vida real geralmente vem cobrar seu preço aos introvertidos protagonistas do autor de The actual- Presença de mulher (1997)—em tradução de Lia Wyler—,quebrando a auto-complacência deles de encontro aos aspectos mais sórdidos e degradantes da nossa existência, envolvendo-os em adultérios, divórcios, crimes e outros pecados.

No caso do protagonista-narrador de The actual, Harry Trellman esse encontro com a chamada vida real e seus aspectos menos “elegantes”, por assim dizer, acontecerá tardiamente por causa da sua peculiar relação com um milionário, Sigmund Adletsky, que utiliza em seu próprio proveito as observações de Trellman sobre o comportamento do rarefeito círculo de pessoas que eles conhecem.

Trellman, ao longo de sua vida, manteve-se apaixonado por Amy Wustrin (a qual casou com Jay, melhor amigo dele) e, a certa altura dos acontecimentos, ela começou a trabalhar para Adletsky, assessorando-o (como decoradora) na compra de imóveis.

A contraditória “presença” de Amy na vida de Trellman (realçada pelo mal escolhido título brasileiro) pode se constatada no seguinte trecho: “Objeto de amor seria o termo conveniente mais comum para indicar o que Amy se tornou para mim. Mas aonde isto leva? Suponhamos que, em lugar de dizer objeto de amor, disséssemos porta—que tipo de porta? Tem maçaneta, velha ou nova, lisa ou amassada, para onde abre? Investi nela meio século de sentimentos, fantasias, absorção, conversas imaginárias. Depois de quarenta anos de imaginação concentrada, sinto-me capaz de visualizá-la em qualquer momento de um determinado dia… Mas, uma vez, há uns dez anos, encontrei Amy inesperadamente e não a reconheci, a mulher com quem eu virtualmente mantinha um contato mental diário… Ela estava no mundo real. Eu não”.

O eixo do texto é um único dia, um dia gelado em Chicago, aquele em que Amy deve efetuar a transferência dos restos mortais do ex-marido (que comprara, numa brincadeira de mau-gosto, do pai dela, o túmulo ao lado da sogra). Antes, ela tem um compromisso com Adletsky, envolvido na compra de um novo apartamento. É ele quem sugere que Trellman faça companhia a Amy na sua desagradável tarefa no cemitério, possibilitando um dos mais inusitados pedidos de casamento da ficção.

E na narração desse dia de reencontro para Amy e Trellman emerge alguns desagradáveis  elementos que compõem a vida real, da qual ele sempre se sentiu “exilado” (mesmo em aparência: judeu, ele tem no entanto uma aparência “oriental”, lembrando para alguns um chinês e para Adletsky um japonês): Jay  Wustrin, o falecido, gravara as relações sexuais de Amy com um amante ocasional e usara as fitas no tribunal para deixá-la sem nada.

O apartamento cuja mobília Amy e Adletsky vão vistoriar e discutir o preço pertence ao casal Heisinger. Madge Heisinger tem no seu currículo anos de prisão como mandante da frustrada tentativa de homicídio contra o marido e pretende dar o dinheiro da venda para o amante que tentou efetivar o assassinato.

O próprio e finado Wustrin adorava mostrar a Trellman um marido cuja esposa ele já “traçara”. O início da curiosa ligação dangereuse entre Trellman e Adletsky teve como estímulo a discussão das humilhações sofridas por uma mulher distinta, Francis Jellicoe, que ambos admiram, em função da sua paixão por um marido imprestável que engravidara uma esquimó da Groenlândia…

Mesmo mantendo-se num plano quase ascético nessa área sentimental (ao contrário de alguns famosos protagonistas de Bellow, como os de Herzog & O legado de Humboldt), Trellman oculta certas irregularidades nos seus negócios que apenas ficam insinuadas na narrativa.

O toque de gênio de The actual, que evoca as maiores realizações do esplêndido autor de O planeta do Sr. Sammler, é que mostrando como o intrrovertido Trellman sonha a “vida real”, quase que a contragosto, ele também consegue mostrar os mitos que iludiram e tornaram teatral e falseada a vida de pessoas mais ajustadas, não-exiladas do jogo da existência social, como o próprio marido de Amy, e até ela mesma, como se pode constatar na cena em que Trellman não a reconhece na rua, apesar de ter pensado nela todos os dias durante décadas: “Para ela foi um golpe terrível… E quis dizer com isso que, se eu não a reconhecia, ela já não era a mesma pessoa. Ela, que anda se apresentava ou, como se diz, vendia a imagem que costumava ter, fora apanhada em uma impostura”.

Ou mais adiante: “Esta manhã Amy usava muita maquiagem, especialmente em torno dos olhos, onde precisava mais. Seu rosto redondo estava calmo, embora sua máquina de calcular interior estivesse funcionando em alta velocidade… era óbvio que ela ainda controlava a aparência; suas peculiaridades e faculdades estavam como reses no curral, sob suas vistas”.

05/07/2013

Um romance admirável de José Luiz Passos: “O sonâmbulo amador”

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“…entrementes ainda estamos vivos, todos nós, mesmo ele, o sonâmbulo; e na vida há sol, há ventos, rios correndo, ondas a estourar nas pedras. Isso não desperta o sonâmbulo, mas o agita (…) Certo, Manuel Bandeira fala de uma limpa solidão, ou alguém disse isso dele. Não creio. Solidão limpa só com vassoura e aspirador permanente: a solidão do homem é cheia de detritos, lembranças, pequenos fantasmas que são como objetos inúteis, quebrados, em um porão, nomes riscados em um caderno de telefones, teias de antigas aranhas.

    Mas por que lamentar o sonâmbulo? (…) Na verdade, temos outras coisas a fazer e desistimos tacitamente de jamais recuperar o sonâmbulo; vamos disfarçando, disfarçando até que um dia ele morra e então diremos sem muita hipocrisia: coitado.” (Rubem Braga, “O amigo sonâmbulo”, de Ai de ti, Copacabana)

“Sinto muito que meu relato seja tão caviloso…” (José Luiz Passos, Nosso grão mais fino)

 

o texto abaixo amplia a resenha publicada na FOLHA DE SÃO PAULO, em 19 de janeiro de 2013: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1216919-critica-autor-mescla-com-maestria-sonhos-e-existencia-em-livro.shtml

     Jurandir, em O Sonâmbulo Amador, narra sua “existência sonâmbula” num sanatório na Olinda dos anos 1960 (momento em que a presença dos militares, nas ruas e conversas, é cada vez mais visível). Difícil estabelecer uma linha fronteiriça entre  práticas cotidianas,  sonhos que redige ou relata para o psiquiatra,  reminiscências (as quais se transformam em anedota, para seu desgosto) que compartilha com outros internos e um enfermeiro,  Ramires, além de um vago sentido de missão heroica, de resolver uma questão trabalhista em favor de um operário acidentado na tecelagem onde trabalhou quase toda a vida (está à beira da aposentadoria).

Acidentes, aliás,não faltaram na sua vida: um o deixou manco, noutro, morreu o filho adolescente. O ocorrido com o funcionário da tecelagem e os trâmites do litígio levam esse homem que se enfronhou na burocracia a “pirar”,  incendiando o veículo da firma que dirigia a caminho da capital.

Mas o dicionário não apenas define o sonâmbulo como aquele que se encontra num limbo entre o sono e a vigília (no caso de Jurandir, essa permeação entre várias esferas faz com que não possamos confiar de todo no seu relato, pois ele desfaz e refaz a costura dos fatos incessantemente).  Também lemos (no Aurélio)  “diz-se de pessoa que age automaticamente”. Como ser atrelado a uma rotina de papelada e pastas, com tentativas cada vez mais truncadas de proximidade com relação aos outros (a esposa, a amante), abafando seus impulsos mais autênticos (como a nostalgia de um tempo em que cultivou a ambígua amizade do herdeiro da tecelagem, Marco Moreno—responsável pelo acidente que lhe deixou um joelho arruinado—posteriormente   vendida a um grupo anônimo[1]),, utilizando elementos de coesão no seu discurso como é “a verdade que”, “o fato é que”, não é antes essa a parte “sonâmbula” da existência de Jurandir?

