MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/07/2013

Um artesão genial das palavras e a respeitabilidade mental: Saul Bellow (1915-2005)


(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de abril de 2005)

“Eu tive consciência da influência de Ravelstein quando imaginei este perfil. É preciso admitir também que ele normalmente estava presente em acontecimentos diários. Isso se devia ao poder da sua personalidade. E também porque sua vida tinha mais estrutura interna do que a minha, e eu tinha me tornado dependente do seu poder de ordenar experiências… Muitas pessoas querem livrar-se dos seus mortos. Eu, pelo contrário, tenho uma tendência para me agarrar a eles. Minha persistente intuição, já deve estar claro nesta altura, é que eles não partiram para sempre… Eu sei que se perde a respeitabilidade mental quando se reconhece esse tipo de fantasia. Até eu, perceba, rendo-me às opiniões correntes. Mas pode haver explicações simples para a persistência de Ravelstein na minha vida diária. Quando ele morreu, eu comecei a ver que tinha se tornado meu hábito contar-lhe o que havia acontecido desde que nos víramos pela última vez…”

Saul Bellow, um dos grandes escritores contemporâneos, sério candidato a maior escritor dos EUA pós-Segunda Guerra,e outra perda (após Susan Sontag), se foi no dia 5 deste mês. Todavia—pelo menos no Brasil—os editores já anteciparam sua morte, uma vez que livros maravilhosos como Herzog (1964), O planeta do Sr. Sammler (1969) e O legado de Humboldt (1975)—difícil escolher o melhor dos três—,para não falar dos menos conhecidos Agarre a vida (1956), Henderson-O rei da chuva (1959) e Dezembro fatal(1985), entre outros, sumiram há muitos anos das livrarias e nunca foram relançados.

Felizmente, o livro que ele escreveu aos 80 e poucos anos (em 2000; Bellow nasceu em 1915), ainda demonstrando sua perícia como artesão das palavras, Ravelstein (em tradução de Léa Viveiros de Castro), o qual gira em torno de uma de suas obsessões (a discussão da natureza da amizade), permite que não haja um vazio em torno do comentário à sua morte. É o tributo de Chick, o narrador, a um amigo, que lhe pedira que escrevesse sua biografia.

Abe Ravelstein era um pensador carismático com uma polêmica carreira acadêmica (“as preocupações sérias de Ravelstein coexistiam, para tomar emprestada uma palavra da política do século XX, com sua bufonaria”) e que escrevera (por sugestão de Chick) um best-seller filosófico (foi o que aconteceu com o inspirador do personagem, Allan Bloom, amigo de Bellow e autor de O declínio da cultura ocidental).

Como acontece nesse tipo de romance, a pretexto de falar sobre o amigo, Chick acaba mesmo é revelando-se para o leitor (ele é o típico herói bellowniano, conforme já se mostrou aqui em outros artigos desta coluna, o introvertido junguiano: “Ele achava que eu estava preso na privacidade e que devia ser devolvido à comunidade—Muitos anos de introspecção—costumava dizer…”) e confrontando-se com sua própria mortalidade (Ravelstein já morrera devido a complicações trazidas pela AIDS): numa viagem consome peixe contaminado e, numa idade bem avançada, passa semanas na UTI entre a vida e a morte (fato que realmente aconteceu com Saul Bellow).

Embora seja um livro digno de seu autor, Ravelstein sofre certo esgotamento porque se imprime grande vitalidade à figura do amigo morto nas primeiras cem páginas (o livro tem duzentas e poucas) e depois não há personagens e situações (mesmo a aterradora experiência de Chick) que sustentem com a mesma intensidade a narrativa.

Por outro lado, é imperdoável que um escritor da categoria dele caia, mesmo numa formulação elegante, naquele velho clichê que envolve o transplante de coração: “Os órgãos são também repositórios das sombras ou dos impulsos assertivos, ansiosos ou alegres,conforme o caso, e estes tinham entrado no corpo de Herbst junto com o coração novo… Se fosse um transplante de rim ou de pâncreas, seria diferente. Mas o coração traz tantas conotações, ele é o centro das emoções do homem—sua vida mais elevada…”!!!??

Numa narrativa dominada por acontecimentos médicos (uma praga do nosso tempo), é preferível a visão do insubmisso Ravelstein: “…ele não gostava muito de médicos, eram os aliados da burguesia que tinha pavor da morte”.

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: