MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/07/2013

UM DOS ROMANCES DA DÉCADA: “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, de Junot Díaz


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Junot Díaz escreveu The brief wondrous life of Oscar Wao (2007)  utilizando o espanglês, numa mistura nunca vista numa obra desse nível do inglês com o espanhol. A princípio, parecia que se perderia esse impacto lingüístico numa tradução, mas como temos observado por aqui o fenômeno do portunhol, a versão brasileira de Flávia Anderson, A fantástica vida breve de Oscar Wao funciona muito bem e assim o nosso leitor tem acesso a um dos melhores e mais irresistíveis romances desta década, merecidamente vencedor do Pulitzer.

A família de Oscar, que protagoniza o romance, assim como o próprio Díaz, é oriunda da República Dominicana. A narrativa se inicia nos EUA, em Nueba  Yol, onde Oscar é aquela mistura incômoda de looser, nerd e freak: muito obeso, muito escuro, eternamente virgem, repudiado pelas mulheres, esquisito, pobre, aficionado pela fantasia, quer se manifeste nos livros de Tolkien, nas graphic novels, nos mangás, animes ou RPGs. Escreve compulsivamente nessa linha fantasista, quando não é acometido por crises de depressão, quando tenta o suicídio. Wao é um sobrenome-apelido que lhe pespegam, corruptela de Wilde, como outro Oscar gordo e fora de esquadro pelos padrões da normalidade:

“Gosto de pensar que não foi tão ruim assim. Eles não batiam no Oscar, nem roubavam as coisas dele. Mas, de uma forma ou de outra, eram bastante maldosos. Você já comeu um toto?, perguntava Melvin e Oscar meneava a cabeça e respondia numa boa, sempre que a pergunta era feita. Aí, é a única coisa que você ainda não comeu, né?, Harold dizia. Tú no tienes nada de dominicano, e o cara insistia, com tristeza, Sou dominicano, sim. O que o mano dizia não fazia diferença. Quem neste mundo conhecia um domo como ele? No Halloween, Oscar cometeu o erro de se vestir de Doctor Who, fantasia pela qual, aliás, ele morreu de amores. Quando o vi passando em Easton, com dois outros babacas do departamento de Letras, fiquei pasmo ao constatar o quanto ele parecia com aquele gordo gay, Oscar Wilde e comentei isso com o Mané. Você está igualzinho a ele, o que, na verdade, não foi uma boa para O, porque o Melvin foi logo perguntando, Oscar Wao, quién es Oscar Wao, daí, a gente passou a chamar meu colega de quarto dessa forma…”

Seria Oscar vítima do fukú, espécie de maldição caribenha que se apoderou da sua família (“Chame de grande maré de azar, de uma enorme dívida cármica ou de outra coisa –fukú ?–.Seja lá o que fosse, a parada começou a exercer um poder terrível naquela linhagem…” [1])? Afinal, seu avô foi preso e barbaramente torturado durante a ditadura de Trujillo, por tentar esconder a filha adolescente da fúria priápica e estupradora do famigerado ditador (ou por ter escrito um livro em que revelava os poderes sobrenaturais do tirano e sua origem extraterrestre? no imaginário de Oscar Wao isso seria bem possível [2]); sua mãe, abandonada pelo clã familiar por ter nascido negra retinta, é maltratada pelos pais adotivos (chegam a jogar óleo fervente nas suas costas), e antes de escapar para os EUA, é resgatada por uma prima do malfadado pai, torna-se uma beldade estonteante e teúda e manteúda de um dos maiores gângsteres do regime trujillano, despertando a fúria da esposa dele, que manda asseclas espancá-la barbaramente num canavial (quando ela divulga estar grávida)… Décadas depois, seu filho terá o mesmo destino, ao pôr os pés na República Dominicana e se apaixonar pela amante de um policial…

Quem narra a maior parte da história é Yunior, o qual, apaixonado por Lola, irmã de Oscar, resigna-se a dividir o quarto na faculdade com o trambolho e acaba mergulhando no fukú da família Cabral de Léon, tentando torná-lo inteligível no universo da cultura pop.