Ele mesmo, quando se refere ao tratamento psiquiátrico, nos dá essa pista: “…dessa cura que custava a vir e que, , quando viesse me livraria de quê?…”  E que, ao conseguir se livrar da medicação pesada, com o conluio do enfermeiro, se vê “querendo o sal e o humor das coisas”[2].

A verdade é que (para usar um recurso verbal caro ao Jurandir que não se livra, mesmo na clínica, de relatórios e balanços[3]) O Sonâmbulo Amador  é um dos romances mais bem urdidos dos últimos anos, porque José Luiz Passos (na sua segunda experiência no gênero apenas) realiza o feito narrativo-estilístico de nos apresentar tudo junto, ou seja, as duas existências “sonâmbulas” do seu protagonista, de  modo que cada uma delas coloca a outra em xeque (e consegue ser convincente no constante relato  de sonhos, coisa dificílima)

Mesmo o início do romance, o primeiro “caderno” (dos quatro que o compõem, mais um apêndice), mais aparentemente linear, com sua atmosfera interiorana e sufocante, é colocado sob suspeita, dentro do conjunto. Pois esse personagem que se apresenta para nós como um representante de um certa linha literária muito presente na nossa tradição literária (o homem de imaginação tolhido pela insignificância da posição social e pela impotência), acaba se revelando matreiro, esquivo à definição (ou mesmo à autodefinição). Nem sei se o talentoso autor pernambucano os leu ou gosta de sua obra, mas eu sentia durante a leitura algo como se o narrador de A Trégua, de Mario Benedetti, de repente fosse encampado pelo universo do Onetti de A Vida Breve.

A única certeza é que Jurandir é uma “voz” narrativa de dicção inconfundível, e como todo personagem que se impõe pelo seu discurso,  peculiar em seus traquejos (até quando ele é exasperante, “sistemático”[4]), muito real para nós, leitores,   compelindo-nos a seguir os percursos em espiral dos seus sonambulismos. Eu até arriscaria a dizer O Sonâmbulo Amador uma obra-prima. Ainda é prematuro, reconheço, contudo fica a sugestão pairando no ar.

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TRECHOS ESCOLHIDOS

“Puto. Chupão. Cala a boca, Marco. Vai dormir, eu grito com ele, e salto do parapeito, dou marcha a ré até me acocorar entre o guarda-roupa e a cama, no ponto escuro do quarto, de onde vejo meu amigo coberto, mexendo as pernas, estirando um pé delas, desenrugando o lavor da colcha que Fátima forrou  mais cedo, na de visitas, sabendo que essa era a minha. Forrou para mim, mas bem ali foi parar o meu manhoso amigo.

   Naquele meu mês com ele, após o estouro de seu pai, ouvindo o trilado do vigia do quarteirão (…)

   Meu amigo se virou para mim. Jura, você acha que sou brito com quem gosto?

   Não respondi.

   Vem. Vamos dormir, ele disse.

   Então me levantei e fui para a cama.

  Senti o cheiro de goma nos panos, o lençol alvejado no varal e passado por Fátima na prancha de pau-de-ferro. Debaixo da colcha, rocei sem querer as talas da perna rija no  lastro de madeira. O barulho rascante me deu um arrepio.

   Marco continuava  calado. Depois, voltou à discussão de antes. O sangue, sim, é que é um suco bem especial, hem, Jura?

   Meu amigo comentava de novo o fato de eu nunca ter conhecido meu pai…”

****

“ Quem quiser, faça uma coisa. Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, isto no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra vão voltar, tenho certeza, de bem longe as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram sem se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. E não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas meras cinzas de um mero apelido defasado…”

****

“Era preciso muita resolução para deixar o povo, a cidade e tudo quanto agora me interessava, meus novos amigos e os tais kardecistas, meus relatórios, os gatos de Belavista e também os bichos dos outros (…) Tudo isso, confesso, me custava sofrimento deixar. Não tenho dúvida de que me tornaria bem depressa um bom cuidador em Belavista (…) Possivelmente eu, logo, logo, não poderia ser membro de nenhum outro grupo, senão daquele em que só convinha falar de delírios e associação de ideias, de entrevistas sobre tudo isso e de pedaços do passado. Já me sentia inclinado para a vida que levava, me sentia livre e mais perto da capital. Embora estivesse convicto dos males de uma agremiação reclusa, adorava ter sempre companhia a me ouvir contar o que quisesse contar. Poderia nisto me tornar tão arbitrário quanto qualquer apaixonado por essa existência sonâmbula…” 

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[1] “A amizade e a competição são laços fortes. Da mistura entre as duas berrantes da dedicação fazendo mais sentido que o resto. Fico vem um quê de feitiço que deixa a vida mais intensa e original, as cores imaginando se algum amigo do rapaz que queimou o rosto no vapor não esteve envolvido nisso. Se por acaso, por bem ou por mal, um colega não deixou ele cometer o erro de abrir o disjuntor de pressão antes de fechar as válvulas do compressor. Poderiam ter dito ou lembrado a ele que tomasse essa precaução. O rapaz quase perdeu um olho.

   Assim também Kid Couto, o garoto estroina e amigo de meu filho, poderia ter acedido à sugestão daqueles com mais juízo, para que ambos usassem capacete ou que ele pilotasse com meu menino numa velocidade mais baixa. De tanto que já lhes tinha contado a desgraça de um acidente de corrida, imagino que meu próprio filho deva ter aventado essa possibilidade. Mas em grupo tudo fica pior….”

[2]“Nas últimas semanas, quando o Ramires finalmente reconheceu meu pedido, mesmo sem que eu lhe pedisse de minha própria boca, fui aos poucos resgatando a clareza das coisas, revendo aqui e ali pedaços recentes de meu tempo na clínica e, mais ainda, a relação disto com eventos de bem antes. Meu amigos Ramires, sem o aval de doutor Ênio, diminuiu e parou com a medicação. Reagi daquela forma, enjoos fortes e uma tontura com pancadas de suor (…) Mas o efeito foi o pretendido. A névoa da indiferença me deixou a cabeça. Tive a impressão de que finalmente meus olhos voltavam a se abrir de todo, querendo o sal e o humor das coisas. Querendo também tragar novamente a tristeza que vai comigo. Pois pode haver riso, de verdade, mesmo no estado mais supremo de uma absoluta má sorte. E é isto que espero provar a todos vocês…”

[3] “A grande surpresa dos recém-chegados era eu, isso ela própria me disse. E que, dado meu sofrimento, eu tinha o que vir fazer em Belavista. Estava longe de ser uma alma-grátis comum. Mas Madame Góes insiste em que tenho um segredo esperando para se fazer notar numa conversa de botequim ou durante a ceia, com gente que é também do mesmo jeito. Daí minha ladainha ia sair de vez, num jorro monótono diante do doutor Ênio, na entrevista em que ele me aperte no ponto certo, dizendo vá, venha, diga, pode falar que estou ouvindo, Jurandir. Isso Madame Góes me garantiu, que eu ia me desculpar alegando que não tinha o que fazer ali, e não tinha. Ela é que pensa que sim. Diz que eu, negando com a cabeça e com as mãos, negando com tudo, depois de um silêncio vou começar. Aí daria início a minha cura, a parte efetiva dela. E mesmo assim, ela insiste, eu ainda resisto a isso…”

Ou ainda:

“Sempre que posso escrevo na banqueta que pus na frente da janelinha do quarto, aqui nesta masmorra que todos chamam carinhosamente de Belavista. Poder dispor de uma máquina de escrever é um verdadeiro acontecimento, ainda não cheguei lá. Ando tão demente, tão destruído pela produção de relatórios sobre meus sonhos, sobre as leituras e os balanços do dia a dia, que só enxergo compromissos e pretextos médicos, motivos que em tudo me parecem burocráticos, cheios de prognósticos e efeitos colaterais. Não me refiro, faz tempo, nem de longe, à minha cidade. Nem ao verdão. Neste ponto, de todas as pessoas, Minie é quem estava certa.