A fantástica vida breve de Oscar Wao é um triunfo narrativo e estilístico. Junot Díaz conseguiu encontrar a fórmula perfeita para contar essas vidas que vão sendo construídas na racista, discriminatória (e o único horizonte libertário possível) América do Norte, porém firmemente ancoradas nos costumes, na língua e nas tradições caribenhas. Vidas que oscilam entre um folclore muito forte e as opções culturais da pós-modernidade. É aquele caso raríssimo em que, afora sua excelência, uma obra consegue ser o ponto de convergência, a cristalização feliz, de muitas tendências, um jardim de veredas que se bifurcam. Não sei se isso fará do primeiro romance de Junot Díaz um livro-fundador, abrindo altas linhagens, ou se ele é uma síntese absolutamente magistral, algo irrepetível, na sua percepção do imaginário nerd, da linguagem pós-moderna e das possibilidades abertas pelo boom da ficção hispano-americana das últimas décadas (García Márquez, Vargas Llosa, Cabrera Infante, Manuel Puig, Reinaldo Arenas, entre outros [3]), com seu resgate da tradição épica, da picaresca e da polifonia narrativa. Sem ter uma vocação clarividente, eu aposto na primeira possibilidade: creio que A fantástica vida breve de Oscar Wao, nos próximos anos, será um livro-referência, uma obra seminal quanto à possibilidade de fusão de línguas e à incorporação das  formas de expressão de gerações mais recentes (não é à toa que a epígrafe é uma citação de uma aventura do Quarteto Fantástico). Trata-se realmente de uma voz nova na ficção norte-americana.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 05 de outubro de 2010)

 

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[1] Parece até aquele azar que persegue os heróis de Salman Rushdie, o escritor, aliás, com o qual mais encontro afinidades eletivas com Junot Día, tanto na vitalidade e exuberância da narrativa quanto na concepção lingüística de trazer o país de origem colado ao universo discursivo, além da falta de preconceito com o universo pop recente.

[2] A narrativa brinca várias vezes com o realismo fantástico que caracterizou de forma tão estereotipada parte da ficção hispano-americana, ao fazer com que ele tangencie o universo nerd da fantasia do seu protagonista e do seu narrador: “E agora chegamos à parte mais estranha de nossa história. Se o que ocorreu a seguir foi fruto da imaginação de Beli ou algo mais, não sei dizer. Até mesmo seu Vigia tem seus momentos de silêncio, suas páginas en blanco.  Mas, seja lá  qual for a verdade, lembre-se: dominicanos são caribenhos e, portanto, têm uma extraordinária tolerância para fenômenos fora do comum. De que outra forma poderíamos ter sobrevivido ao que sobrevivemos?”

[3] Há duas referências à cultura brasileira: uma, à novela Xica da Silva, que está sendo transmitida na República Dominicana num determinado passo da narrativa: “…a novela Xica da Silva, em que a colega ficava pelada a cada cinco segundos, muito curtida por Lola e as primas…”; a outra, a Paulo Coelho, leitura de cabeceira de Ybón, a amante de policial e puta que causará a desgraça, a confirmação do fukú, na fantástica vida breve de Oscar Wao: “Ao dar uma espiada embaixo do móvel, Oscar entreviu uns livros de astrologia e uma coleção de romances de Paulo Coelho. Ela acompanhou seu olhar e comentou, risonha, Esse escritor salvou minha vida…”

3 Comentários »

  1. olá, alfredo, realmente adoro seu blog e sempre fico impressionada com sua fina qualidade de leitor. suas resenhas são aulas de sensibilidade. lê-las é um gosto só!

    Comentário por denise bottmann — 05/10/2010 @ 0:14 | Responder

    • Caríssima Denise, a recíproca também é verdadeira, porque adoro o seu blog e acho que é imprescindível pelo trabalho que realiza, bem-humorada, divertida e sempre interessante… Um forte abraço.

      Comentário por alfredomonte — 05/10/2010 @ 12:41 | Responder

  2. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

    Comentário por anisioluiz2008 — 20/07/2013 @ 14:20 | Responder


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