   Tenho medo de que você despreze o melhor de si mesmo. Essa cabecinha extraordinária, Jurandir, em favor da rotina. Aí, por mais que você ostente seu brilho, por mais que irradie organização, no saldo final, ela disse, isso tudo não vai valer nem uma centelha da história que só você pode contar.

     Quando Minie me falou isso, ainda estávamos no melhor da amizade…”

 [4] “Será que esse rio é fundo, Ramires?

Sei não. Uns vinte metros, talvez.

Vinte metros.                                             

Sei lá, Jurandir. Vinte. Ou cinco. Ou dois. Que diferença faz?

Faz muita. Vinte metros é muito fundo para um rio.

  O enfermeiro não rebateu. Talvez pensasse, como eu pensava, no quanto custaria abrir a boca para falar do que nos incomoda e dar , daí, um retrato do que acreditamos ser mais justos. Nestas circunstâncias, quem não tinha medo de virar a mesa? Ou cair, ficar na segunda linha, ver o pó. Sei como é isto. Por acaso vocês sabem? O Ramires sabia?

   Como me disse uma vez um borracheiro, acidente sem culpados é mais fácil de se aceitar. Pensava nisso, enquanto meu amigo comia com cuidado, para não estragar sua fantasia emprestada. De vez em quando ele parava para fazer um comentário sobre os militares ou me perguntava o que era mais que eu tinha para lhe contar…”

LEIA AQUI NO BLOG TAMBÉM:
https://armonte.wordpress.com/2013/01/22/os-muitos-materiais-misturados-com-precisao-em-nosso-grao-mais-fino/

JosŽ Luiz Passos, professor de literatura brasileira da Universidade da Calif—rnia - Los Angeles.

03/07/2013

Palmyra, a melhor paisagem do romance policial brasileiro atual

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“O delegado não se convenceu de que o nome do rapaz fosse mesmo esse. Não havia outro meio de  tirar dele a verdade senão com um bom papo. Se a conversa se passasse num seriado de TV americano, bastava segurar o sujeito por alguns minutos na linha para que a polícia rastreasse, através de um equipamento moderníssimo e um cruzamento insano de dados via satélite, de onde vinha a ligação. Bastava apertar um botão. Uma vez que Palmyra estava nitidamente atrasada em termos de tecnologia policial, o jeito era fisgar o homem usando uma boa lábia e, quem sabe, trazê-lo aos poucos para um papo cara a cara na delegacia.”

(resenha publicada originalmente, sem nota de rodapé, em A TRIBUNA de Santos, em 03 de julho de 2013)

Para quem não desdenha a leitura de entretenimento e o vezo de se envolver com um enredo, Morte na FLIP é uma boa pedida. Paulo Levy equilibra habilmente as peculiaridades que tornam tão atraente o romance policial  com um sobriedade realista nos detalhes, de forma que nem temos aquele habitual festival de autorreferencialidade (como se houvesse uma obrigatoriedade de homenagear obras anteriores do gênero ou mesmo de legitimá-lo, o que torna cansativa boa parte da produção atual), séria ou paródica, e nem uma ação mirabolante em vã tentativa de imitar o ritmo cinematográfico.

O protagonista é o mesmo da estreia de Levy (Réquiem para um assassino), Joaquim Dornelas, delegado em um balneário turístico, com fortes resquícios coloniais, Palmyra. Abandonado pela mulher (que no entanto tentará reatar o casamento), envolvendo-se fortemente com uma colega legista,  viciado em chocolate e goró (deixo ao leitor de Morte na FLIP  descobrir o que é), Dornelas se vê à testa de uma investigação momentosa:  Georgia Summers (na realidade, Gytha Svensson), escritora estrangeira  best seller, uma das atrações da Festa Literária Internacional, em sua 10ª. edição (o que remete Palmyra, não bastasse suas outras características, a Paraty), é assassinada numa das praias locais (há outra vítima: o marinheiro de uma pequena embarcação que ela, misteriosamente, tomara já noite fechada).

Casada com uma agente literária brasileira, Gytha/Georgia havia sido vista embriagada às pampas, sambando em rodas de nativos, à procura de cocaína, perambulando por vários lugares, com seus movimentos vigiados por um desconhecido que parecia estar se reportando a alguém através de celular…

Paulo Levy adota uma estratégia que garante o sucesso geral da sua narrativa, mas ao mesmo tempo a enfraquece em outros aspectos consideráveis: todo o foco narrativo é centrado em Dornelas, acompanhando sua rotina (que, a partir do crime, é dominada pela investigação, inclusive em seus trâmites burocráticos). Se há alguns ingredientes extravagantes (cismado com a arma do crime e a âncora do barco utilizado pelas vítimas, ele se arrisca a mergulhar sozinho nas águas traiçoeiras da praia onde elas foram mortas), isso permite que o romance mantenha uma sensata linha de verossimilhança e convencimento do leitor: eis um mundo ficcional em que eu posso acreditar,  sólido e bem-construído. Nada de delegados saturados de filosofia e erudição ou conhecedores das minúcias das safras de vinho, entre outros supostos refinamentos, que parecem infestar a ficção policial brasileira. Também nada dos estereótipos da violência urbana, tão repisados por aqui (aliás, até com relação aos praticantes lá de fora ele se mostra acima da média—Morte na FLIP é melhor do que tudo que li de Patricia Cornwell, por exemplo[1]).

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O que faz falta no livro é a FLIP. Desperdiça-se a oportunidade de fazer com que o evento (e seus possíveis personagens) seja de fato o pano de fundo da trama, e acho que esse é o seu calcanhar-de-aquiles.

O contraponto natural da investigação de um crime (a cobertura da imprensa) é explorado de forma tênue e inconvincente (a companheira da vítima, por exemplo, nunca assediado por jornalistas, dá para acreditar?). Outros deslizes:  excesso de comparações “enfeitadas” e pueris (“A água acentuava as cores e o brilho da Mata Atlântica, que vibrava com as nuances de uma pintura de Monet), totalmente desnecessárias; um trecho imperdoavelmente racista para os dias de hoje (podemos perdoar o avoengo Monteiro Lobato, não um autor do século XXI), “O problema era o marido, um crioulo forte como um touro…”; a mania inconveniente e absurda do autor de elogiar seu herói (“Corajosamente mergulhou na água fria…”; “um homem de coração terno e justo; “Flávia apenas sorriu, pois conhecia bem o homem diante de si: objetivo, sagaz, impetuoso, bruto até, porém de coração terno e justo”)[2].

Em compensação,  há uma passagem perfeitamente adequada ao clima destes nossos últimos e agitados dias: enquanto a charmosa festa internacional (tão distante da lida diária do nosso povo, como uma Copa das Confederações) transcorre, um dos suspeitos “nativos”  desabafa para o delegado: “Estou desesperado, doutor. Tá difícil  conseguir trabalho. Não dá pra acreditar na presidente quando diz  na TV que o Brasil está em situação de pleno emprego. Mentira da boa. A gente que rala, sabe.”


[1] Na verdade, foram dois livros bem fracos: Causa Mortis e Restos Mortais.

[2] Um detalhe que pode ser uma idiossincrasia estilística do autor (no que ele está em seu pleno direito, claro), mas soa estranho, é o uso reiterado do verbo “estancar” para movimento dos personagens. Sei que um dos sentidos do verbo é “paralisar, cessar o movimento”, mas na primeira vez em que ocorre no texto (na pág.91) achei até que era erro de revisão: “…o delegado abriu a porta da sala e estancou…”; outro exemplo, na pág. 124: “Ao emergir da trilha de ligação entre as praias Mansa e Brava, Solano estancou”.

 Não seria melhor (ou pelo menos mais usual) “estacou”?

O LiberalLEVY

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